Manhunters
47 Eles são parceiros, afinal
Notas iniciais
Dia seguinte, dois de novembro. Faltavam apenas nove dias até Zodíaco matar mais um. Talvez ele já estivesse com o plano montado e pronto para ser executado; sem erros, sem exceções, sem imprevistos. Enquanto os policiais corriam contra o tempo para alcançar o assassino, Zodíaco tinha o tempo como seu maior aliado.
Sara acordou motivada. Teve uma boa noite de sono e sentiu o corpo descansado. Levantou, tomou um café da manhã reforçado e depois foi ao banheiro. Banho tomado, ela vestiu uma camisa social de meia manga azul bebê, calça preta e sapato social da mesma cor. Seguiu para a delegacia ao pegar o famigerado táxi e chegou lá com três minutos de antecedência. Já dentro da sala do sargento, Sara preferiu não seguir diretamente para a área de análise de multimídia, pois queria entrar em contato com amiga da vítima. Torceu muito para que o número de contato continuasse o mesmo e que não tivesse maiores problemas. O problema maior seria receber um "não".
Usando o telefone da sala de Grissom, Sara discou o número e esperou por quatro toques. Quem atendeu foi uma mulher de voz um pouco fina, aparentando ter vinte e cinco anos. Sara se identificou e pediu para falar com Amanda. Ela enfrentou certa resistência logo quando disse que era da polícia. Depois de uma troca difícil de palavras, a detetive conseguiu finalmente obter o que pediu. A mulher aceitou chamar por Amanda e pediu que Sara esperasse. Uns três minutos depois outra mulher pegou o telefone e se identificou como Amanda.
— Amanda, oi, sou eu, Sara Sidle.
— Da polícia, sei. — Só de ouvir a voz, já dava para perceber que ela não estava se sentindo confortável.
— Olha só, obrigada por me ouvir.
— É sobre alguma acusação que eu tô respondendo e não sei?
— Não! Não... eu queria falar com você acerca do homicídio da sua amiga. Cassidy Young.
Houve um silêncio na linha. Na mesma hora a detetive percebeu que tocou em uma ferida.
— Eu tô te ligando porque eu preciso da sua ajuda.
— Quando a gente precisou da ajuda da polícia ninguém levantou um dedo pra nos ajudar. Agora vocês vêm com essa de querer a minha ajuda? — Aquele tom só evidenciou óbvio. Rancor pela polícia. Se o contexto for colocado em evidência, não era difícil compreender o porquê.
— Eu peguei esse caso recentemente e quero muito fechá-lo de uma vez por todas. Sua amiga merece justiça, Amanda. — Ela tentou persuadi-la.
— Oito meses se passaram e agora que vocês tentam fazer alguma coisa?
Sara fechou os olhos rapidamente. Já lidou com diversas figuras resistentes e essa era mais uma. Precisava ter paciência e solidariedade.
— Isso mesmo que você disse. Nós estamos tentando. Infelizmente o caso foi negligenciado por outros e sua amiga foi deixada de lado assim como muitas outras. Mas é isso, nós estamos tentando. Eu particularmente estou a horas na busca pela identidade e paradeiro do assassino e não vou descansar até conseguir.
Amanda não respondeu de cara. Sara imaginou que suas palavras fizeram efeito e esperava ansiosamente que sim.
— O que você quer de mim? — perguntou um pouco receosa.
— Só isso. Conversar sobre o que houve e o que viu naquela noite.
— Não sei... depois que ela morreu eu tratei de deixar essa cidade assim que possível...
— Olha, você não precisa vir aqui em Vegas, eu mesma posso ir aí e nós conversamos. Assim como você eu quero que o desgraçado pague por ter feito isso.
Houve alguns segundos de espera. Sara tomou logo a iniciativa. Sentia que teria uma resposta favorável, porém não podia pressioná-la.
— Eu vou te passar o meu número e até o final do dia você me pode me responder, tá bom? É um tempo curto, sim, mas é porque eu tenho urgência.
— Tá bem.
Sara falou o número do celular e depois repetiu para que Amanda confirmasse.
— Se pudesse queria falar com você amanhã ou depois de amanhã.
— Eu... vou ver, mas não te garanto nada.
— Certo. Estou no aguardo. E muito obrigada por me ouvir. — falou satisfeita.
A mulher respondeu com poucas palavras e depois encerrou a ligação. Sara devolveu o telefone ao gancho e depois ficou a observar o aparelho. Sorriu ao obter um resultado favorável; o pior seria se recebesse um "não". Melhor um "talvez" que um "não".
Terminada uma parte, ela tratou de seguir até à sala de multimídia e analisar aqueles vídeos.
Se tinha algo inegável era que Zodíaco era esperto, muito esperto. O local escolhido para matar Amanda era quase imperceptível, quase. Se não fosse a proximidade com o Gold Coast, a possibilidade de encontrarem-na a mais tempo depois de sua morte seria grande. E essa foi a dúvida que a marcou no momento. Por que matá-la e por que matá-la naquele local? Será que se hospedara no hotel e considerou aquilo uma "oportunidade" de cumprir com sua agenda macabra? Era uma boa teoria, até. O problema seria arranjar os meios de comprová-la ou refutá-la, mas isso não queria dizer que a ideia deveria ser abandonada.
Outra ideia era que Zodíaco poderia não estar hospedado no Gold Coast porque seria óbvio e suspeito demais. Bem, ele era uma pessoa teoricamente rica; dificilmente um homem como aquele ficaria em lugares baratos. Outro fato é que pessoas ricas tendem a ser famosas. Se isso for realmente confirmado e a identidade dele vier à tona um grande escândalo surgiria na mídia. Já seria um peso anunciar que o serial killer que fez grande número de vítimas (finalmente) foi contido; um serial killer seria um horror total. Eram muitas teorias e poucas provas.
Enfim, de volta aos vídeos. O local do crime ocorreu na parte sul do Gold Coast, não necessariamente atrás do cassino/hotel, já que foi usado apenas como um ponto de referência. Zodíaco devia ter passado a noite em algum dos hotéis por perto; seria difícil vir de longe para fazer aquele trabalho. Dadas as circunstâncias e a periculosidade em andar por aí com um punhal ensanguentado e, provavelmente com as roupas, a ideia mais provável é que ele não tenha ido longe. Esse era o momento crucial: descobrir sua localização o mais rápido possível assim que ele matasse a próxima vítima. Porém, entrava outro problema: saber qual o próximo local de seu ataque. Este último seria melhor ainda, pois haveria uma chance alta de capturá-lo.
— Ah... — Ela suspirou em lamento. Caçar Zodíaco era como se enfurnar no labirinto do Minotauro.
Ela olhou para o relógio; já era meio-dia. Após tanto trabalho ao ficar numa sala por horas, seu corpo clamava por um descanso ao ficar por tanto tempo na mesma posição. Seus olhos doíam por conta da análise minuciosa que Sara fez em cada canto das imagens dos vídeos. Foi uma tortura.
De volta à sala do sargento, Sara já estava pronta a fazer uma pausa. Em vez de sair para almoçar desta vez trouxera um sanduíche de casa e só teria o trabalho de comprar um suco ou refrigerante na máquina da delegacia mesmo. Só que antes de comer resolveu ligar para Grissom.
— Oi, Sara, tudo bem? — A voz dele saiu cordial. Foi um bom começo.
— Oi, tudo sim.
— Como está indo aí no trabalho? — Ele não a esperou continuar e perguntou despretensioso, ainda que sua pergunta fosse.
— Te liguei pra falar disso. Eu consegui ligar pra Amanda, a amiga da vítima-
— Espera. Está na hora do almoço, não é?
— Não... — Ela respondeu um pouco confusa — Vou comer aqui mesma.
— Precisamos falar sobre o caso pessoalmente.
Sara franziu as sobrancelhas. Se não estivesse tão focada no caso poderia rir com a sugestão ouvida.
— Você sabe que não pode vir aqui, Grissom. — Ela se referiu à suspensão. O sargento corria um grande risco em sofrer punições piores, como ser afastado definitivamente do caso.
— Eu sei. Podemos nos encontrar no restaurante da Rose, então.
A mulher fez uma careta.
— Sinto te decepcionar, mas isso não seria uma boa. Se alguém daqui nos ver conversando com certeza vão desconfiar. E pelo que percebi as notícias se espalham rápido por aqui. — Sara revirou os olhos — Se bem que eles já devem desconfiar do óbvio.
Houve um breve silêncio na ligação. Sara imaginava que ele estava prestes a desistir da ideia.
— Então venha até minha casa.
— Quê?!
Tá. Acho que agora você está exagerando...
— Olha, eu sei que você deve estar ansioso pra saber das novidades, mas não acha que seria melhor a gente se ver...
De repente Sara parou de falar. Pensou no que estava dizendo e não demorou muito para que continuasse, mas não de onde parou. Ela franziu as sobrancelhas:
— Quer saber? Estou indo aí.
— Ótimo. Eu pago seu táxi depois.
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Mudança de planos. Para quem ficaria na delegacia no intuito de comer e voltar a trabalhar logo, Sara mudou radicalmente de decisão. Da delegacia para o restaurante, pedido que não foi aceito, para a casa de Grissom. Em outros tempos, ou seja, dias atrás, ficaria nervosa ao saber que estava indo direto para a casa dele. Ela ainda estava, só que o foco maior era o trabalho, nada mais.
Em menos de oito minutos ela chegou de táxi ao conjunto de apartamentos. Falou com o porteiro que falou com Grissom que permitiu na mesma hora a sua entrada. Pegou o elevador para o terceiro andar e seguiu para a porta 315. Antes de bater olhou para baixo e respirou fundo. Então bateu três vezes. Após dez segundos foi recebida.
— Oi, Sara. Estou contente que tenha vindo. — Ele sorriu meio de lado. Se deslocou para trás demonstrando a ela que podia entrar.
A mulher ergueu as sobrancelhas. Ficou surpresa com tanta simpatia vinda dele. Ela rapidamente olhou para o sargento: vestia uma camisa branca, uma jaqueta de algodão com zíper marrom, calça jeans; calçava chinelos pretos.
Ela entrou na casa e logo seu olhar a fez "passear" por cada canto que podia enxergar; não todos os cantos, para não dar à vista que estava fazendo aquilo. Mesmo que morasse sozinho, seu lar estava notavelmente organizado. Não havia muita variedade em cores, pairando no cinza e marrom, com um leve toque de bege em alguns detalhes. Logo pôde notar Hank, que se encontrava deitado em seu canto "favorito", o sofá.
— Sei que você não tem muito tempo, então vamos começar. — Ele disse, interrompendo a breve análise de Sara.
— Está bem. — Assentiu.
O homem fechou a porta e se encaminhou para a cozinha.
— Pode vir. — Grissom fez um gesto com a mão.
A morena apertou a alça apoiada em seu ombro esquerdo e lentamente caminhou até lá. Era a primeira vez dela naquele espaço, e mesmo que fosse a casa dele, ainda assim não se sentia confortável.
— A propósito: bela casa. — disse um pouco envergonhada.
— Obrigado.
Ele se sentou na cadeira próxima à entrada da cozinha e ficou a esperá-la. Foi aí que ela percebeu um detalhe que mal notou: ele não usava mais as muletas ou a bengala para se apoiar na caminhada.
— Que bom que já está andando sem precisar se apoiar na bengala. — Sara apontou para ele.
— Consigo ficar assim dentro de casa. Já na rua é outra história.
— Entendi... — respondeu meio distraída.
Intrigado com a demora de Sara ao sentar-se à mesa, ele virou o corpo de lado para encará-la e perguntou:
— O que está esperando? Está tudo bem?
— Ah, sim, me desculpe. Acabei me distraindo aqui. — Sara balançou a cabeça e soltou uma breve risada nervosa. Então foi para perto dele e se sentou à sua esquerda. A mesa era redonda, então não havia a questão da longa distância entre os dois.
— O que tem a compartilhar comigo? — Grissom fez um gesto com a mão em direção a ela.
— Bem... — Ela repousou a bolsa na mesa, abriu-a e a revirou por alguns instantes. Retirou dela uma pasta de papel e afastou a bolsa para que pudesse manusear a pasta com mais espaço — Como eu disse antes, consegui entrar em contato com a amiga da vítima. — Suspirou — Foi difícil convencê-la, ela relutou um pouco e até "brigou" com a gente por causa da demora em prosseguir com o caso. Enfim, pedi para que me desse uma resposta até o final do dia já que planejava falar com ela em Pahrump.
— Pahrump? — Grissom ergueu a sobrancelha direita.
— Amanda está morando lá. Achei melhor falar com ela em sua cidade para deixá-la mais confortável.
— Eu posso ir com-
— Grissom. — Ela o reprovou.
O sargento desviou o olhar dela e fez um movimento com os lábios. Claramente não gostou de receber aquela curta, mas evidente resposta. Ele bateu levemente na mesa com a mão esquerda.
— Vá com o meu carro, então. — Grissom deu de ombros. Ao terminar de falar, tratou de encará-la.
Mas Sara ainda não se contentava com aquela atitude insistente do sargento. Se tinha algo que não mudou nesses oito anos foi essa característica dele.
— Um táxi pra lá deve ser caro e não acho que a polícia tenha um carro disponível pra você. — comentou indiferente.
Ela fez uma careta enquanto ambos se encararam.
— Tá, você venceu. Eu vou pegar o seu carro, sim. — Assentiu ao olhar para a mesa. Quando se voltou a ele acabou sorrindo.
Ao observar seus lábios, Grissom também deixou-se sorrir, mas logo voltou à seriedade. Então pigarreou.
— O seu tempo está acabando. — Apontou para a pasta — Descobriu alguma coisa nas câmeras?
— Oh, sim, eu... achei algumas imagens que podem ser do nosso homem, mas... é bem difícil ter alguma certeza que seja ele. — A detetive entregou as fotos para ele.
As fotos mostravam um homem com vestes escuras passando tranquilamente pelas extremidades da calçada. Cauteloso, era possível notar que ele andava carregando suas mãos no bolso.
— Hum... — Grissom olhou por quatro segundos cada foto em sua mão — Quais são suas alegações para achar que essa pessoa aqui seja o nosso assassino?
— Bem... um minuto após o suposto horário da morte de Cassidy, esse cara aparece nas gravações. Ele bate com as "descrições" de Amanda e...
— E?
— É isso. — Deu de ombros.
O sargento coçou a bochecha com o dedo indicador direito e encarou a detetive.
— É, eu sei que isso é muito pouco.
— O problema é que não temos uma base para confirmar ou negar isso. Oito meses se passaram e a chance das testemunhas se lembrarem exatamente o que aconteceu é baixa demais. É possível que eles interpretem suas memórias de maneira errônea e confundam as nossas investigações. — Ele revirou os olhos — A sua, no caso.
— Ah...! Eu odeio admitir, mas pode ser verdade. — Irritada, não com ele, mas consigo mesma, ela concordou.
— Está com o depoimento que o Sales pegou das testemunhas?
— Sim, mas é mais do mesmo. — Praticamente ela trouxe o caso inteiro em sua bolsa. Rapidamente ela a revirou e pegou mais arquivos e os entregou a Grissom.
— Segundo Amanda, "ele era homem um pouco alto, que vestia roupas escuras", abre parênteses (calça jeans e jaqueta preta), fecha parênteses. Hum... "ele parecia calmo e despreocupado..." — Ele pausou a si mesmo enquanto vagueava por aquelas tantas palavras — Num certo momento ela o viu "tirar do bolso algo brilhoso, reluzente". — O sargento se virou para ela, que ergueu uma sobrancelha — Viu isso?
— Sim. Acha que isso é relevante?
— Com certeza. — respondeu com ênfase, e depois se voltou para o relatório — Segundo ela não dava para identificar com clareza o que poderia ser esse objeto. Seu palpite? Um relógio.
Ela franziu o cenho e tentou observar o relatório em suas mãos.
— Relógio? — questionou-o confusa.
— O que poderia reluzir tanto ao entrar em contato com a luz? — Ele deu de ombros, sorrindo de lado — Sem contar que o nosso assassino é pontual. Não vejo outra alternativa senão um relógio de bolso.
Sara franziu as sobrancelhas. Ficou impressionada ao refletir sobre a mini teoria descoberta pelo sargento.
— Eu nem imaginei essa possibilidade. Acho que dei uma bola fora. — comentou um pouco decepcionada ao olhar para o lado.
— Não. Você já teve bastante trabalho em reavaliar esses casos. Fui eu quem deixou escapar. — Notando o semblante aborrecido da parceira, Grissom tocou rapidamente em sua mão, ainda apoiada sobre a mesa. O gesto a fez voltar sua atenção a ele.
— Então, — Ela sorriu, contente ao receber aquela "defesa" — nosso homem carrega um punhal e, supostamente, um relógio de bolso. Quanta classe... — Ironizou.
— E, alguém que... arranje um significado pessoal em seus atos e armas.
— Como?
— Imagine: porque eu, — Grissom apontou para si mesmo — um homem "rico" mataria toda essa gente num intervalo de um mês, sempre na hora e dia exatos? Algum motivo deve ter, não faz sentido matar essas pessoas "do nada".
— Bem, eu posso listar vários serial killers que fizeram isso. — Ela fez um gesto com a mão.
— Ainda assim. Por mais bizarro ou sem sentido que possa parecer, quase sempre há um significado ou uma motivação por trás dos assassinatos. Acredite. Nosso assassino não deve ser uma exceção, ele é meticuloso demais. Tudo para ele deve ter um significado. O punhal e o relógio... até mesmo a marca em sangue que ele deixa nas vítimas...
— Um colecionador, talvez? — A detetive sugeriu.
— Por que ele seria? — perguntou, ainda a olhar para a frente.
— Pessoas ricas gostam de colecionar coisas. Não é todo mundo, mas... pode ser uma possibilidade. — Sara fez um movimento com o pescoço — Nosso cara pode gostar de colecionar relógios ou punhais... quem sabe?
Grissom assentiu por algumas vezes e depois a encarou.
— Tente perguntar a Amanda sobre o que ela viu nas mãos do nosso cara. Talvez ela consiga se lembrar.
— Mas não foi você quem acabou de falar que após tanto tempo uma testemunha pode confundir seu depoimento? — Ela fez uma careta. Quase riu com a mudança repentina de pensamento.
— Sim. — respondeu fechando seus olhos por mais de um segundo — Mas se tivermos a chance de ouvir da boca dela seu palpite, pode nos ajudar em alguma coisa.
— Está bem. Então estamos procurando por um homem "rico", pontual e que gosta de colecionar objetos um pouco peculiares. Parece até que estamos à procura de um pretendente. — Sara brincou — Será que tem algum evento sobre isso aqui em Nevada? — Ela ergueu as sobrancelhas.
— Pode ser. Eu vou procurar por isso aqui.
— Então tá. — A detetive olhou para o relógio — Só mais dez minutos.
— Você já comeu? — O homem apontou para ela.
— Não. Vim pra cá assim que te liguei.
— Eu não tenho muita coisa aqui, mas... posso fazer umas panquecas pra você. — Ele disse, apoiando suas mãos na mesa, prestes a se levantar.
— Não, não precisa. — Fez um gesto com a mão direita — Eu já... trouxe um lanche. Até comprei o refrigerante lá. — concluiu ao abrir a bolsa e pegar um sanduíche caseiro e uma lata de refrigerante de cola.
— Certo. — Grissom assentiu e da mesma forma se levantou. Caminhou até a geladeira e pegou uma garrafa d'água. Depois serviu a si mesmo.
— Em, — Sara levou a mão à boca após terminar de engolir um pedaço do sanduíche — se lembra do que eu te falei naquela ligação sobre o Zodíaco?
— Sim.
— Então. Acho que a cada ataque o nosso cara ganha mais confiança. Cada vez mais ele usa do seu "poder" para se aproveitar das vítimas. — Ela suspirou — Tenho medo que ele piore...
— Está falando de abuso sexual? — perguntou ele ao deixar o copo sobre a pia.
— Exatamente. — falou com o olhar baixo.
Grissom cruzou os braços.
— Não acho que Zodíaco seja um maníaco sexual e nem que venha a ser um. Ele é um dominador, sim, mas se tivesse que manifestar algum comportamento sexual contra suas vítimas já teria feito. — Ele fez um gesto com a mão e deu de ombros — No máximo as agride fisicamente.
— Dominador? — Sara indagou e depois tomou um gole do refrigerante.
— Sim, dominador. Ele sobrepõe as vítimas a um estado de vulnerabilidade e depois as mata. — Grissom balançou o dedo indicador várias vezes — É um ponto importante se quisermos conhecer Zodíaco. Talvez ele tenha passado por situações parecida na infância ou juventude e as reflita agora.
— Sua teoria é muito boa pra falar a verdade. E de onde veio com a questão do "dominador"?
— Lady Heather.
A detetive franziu as sobrancelhas.
Quem diabos é Lady Heather?
Ela fez uma careta, mostrando ao sargento que não fazia ideia de quem ela fosse.
— Quem é ela?
O sargento piscou duas vezes, a fim de criar uma resposta simples. Neutro, falou a ela com toda a naturalidade:
— Heather é uma terapeuta sexual e uma dominatrix. E uma amiga minha. — terminou assentindo.
A morena continuou a franzir as sobrancelhas, dessa vez mais confusa ou irritada com aquela resposta.
— Ah. Tá bom. — Sua voz saiu sarcástica de propósito. Até sorriu para não parecer antipática. Em seguida olhou para seu relógio — Olha só já está na hora. — Ela arrumou as coisas rapidamente e as guardou na bolsa. Então se levantou. — Bem, é isso.
— Nos vemos depois? — O sargento apontou para a detetive.
— Onde? Aqui? — Sara ergueu as sobrancelhas.
— E onde mais seria? — Confuso, Grissom deu de ombros.
— É que... — Sara fez uma careta. Se tivesse em mente um outro lugar para se reunir com ele, falaria na hora. Não que ela não queria se encontrar novamente com ele em sua própria casa. Só queria um espaço neutro de onde pudessem falar sobre algo estritamente profissional — A gente nem devia estar conversando sobre o caso.
Ligeiramente Grissom mudou seu semblante, aparentando ficar um pouco decepcionado com aquela afirmativa. Ela estava certa, não deviam estar juntos a falar sobre esse assunto, mas mesmo assim ele preferia se arriscar, e de quebra arriscar o emprego dela.
— Pois é... — comentou em voz baixa. Depois deu um passo para a frente — Então é... nos vemos daqui a treze dias?
— Olha — Ela ergueu a mão direita — eu quis dizer que a gente não pode sair aí por aí se arriscando. Se alguém descobre que nós estamos... trabalhando juntos no caso e dedurarem pro Brass, pro Ecklie a gente vai se complicar. Você mesmo disse que o FBI tá de olho no caso. Se eu cair... — Apontou para si — já era pra gente.
— Concordo. — Grissom respondeu e depois suspirou — Acho então que você desistiu da ideia de usar o meu carro para-
— Hã? — Sara ergueu o indicador direito — Eu não disse isso! — brincou.
— Mas você não disse que-... deixa pra lá. — O sargento fechou seus olhos, sabendo que não adiantaria argumentar com ela.
— Eu vou ver o que vai acontecer. Qualquer coisa passo aqui e pego seu carro, está bem? — Sorriu brevemente — E vou tentar pensar num lugar melhor pra gente se encontrar e discutir o caso.
— Tá bom.
A morena assentiu para ele e tomou seu caminho de volta. Ele fez questão de acompanhá-la, mesmo em silêncio.
— Obrigado por vir. Não parei pra pensar que você está se arriscando pra me dar notícias sobre o caso. — Grissom olhou para baixo e depois se voltou a ela.
Sara se virou para encará-lo e lhe responder:
— Somos parceiros, lembra? — Ela deu de ombros e sorriu brevemente.
Sem querer, Sara olhou para à esquerda dele e foi aí que seus olhos se fixaram em algo particular. Em sua sala de estar, bem no fundo, havia um objeto familiar. Familiar até demais. Era um quadro repleto com borboletas azuis cuidadosamente organizadas. Mal percebeu que ficou boquiaberta.
Você não...
— Sara?
Rapidamente ela se voltou para ele.
— Hã? — Ela ergueu as sobrancelhas — Eu me distraí aqui... — Balançou a cabeça — Mas e você? Está bem? — Disfarçou.
— É um pouco estranho perguntar isso quando se está de saída. — Grissom fez uma careta confusa.
— Não, você sabe o que eu quero dizer. Sobre ontem...
— Ah... Estou... caminhando.
Ela mudou o semblante.
— É. Nem tudo muda de um dia para o outro, não é mesmo?
O sargento assentiu.
— Mas foi você quem deu o gatilho. Eu nunca faria isto sozinho.
Aquela resposta a fez abrir um largo sorriso. Saber que ela mesma fez alguma diferença em sua vida ou o modo de enxergá-la foi gratificante. Ele precisava mesmo de ajuda, mas não sabia como. Era o jeito dele, um pouco fechado para o mundo. E quando se referia a pouco, era muito mesmo.
— Bom. — Assentiu — Eu vou indo, já... — Novamente e sem querer, seu olhar a levou para o quadro de borboletas — está na hora.
— Até mais, Sara.
A morena abriu a porta e olhou para ele uma última vez. Tomou seu caminho até o elevador e logo depois ouviu a porta se fechar.
Aquela imagem ficou em sua mente como o carimbo no papel. O quadro poderia não significar nada para qualquer um, mas para ele e, com certeza para ela significava alguma coisa. Quem diria que o sargento pudesse gostar tanto de borboletas, particularmente das azuis. Assim como ela.
Sara poderia muito bem ter perguntado o motivo da presença daquele quadro ali, mas guardou a dúvida para si; quem sabe num momento mais apropriado e oportuno. No momento tinha que se preocupar com assuntos mais importantes. Importantes, ao menos na questão profissional.
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