Manhunters
52 Borboleta sem asas
Notas iniciais
De volta ao presente. Fim de tarde. Após um período fora de casa devido às compras e pagamentos pendentes e um período dentro de casa para arrumar as compras e ter a certeza que não haviam outros pagamentos pendentes, Grissom finalmente se viu livre dos afazeres do dia. Sentado em seu sofá a assistir à televisão, o sargento olhou para Hank que se encontrava sentado ao seu lado a encará-lo. Depois olhou para o celular que estava no braço do móvel à sua direita.
— Vou admitir pra você, Hank. Estou nervoso. — disse ao acariciar a cabeça do animal.
O cachorro se virou para ele e moveu suas orelhas.
Grissom olhou para os lados. Sabia que ia se arrepender veemente se não o fizesse, mas tinha medo. Medo de uma possível rejeição ou qualquer outra resposta desfavorável. Seria uma pergunta até mais simples se fosse destinada a outra pessoa. Mas era ela, logo ela.
— Está bem! Eu vou ligar. — retrucou para o cachorro, que desta vez mal o encarava, se é que seu olhar era para ele.
Grissom pegou o celular, procurou por seu número nos contatos e hesitou pela última vez antes de chamá-la. Então arranjou coragem e o fez.
Um toque, dois toques, três toques, quatro toques. No quinto toque, já pensando em desistir e deixar para tentar ligar no dia seguinte, Grissom teve suas esperanças renovadas; a ligação foi atendida.
— Grissom? Oi, tudo bem? — Perguntou ela um pouco surpresa.
— É... oi, Sara, eu-
— Olha, me desculpa, eu acabei deixando de atualizar você acerca do andamento do caso aqui. — Ela se sobrepôs à sua fala e largou um suspiro ao terminar.
O sargento ergueu as sobrancelhas.
— Não, não era sobre isso que eu te liguei, não se preocupe. — balbuciou.
— Então o quê? — questionou curiosa.
— É que...
Droga, como eu vou perguntar isso?!
— A Rose... vai fazer um jantar amanhã na casa dela às oito horas e convidou a gente. — O sargento soltou as palavras de uma vez enquanto cerrava o punho esquerdo fortemente.
Silêncio. Um silêncio longo; longo e estranho. Estranho e perturbador, até demais.
— Hã? Ela... convidou a gente...?
— Sim. O filho dela vai passar um tempo em sua casa e ela quer "comemorar". Então fez questão de chamar nós dois.
— Ah... então é um... jantar em família.
— Exato.
Sara estava no quarto. Terminara de tomar um banho e vestir roupas confortáveis para passar a noite assistindo a uns filmes. Ficou surpresa ao receber sua ligação. Esperava que fosse algum motivo relacionado ao caso, já que quase todas as vezes em que conversavam era sobre isso. Ficou ainda mais surpresa ao ouvir o inusitado "convite". Todavia, ao mesmo tempo em que se surpreendeu, também se mostrou avessa.
Jantar em família. O problema estava aí. Família era o problema.
— Eu... — Ela não sabia o que dizer.
Grissom, sem ao menos saber, chegou a um ponto sensível dela; uma questão na qual ela carregava marcas, cicatrizes. Uma palavra tão pequena, mas que trazia um turbilhão de lembranças, muitas das quais a maioria ela preferia esquecer.
— Se você aceitar eu posso te levar com o carro e te trazer de volta. Não será problema. — Deu para perceber que a voz do sargento aparentava estar um pouco mais animada.
— Não, não é isso... — Sara falou ao se sentar ao pé da cama e levar a mão à testa. Entrou em outro conflito. Se fosse qualquer outra pessoa ela poderia recusar o convite quase de imediato; mas o convite veio dele. De Rose, na verdade, mas que ele estava envolvido. Surgiu um conflito.
A detetive pensou demais e acabou em silêncio, a ensaiar alguma frase para se explicar.
— Bem, se você não quiser... não precisa ir. Você não tem obrigação nenhuma em... aceitar... se não estiver à vontade.
Ela suspirou.
— É, eu vou admitir. Não estou muito à vontade com isso... É complicado.
Ao ouvir seu tom de voz não foi preciso raciocinar muito que ela se mostrava contra aquela ideia. Grissom esperava certa resistência, até, mas não esperava que fosse tão evidente. A pequena esperança que tinha diminuiu ainda mais. Ele poderia perguntar o motivo de sua relutância, mas entraria numa esfera em que não era íntimo.
— Entendo. — Ele falou, ligeiramente decepcionado — Desculpe, eu não sabia.
— Não é culpa sua.
— Então... nos falamos depois?
— Sim. Quando organizar tudo aqui eu conto os detalhes do caso pra você.
— Certo. Até mais, Sara.
— Até.
Ele encerrou a chamada. Olhou para a tela do celular melancolicamente e pressionou levemente o aparelho. Seu olhar estava triste, um pouco abatido. Até mesmo a vontade em ir ao jantar diminuiu drasticamente. Rose era sua grande amiga, é claro, mas saber que não teria a companhia de Sara na noite seguinte o fez perder a animação.
Sara tinha um forte motivo para recusar o pedido. Motivo esse que tinha raízes num passado distante, mas que retornavam prontamente assim quando um gatilho como o pedido de Grissom era disparado.
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"Don't worry about a thing, 'cause every little thing gonna be alright."
Todos tinham um refúgio. Refúgio era qualquer coisa em que a pessoa podia contar para se esconder do mundo, dos problemas e aflições. Para ela, ouvir música era seu refúgio, cantar era seu refúgio. Quando a jovem Sara fechava seus olhos e abria sua boca para cantar sentia-se livre de todo aquele peso do mundo. Era bom demais, uma sensação que só ela entendia e que os outros ao seu redor taxavam de delírio.
"[...] Singing' don't worry about a thing, 'cause every little thing gonna be alright"
Reggae nunca foi seu estilo favorito. Mas "Three Little Birds" era uma das mais preciosas músicas que ela guardava dentro de si. A letra cantada por Bob Marley se comunicava com a jovem de uma forma única. Eram palavras simples, mas que serviam de mantra, de promessa. "Não se preocupe com isso, porque tudo vai ficar bem." E assim seguia a jovem Sara. De walkman na cintura e headphones em seus ouvidos, ela quase sempre ouvia a mesma fita cassete, gravado por um colega com suas músicas favoritas. Ela não emprestava pra ninguém, era seu tesouro único.
Sara tinha 11 anos quando ganhou o aparelho; presente de aniversário. A partir daquele dia não o largou mais. Se virava de quase todas as formas para comprar pilhas e continuar ouvindo suas músicas. Se encantou mais quando o dono de uma locadora, amigo da família, gravou uma fita cassete com músicas escolhidas a dedo por ela.
Não era todo mundo que tinha condições de ter um walkman daquele tipo na época. Todas as vezes em que Sara levava o aparelho consigo para a escola, ou seja, na maioria das vezes, os outros alunos a observavam com um pingo de inveja. A família de Sara não era rica; o pai e a mãe tinham um bed and breakfast (Cama e café da manhã), simples, mas que sempre tinha clientela. Entretanto o presente foi dado por uma das hóspedes que adorou a estadia e o jeito adorável e único de Sara. Seu nome era Cassandra Ross.
Voltando aos alunos, muitos deles comentavam sobre a jovem Sara e seu inseparável walkman, fosse à frente dela ou pelas costas. Mas ela não se importava. Estava ocupada demais em seu mundo particular e não tinha tempo de tirar seus fones para ouvir ladainhas dos outros. Ela sempre se mantinha junto de seu walkman, seu refúgio de muitas ocasiões... como as idas ao hospital devido às banais discussões entre seus pais. Ver aquelas paredes brancas e pessoas vestido de branco já era comum para jovem Sara. Parecia que o hospital era sua segunda casa. Para ela, ver seu pai ou sua mãe sendo atendidos por enfermeiros ou ver ela mesma sendo atendida num intervalo de tempo quase frequente era... normal.
"[...]'cause every little thing gonna be alright" Cantava baixinho enquanto observava o passear de médicos, enfermeiros e pacientes.
Sara amava seu walkman, isso era fato. Fato era, também, que ela faria de tudo para protegê-lo. Em uma vez, na qual ela passou umas três horas na biblioteca após o final da aula, Sara notou que passou da hora de voltar para casa. Ela pôs seus fones e os conectou ao walkman. A jovem não pegava ônibus já que morava mais ou menos perto da escola. Então pegou suas coisas, saiu do prédio e apertou o passo.
Ela admitiu para si mesma que passou dos limites do horário, e quando o fazia enfrentava sérias consequências. A pior delas vinha do pai, ainda mais se o visse bêbado. Ao se dar conta disso estava quase a correr por entre as ruas do bairro.
— Ih, olha só a garota janelinha! — gritou um garoto. Mais alto que ela, o garoto era branco, moreno e magro. Ele se reunia com outros três garotos e uma garota numa esquina na qual Sara era praticamente obrigada a passar.
Antes de se aproximar deles a jovem os avistou, então retirou os fones e guardou o walkman na mochila por segurança. Não queria que nada de mal acontecesse com o seu tesouro.
Quando chegou perto deles Sara respirou fundo e tentou passar, mas foi barrada por uma "parede" de garotos. Foi quando ouviu a provocação.
— Em primeiro lugar, o que eu tenho nos dentes é diastema, seu babaca. — A jovem olhou um pouco para cima a encará-lo nos olhos. Sara não se deixava intimidar tão facilmente, por mais que seu semblante fosse de uma garota indefesa — E em segundo lugar, me deixa passar que eu tô com pressa.
— Peraí já tá indo? — O garoto insistiu, tocando em seu ombro direito com força e empurrando-a para trás.
Sara olhou para os lados na tentativa de achar algum caminho que pudesse usar como escape ou alguém que estivesse testemunhando aquela cena. Nada visível. As ruas estavam quase vazias e poucos carros passavam no momento. O estabelecimento ao lado estava fechado.
— Cadê aquele teu walkman que você fica mostrando pra todo mundo, hein? Empresta pra gente!
Ela sabia que aquele "emprestar" estava mais pra um "tomar à força". Seu aparelho não era o mais caro do mercado, mas tinha muita qualidade e era visado.
— Você carrega ele pra todo canto, janelinha, não vem disfarçar. — O garoto à sua frente zombou. Os outros à sua volta a encaravam com sorrisos maliciosos.
— E daí se está comigo? Eu não vou emprestar pra vocês. Vocês vão roubar de mim, é isso que vocês tão planejando. — Ela retrucou agressivamente, enquanto tentava passar por eles.
Mas ele a empurrou novamente, e dessa vez outro garoto participou do ato e a empurrou para frente.
Ah não.
— Para com isso, me deixa em paz! — A jovem Sara exclamou e com toda a sua força empurrou o garoto que começou a provocação.
— Você escondeu teu walkman na bolsa, né? — O rapaz que estava atrás dela puxou com força a mochila que carregava nas costas, o que a fez quase cair.
Mas a jovem era "osso duro de roer". Manteve-se firme e não perdeu o equilíbrio, pelo contrário, revidou. Deu um jeito de se livrar do garoto, virou-se para ele e desferiu o soco mais forte que pôde em sua barriga e depois se virou para a frente e empurrou com toda a força o garoto que a abordou primeiro. Quando deu por si já estava correndo.
Ela estava confiante. Ela não era boba, sabia correr bem então se continuasse num bom ritmo poderia chegar em casa ou perto dela. Só que os garotos não desistiram, e o pior: também sabiam correr bem. Chegou o momento em que seu fôlego terminou e a corrida aos poucos terminava, mas não a deles. Não demorou para que eles a alcançassem e a cercassem. Um deles a puxou pelo braço com força e a fez parar. O impacto foi tão forte que ela quase deslocou o ombro. A garota que estava no grupo a empurrou contra a parede com um sorriso ameaçador. Só que mesmo cercada, a jovem Sara não se deu por vencida. Ela desferiu outro soco, desta vez no rosto da garota que era um pouco maior que ela. Os outros, vendo aquela cena partiram para cima com socos e empurrões. Um destes a fez cair no chão.
A jovem Sara não podia acreditar no que estava acontecendo. De uma hora para outra mudou da maravilhosa aventura entre pilhas de livros a um pesadelo criado por pessoas de sua própria escola. O que ela fez para merecer aquilo? Ela não era uma pessoa má, muito pelo contrário; tinha um jeito doce e ajudava quando podia.
Um dos garotos que ela não conseguia ver já que estava de olhos fechados tentou puxar a bolsa dela. Mas de alguma forma, a jovem Sara arranjou forças, rolou para o lado e segurou a bolsa como se a sua vida estivesse nela. Então se encolheu em posição fetal na esperança que alguma hora aquilo ia parar.
Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem! Pensava desesperadamente.
Não podia contar quantos golpes sofreu. Socos, chutes, puxões. Novamente se perguntava: O que eu fiz? O que eu fiz? As lágrimas involuntárias começavam a cair de seus olhos e deslizavam sobre seu rosto até chegaram ao destino final, o chão.
Ela não percebeu quando as agressões terminaram. Não ouviu quando um homem de mais ou menos quarenta anos e de voz grossa parou Chevette cinza, buzinou e gritou para aquele grupo. Assustados, eles começaram a correr e desistiram do "plano" em pegar o inestimável walkman da jovem Sara. Rapidamente o senhor saiu do carro e foi ao encontro dela, que se mantinha na mesma posição defensiva.
— Ei, garotinha, tá tudo bem agora. Aqueles animais já se foram. — disse ele ao se agachar e tocar gentilmente em seu braço.
Ao sentir o toque a reação dela foi de susto. Sara abriu seus olhos rapidamente e visou o homem quase duas vezes maior que ela.
— Quer que eu te leve ao hospital? — Ele perguntou apreensivo.
— N-não... — A jovem fez um esforço e se levantou aos poucos, sem a ajuda dele — Eu... eu vou pra casa. — Ela disse com dificuldades — Estou... bem.
— Quer uma carona? Eu levo você até lá.
A jovem ergueu as sobrancelhas. Ficou totalmente avessa àquela ideia. Nunca tinha visto aquele homem em sua vida, e mesmo que o tivesse feito, não o conhecia. Essa questão de aceitar carona de estranhos não era boa, e aceitar aquele pedido naquelas condições era pior ainda.
— Não, não, obrigada. Eu... — comentou ao dar meia-volta — consigo voltar pra... — Ela precisou se apoiar na parede ao lado direito.
— Olha só, você tem que confiar em mim. Não vou te fazer mal, tá?
Sara se virou para o homem que estava em pé a encará-la a poucos metros de distância. Pelo jeito que falou parecia ser alguém que não escondia segundas intenções, mas não podia ter 100% de certeza. Seu corpo estava dolorido demais e ela sabia que se desse uns vinte passos com certeza não suportaria e viria a cair no chão, mesmo que sua casa já não estivesse tão distante.
Ela o encarou. Limpou o sangue no canto da boca e apertou a bolsa entre suas mãos.
— Tá. Eu vou confiar em você.
A jovem Sara depositou sua confiança em um desconhecido, coisa que não fazia nem com um conhecido em certas ocasiões. Ela assentiu para o senhor, que abriu a porta do carona, já que seu carro era de um modelo duas portas. Sara não quis ir para o banco de trás, já tinha dificuldades para se locomover, quanto mais se esgueirar num carro. Ela pensou em várias possibilidades: se aquela seria a última vez que veria aquela rua com vida, se chegaria em casa em segurança ou se teria segurança em sua própria casa. Mal olhava para ele, nem quando informou o endereço, uma rua próxima a de sua casa. Tentava, ainda, segurar o choro depois do que passou. A ficha não caíra direito; poucos minutos atrás quase foi desacordada por causa linchamento que sofreu porque se recusou a ceder seu inseparável walkman.
— O que... porque eles te atacaram? — perguntou o senhor, que a cada momento ficava mais preocupado com o estado dela.
Ela virou um pouco o rosto e disse em voz baixa, após alguns segundos de hesitação:
— Porque... tem pessoas más nesse mundo, senhor. — respondeu ao limpar a poeira de sua bochecha. Sua mão ainda estava suja do sangue que escorreu da boca.
— Me chame de Sam. — Ele disfarçou ao olhar rapidamente para ela. Mesmo rápido, pôde notar que a jovem se encontrava seriamente machucada, mesmo que tentasse disfarçar as feridas colocando os cabelos para a frente. Quando ouviu aquela resposta se compadeceu ainda mais. Então mudou de assunto — E você... é?
Estranhando aquela atitude, Sara olhou para ele e o ficou encarando, desta vez por mais tempo. Naquele momento teve receio do que poderia acontecer caso informasse o nome verdadeiro. Mas o que ela tinha mais a perder? Mal conseguia se concentrar direito. Seu corpo doía incessantemente, como se tivesse sofrido um atropelamento.
— Sara. — falou ela. Depois tocou em seu estômago no lado direito, mas disfarçou para que ele não notasse — Obrigada... por... ter feito aquilo.
— Não precisa me agradecer, Sara. O importante é que você está bem. Eu vou falar com a polícia pra ir atrás daquele bando.
Nada daquilo parecia ser verdade. Um homem aparece daquele jeito, oferece ajuda e a trata "bem demais"? Será que ela desacordou e estava apenas sonhando enquanto ainda se encontrava caída no chão? Era o que se perguntava a todo o momento e tinha medo da resposta.
Finalmente eles chegaram ao destino indicado por ela, o que não era a sua casa. Sara, que não usou o cinto de segurança, se preparou para deixar o carro.
— Obrigada pela... carona, Sam. Eu vou... pra casa. — Ela assentiu, destrancou a porta e lentamente se moveu para sair.
— Fique bem. — Ele disfarçou — E não se preocupe, eu vou falar com a polícia que vai procurar os responsáveis por isso.
A jovem Sara encarou o senhor de idade pela última vez. Por mais que estrasse o jeito dele, no fundo agradeceu veemente por ele ter aparecido na hora certa. Aos trancos e barrancos, a jovem esperou que o senhor desse a partida no carro e fosse embora para que pudesse, finalmente, caminhar de volta para casa. Ela o fez. Cada passo era um desafio, maratona; temia, até que não tivesse forças suficientes para chegar em sua casa, que ficava ao virar da esquina.
Casa, finalmente. Por uma força inimaginável que talvez fosse um milagre, a jovem Sara conseguiu chegar em seu lar, mas não doce, lar.
— Menina! ONDE DIABOS VOCÊ ESTAVA?! — Gritou a voz feminina quando percebeu a presença de Sara na casa. Era Laura Sidle, sua mãe.
A mulher, que estava na cozinha, veio às pressas se encontrar com a jovem, que acabara de entrar na casa lentamente por conta de seu estado e para não chamar sua atenção.
— Desc-culpa, mãe. Eu... tava na biblioteca e... perdi a hora. — Ela respondeu em voz e cabeça baixa. Tentou disfarçar a dor que sentia.
— Perdeu a hora? Perdeu a hora?! — A mãe ergueu os braços — Eu já ia chamar a polícia! — Exclamou ao encarar o rosto da filha, que permanecia de cabeça baixa.
Intrigada, Laura se aproximou ainda mais da filha e ergueu seu queixo bruscamente para olhar seu rosto. Sara deixou escapar um gemido de dor.
— Que machucado é esse no seu rosto, garota?
— Eu... eu... — Ela queria disfarçar e até mudar de assunto — Não foi nada, eu... tô bem.
— Fala logo, Sara ou vai ser bem pior depois! — Seu tom parecia ameaçador.
Rapidamente a jovem encarou os olhos da mãe, mas da mesma forma se desviou deles.
— Um... um pessoal... eles... eles me bateram-
— O QUÊ?! Por que eles te agrediram, Sara?! Pelo amor de Deus! — Laura tirou a mão do queixo dela.
— Porque não deixei que... eles pegassem meu walkman. — A jovem falou mais baixo que o normal.
A mulher franziu o cenho. Não gostou nada nada de ouvir aquela resposta.
— Você o quê?! Por que não deu aquela porcaria de walkman pra eles, garota! Você poderia estar morta agora! — A voz de Laura não diminuía em momento algum. Era possível que os vizinhos já soubessem de boa parte da história.
Sara não respondeu. Apresentou aquele silêncio comum que a maioria dos pré-adolescentes fazia quando estava em apuros.
— Olha só como você tá agora, Sara! — Laura apontou a mão para ela.
A jovem Sara respirou fundo. Acabou contando o restante da verdade de vez.
— Um senhor... a-apareceu e me ajudou. Ele espantou aqueles garotos e... me trouxe até aqui perto.
Se a situação estava ruim, de repente piorou.
— Vai pro seu quarto, AGORA! — Laura apontou para atrás de si, em direção às escadas. Nem se manifestou acerca do senhor que a levou até perto de casa e falar nas inúmeras possibilidades de que aquilo poderia terminar numa tragédia — Limpe o seu rosto e não saia de lá! Se o teu pai te ver assim e souber do que aconteceu, Sara... — Ela levou a mão à testa.
Em silêncio, Sara não concordou e nem discordou, apenas fez o que lhe foi ordenado. Lentamente ela deu os primeiros passos e sentiu como se pedras estivessem amarradas em suas pernas. Ao passar ao lado da mãe, pode apenas olhar de lado que Laura balançava a cabeça negativamente e que a cada segundo sua paciência parecia se esgotar.
Então a jovem Sara olhou para a escada e o caminho acima; tocou no corrimão com força e olhou para trás. Fechou seus olhos com força para conter as lágrimas que novamente insistiam em cair de sua face. A mãe ainda estava de costas pra ela, desta vez de braços cruzados.
— Já foi?!
Mais uma vez a jovem olhou para cima. Ergueu o pé direito e tentou dar o primeiro passo, mas só tentou. Retraiu-se antes mesmo de dar meio passo.
— Ah...! — Ela gemeu ao tocar em sua costela.
— O que foi agora, Sara? — Laura resmungou ao se virar para a filha.
— Tá doendo...! — Sara se queixou ao pressionar as duas mãos na barriga.
Naquele momento a jovem seu sangue esfriar e a adrenalina ir embora. Sua cabeça começou a girar e todo o seu corpo sentia uma forte dor. Foi quando perdeu o equilíbrio, mas se sentou na escada a tempo.
— Quê?
— Tá doendo, mãe! — Com o fôlego que restava ela exclamou. As lágrimas já caiam de seu rosto.
— Ah, olha aí! — A mulher bateu as mãos nas coxas — O que eles fizeram com você? Me fala!
— E-eles... bateram em mim e... — disse já soluçando — e me chutaram... um monte de vezes. — retrucou num tom mais moderado.
— Merda! — Laura resmungou. Rapidamente ela foi para a cozinha e retornou para perto de Sara — Vem, vou te levar pro hospital agora. — O tom parecia confortante ao mesmo tempo que parecia uma ordem.
Só que a jovem ainda estava receosa. Ela não se levantou no momento que sua mãe lhe falou aquilo.
— Vem logo! Ou quer ficar chorando de dor no seu quarto, hein? — Laura se aproximou dela e tocou em seu ombro, depois tocou em seu braço e puxou levemente.
— Ah... ah!
Nem mesmo a jovem Sara sabia como aguentou andar a pequena distância de onde deixou o carro até a porta de casa. Já não aguentava mais andar ou ficar em pé. Sustentada pela mãe, as duas saíram de casa. Próxima à porta, Sara esperou que sua mãe tirasse o carro da garagem. Quando o fez, caminhou no seu próprio ritmo reduzido até a porta carona. A viagem foi na maioria do tempo silenciosa, marcada por algumas interrupções que eram alguns gemidos contidos da jovem Sara. O pesadelo de se encontrar no chão sendo agredida por vários pares de mãos e pés não acabou, afinal. E a dor que se pensava esvair com o tempo se mostrou impiedosa e interminável.
Ela não se lembrava de muita coisa quando chegou ao hospital. Lembra-se de ter sido carregada numa cadeira de rodas até à sala do médico, que era um homem negro de barba grande e que a tratou de uma forma gentil. Disso ela não se esqueceu, assim como a ajuda que recebeu de Sam. Não levou muito tempo para que a consulta encerrasse, já que ela acabou desmaiando. Após o lapso de tempo, a jovem Sara se viu numa cama hospitalar e com roupas hospitalares. Ela já não sentia aquela intensa dor em seu corpo como outrora, mas ainda estava incomodada. Tempos após esperar angustiada no melancólico pequeno espaço do quarto, o médico retornou junto de sua mãe. O resultado foi este: ela fraturou a costela e apresentava algumas escoriações sobre o corpo. Precisaria se tratar com analgésicos e repousar bastante. Ao menos o tratamento a livraria de passar longe daquelas ruas e olhares desaprovadores. O ruim era que... precisaria ficar mais tempo em casa.
De volta ao raciocínio e com seu parceiro inseparável, Sara ligou o aparelho pela primeira vez em horas. De sua fita favorita, tocaram músicas como Breathe do Pink Floyd, Back in Black do AC/DC, Cry Baby de Janis Joplin e a sua amiga de vários momentos, Tree Little Birds do Bob Marley. Enquanto não havia ninguém por perto ela cantarolava baixinho com medo que alguém estivesse ouvindo atrás da porta. A jovem Sara fechava seus olhos e cantava todas as suas músicas junto com os artistas na esperança que os seus medos e angústias passassem ao término das canções.
A porta se abriu e trouxe com ela o que Sara menos queria no momento: problemas, mais deles. Eram seus pais. Laura e Adam Sidle. Só pela cara do pai já dava para ver que a "conversa" não começaria bem e, provavelmente terminaria da mesma forma.
O pai foi quem entrou primeiro, abriu a porta com força. Estava na cara que o quarto de hospital era o último lugar que ele gostaria de visitar. A mãe entrou logo depois a encarar constantemente o marido.
— Olha só o que acontece! — O homem de cabelos longos até o pescoço também era moreno, assim como a filha — OLHA SÓ! Tudo isso aconteceu por culpa dessa droga de aparelho.
— A gente sabe, Adam! — Laura retrucou quase no mesmo tom.
A jovem Sara continuava a ouvir suas músicas e a cantarolar baixo. Seu olhar estava distante, como se os adultos não estivessem ali. De alguma forma ela estava sozinha, mesmo.
— Você não fez nada pra se defender, garota?! — Adam se aproximou da filha com um olhar assustado.
Mas a garota apenas encarou o pai em silêncio.
— Eu estou falando com VOCÊ! — Ele bateu em seu rosto do lado direito. Não com muita força, mas o suficiente para que Sara, debilitada, sentisse dor.
Sara não conseguiu reagir, apenas soltou um breve gemido e se contraiu na cama.
— Ela já sabe, Adam! Deixe a garota, não tá vendo que ela tá toda machucada? — Laura interveio e afastou o braço dele.
— Tá vendo, Laura?! — O homem olhou para a mulher — É o que acontece quando se deixa ela crescer desse jeito. Ela é uma covarde, isso sim! — Adam quase cuspiu.
O rosto de Sara pareceu imóvel, como se aquelas duras palavras não surtissem efeito nela. E o motivo era este: logo quando seu pai entrou já era possível notar o nível moderado de embriaguez de sua pessoa. Quando Adam bebia demais, o que não era novidade, ele falava alto e agredia as pessoas à sua volta verbalmente, e muitas vezes, fisicamente. Pelo comportamento dele no momento, o pai de Sara tinha bebido há algumas horas, visto que ele se apresentava um pouco mais comportado que de costume.
— A nossa filha quase morreu e você chama ela de covarde?! — Laura intercedeu por Sara. Estava perdendo a paciência com o marido.
— Ah! Você protege ela demais! — Ele deu meia volta e fez um gesto com a mão. Logo em seguida se voltou à garota — Sabe o que eu vou fazer? Eu vou me livrar dessa merda de walkman pra ver se você deixa de ser assim.
A jovem Sara ergueu as sobrancelhas. Após minutos num estado inerte, ela encarou o pai como se sua vida estivesse em perigo.
— Não! — Ela exclamou, escondendo o aparelho entre suas mãos. Chegou a tirar os fones de seus ouvidos — Ele é especial, pai!
— Isso é patético, Sara! Você é patética! É isso!
— Já falei pra parar com isso, Adam! — Laura se aproximou dele e o tocou bruscamente no ombro, puxando-o para que a encarasse frente a frente — Esqueceu que está falando com a nossa filha?
Adam se afastou da mesma forma como foi puxado.
— Tá, tá bom. — Ele assentiu várias vezes — Que bom que você está viva. Agora pare de ficar por aí mostrando essa droga pra Deus e o mundo, antes que venha alguém e te machuque de verdade pra te roubar.
Adam saiu do quarto às pressas. Seu tempo de ver a filha terminara e a única coisa queria fazer no momento era deitar em sua cama e dormir por horas na tentativa de conter a enxaqueca que se formava. Laura assistiu àquela cena e baixou a cabeça. Em seguida começou a sussurrar algumas palavras inaudíveis.
— Isso não... isso... DROGA! — A mulher ergueu os braços. Ela piscava com rapidez constantemente.
— O que... foi, m-
— Eu vou voltar à noite pra te buscar. — Disse, interrompendo a filha. O semblante estava bem diferente do de segundos atrás.
A jovem Sara a encarou. Meio confusa, não quis argumentar para evitar quaisquer reações adversas que a mãe trazia em certos momentos. Ela sabia muito bem que às vezes sua mãe agia de forma "estranha" ou incomum. Ficava instável como uma reação química.
— Tá... — A jovem respondeu baixo.
Sem esperar, Laura deixou o quarto e fechou a porta quase com força. Sara observou a porta por alguns segundos e pressionou o aparelho, ainda escondido sob suas mãos.
— Você tem que parar com isso! Quem você pensa que é pra falar daquele jeito? — A jovem pôde ouvir a voz da mãe do lado de fora do quarto. Provavelmente falava com seu pai. Ou melhor, discutia com ele.
— Pare com isso, Laura! Você está me irritando!
— Você trata a gente como lixo! — Laura insistiu — Você prefere ficar ao lado daquelas garrafas do que com a sua própria filha!
Sara já não se impressionava mais com aquelas brigas. Eram constantes. Laura e Adam brigavam por quase tudo e quase sempre a briga terminava lá mesmo, no hospital. Na maioria das vezes era Laura quem saía na pior, ou até mesmo a jovem.
Para se proteger da própria família, Sara se escondia no seu próprio mundo particular... e cantava.
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De volta à realidade, Sara mal percebeu que estava sentada e olhando para o nada; no decorrer do tempo que estava ali lembrava-se de algumas coisas. Haviam momentos facilmente esquecíveis e outros, não. Ela nunca se esqueceu daqueles dias que ficaram mais como uma marca em sua mente que em sua pele. Às vezes podia sentir a dor das agressões em seu corpo quando dormia, não apenas daqueles jovens, mas de seu próprio pai.
— ... cause every little thing gonna be alright.
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