Manhunters

62 Bodes num bote e Onze motivos para resolver esse caso o quanto antes


Notas iniciais
Hoje é dia de quê?????? DIA DE CAPÍTULO NOVO! E aí, galera, tudo show? Chegamos com mais um capítulo novíssimo dando continuidade às aventuras dos nossos policiais favoritos. Acho que tá quase todo mundo bolado comigo por causa do sonho do Grissom kkkkkkk Calma galera, calma que tudo se encaminha para o bem maior. Um detalhe sobre o nome do capítulo "Bodes num bote" faz referência à música "Goats on a boat" do The Devil Wears Prada. Cheguei a comentar num comentário que gosto muito de ouvir essa banda enquanto escrevo e leio para me concentrar e pegar inspiração. Eu não vou falar o significado e o motivo de ter escolhido esse título aqui, só lá embaixo. Quero que vocês aproveitem o máximo do texto do capítulo ♥ Não desistam de mim galera ahahaha, vamos ter muito GSR ao longo da fic. Aproveitem o cap!

Dia seguinte. Urgência para uns, tranquilidade para outros. Sexta feira, sete da manhã. Em duas cidades diferentes, três pessoas se preparavam para um dia cheio. Ansiedade, preocupação, euforia e excitação dividiam espaço na mente deles, cada um de acordo com a situação. Zodíaco, ou melhor, ****** acordou disposto, carregando um sorriso em seu rosto. A noite foi boa, acordou bem ao lado da esposa que também sorriu ao ver seu rosto pela primeira vez no dia.

Após uma breve troca de carícias, ****** se levantou e ficou sentado na cama. Observou o quarto do hotel; bastante confortável, óbvio para um cinco estrelas. O homem esticou os braços e se virou para o lado, encontrando a esposa ainda acomodada na cama. Lentamente ela fez um gesto com a mão, convidando-o para retornar.

— Gostaria de ficar mais tempo aqui. Só que o dia vai ser agitado... infelizmente eu tenho que ir, meu amor. — Disse meio melancólico. Então voltou e beijou-a nos lábios.

Enfim, ele deixou a cama e seguiu para o banheiro da suíte. Fechou a porta, lavou o rosto e se olhou no espelho. Encarou seus próprios olhos; segundos depois, sorriu. Tudo estava preparado para seu dia, tudo questão de tempo.

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Ter um sonho tão bom e ser interrompido — ainda por cima na melhor parte — foi muito cruel. Grissom ficou inconformado. Olhando para o lado esquerdo de sua cama, ele franziu as sobrancelhas e cerrou a mão esquerda. Aquela raiva era inútil, ele sabia, mas ainda assim nada diminuía aquele sentimento.

Sara.

Talvez o despertador tenha sido um alerta para ele dizendo-o para desistir, seria o melhor a se fazer. Iniciar o dia sendo traído pelo seu corpo e despertador não foi um bom começo. Ele precisava acordar para a realidade e voltar ao...

— Trabalho!

O sargento arregalou os olhos. Lembrou-se que aquele era o dia. Sexta-feira, em poucas horas mais uma vítima seria morta nas mãos de Zodíaco. Uma sensação de impotência tomou conta dele, que não tinha ideia para onde ir, tendo apenas que ficar esperando a morte de alguém. Para um policial aquilo doía.

Num pulo, Grissom deixou a cama e correu até o banheiro para se arrumar. Como a possibilidade do local do próximo crime seria em um lugar longe, sua bolsa de viagem já estava pronta, bastava apenas a ordem. Vestiu um terno preto e camisa social cinza escura; escolheu o coldre de neopreno com porte na cintura, reservando o lugar para a pistola que teria de volta. Como precaução também pegou sua arma extra e a guardou no coldre da canela esquerda.

A "bolsa de viagem" de Hank também estava pronta. Quando terminou de se arrumar, Grissom se agachou e abraçou o cachorro. Ele combinara antes de deixar o animal com o porteiro que morava no prédio, já que não queria abusar dos favores da família Danvers. Poderia ser a última vez que veria o amigo, então fez questão de demonstrar todo carinho possível, assim como da vez em que foi ao norte do estado.

Grissom levou sua bolsa e a deixou no porta-malas do carro. Não perdeu tempo e logo deixou o prédio. Dirigiu rápido até o departamento. O que mais gostaria de fazer era se encontrar com a detetive e ter certeza de que ela estava bem. Após o sonho que teve com ela o desejo de vê-la pessoalmente era ainda maior.

Caminhando com pressa, mal parou para cumprimentar seus colegas de trabalho direito. Sua visão voltou-se para a frente, para a porta de sua sala. Grissom imaginava que ela estivesse lá, esperando por ele com uma cara não muito contente. Estava cedo, ainda eram sete e três da manhã, porém ele imaginou que Sara já chegara ao prédio.

Ele tocou na maçaneta da porta e assim veio a primeira surpresa: ela estava trancada. Grissom fechou seus olhos por um instante e respirou fundo. Tirou a chave reserva de seu bolso e destrancou a porta. Mas antes que pudesse entrar, um oficial chamou por ele, indicando-o a seguir para a sala do capitão. Impaciente, o sargento fechou a porta e foi até lá. Bateu na porta entrando na sala logo em seguida. Encontrou com o capitão finalizando uma conversa com um detetive. Num gesto cordial, Grissom cumprimentou os dois homens e esperou que o detetive fosse embora.

— Então... — Ele iniciou a conversa, mas um pouco sem jeito.

— Oi, Gil. — O capitão respondeu preocupado — Bom que tenha vindo mais cedo. Quero que esteja preparado para hoje.

— Infelizmente estou preparado todos os dias.

O capitão pegou um molho de chaves no bolso do camisa branca e com uma delas, abriu a gaveta inferior direita de sua mesa. Abriu-a e retirou dois objetos.

— Não sou de guardar essas coisas aqui, mas com você é diferente. — Assentiu. Então se levantou e caminhou ao seu encontro carregando estes objetos e os estendeu para ele — Seja bem-vindo de volta, sargento.

Grissom atentou para o conteúdo nas mãos do capitão. Seus velhos amigos: o distintivo e a 9mm. Ao olhar para aquilo uma sensação de alívio tomou conta de si. Sem eles, o sargento se sentia incompleto, como se não fosse um policial de verdade. A arma e o distintivo, mais que objetos, carregavam certo simbolismo não apenas para ele, como para muitos policiais.

Ele pegou os itens e observou-os por algum tempo. Passou o polegar sobre o relevo do selo em metal da polícia e depois prendeu o distintivo na cintura. Depois disso guardou a arma no coldre da cintura.

Finalmente.

Ele apertou a mão do capitão Brass como se acabasse de ser promovido novamente; de alguma forma aquilo foi verdade.

— Você escapou do afastamento definitivo por pouco, Gil. — disse ele enquanto retornava à sua cadeira.

— Eu sei disso, já levei uma dura do Ecklie.

— Não estou falando do trabalho, estou falando desse caso.

— Como assim? — Confuso, o sargento franziu o cenho.

— Você estava autorizado a voltar para o trabalho, mas o caso do Zodíaco era outra história.

— Ninguém me falou sobre isso. — Ele ergueu os braços, ainda mais inconformado.

— E nem vão falar, muito menos você. — O capitão o intimou, apontando para Grissom — Isso foi por pouco, a decisão do Ecklie em colocá-lo de volta foi de última hora. Antes eu alertei ele sobre o dia de hoje e acho que isso influenciou um pouco.

— Eu não acredito que o Conrad queria me tirar em definitivo desse caso. Ele sabe como eu estou envolvido nisso! Se colocasse qualquer outro ia levar muito tempo até que essa pessoa ficasse ciente de tudo, merda!

— Tá bom, Grissom, chega! Parabéns! Você está de volta ao caso. Para de ficar tentando arranjar uma queda de braço com o Ecklie! — Irritado com a atitude do amigo, Brass o repreendeu — Isso é um aviso, meu amigo. Deixa isso abafar, tá legal? Faça o que faz de melhor. — Ele fez um gesto com a mão direita. Esperou um momento e continuou — Fala com a sua parceira e resolvam isso.

O sargento olhou para o lado. Não se zangou com declaração dele, sua raiva era direcionada ao xerife. Retrucar era inútil e ele sabia disso. Então acatou.

— Certo. — Assentiu. Nitidamente não estava satisfeito, até o amigo percebeu — Tem notícias da Sara? — disfarçou, aproveitando para mudar de assunto.

— Ela ainda não chegou?

O sargento fez um gesto negativo.

— Tá preocupado que algo possa-

— Eu não quero pensar nisso, Jim. Estou tentando não pensar... — Instintivamente ele virou o pescoço para observar a porta — O problema é que sempre vem a preocupação...

— Tenta ligar para ela, Gil. — Sugeriu ao dar de ombros.

Grissom tinha em mente que essa opção não era muito viável. Provavelmente quando visse o número dele na tela do celular Sara recusaria a ligação. Pensando nisso, o sargento precisou imaginar outra alternativa. Ele olhou para o relógio em seu pulso e disse:

— Não sei a hora que ela planejou chegar. Caso ela não chegue até às oito, eu vou tomar uma providência.

— Vai com calma aí, amigão. — Brass ergueu a mão direita — Imprevistos e atrasos podem acontecer, mesmo no dia de hoje.

— Eu sei. — O sargento respondeu entre um suspiro — E isso me deixa mais nervoso.

— Pelo que vi essa mulher é bem durona, sabe se defender. — O capitão fez um gesto positivo com o pescoço — Logo logo ela vai chegar aqui. Volta pra sua sala enquanto isso. Vocês vão ter bastante trabalho hoje.

Me conte uma novidade.

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Sete e trinta e oito da manhã. A morena chegou ao departamento com pressa. Cada segundo no dia de hoje seria vital, ainda que tivessem que aguardar o alerta de mais um homicídio. Foi a primeira vez desde que chegou a Vegas que Sara "presenciaria" o início de uma investigação da morte de outra vítima. Ao acordar e se preparar para deixar a casa, uma sensação melancólica tomava conta de si. Saber que era quase "necessário" alguém morrer sem ter a possibilidade de fazer algo por ela a deixou mal, como se ela tivesse falhado desde quando pisou os pés em Nevada. Algo em seu trabalho foi feito de forma errada, tinha que haver algo que escapou. Ela não se conformava em não ter encontrado uma pista sequer da identidade do assassino. Se fosse colocar a culpa em Grissom teria que assumir a culpa, também. Não adiantava, aquele era um trabalho para ser feito em equipe e "equipe" era a palavra que não estava dando certo.

Sara subiu o elevador, cumprimentou algumas pessoas, chegando a olhar para a mesa de Ivanenko, ainda vazia. Seu próximo destino, o local inevitável, a sala do sargento. Carregando sua bolsa de viagem, já que tinha em mente da possível viagem que faria, ela caminhou até a porta respirando fundo. Ao tocar na maçaneta pôde logo perceber que a porta estava destrancada, ou seja, ele já estava lá. Então entrou.

Sério como sempre, Grissom estava sentado em sua cadeira, usando o computador com total normalidade. Ao ver a porta se abrindo, tratou de olhar para a frente. Por dentro uma onda de alívio acalmou sua mente, porém não quis demonstrar. Ver aquela mulher com seus próprios olhos (e não em um mundo irreal) fez seu coração acelerar por um instante. Não sabia se o motivo era que ela estava segura ou se estava contente em tê-la por perto, mesmo sabendo que ela não sentia o mesmo. Para ele, não mais.

— Bom dia, Sa-... detetive Sidle. — Corrigindo-se, Grissom tentou parecer o mais profissional possível e se afastar de certas "intimidades".

Percebendo aquilo, Sara revirou os olhos e fechou a porta, deixando a bolsa de viagem logo ao lado. Caminhou para perto dele e se sentou na cadeira, retirando a bolsa de trabalho que levava consigo.

— Bom dia. — respondeu forçada — Se bem que não vejo um "bom dia" pra gente. Alguém vai morrer e não dá pra fazer nada. — Resmungou e cruzou os braços.

Ele observou seu gesto e manteve-se como antes: neutro. Sabia que se alterasse o tom poderia (e com toda a certeza) iniciar mais uma discussão. Suspirou e se recostou na cadeira. Parte de si ficou satisfeito em vê-la. Era muito melhor que no sonho, poder encará-la frente a frente na realidade, mesmo que essa realidade estivesse daquele jeito.

— Eu sei. Nós tentamos, mas infelizmente não-

— Ah, que droga! — Irritada, ela ergueu os braços e se levantou — Eu não me conformo com isso! A impressão que fica é que dava para se ter feito algo!

— O que, Sara? — Grissom não se conteve e voltou a chamá-la pelo primeiro nome — Trabalhar que nem um condenado, que nem eu? — Ele ergueu as sobrancelhas — Eu tentei, acredite. E tudo que consegui até aqui foram dois tiros e um monte de teorias. — Ironizou.

Ela fechou a cara, chegando a cerrar o punho direito. Se antes estava chateada com o parceiro, suas palavras a irritaram ainda mais.

— Céus, como você consegue falar assim... — Sara balançou a cabeça. A detetive levou a mão direita à testa e se virou de lado.

— Eu também estou chateado. Na verdade, estou revoltado comigo mesmo porque não consigo avançar nesse maldito caso e só estou decepcionando todo mundo à minha volta. — Deu de ombros, afastando a cadeira giratória para o lado. Dessa forma pôde vê-la por completo.

— Ainda bem que você sabe. — Assentiu. Em seguida ela ficou de costas para ele e se preparou para deixar a sala.

A cada minuto de conversa o medo de Grissom aumentava cada vez mais e se tornava realidade: o distanciamento de ambos, a possibilidade de nunca mais terem uma relação saudável como na época da Conferência; e o culpado daquilo acontecer era ele mesmo.

— Sara. — Chamou por ela, que parou de caminhar logo depois.

— O que? — A mulher respondeu como quem não quisesse.

— Pode me contar o que houve na investigação da morte do Lewis?

Ela se virou para ele e o encarou diretamente. Seu olhar frio o atingiu em cheio.

— Nenhuma pista sequer até agora. Prendemos a suspeita, mas ela não quis falar. Contente? — Em deboche Sara ergueu as sobrancelhas — Espero que você tenha algo para adicionar no caso, porque se não continuamos no zero. — Sorriu brevemente.

O sargento levou as mãos ao rosto e as deslizou. Finalmente se levantou da cadeira, só que mal caminhou um passo.

— Até quando vamos continuar nessa guerra, Sara?

— Que guerra? — Ela ergueu as mãos — Não há mais guerra aqui, você venceu. — Aquela resposta foi tão fria quanto seu olhar.

Parecia que os dois estavam de volta ao começo de tudo. Ou melhor, não o começo de tudo, mas o período no qual começaram a trabalhar juntos. Quem dera para o sargento que estivesse de volta aos tempos da Conferência para que pudesse fazer algo diferente.

Sem dizer mais nada, a morena deu meia-volta e continuou seu caminho para fora da sala. O sargento inclinou a cabeça e fechou os olhos. Respirou fundo e lamentou dentro de si pelo ponto em que chegaram. Toda vez que tentava fazer algo acabava por piorar a situação. Mais um fracasso.

Sara fechou a porta com certa lentidão. Parecia fácil dizer aquilo, mas por dentro suas palavras tanto doíam quanto machucavam. Mal conseguiu ficar muito tempo dividindo quase o mesmo espaço com Grissom, teve de sair dali ou acabaria chorando de raiva. Como não tinha muitas opções para "fugir", acabou seguindo para a copinha. Quem sabe se colocasse algo no estômago poderia se sentir melhor.

Ela esperou uma oficial terminar de fazer uma nova leva de café, e então se serviu. Pegou uma xícara, uma colher de açúcar e tomou a bebida ali mesmo. Aos poucos, para que pudesse apurar o sabor e aproveitar o aroma que subia até suas narinas.

— Esse café tá bom? — perguntou um homem que acabara de chegar no local e que arrancou um sorriso meio envergonhado da detetive.

— Oi Max. — disse ela, afastando a xícara de seus lábios. Aproveitou para apertar a mão do colega.

— Oi, Sara. Soube que o sargento está de volta. — Ele apontou com o polegar para trás de si.

— É. — A detetive afirmou, tirando o sorriso do rosto aos poucos. Voltou a tomar outro gole do café em seguida — O dia vai ser bem agitado hoje.

— Tem a ver com o serial killer que vocês estão procurando?

— Infelizmente, sim. — Ela ficou em silêncio por alguns segundos para disfarçar e depois continuou — Mas... mudando de assunto, tem alguma novidade sobre o nosso caso?

— Ainda estou na busca e na espera. — Ivanenko lamentou — Mas não se preocupe, quando tiver algo relevante eu te aviso na hora.

— Assim que eu estiver disponível eu vou te ajudar com isso.

— Não, não. — Ele balançou a cabeça e tocou em seu ombro direito — Se preocupe com esse caso que é mais importante. Vocês dois vão ter trabalho e a última coisa que quero é que você se atole com isso, Sara. — Cordial, ele trouxe um sorriso confortante.

Outra pessoa entrou na sala ao término da breve conversa; ou melhor, a conversa que foi terminada antes da hora. Sara mudou de semblante assim que o viu.

— Oi. Interrompi a conversa? — Era o sargento, que aproveitando a situação, lançou a pergunta debochando ligeiramente.

— Sargento Grissom. — Ivanenko se virou para ele — Eu já estava de saída. Bom que está de volta. — Assentiu.

— Obrigado. — respondeu secamente. Depois disso deu um passo para dentro da sala.

— Até mais, Sara. Se cuide. — O detetive se despediu de Sara e fez um gesto com a mão para se despedir de Grissom, deixando a copinha logo em seguida.

O sargento acompanhou a saída do colega com o olhar. Cruzou os braços e olhou para ela.

— Desculpe se interrompi a conversa com o seu parceiro, mas tenho que contar à minha parceira o que organizei até agora no caso. — Ironizou. Mesmo tentando evitar, ele não conseguiu disfarçar o incômodo que sentia ao ver aqueles dois juntos, principalmente da forma que ela o tratava. Grissom pode acompanhar uma parte da conversa e por isso sua raiva estava justificada.

Sorrindo sarcasticamente com o comentário dele, Sara terminou de tomar o café e lavou a xícara na pia próxima.

— Então por que não falou antes? — Mantendo o mesmo tom debochado dele, ela retrucou.

— Porque você foi embora! — Grissom chegou a elevar o tom de voz.

— Talvez se você parasse de tentar arrumar o que você mesmo bagunçou eu não sairia da sala.

— Tá falando da gente? — Inconformado, ele franziu o cenho.

— Ah, e o que seria? — Sara ergueu os braços.

Ele fechou os olhos brevemente, tentando se acalmar para que não falasse outra besteira.

— Olha, Sara, — O sargento levou a mão a testa — eu queria-

— Chega, tá bom? Eu já perdi as contas de quantas vezes você me decepcionou e pediu desculpas. Uma hora isso cansa, sabia? — Desta vez ela estava séria, encarando-o nos olhos — Vamos resolver essa droga de caso e seguir com as nossas vidas. Eu só não quero ficar discutindo sobre uma coisa que você mesmo terminou naquela noite.

O semblante dele mudou gradativamente. Já não se mostrava um homem indignado, estava mais para alguém que acabara de sentir o peso da culpa por um problema que ele mesmo criou. Nem tentou criar uma resposta, pois sabia que receberia coisa pior.

Mesmo após sua resposta, Sara continuou a encará-lo para ver qual seria a reação seguinte. Pelo visto suas palavras surtiram efeito. Ela se virou para o lado e começou a tomar seu caminho para fora.

— Eu não queria que as coisas terminassem daquele jeito. — lamentou ele.

— Que pena. — Ela concluiu, quando atravessou a porta.

Ele observou a mulher que amava sair da sala. Após isso acreditou mais ainda que era o culpado por toda aquela agonia que o conturbado relacionamento dos dois passava.

O sargento suspirou e cobriu seu rosto com as mãos. Ajeitou a gravata que o incomodava incessantemente e em seguida pegou o celular no bolso do paletó. Ligou para alguém e manteve quase um minuto de conversa. Por fim, encerrou a ligação e deixou o local.

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Grissom sabia que não podia sair do prédio por causa da situação crítica que estavam passando. Ainda assim preferiu arriscar e deixar o departamento por um tempinho.

Ele foi para o Rose's, seu melhor refúgio para a correria do trabalho. Não avisou a ninguém, somente a Judy, contando que sairia de lá por alguns minutos. Uma de suas manias era aquela, o que deixava Brass furioso. Lembrar-se-ia de responder ao capitão com neutralidade para evitar outra sanção.

No caminho tentou deixar de lado as preocupações que o atormentavam, tarefa de sempre, mas que nunca dava certo. Ao menos ele tentava. Sem cigarros disponíveis sua única alternativa para se acalmar dependia de sua própria força. Ou talvez de uma torta de mirtilo.

No caminho, Grissom dirigiu numa velocidade moderada, até onde a sinalização o permitia. Estacionou e chegou ao restaurante um pouco apressado. Somente quando pisou os pés lá dentro ele diminuiu o ritmo. Passou no balcão como sempre e cumprimentou Jin, além de Tina, que passou por ele no momento em que chegou. Jin tratou de chamar por Rose que apareceu após um minuto carregando consigo uma sacola de papel.

— Ei, Gil, tudo bem? — Perguntou ela com seu caloroso sorriso.

— Sim. — Assentiu, porém não manteve seu olhar fixo a ela.

Desconfiada, Rose entregou o pacote contendo duas fatias separadas de torta de mirtilo ao sargento, que pagou com dinheiro no caixa.

— Imagino que comprou outra fatia para agradar sua parceira, não é, Gil? — Brincou ela, atraindo sua atenção novamente.

— Hã? Sim, sim... — Ele respondeu meio avoado — Obrigado, Rose... Agora preciso voltar ao trabalho.

— Espera aí. — A mulher ergueu o indicador direito saiu de trás do balcão quase correndo. Estranhando aquilo, Grissom deu meia-volta e a observou vir ao seu encontro.

— Me conte, Gilbert, o que está acontecendo? — Ela o segurou pelo ombro e o levou para um espaço vazio, distante dos demais.

Mais desconfiado, e preocupado com a desconfiança da amiga, Grissom parou de caminhar e logo tentou abafar a situação:

— Rose, não se preocupe, não é nada. — O sargento gesticulou com a mão. Após um breve silêncio, pensou que estivesse livre da abordagem.

— Sua cara diz outra coisa. — Rose deu ombros — Vamos, Gil, deixa eu te ajudar.

Ele virou o rosto para outro lado e visou a hora em seu relógio. Tinha medo de falar algo que piorasse a imagem dele e da parceira. Hesitou bastante, levou quase quinze segundos para responder:

— Eu e... nós dois discutimos. — falou baixo. Quando concluiu ele encarou a amiga, que pareceu bastante surpresa — A situação não tá nada boa.

— Ah, Gil... — Rose tocou em seu braço esquerdo — Eu sinto muito, não podia imaginar que isso tivesse acontecido.

— Eu também sinto. Fui eu quem errou nisso tudo.

— Por que não chama ela para um canto reservado e tenta pedir desculpas?

— Não está adiantando. — Grissom respondeu na mesma hora. Então olhou para porta e depois se voltou a ela — Eu preciso ir, Rose. Obrigado, — Ele ergueu o pacote em suas mãos — depois nos falamos.

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Em algum ponto de Cold Springs, Reno, Nevada. Dez e quarenta e cinco da manhã.

Havia um pequeno lago no centro da extasiante paisagem. Os campos verdejantes iam perdendo sua cor, dando lugar ao cinza e ao marrom, típico da época. Não se ouvia o canto dos pássaros, nem dos animais terrestres. Era um silêncio que de vez em quando era cortado pelo som do vento, mas que logo retornava ao estado original.

— Lugar incomum para falar de assuntos como esse, não é? — falou o homem que se apoiou no velho corrimão próximo ao lago.

Ele esbanjava jovialidade. Seus cabelos curtos, um pouco altos, balançavam moderadamente no ritmo do vento, como se a sua própria alma estivesse de bem com a vida, ou melhor, com a natureza. De óculos escuros, o homem vestia uma jaqueta grossa escura que o protegia do frio da manhã. Uma calça escura impermeável também o protegia da baixa temperatura. Um tênis preto discreto completava o visual. O homem carregava uma bolsa atravessada de cor marrom. O outro homem que estava próximo não tirava seus olhos dela.

— Se acha que foi a melhor escolha eu não me oponho a ela, senhor Bankov. — Deu de ombros. Este homem era mais velho. Um pouco acima do peso, calvo, ele disfarçava sua condição com um chapéu coco marrom desbotado. Ele usava um casaco grosso estilo xerife, calça jeans escura e sapatos da cor preta. O velho usava uma pasta de couro marrom, envelhecida com o tempo.

O homem mais jovem, ou melhor, Bankov se virou para ele e sorriu brevemente.

— Sem gravadores, como combinado. — O velho ergueu os braços, e aproveitou para abrir sua jaqueta.

— Existem dezenas de outras formas de se esconder um gravador, senhor Park, mas vou confiar em sua palavra. Um profissional como você depende da boa e velha credibilidade. — Assentiu.

O velho que Bankov conversava era na verdade Ryan Park. Jornalista há mais de vinte anos, estava com a carreira em baixa. Após tantos anos trabalhando para grandes veículos, Park se via como um jornalista independente, sobrevivendo a base de alguns trabalhos de pautas que chegavam a ele ou que eram procuradas.

Alguns chamavam-no de homem decadente, que logo perderia o emprego pra um jovem mais ativo. Só que aí ele recebeu, ou melhor, estava recebendo a chance de contar uma história grande. Um esquema envolvendo lavagem de dinheiro e outras irregularidades em cassinos. O melhor de tudo foi que Bankov entrou em contato com ele e revelou parte do esquema que se mostrou ser verdade. Mas ainda havia mais a ser mostrado, muito mais. Park foi instigado e não se daria por satisfeito até conseguir extrair até a última seiva de informação. De vez em quando podia imaginar sua reportagem estampada nas capas dos principais jornais. O novo amigo desconhecido se mostrava ser a chave e única ligação entre esses mundos.

Bankov abriu a bolsa e retirou dela uma pasta com elástico. Em cima dela havia um pen drive colado com uma fita isolante.

— Bastante para um primeiro encontro, não? — Brincou o jornalista ao estender sua mão para pegar a pasta.

Porém, Bankov retirou sua mão, puxando o arquivo para si antes que o entregasse para ele. Tirou seus óculos e os guardou no bolso da calça.

— Isso aqui não é nada. — Ele balançou o item próximo de seu rosto. Segundos depois finalmente entregou ao jornalista — Tem muita lama para ser escavada, senhor Park. — Sorriu.

Ryan encarou o homem que viu pela primeira vez após algumas conversas. Se mostrava natural, como se arriscar sua vida ao revelar documentos como aqueles não tivesse importância. Bankov olhou para a pasta o que fez o velho retornar sua atenção ao objeto.

— Me desculpe a pergunta, mania de repórter, mas por que está fazendo isto? — perguntou ele ao abrir a pasta. Logo se viu admirado por observar tais documentos.

— Eu tenho meus motivos, só não convém dizê-los a você. — Frio como a temperatura, Bankov respondeu sorrindo.

— Certo, certo. Entendi. — Para disfarçar Park soltou uma breve risada, depois fechou a pasta — Desculpe-me se te deixei desconfortável.

— Não se preocupe. — O homem mais jovem retirou do bolso da jaqueta um objeto reluzente. Era um relógio dourado, um pouco envelhecido pelo tempo. Atentou para a hora: 10h55min.

— Precisa ir? — Park guardou a pasta em sua bolsa.

— Tenho mais um tempinho. — Assentiu ao guardar o objeto no bolso.

— Analisei com cuidado as informações que você me passou antes.

— Existem muitos figurões da política envolvidos nisso. — Bankov se adiantou — Política, empreendedorismo, esporte... Isso é só a ponta do iceberg, senhor Park. Com o tempo nós dois não vamos mais trocar conversas e o senhor vai ter que nadar sozinho.

— Eu entendo. — Ryan estava sério, mas no fundo uma onda de euforia o invadia. Em breve seu trabalho seria novamente reconhecido.

Bankov falou sobre outros detalhes dos arquivos que passou para o jornalista. Não falou explicitamente, mas deu sinais sobre nomes importantes do mundo dos negócios. Era quase uma conversa informal entre novos amigos ou colegas de trabalho que apresentavam certa sintonia.

Outra vez, Bankov retirou do bolso o relógio e observou as horas. Park notou como ele parecia estar com pressa, então pensou em finalizar a conversa.

— Tenho certeza que seu nome vai parar nas notícias. — Afirmou convicto o homem mais jovem enquanto guardava o relógio. Depois abriu sua jaqueta aos poucos.

— Obrigado. Devo isso a você. — Ele sorriu, já na intenção de se aproximar dele para apertar-lhe a mão.

— Espero que você fique bem na mídia quando noticiarem sua morte.

Na mesma hora Park franziu o cenho. Não podia imaginar que um homem daquele fosse do tipo que contasse piadas, ainda mais daquele tipo.

— O que disse? — questionou-o enquanto observava-o por a mão dentro da jaqueta.

Só que Ryan não teve mais tempo para nada. Assim que terminou de falar, viu sair da jaqueta de Bankov um objeto longo que brilhava tanto quanto o relógio. Bankov carregava um punhal em sua mão, e como um demônio, partiu para cima do velho que mal conseguiu dar meia-volta para tentar fugir.

Bankov segurou-o por trás fechando pressionando sua boca com a mão. Em seguida desferiu um golpe em seu peito. Foi um golpe profundo. O máximo que Ryan conseguiu foi lançar um grito abafado. Mas não havia ninguém num raio de quilômetros. Tudo que tentasse fazer seria inútil.

Após desferir outro golpe contra o jornalista, Bankov o derrubou no chão, ajoelhou-se e continuou a atacá-lo sem dó. Até tirou seus óculos para observar a cena com mais clareza. Atentar para os olhos aterrorizados do velho que imaginou sua carreira decolar novamente. O olhar de um homem com a carreira em decadência que viu sua vida ser arrancada de forma tão brutal.

A cada golpe o sorriso de Bankov parecia se tornar maior. Ele podia sentir a adrenalina correr em seu sangue. Um mês depois do último ataque sua sede por sangue se tornava maior. Sentia-se até injustiçado por ter que fazer aquilo somente uma vez a cada trinta dias.

Nove... dez... onze.

No décimo primeiro golpe, o homem enterrou o punhal no coração de Park, já sem vida. Seus olhos estavam abertos, imprimindo seu estado nos segundos finais de sua vida. Olhos arregalados, de um velho ganancioso ou insistente demais que perdeu a vida fazendo o que mais gostava: investigando. A curiosidade matou o gato, o velho gato.

Parte da jaqueta escura de Bankov foi coberta pelo sangue assim como seu rosto. O cheiro do sangue invadia suas narinas e o fazia recobrar dos eventos anteriores. Se pudesse ficaria mais tempo ali. Só que tinha de ir embora e continuar com sua vida. Entretanto, o trabalho não terminou. Bankov aproveitou a poça de sangue que se formara e escreveu em sua testa a hora de sua morte: 11:00. Em teoria, tudo já estava pronto, só que o homem mais jovem quis deixar outro recado. Abriu a pasta de Ryan a procura de sua caderneta, fez uso da mão da vítima e escreveu algo numa folha em branco. Guardou o bilhete na bolsa e fechou-a. Encarou uma última vez o corpo sem vida do velho. Sorriu brevemente.

— Seu tempo acabou.

Notas finais
É isso! Vamos destrinchar esse capítulo. Primeiramente a escolha de "Bodes num bote" se refere à música lá como falei antes. Seu significado relacionado ao título da música, um de muitos, fala sobre bodes — que são animais independentes — serem obrigados a dividir um pequeno espaço, ou seja, Grissom e Sara são esses bodes. Duas pessoas com uma relação abalada sendo "obrigados" a trabalhar juntos e dividirem espaço, tanto físico quanto profissional. Essa música também fala sobre a questão de integridade e ambição, o que faz relação com metade do capítulo pra baixo, no momento em que vemos Ryan conversar com o Bankov acerca de um caso no qual ele estava disposto a arriscar a vida pra conseguir uma reportagem. O outro nome "Onze motivos para resolver esse caso o quanto antes" já se explica por si só, não é? Pelo visto a Sara decidiu que o Grissom poderia voltar ao caso. Mesmo implícito, foi uma decisão difícil pra ela, tendo que escolher algo delicado em meio a todo esse caos e o momento conturbado da relação que passava com o Grissom. Pois bem, ela escolheu e agora tem o sargento de volta. Não tá sendo algo fácil, mas acreditem, eles vão se entender (ou essa não seria uma fic GSR *risas*) O Ryan caiu direitinho na armadilha do senhor Bankov. As informações que ele conseguiu com essa fonte misteriosa eram verdadeiras, se liguem nisso. Essa história ainda vai dar o que falar. Nossos policiais favoritos já tem um novo destino. Muito obrigada a todos que leram! Um grande beijo e até o próximo capítulo ♥