Manhunters
80 50%
Notas iniciais
O trânsito não estava ajudando. O caminho que levaria uns vinte minutos aproximados se estenderia por mais tempo.
— Droga. — Ele bateu as mãos no volante de leve. Precisava chegar em casa o quanto antes para cuidar logo de Sara. O interior de um veículo não era um lugar apropriado para se fazer isso.
Ao parar o carro na espera do pequeno engarrafamento naquela via melhorar, o sargento olhou para o lado para saber como ela estava. Ao contrário de antes, estava imóvel e isso não era bom.
— Querida. — Grissom balançou em seu braço algumas vezes — Não durma ainda.
Sem resposta inicial ele tentou outra vez.
— Hã? O que foi... — A mulher respondeu irritada após suspirar.
— Aguente firme, estamos quase chegando. Não durma.
— Ah... — resmungou, ajeitando-se novamente no banco ou pelo menos tentando se ajeitar. Depois se virou para ele — Onde você tava...? Ainda trabalhando? — Foi sarcástica.
— Estava conversando com... Heather.
Ela virou a cabeça ligeiramente para o lado.
— Sempre ela, né? — resmungou — Vai sempre se... refugiar nela.
Grissom ficou quieto. Mesmo que estivesse embriagada, pôde notar certo ciúme vindo de sua parceira. Se falasse algo poderia se complicar, então deixou passar.
Depois de mais de meia-hora enfrentando o trânsito, os dois chegaram enfim à casa de Sara em Henderson. Grissom parou o carro frente à casa dela, mas não o desligou na intenção de entrar com ele na garagem.
— Sara. — Ele se virou para o lado e para sua surpresa notou que ela não se mexia — Sara, querida. — O sargento tocou em seu braço algumas vezes.
— Ah... o que foi? — Resmungona como antes ela moveu o ombro e tentou se ajeitar no banco. Acabou cochilando no meio do caminho.
— Chegamos. — Grissom retirou o cinto dele e dela, respectivamente.
Com dificuldade no foco, a detetive olhou para a direita onde reconheceu a fachada de sua casa.
— Obrigada. Agora... pode voltar ao que estava fazendo, não vou incomodar. — Ela tentou abrir a porta do carona, mas estava difícil.
— O quê? Não, eu vou ficar com você! — Ele estendeu a mão para a mulher — Pode me dar a chave da porta?
— Como é que é?! — Sara retrucou de modo alterado.
— Além de seu parceiro eu sou o seu companheiro e tenho responsabilidade em cuidar de você. — Ainda com a mão estendida o sargento foi firme.
Ela franziu as sobrancelhas. Com raiva entregou a bolsa para ele.
— Pode me odiar depois, mas agora me deixe cuidar de você. — pediu com sinceridade. Ele ficou um pouco chateado por ela o estar tratando como se fosse uma espécie de ex namorado.
Sara não respondeu.
Tinha de admitir que ficou envergonhado em ter que mexer na bolsa dela, ainda que fosse sua namorada. Para consolo a si mesmo, fazia isso por uma boa causa. Com todo o cuidado ele revirou o objeto; levou um susto quando sentiu o coldre da pistola. Sua imaginação o levou a diversas situações das quais envolvia Sara embriagada e aquela pistola.
Céus...
Depois de longos segundos de sofrimento Grissom achou o molho de chaves. Não ficou surpreso por não encontrar o controle da garagem; provavelmente estava lá dentro. Ligeiro, Grissom o retirou e entregou a bolsa para ela.
— Fique aí, eu já volto. — disse enquanto deixava o veículo.
Sara deu de ombros. Ficou virada para a janela à direita enquanto repousava a cabeça no vidro. Logo pôde ver o sargento entrar na casa rapidamente. Acabou enxergando seu reflexo no espelho do carona. Era quase um borrão. Se por fora esbanjava revolta com tudo e todos, por dentro estava chateada consigo mesma e não sabia o porquê. Tudo estava confuso, seu corpo, sua mente; a autonomia sobre sua voz e atitudes foi levada para longe. Sentia-se fraca, dependente. Ainda que estivesse incomodada com tudo aquilo que Grissom estava fazendo, por outro lado, não havia outra pessoa a quem ela gostaria por perto a não ser ele. Só não teria coragem de admitir isso no momento.
Grissom voltou num pulo assim que o portão começou a se abrir. Entrou no carro com meio sorriso no rosto.
— Vamos?
A mulher o encarou sem responder, fez apenas uma careta como se respondesse “e eu tenho escolha?”
O sargento deu a partida novamente e eles entraram na garagem; logo mais ele fechou o portão. Era um alívio que a casa dela tivesse uma garagem, assim não teriam o risco de alguém ver o carro de Grissom estacionado ali por muito tempo. Como antes, ele foi o primeiro a descer, abrindo a porta para ajudar sua parceira. Quando ela desceu após o primeiro passo acabou perdendo o equilíbrio, mas ele estava lá para segurá-la firme. Então ficou assim por algum tempo.
Sara estava tão chateada que se esqueceu o quanto amava ser coberta por aquele abraço e o quanto amava se sentir protegida. Só o abraço dele a fazia se sentir assim.
— Quase lá. — O sargento quase sussurrou.
Para a mulher aquilo estava estranho demais. Onde estavam os gritos e as reclamações que tanto esperava dele? Sua fala dizendo que era imprudente e infantil por ter se embriagado em plena segunda? Era uma paciência que talvez ela não tivesse com ele se fosse o caso.
— Vem. — Grissom fez um movimento para que ela o acompanhasse, não deixando em nenhum momento de sustentá-la.
A passos moderados eles chegaram à cozinha.
— Gil, eu... tô bem. — insistiu a detetive, tentando se afastar — Pode... pode ir...
— “Eu não vou te deixar”. Lembra? — Se bem que não adiantaria indagá-la sobre aquilo. O sargento esperou ela se afastar apenas por poucos centímetros e então a seguiu para não deixá-la perder o equilíbrio.
Cambaleando até a parede mais próxima, esta que separava a sala da cozinha, Sara se apoiou na superfície, tentando arranjar forças para sem ele. Lutava consigo para os olhos já um pouco marejados não desabarem em lágrimas. Todavia quem estava mais abatido era ele, vendo tudo aquilo sem ter o poder de “se esquecer”. Tentaria com todas as forças cuidar da mulher que amava, por mais difícil que fosse a tarefa.
Ao olhar para a pia, ele agiu rápido; pegou um copo vazio e o encheu com a água da torneira.
— Tome, vai te fazer bem. — disse estendendo o copo para ela, que no começo estranhou, mas como não teria outra escolha pegou-o com as mãos e tomou aos poucos.
— Pronto, feliz?
— Muito. Agora venha comigo. — Ele tocou em suas costas de modo delicado.
— Tá me levando aonde? — perguntou sem reagir contrariamente.
— Ao banheiro, pra você tomar um banho e trocar de roupas.
Depois de uma breve risada, Sara respirou fundo, virou-se e ficou frente a frente com ele. Apoiou a cabeça sobre a parede, mal conseguindo manter os olhos abertos. Ela não queria aquilo, gostaria apenas de se jogar na cama e dormir por doze horas seguidas. Estava quase desabando e com certeza não iria oferecer resistência.
Grissom baixou o olhar, mais precisamente direcionado para a perna esquerda. Cerrou os punhos por um instante e tomou uma longa respiração. Faria isso por ela. Ao tomar impulso, ele envolveu o braço dela em seu pescoço e a ergueu. Foi a primeira vez que fez aquilo com sua namorada.
— O que tá...!
— Levando você ao banheiro. — respondeu com dificuldade. Carregar Sara em seus braços fez a perna latejar novamente.
Ela resmungou algumas palavras, se é que poderia se chamar palavras. Só que aos poucos ela acabou se rendendo; fechou os olhos e se aconchegou em seus braços. Mesmo irritada, no fundo havia um sentimento bom naquele gesto.
— Arthur... — sussurrou.
— Hã? — Enquanto caminhava lentamente até o banheiro, Grissom ergueu uma sobrancelha. Ficou surpreso já que estava distraído se concentrando mais na dor do esforço que estava fazendo que nela.
— Por que... ninguém te chama de... Arthur? — Ela sorriu.
— Porque... — Pensando na resposta ele fez uma careta — eu não sei...
— É tão bonito... — Após dar uma risada, Sara tocou em seu peito, chamando a atenção do sargento.
— Obrigado. — Grissom abriu um breve sorriso. O humor dela mudou da água para o vinho em poucos segundos.
Quando os dois entraram, Grissom a pôs no chão com todo o cuidado possível e em seguida deixou um gemido de dor escapar. Forçou demais sua perna esquerda, mesmo que por poucos tempo e num trajeto pequeno.
— Pronto. — Rapidamente ele analisou o espaço de tamanho moderado.
O banheiro de ladrilho branco era simples, mas tinha uma banheira, opção além do chuveiro. Afinal, era uma boa casa. Uma pena ser um pouco longe da sua.
A morena levou a mão à testa e logo depois à boca. Pelo semblante dava para saber que algo não estava certo, além de tudo aquilo.
— Gil, eu vou...
Ele entendeu a mensagem na hora. Apressou-se como nunca e abriu a tampa da privada. Na mesma hora Sara se abaixou e vomitou dentro do vaso sanitário. Sem coordenação para se manter de pé, ela se sentou no chão e vomitou novamente.
Ver aquilo o estava matando aos poucos. Seu peito doía pela forma que via sua namorada sofrer com a embriaguez e que não tinha poder para acabar com aquilo como num passe de mágica. A única coisa que podia fazer era ficar ao lado dela em todo o processo de recuperação.
— Vai ficar tudo bem, Sara. — O sargento se agachou próximo a ela. Então se ajoelhou e tirou as mechas de cabelo da frente de seu rosto. Sentiu sua pele úmida quando desceu ao rosto; não sabia se era suor ou lágrimas.
A morena, que se apoiara nas bordas da louça, virou o rosto para ele e depois limpou a área da boca com a manga de seu terno. Seu olhar, vermelho, parecia dizer o contrário.
— Ainda me quer desse jeito? — Foi irônica. Ela passou o braço coberto mais uma vez sobre a boca. gosto que sentia na língua era terrível, nauseante, porém ela se segurou.
— Eu quero você de qualquer jeito, Sara. — Grissom se arrastou para mais perto dela e a abraçou por trás. Acabou se sentando também. Faltava pouco para as lágrimas caírem, mas o sargento resistiu, pensou que só pioraria as coisas entre ele.
Ele não estava por perto, todavia se sentiu culpado por algo que nem fez; apegou-se demais a ela. Envolveu-a num abraço apertado, mas não tanto para não prejudicá-la. Em silêncio os dois ficaram naquela posição por algum tempo.
— Você quer mesmo uma parceira — Ela aumentou o tom de voz — assim? Hein?
Em outras situações Grissom teria reclamado, surgido com um monte de sermões em sua boca e até mesmo pedido suspensão de um parceiro pego embriagado devido à responsabilidade que este carregava. Mas era Sara, sua companheira e a melhor parceira com quem trabalhou num caso daqueles. Se erguesse a voz para repreendê-la, então teria de gritar consigo mesmo repetidas vezes pelos seguidos erros que cometeu ao longo dos dias, meses, anos.
Depois de refletir sobre o questionamento ele respondeu de uma vez:
— Quero. — Tomando impulso ele começou a se levantar e ergueu-a em seguida — Mas eu quero você bem.
Sara fechou a cara novamente.
— Vamos, tire essas roupas. — Grissom montou a mão para ela — Não quer tomar banho com elas, quer?
— Ah... — A mulher deixou-se cair na risada enquanto tentava tirar o terno. Era a peça mais simples para se tirar, mas que ainda assim ela teve dificuldade; quando o fez, jogou-o no chão. Pelo visto ela levaria tempo demais para terminar, se é que conseguiria terminar.
— Espera, eu vou te ajudar. — O sargento deu um passo à frente, mas ela ergueu as mãos na tentativa de fazê-lo parar.
Com certeza aquele era um teste de paciência, o maior que ele enfrentou até o momento com sua parceira.
— Ou podemos ficar aqui a noite inteira. — Na medida do possível ele a confrontou.
Ela ficou quieta mais uma vez. Como não resistiu, ele achou que dessa vez ela tinha cedido. Então se aproximou dela e aos poucos começou a desabotoar sua camisa.
— Fiquei preocupado com você. — disse para não ficar em silêncio o tempo todo e deixar o clima pesado.
— É mesmo? — Ela não largou o tom ácido.
Grissom ergueu os olhos para a mulher. Não sabia o que dizer em seguida, a situação o deixou desconfortável.
— É. — Então terminou de abrir os botões. Por fim, retirou a camisa dela com cuidado e a deixou pendurada num gancho próximo.
No momento em que ele se afastou, Sara tentou retirar por conta própria, mas foi um desafio maior que terminou com outra decepção. Notando aquilo, Grissom se apressou em retornar. Ele pegou suas mãos delicadamente e as segurou firme.
— Sara. Você... confia em mim?
Quando perguntou aquilo acabou se deixando sorrir. Ela não estava em condições plenas para responder, mas de certa forma o sargento teve essa dúvida espontânea. Certo que Sara estava bêbada e por razão disto muitas de suas ações eram tomadas sob efeito do álcool, ainda assim ele foi tocado por isso.
Como estava fazendo, sem resposta, ela afrouxou as mãos e deixou-as livre para Grissom, que procurou por seu olhar, mas sem sucesso. Ele deixou isso de lado, enfim, e abriu o sutiã e o deixou junto do terno. Faltavam as roupas de baixo e as sapatilhas. O sargento se questionou se ela teria capacidade para fazer aquilo; não desmerecendo sua capacidade, mas ele queria evitar quaisquer acidentes e que ela se machucasse.
— Quase lá. — disse baixo enquanto a segurava pela cintura — Consegue tirar os sapatos?
Após um suspiro ela apoiou-se nos ombros dele e tirou as sapatilhas meio sem jeito, já era um começo.
— Pronto. Só falta isso agora. — Ele forçou um sorriso, mas não havia nada para sorrir. Então dirigiu as mãos até o botão da calça e a retirou em poucos segundos.
— Por que tá fazendo isso tudo? — perguntou antes na hora em que ele tocou no tecido da peça íntima. Mesmo com a voz um pouco enrolada ela falava sério.
Para a sua surpresa, Grissom continuou com o que estava fazendo. Ele retirou a peça e sem precisar pedir ela o ajudou nesse último passo. Quando terminou o homem se levantou e tocou em seu rosto com as duas mãos.
— Por que eu te amo. — Encarou-a por alguns segundos e em seguida beijou sua testa — Talvez você se esqueça de muita coisa que houve hoje, mas não quero que se esqueça disso: Eu te amo.
Ele passou os dois polegares entre seu rosto, acariciando-o lentamente.
— Eu não... mereço-
— Claro que merece. — Ele respondeu bem próximo de seu rosto. O hálito do álcool não o incomodava.
Grissom se afastou dela e entrou no box para ligar o chuveiro. Certificou-se que a temperatura não estivesse gelada para não causar choque térmico. Quando a água caiu ele pôs a mão na corrente e a verificou; estava morna, perfeita. Em seguida ele afrouxou a gravata e a tirou com pressa. Em seguida começou a desabotoar a camisa.
— Ei... — Sara o chamou com a voz fraca, chamando sua atenção — Tudo bem, eu me viro agora.
Pelo seu olhar ele não gostou da ideia. Grissom sabia que deixar alguém naquele estado era perigoso e ele não podia deixar sua companheira vulnerável.
— Desculpe. Eu não posso. — Ele balançou a cabeça, continuando a tirar a camisa.
Sara não gostou, pelo visto. O olhar reprovador ao menos indicava que ela tinha certa consciência do que estava acontecendo. Talvez ela se esqueceria de 90% dos acontecimentos daquela noite e aquilo foi um relento. Então tirou a primeira peça e a jogou no chão com rapidez. Em seguida foram os sapatos, as meias, e por último a calça; ficar com as roupas molhadas não seria uma boa ideia, então resolveu usar apenas a peça íntima.
— Virou minha babá é?
— É... — Sorriu de lado, depois se aproximou dela gesticulando para que entrasse no boxe.
Não foi uma tarefa difícil, porém não foi simples. Era a primeira vez que Grissom cuidava de alguém naquele estado e a primeira vez que teve que ajudar alguém a tomar banho. Não se sentiu tão acanhado por que era sua companheira, ainda assim havia certo receio de fazer algo errado ou como ela agiria depois. Ele teve cuidado, já ficaram juntos antes e por isso não foi algo impossível. De vez em quando pensava no que ela fez por ele quando foi baleado. Sara estava com raiva, é claro, e com todo o direito; mas ela esteve por perto. Depois de anos trabalhando sozinho e quando finalmente teve uma nova parceira ele a tratou mal, não esperava por isso.
— Pronto. — O homem fechou o chuveiro, ajudou-a a sair do boxe.
— Eu... — A mulher tentou argumentar, mas acabou se calando.
Grissom aproveitou a deixa, pegou o roupão e a vestiu. Depois disso ele vestiu sua calça rápido para sair junto dela.
— Vamos? — perguntou sorrindo.
Ela assentiu.
Sem pressa eles deixaram o banheiro. Ele perguntou onde ficava o quarto dela, que apontou a direção, mas logo se encolheu; começou a tremer. Nem mesmo o roupão a conseguia proteger do frio. Quando entraram no quarto dela Grissom acendeu a luz e ficou completamente perdido, mal sabia por onde começar. Antes disso deixou Sara sentada em sua cama.
— Bem... — Ele coçou a nuca.
— Perdido, sargento? — Brincou ela.
— É. Eu nunca vesti alguém antes. — respondeu no mesmo tom.
Aos poucos a morena deitou na cama e se ajeitou. Estava sonolenta e pareceu não querer sair dali tão cedo. Quando Grissom se virou para ela viu que seus planos seriam frustrados.
— Parece que... você não vai me ajudar, não é?
Ela riu. Já ele caminhou em sua direção e se agachou para ficar à altura.
— Tudo bem, querida? — Era uma pergunta um pouco absurda já que a resposta era óbvia, mas nada o impediu de fazê-la.
— Estou cansada. — Ela ergueu a mão para alcançar seu rosto.
— Eu também. — Grissom fechou os olhos ao sentir o toque em sua pele, depois pegou sua mão e a beijou. Apoiou-se sobre os joelhos, levantou-se e a cobriu com o edredom — Quer comer alguma coisa? — perguntou ele ao passar a mão sobre seu rosto.
Grissom pensou em preparar algo para ambos comerem, algo leve para ela é claro. Seu corpo manifestou a falta de comida depois de horas.
— Não... — Sara respondeu de olhos fechados.
— Tem certeza? Você não comeu nada.
— Fique comigo.
Mesmo alterada aquela voz mexeu com ele. Foram tantas palavras duras que recebeu de Sara, e agora ela estava... doce. Parecia que acordara do sono e ansiava por sua companhia para dormir novamente.
Sara tocou em sua mão e a envolveu sobre o rosto. A decisão era dele.
— Espera.
Ele se afastou dela e saiu com pressa do quarto. Correu até a cozinha e abriu o armário da pia, onde achou um balde pequeno. Aliviado por encontrá-lo rapidamente, Grissom voltou ao quarto e deixou o balde ao lado dela.
— Aqui, caso haja uma emergência.
— Vai ficar comigo? — Sara pediu desta vez.
Ela ainda precisava de atenção. Grissom sabia dos riscos que ela corria se ficasse sozinha. Assim como ele dependeu dela, agora era sua vez de fazer valer os 50%.
— Claro.
Mesmo sem a camisa, descalço e vestindo apenas a calça, Grissom subiu na cama com cuidado e ficou sentado, encostando-se no móvel. Antes, apagou a luz do quarto e deixou apenas o abajur do seu lado (esquerdo) aceso. Suspirou pelo cansaço.
— Sou terrível. — sussurrou ela logo em seguida.
Ele virou o rosto em na direção dela e deslizou a mão em seu braço. Não respondeu.
— Foi tão bom... — lamentou.
— Beber?
— Não deu pra resistir, era tão bom. Era... você entra num mundo mágico.
O sargento mudou o toque para seu rosto. Novamente ele afastou aquelas mexas para trás e aproximou-se mais dela. Sua voz estava embargada e a ainda havia traços evidentes da embriaguez, mas havia sentido no que disse.
— Você não entende. — comentou pausadamente — É... um buraco-negro que te puxa e você vai.
Ela ficou em silêncio. Preocupado, Grissom se inclinou para perto, quase se deitando ao seu lado. Quando acariciou seu rosto de novo, percebeu que estava molhado, não por suor, mas por lágrimas.
— Tô cansada. — lamentou mais uma vez.
— Você vai se recuperar.
A mulher tentou enxugar as lágrimas, mas logo reclamou.
— O que foi? — O sargento se abaixou para observá-la bem. Chegou a tocar em sua testa e pescoço para verificar a temperatura; estava um pouco quente, mas não febril.
— Tontura... minha cabeça...
— Melhor você descansar um pouco, querida.
Sara não respondeu, ele interpretou que a mulher aceitou o pedido quando respirou fundo e tentou se ajeitar na cama.
— Você tem que ficar de lado, Sara, ou pode passar mal. — Grissom a impediu de deitar virada para cima.
Pareceu ter ouvindo-a reclamar, mas ela não se manifestou explicitamente. Quando conseguiu deixá-la numa posição favorável, ele se afastou e deitou-se encostando a cabeça no travesseiro, podendo finalmente relaxar. Depois de suspirar por bastante tempo, virou o rosto para o lado. Não teria como relaxar por completo, deveria estar atento a ela até que tivesse certeza que o pior passou.
Desde o momento da ligação de Annastasia não havia mais nada para ele, apenas Sara. Grissom deixou o trabalho de lado, praticamente se esqueceu dele. Só pensava em tudo o que poderia acontecer de ruim à mulher que tanto amava. Ele não poderia cometer o mesmo erro duas vezes.
O sargento cobriu o rosto e lamentou em silêncio. Torcia desesperadamente para que não houvesse ninguém do departamento vendo Sara e usasse aquilo para prejudicá-la. Esse era o problema da vez. Se de alguma forma isso contribuísse para um afastamento definitivo do caso, seria o fim da linha para Sara. Ela, que queria tanto entrar para o FBI, veria a melhor oportunidade indo por água abaixo. Isso não podia acontecer.
Depois de alguns minutos variando entre fechar seus olhos e deixá-los abertos, ele virou o corpo em direção a ela e passou a mão sobre seu braço carinhosamente. Os dois sabiam que assumir um relacionamento romântico acarretaria desafios ainda maiores. Só não imaginava a dimensão de como eles seriam.
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De repente ele abriu os olhos. Acordou assustado, mas conteve seus movimentos. Deixou que o sono o levasse e acabou cochilando um pouco. Não queria aquilo, queria ficar acordado por mais tempo enquanto vigiava o sono de sua companheira, mas o cansaço foi mais forte. O abajur ainda estava aceso, ele aproveitou a fonte de luz para saber como ela estava.
Com cuidado, o sargento se apoiou na cama e se ergueu para observar Sara, que dormia sem problemas. Ele respirou aliviado. Um deslize e uma pessoa bêbada podia vomitar se engasgar com o próprio vômito se as medidas necessárias não fossem atendias. Ela parecia bem, talvez o efeito do álcool a tenha sedado; talvez, não, era óbvio.
O susto inicial havia passado, mas ele não estava satisfeito. Resolveu levantar e preparar alguma coisa. Já estava com dores de cabeça pela falta de alimento, mal sabia que horas eram e ainda estava sem camisa. Quando se levantou ele caminhou para perto dela para fazer uma última verificação antes de sair. Cobriu-a melhor para protegê-la do frio, apagou a luz do abajur e deixou o quarto.
A primeira coisa que pensou em fazer: tomar um banho. Como não tinha escolhido uma muda de roupas para deixar na casa dela, teve de improvisar. Grissom se lembrou que havia uma camisa e uma gravata deixadas no carro para emergências, tais quais um comparecimento no júri ou um algo que envolvesse sua camisa ensanguentada. Então partiu em direção à garagem, porém, o som da chamada no celular o fez mudar de destino na mesma hora antes mesmo de chegar à cozinha. Grissom não queria falar com ninguém naquele momento, mas não podia se esquecer que qualquer ligação poderia ser importante, dependendo do que se tratava.
Quando se aproximou com pressa até a mesa, lugar de onde havia deixado o terno, Grissom foi logo pegar o celular; porém, quando em mãos, a chamada foi encerrada.
— Merda! — resmungou pressionando o aparelho sobre a mão esquerda.
Só que a raiva logo se abafou. Antes mesmo de verificar o número de quem o ligou, o celular tocou novamente. Ele atendeu a ligação com pressa:
— Como ela está? — perguntou a voz ansiosa. Voz essa que ele reconheceu após três segundos.
— Annastasia.
— Como a minha irmã está?! — questionou-o, dessa vez aumentando tom.
Ele se cansou de esperar alguma cordialidade.
— Chegamos em casa há pouco tempo. — Só respondeu porque Annastasia era irmã de sua companheira e porque se não fosse por ela, Grissom provavelmente estaria na mansão de Heather — Ela não está muito bem, chegou a vomitar, mas nada além disso. Estável, eu diria.
— Onde ela tá?!
— Está no quarto, dormindo.
Os dois ficaram em silêncio.
— Eu devia estar aí com ela.
— Eu estou cuidando dela, Annastasia. — Ele retrucou impaciente — Não precisa se preocupar.
— Claro que eu preciso me preocupar! Ela tá aí sofrendo por sua causa!
Ele aspirou e cerrou o punho esquerdo. Se já não bastasse a dor de cabeça que ia aumentando, tinha que aturar ser acusado cruelmente.
— Minha causa?! — Ele ergueu a voz, mas não chegou a vociferar. Se antes tentou disfarçar a irritação com ela agora deixou claro.
— Sara estava tão ansiosa para ir a Vegas e trabalhar com o cara que conheceu há alguns anos que ficou cega. Pra ela estar assim coisa boa não aconteceu entre vocês dois.
Ele franziu as sobrancelhas, mas voltou ao normal logo. Não podia negar aquilo; o que mais houve entre os dois nas últimas semanas foram discussões, e até mesmo quando ficaram juntos essas discussões ocorreram. Isso era cansativo demais.
— Tivemos nossos desentendimentos, sim, mas eu nunca a machucaria de propósito. Eu amo ela!
— Ah... Então é verdade... vocês tão juntos.
Grissom engoliu em seco. Imaginou que ela já soubesse daquilo por intermédio de sua irmã então foi pego de surpresa. Agora já era tarde.
Céus...
— Olha. — Ele virou o corpo de lado e tocou na testa — Eu amo a Sara e faria tudo por ela, ouviu? Você não sabe o quanto eu estou... — Aos poucos foi se calando.
— Está o que?
— Sofrendo com isso. — Grissom falou tão baixo que mal teve certeza se ela ouviu.
— E como acha que eu tô? Sabendo que ela tava sozinha correndo o risco de... Ah! Esquece.
Se teve uma coisa que os dois concordaram foi do risco que a detetive enfrentava naquele estado. Talvez fosse a única coisa que ambos tinham em comum: o amor por Sara.
— Melhor terminarmos essa conversa. — adiantou Grissom.
— É... concordo.
— Fale com Sara quando ela estiver melhor.
— Tchau. — disse Annastasia, encerrando a ligação na mesma hora.
Ao menos ela se despediu.
Depois daquela ligação descobrira que arranjou uma inimizade e logo com quem, a irmã de sua namorada.
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De volta ao rancho. Era hora de dormir; quase todas as luzes estavam apagadas, quase todas. Detalhe para os abajures ainda ligados no quarto principal. Na cama a mulher lia atenciosamente ao livro que capturou sua mente desde a manhã do dia. Ao mesmo tempo que lia ela esperava pela chegada do marido, que passou um bom tempo no banheiro. De vez em quando seu olhar se fixava naquela porta à sua esquerda imaginando o que pudesse se passar naquela mente. Os dois não terminaram o jantar muito bem, qualquer um que prestasse atenção iria perceber o clima um pouco pesado ali. Ela temeu que o filho fosse afetado de alguma forma.
E então a porta foi aberta. ****** saiu dali e em silêncio subiu na cama, porém ficou sentado apoiando seus pés no chão. Ele ficou naquela posição por um minuto inteiro, variando entre apoiar-se sobre as pernas e ficar ereto.
— ******. — Ela o chamou.
— Não precisa falar nada. — respondeu na mesma hora tão frio quanto o tempo.
****** suspirou e ergueu a cabeça para o alto. Ele não gostou nada do comentário da esposa naquele jantar. O dia já não estava dos melhores e aquilo o deixou ainda mais desconfortável.
— Eu não falei com ele ainda, ok?! — ****** falou rígido no momento em que se virou para ela — Não estou pronto para isso.
— Você disse que-
— Eu não consegui, ******! — Ele retrucou — Você não ouviu? Apareceu um monte de problemas pra mim agora e não estou com cabeça pra essa conversa. — Ao término ****** pôs a mão na nuca e moveu o pescoço para o lado na tentativa de aplacar a dor — Fale com ele se quiser.
Prestes a se deitar, ****** mudou de ideia na última hora; levantou-se e desligou o abajur. Sua esposa, que já havia fechado o livro e o deixado no criado-mudo, ficou o observando um pouco perplexa e sem saber o que dizer com medo que criasse uma discussão.
— Vou dormir em outro quarto. Boa noite, minha querida.
Ele mal encarou o rosto da mulher. Calçou seus chinelos de quarto e saiu dali sem hesitar.
****** não foi para outro quarto, em vez disso, seguiu para o escritório que por muitas vezes sempre era seu refúgio. O homem, que não era bobo, guardava as chaves sempre consigo, não importando qual era a ocasião ou as roupas que vestia.
Ele retirou as chaves do bolso da calça de dormir e destrancou a porta. Acendeu a luz, fechou a porta com a chave, e tratou de ligar o computador. Ele se acomodou na cadeira e ficou tamborilando os dedos no braço do móvel enquanto esperava impaciente para o computador estar disponível para uso. Enfim, ****** soltou um suspiro quando finalmente pode usá-lo.
De repente ele cobriu o rosto com as mãos e resmungou algumas palavras incompreensíveis, se é que eram palavras. ****** estava nervoso, agitado; se pudesse gritaria bem alto, mas os presentes na casa eram seu obstáculo.
Dentro da sua gaveta ****** pegou um pen drive criptografado que trouxe anteriormente consigo quando chegou recentemente. Ele colocou no computador e digitou a senha, o que permitiu acesso ao conteúdo do dispositivo. Ainda assim, nada o impediu de continuar demonstrando sinais de ansiedade. Ele batia os pés rapidamente como se nunca fosse alcançar o que desejava.
Algumas pastas adentro depois e sem erro, ****** acessou o que gostaria.
Nada substituía a chance que teve de encontrar aqueles dois. Fotos, vídeos não eram nada. Nada poderia substituir a chance que teve de olhar bem nos olhos deles conversar com eles.
— Mas...
Aqueles olhos escondiam segredos que ele daria tudo para descobrir. Em quase todo o momento ele pensava e pensava... e pensava naquele olhar distante. Talvez estivesse obcecado porque sabia que era objeto de procura, mas ele também tinha o direito de conhecer aquela pessoa. Uma troca justa.
Ele cobriu o rosto novamente e rangeu os dentes. Inclinou o tronco para frente e encarou aquela foto com olhos ardentes e ávidos. Sua inquietação não o deixava dormir direito, tampouco descansar. Ele queria mais, muito mais. Faltava pouco para saber quem era aquela pessoa de verdade.
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