Maneiras
1 Capítulo Único: Maneiras
Notas iniciais
Maneiras
Era mais uma daquelas tardes ensolaradas e calmas de Karakura. Muito comum. Tirando o fato que depois de dezessete — longos — meses Kuchiki Rukia estava ali novamente, quase nada havia mudado. Até certo ponto isso era bom... Já havia se passado um mês desde que ela chegara, e todo aquele problema dos fullbringers e blábláblá fora parcialmente resolvido.
Foi um pouco esquisito no começo. Claro que Kurosaki Ichigo estranhou o comportamento inicial da jovem Kuchiki. Afinal, ela agia como se a última vez que haviam se visto havia sido ontem. Mas decidiu deixar isso de lado, pois outra coisa estava ocupando sua mente, obviamente envolvia a pequena shinigami.
Não dava pra continuar da mesma forma. Ele já não conseguia mais encará-la e saber que não a tinha, era muito difícil tentar esconder o enorme afeto que sentia por ela e faria alguma coisa para arrumar tudo isso imediatamente. Decidiu nessa mesma tarde que falaria com Rukia e finalmente colocaria as cartas na mesa, seria tudo ou nada.
Como de costume lá estava a morena, deitada no chão de barriga pra baixo, desenhando aqueles coelhinhos feios e mais algumas baboseiras que o ruivo não prestou muita atenção. Enquanto ela desenhava os coelhos bobos, Ichigo só pensava em uma maneira de fazer aquilo.
“Como eu irei fazer isso? Diabos!”, pensou Ichigo, passando a mão nos cabelos arrepiados.
— O que é, Ichigo? Já faz minutos que você está inquieto desse jeito. Isso está me irritando — reclamou, fitando-o.
”Merda, merda, merda! O que eu falo?”
— Eéer... O que você acha de irmos tomar um sorvete. Está muito calor e...
— Tudo bem, Ichigo. Mas só se você pagar — concordou com um sorriso divertido, que fez o ruivo corar levemente.
— Você é uma baixinha aproveitadora! — retrucou e virou o rosto para esconder o rubor que tomava conta de seu rosto.
— Você é idiota? Aliás, por que eu pergunto? Você me convida e ainda me chama de aproveitadora? Tudo bem então! Não vou mais! Tangerina podre! — Emburrou-se e virou a cara assim como ele.
— O que você disse? — perguntou irritado pelo insulto barato.
— Tan-ge-ri-na Po-dre! — soletrou só pra irritá-lo ainda mais, o que funcionou, já que ele possuía uma veia saltando da testa.
— Oras, sua baixinha dos infernos! — Estreitou os olhos dando início aquela boba discussão.
— Mentiroso! Eu cresci três centímetros! TRÊS! — gritou, colocando três dedos na cara de Ichigo.
— Não coloque a mão na minha cara! — berrou de volta com raiva.
Em pensar que um simples convite para tomar sorvete acabara em chutes, socos, pontapés, arranhões e puxões de cabelo. Quem via até achava que era briga de casal, e realmente parecia que era isso. Depois de longos cincos minutos, caíram no chão um ao lado do outro esfolados, cansados, suados e derrotados.
— Tudo bem. Eu pago — declarou o ruivo derrotado. — Vamos, antes que eu desista.
Rukia limitou-se a murmurar um “tá”.
Depois de uns dez minutos de caminhada em pleno silêncio até a sorveteria, finalmente a morena decidiu quebrar o silêncio:
— O que há com você hoje, Ichigo? Você está estranho! Aconteceu algo? — perguntou com sincera preocupação, que chegava a transbordar dos olhos violáceos.
— Hum. Não é nada. Vamos tomar logo esse sorvete e ir pra casa — tentou enrolá-la, e ela obviamente não caiu na embromação do rapaz.
“Coragem, Ichigo! Coragem! Você não a chamou aqui pra falar justamente isso?! Então? Coragem!”, Ichigo repetia para si mesmo.
— Rukia... — chamou com receio e depois colocou mais uma colher de sorvete na boca.
— Hum? — murmurou de boca cheia.
— Preciso te dizer uma coisa... — voltou a dizer, olhando-a diretamente nos olhos.
— Humhum — tentou falar algo com a boca cheia, o que não deu muito certo. — Tá, pode falar. Tô escutando.
— É que... Sabe... Eu amo você.
E bem na hora que ele disse as palavrinhas que podem destruir ou construir a vida de alguém, um carro passou com um alto-falante no volume máximo, reproduzindo uma música muito estranha.
— O que você disse, Ichigo? Eu não te ouvi! — Rukia tentou falar ao meio daquele som bizarro que continuava alto.
— Eu disse que eu amo você. Entendeu? — repetiu mais alto, pra que Rukia ouvisse.
— O que? Não estou te ouvindo, Ichigo! — a morena disse chegando mais perto, para poder ouvir o “amigo” melhor.
Perdendo a paciência com aquilo tudo, fez apenas um gesto de desdém com as mãos juntamente com um murmúrio de “depois te falo” que foi seguido de um manear de cabeça da morena.
“Céus! Como eu vou falar isso agora? Maldito carro de som!”
Saindo da sorveteria, começaram a andar na direção de casa. Rukia andava na frente eufórica, dando alguns saltos algumas vezes, sorrindo e olhando para trás para ver se Ichigo estava a acompanhando. O que era retribuído de um jeito um tanto desengonçado, já que Ichigo não sabia lidar muito bem com essas coisas.
“Fale agora! Fale agora idiota! Agora!”
— Rukia. Lembra do que eu estava falando na sorveteria? — perguntou com tranquilidade fingida.
— Sim. Que você queria me dizer alguma coisa. O que era? — replicou, parando de frente para ele.
— Eu queria dizer que eu te...
Novamente, um maldito carro passou. Mas dessa vez passara a toda velocidade por uma poça de lama e água, deixando-o todo encharcado e por pouco Rukia não ficara no mesmo estado. Dando se conta da situação, Rukia explodiu em uma deliciosa gargalhada sem tentar sem conter, o que deixou o ruivo furioso.
— Pare de rir, nanica! Está rindo porque não foi com você! — berrou em plenos pulmões.
— Claro. Que. Estou. Rindo — falou com dificuldade entre as risadas. — Você está patético, Ichigo! — E caiu em mais uma onda de gargalhadas.
— Tsc. Quer saber? Desisto. Chega disso. Vou pra casa, tomar um banho e colocar essa droga de roupa pra lavar antes que manche.
“Mas que merda! Tudo que não podia acontecer hoje, aconteceu! Mas desisto! Deixa isso pra outro dia!”, Ichigo pensou frustrado.
Andou mais rápido deixando Rukia para trás, já que suas pernas eram maiores caminhava bem mais rápido que a morena, que naquele momento, decidiu ignorá-la, porque ela continuava rindo do seu estado “baby, o porquinho”. Fora assim que ela o chamara antes de chegar em casa e também ameaçou que iria gritar no meio da rua o novo apelido se ele não a esperasse.
Subiu as escadas mal respondendo as perguntas de Yuzu e entrando no quarto já tirando a camisa, pouco se importava se Rukia estaria vendo ou não. Estava irritado e frustrado, então tanto fazia. Talvez mandasse um bilhetinho, ou até mesmo um e-mail — que evitaria tamanho trabalho e confusão. Olhou para trás e se deparou com Rukia encostada no batente da porta. Viu ela o analisar por inteiro e foi impossível um rubor não tomar conta de suas bochechas.
— O que foi? Já não me zoou o bastante por hoje? — reclamou na tentativa de disfarçar o nervosismo e a vergonha que tomavam conta de si.
— Vim dizer que... Eu também — declarou com um sorriso, um pouco corada.
— Você também o quê? — perguntou sem entender, já que Kurosaki Ichigo era um poço de rapidez quando se tratava de entender certas coisas.
— Você sabe! — a morena disse e fechou a porta em seguida.
— Espera! — pediu, mas a Kuchiki já havia saído. — Eu sei? Hum... Eu sei? — parou pra pensar um pouco e se tocou minutos depois. — Eu sei! Rukia! Espera aí!
E desceu as escadas correndo, segurando a camisa lambuzada de lama, disposto a finalmente ter direito aquilo que sempre o pertenceu, mas ele apenas não sabia.
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