Mamãe, Quem Apagou A Luz?
1 Capitulo Único
Notas iniciais

Mamãe, Quem Apagou A Luz?
“Os olhos são cegos, é preciso ver com o coração”. — Antoine de Saint-Exupéry.
Lily Luna Potter era muito bonita. Seu cabelo ruivo e liso parecia estar em chamas quando o sol batia nele. Seus olhos verdes como esmeraldas expressavam a sua inocência infantil. Seu rosto pálido era repleto de sardas alaranjadas.
A menina de apenas cinco anos via o mundo de uma forma colorida e repleta de esperanças, mas tudo mudou em questão de minutos.
Seus pais tinham que ir no que devia ser um projeto de ciências do seu irmão Albus (ela não tinha a certeza do que era, afinal, era nova demais para compreender, mas acha que era isso). Ela devia ter obedecido a sua mãe e não ter mexido nos produtos químicos que estava na mesa dos alunos mais velhos. Mas ela, que era curiosa além dos limites, acabou derramando um produto de cor amarelada. O liquido acabou caindo em seu rosto.
Seus olhos arderam e Lily fechou os olhos. Por que doía tanto, ela não sabia. A dor era demais para ela conseguir abrir os seus olhos, pareciam que estavam queimando.
— Mamãe! – ela choramingou em plena escuridão, esfregando os olhos na tentativa de melhorar. – Mamãe, ‘tá doendo!
Junto com a voz preocupa de sua mãe, veio também o som de passos:
— Lily, meu amor, o que aconteceu?
Sua mãe a carregou. Lily, sabendo disso, enterrou a cabeça no ombro dela, a abraçando fortemente, como se abraçar a a sua mãe fosse a solução do problema.
— Eu derramei uma coisa amarela nos meus olhos. – Lily choramingou novamente. – Mamãe, ‘tá doendo muito, mamãe…
— Não se preocupe, princesa. – essa foi a voz de seu pai. – Logo vai passar a dor. Durma um pouco, vemos isso em casa.
Lily era uma boa menina. Lily era obediente. Talvez fosse pela dor ou pela esperança que as palavras de seu pai passaram, mas ela dormiu, esquecendo toda a dor que o liquido amarelo havia lhe proporcionado.
***
Quando Lily abriu os olhos, a dor parecia ter passado. Ela sabia que estava no seu quarto, pois sentia o seu macio e sedoso lençol. Tateou a sua esquerda e sentiu algo felpudo. Com certeza era o seu gatinho de pelúcia, o Bichento (sua tia Hermione havia ajudado a dar o nome dele).
Ela, com muita cautela, sentou-se na cama, procurando onde estava o chão para conseguir se levantar, ainda abraçada a Bichento. Precisou andar se apoiando nas paredes, e quase caiu ao tropeçar no que devia ser um brinquedo.
Lily estava com medo. Afinal, por que tudo estava escuro? Por que ela não podia ver nada? Será que ainda estava de noite?
Com muita dificuldade, ela abriu a porta e conseguiu se locomover até a sala de jantar, tateando as paredes em busca de algum apoio. Conseguiu ouvir o barulho de seus pais e seus irmãos falando. James falava animadamente sobre Quadribol, junto com o seu pai. Sua mãe reclamava sobre como seu pai era desorganizado, e Albus choramingava sobre James ter pego o cereal dele.
— Mamãe? – ela chamou na escuridão, esperando alguma luz. – Papai? Vocês estão aí?
— Lily, princesa, o que houve? – perguntou a sua mãe, parecendo preocupada.
A ruivinha tateou a parede mais uma vez, na tentativa de se locomover, mas só achou uma superfície áspera. Talvez fosse a mesa de jantar. Sabia que algumas lágrimas escorriam por seu rosto, e se segurava para não explodir em soluços ali mesmo.
— Mamãe. – ela murmurou, piscando algumas vezes. – Mamãe, quem apagou a luz?
Após isso, foi um tumulto. Seus pais gritavam uns com os outros e com os seus irmão também. Sua mãe também chorava, ela percebeu isso. Lily começou a chorar. Por que estavam todos reagindo daquela maneira? Por que sua mãe estava chorando? Por que estava tudo uma completa escuridão?
— Não chore, ruivinha, não chore. – ela ouviu a terna voz de seu pai tentando tranquilizá-la.
— O que está acontecendo? – ela perguntou, tateando o ar a procura de seu pai, mas não o achando. – Papai, por que está tudo escuro? Eu não posso ver nada!
Ele a carregou. Lily ainda chorava, desesperada, mas sentiu-se mais segura nos braços de seu pai, que acariciava os seus cabelos.
— Fique calma, Lily. – ele murmurou, parecendo triste. – Não se preocupe, tudo bem? Veremos isso quando chegarmos no hospital.
Lily não queria ir para o hospital. Ela queria ficar em casa e brincar com os seus brinquedos, como sempre fazia. Talvez até mesmo chamar uma de suas primas, que iriam brincar de casinha ou jogar Quadribol com ela e seus irmãos.
Ela só queria voltar a ver o mundo da mesma forma de antes: colorido e repleto de esperança.
***
Lily estava cega.
Ela não sabia ao certo o que queria dizer, mas parecia ser bem ruim. Ela não tinha a certeza do que eram pessoas cegas, mas já havia visto uma menina assim na sua sala de aula. Ela usava óculos de sol. Lily achava que ela tinha óculos legais.
Parece que o liquido amarelo que ela acidentalmente derramou nos olhos acabou causando aquilo. Ela não entendeu direito o que os médicos quiseram dizer com “estragou a sua visão”, mas parecia que estava relacionado com a sua cegueira.
Seu pai lhe comprou óculos escuros. Ela não tinha a certeza do por que de ter que usar o óculos. Sua mãe disse que era algo relacionado aos seus olhos. Uma mulher chamado Bella a ensinou como usar uma “bengala longa” para se locomover. Ela disse que com aquela bengala, ela não iria precisar tatear as paredes.
Lily não gostava de usar aquela bengala. Ela não gostava dos óculos escuros. Ela não gostava de não enxergar.
Lhe deram um cachorro. Lily ficou confusa. Afinal, passou um ano pedindo um cão, mas sua mãe dizia que um cão daria apenas trabalho. Por que ela ganhou um cão agora, então? Ela resolveu esquecer aquilo. A felicidade de ter um cachorro era maior.
Ela o imaginava grande, de pelos escuros e felpudos (afinal, foi assim que ela sentiu os pelos dele ao acariciá-lo). Seu pai disse que ele era um labrador, mas Lily não tinha a certeza de como era um labrador. Lily o chamou de Padfoot, por que o pelo dele era como almofadas.
Padfoot a ajudava a se locomover. Ele era o que podia se chamar de “cão-guia”, cães treinados para ajudar os cegos. Ele a acompanhava para todos os lugares. Lily segurava na guia de Padfoot, e deixava que ele a guiasse. Com Padfoot, Lily deixou de cair frequentemente ou de tombar em mesas, como fazia antes.
Lily confiava em Padfoot mais do que em qualquer outro ser vivo. Ela amava muito ele.
***
Com a idade de cinco anos, Lily estava aprendendo a ler. Ela se orgulhava de dizer letra por letra nas lojas. Mas ao ficar cega, ela precisou “reaprender”. Seus pais a enviaram para uma escola onde apenas pessoas como ela (pessoas que não podiam enxergar) estudavam.
Aprendeu a ler em braille. Foi um pouco difícil, mas em alguns meses, seu pai logo começou a comprar livros em braille para que ela pudesse ler. Lily fez amigos, também. Havia uma garota muito animada e feliz, chamada Antonietta (ou simplesmente Toni). Lily imaginava que Toni era muito bonita, sendo alta, com seus cabelo cacheado e inchado (como ela soube ao tocar no cabelo da menina) de cor loira e olhos azuis.
Lily não sabia que Toni era baixinha, gordinha, de cabelo escuro e olhos cinzentos. Para Lily, Toni era a menina mais bonita em todo o mundo.
— Quer dizer que você enxergava? – perguntou Toni com sua voz esganiçada, outro dia. – Que maneiro! Como você é?
— Meu cabelo era ruivo, eu tinha olhos verdes e sou baixinha. – explicou Lily. – Mas e você, nasceu cega?
— Sim! Mamãe é surda e papai é mudo. Eles me ensinaram a língua de sinais britânica, a BSL, e a americana também, a ASL.
— Tem como falar língua de sinais com cegos?
— Claro que sim! Como você acha que os cegos-mudos e os cegos-surdos se comunicam? Venha, eu te ensino.
Toni pegou as mãos de Lily e as moveu habilidosamente.
— Papai e mamãe fazem assim quando querem falar comigo! – Toni disse. – Vê? Esse sinal quer dizer “eu te amo” e esse quer dizer “neve”.
— Legal isso, Toni.
— Eu sei!
Lily ficou em silencio por alguns minutos antes de falar baixinho:
— Toni.
— Sim?
— Você acha que eu posso ter uma vida normal? Sabe, mesmo sendo cega?
— Claro que sim! Todos nós podemos! – o sinal que dizia que o recreio tinha acabado tocou. – Vamos voltar para a sala de aula. Não quero pegar outra advertência.
Lily riu, e Toni também.
Toni a ensinou BSL. Lily achava que poderia ser inútil, mas futuramente seria muito útil.
***
Alguns de seus primos estavam em sua casa naquele dia. James havia convidado Dominique, Victoire, Roxanne, Rose e Molly II. Eles discutiam animadamente sobre do que iriam brincar, mas pareceram cinco vezes mais animados quando Roxanne deu a ideia de jogarem Quadribol.
— Eu quero jogar também! – Ela exclamou, dando pulinhos.
Todos os seus primos (e os seus irmãos também) ficaram em silencio. Victoire foi a primeira a falar:
— Olhe, Lily… Nós gostamos de você, afinal, você é a nossa prima… Mas… Hum, como eu posso dizer isso…
— Você não pode brincar conosco. – Molly terminou a frase da loira mais velha.
O rosto de Lily se contorceu em uma careta triste.
— Mas por que? – Ela choramingou, decepcionada.
— Por que você é cega, Lily. – Dominique disse, com pena da mais nova.
Lily correu para dentro de casa, chorando. Passou a tarde desenhando na escuridão que era o seu mundo, tentando secar as lágrimas que teimavam em escorrer por seu rosto.
***
Ninguém da sua familia acreditou quando a carta de Hogwarts chegou em sua casa com o nome “Lily Luna Potter”. Nem ela mesma acreditou.
Desde que James foi para Hogwarts, Lily sentia um aperto em seu coração ao saber que nunca iria para Hogwarts. Pelo que seu pai disse, Hogwarts não tinha muita acessibilidade para deficientes físicos, visuais, entre outros.
Ela também sabia que, quando ia para a plataforma levar os seus irmãos, as pessoas olhavam torto para ela e apontavam. Não precisava enxergar para saber daquilo. Lily nunca seria aceita em Hogwarts.
Aquela carta era um milagre na sua vida.
Seu pai, junto com ela e sua mãe, foi visitar a Profª. McGonagall para acertar alguns detalhes. Lily tinha a permissão de levar Padfoot, da mesma forma que os seus livros seriam escritos especialmente em braille.
No dia em que foi levada até a plataforma, nunca se sentiu tão feliz.
Passou metade da viagem sozinha, lendo um livro, até que ouviu a porta da cabine se abrindo. Escutou atentamente uma pessoa entrando, e essa pessoa ficou em silencio. Tranquilamente, Lily perguntou:
— Quem está aí?
Seja lá quem entrou na cabine não respondeu. Eram em momentos como aquele em que Lily queria enxergar.
— Vamos lá, eu não mordo. – ela disse mais uma vez.
Silencio novamente. Ela estava quase desistindo de saber quem era, porém alguém pegou em suas mãos e começou a formar sinais da mesma forma que Toni fazia. Ela prestou atenção em cada letra que a pessoa formava.
— Lor... Can… Lorcan? O seu nome é Lorcan?
O garoto que se chamava Lorcan moveu as suas mãos, formando a palavra “sim”.
— Prazer em te conhecer. – Lily disse. – Você é mudo ou surdo? Ou os dois?
Lily não ouviu nenhum barulho, porém o garoto pareceu rir. Ele então começou a formar uma frase, movendo as mãos de Lily rapidamente, ao ponto de que ela conseguiu entender apenas uma palavra.
— Mudo? – ela perguntou. – Você é mudo? Ah, ‘tá. Meu nome é Lily Luna Potter. Acho que já deu para perceber, mas eu sou cega.
Lorcan pareceu rir mais uma vez, mas repentinamente pareceu ficar confuso. Começou a mexer as mãos de Lily mais uma vez, na tentativa de perguntar algo.
“Como você aprendeu BSL?”.
Lily riu.
— Uma amiga me ensinou. Mas então, Lorcan, você quer ser meu amigo?
Lorcan pareceu animado. Lily tinha quase a certeza de que um enorme sorriso se formou no rosto dele.
“Claro que sim!”.
Lily e Lorcan não tinham muitos amigos. Eles não teriam muitos amigos, porém os únicos amigos que teriam seriam valiosos e especiais.
***
Lily acabou parando na Lufa-Lufa. Lorcan também. Eles sempre andavam juntos. Lily tinha muita dificuldade em Feitiços e Poções, mas Lorcan estava sempre lá ao seu lado, a ajudando. Ele costumava pegar no seu pulso e a ensinar como se balançava uma varinha corretamente.
Pelo modo como os alunos riam dela nas aulas, Lily era muito estabanada para balançar a varinha. Uma vez, atingiu a si própria com uma azaração. Ela sempre iria corar, envergonhada, enquanto ouvia as gargalhadas dos outros alunos.
Lily descobriu que Lorcan tinha um irmão gêmeo, o Lysander. Lysander era surdo e era da Corvinal. Ele sempre ia tentar falar, mas mal conseguia falar algo que se conseguia entender, e acabava gritando. Lily iria apenas rir e pegar em suas mãos, dizendo que ele estava falando alto demais. Ele iria tentar pedir desculpas, mas iria gritar mais alto do que havia gritado e iria falar algo completamente incompreensível. Lily imaginava Lorcan corando e sorrindo, sem graça.
Lily muitas vezes se pegava imaginando como era Lorcan. Ela o imaginava como a sua tia Luna, a mulher que ela vira nas fotografias antigas de seu pai: com cabelos loiros, grandes olhos azuis e pele pálida. Ela um dia tocou em seu cabelo, descobrindo que ele era cacheado. Lily o imaginava como um anjo.
Hogwarts era legal, ela tinha que admitir, mas não era nenhum mar de rosas. Lily passava por muitas dificuldades relacionadas as portas e as escadas que se moviam. Precisava da ajuda de Lorcan em grande parte do tempo. As pessoas também se recusavam se sentar com ela nas aulas, sendo que Lorcan era sempre o seu companheiro.
Lorcan… Ele era uma pessoa muito especial para Lily. Ele não falava, mas Lily tornou-se a sua voz, sempre falando algo que ele não podia falar. Lily não enxergava, mas ele tornou-se os seus olhos. Com o tempo, aquela amizade pareceu ser algo mais.
Ela estava sozinha na Sala Comunal quando ele decidiu falar com ela. Parecia nervoso. Aproximou-se dela e pegou em suas mãos. Lily automaticamente prestou atenção nele, mas ele tremia tanto que ela não entendeu o que ele quis dizer.
— Lorcan, fale mais devagar. – ela disse tranquilamente.
Ele engoliu em seco antes de começar a mover as mãos dela mais lentamente. Lily franziu a testa.
— Você… Quer… Sair… Comigo. Você quer sair comigo? É isso que você quer me perguntar?
Lorcan moveu as mãos dela mais uma vez, formando a palavra “sim”. Lily riu e tateou os braços dele, a procura de seus ombros. Quando ela os achou, ela se levantou da poltrona onde estava, o abraçando. Lorcan parecia em choque.
— Claro que sim! – ela exclamou, rindo.
Depois daquele encontro, vieram mais outros. Depois, veio o namoro. Por fim, depois de Hogwarts, o casamento, onde Lily, depois de muito tempo, tirou os óculos de sol.
O mundo de Lily Luna Potter era colorido e repleto de esperança. Com o liquido amarelo, ele se tornou completamente escuro, de forma que ela se visse obrigada a usar a sua imaginação para tentar adivinhar como eram as coisas e as pessoas.
O mundo de Lily Luna Potter se tornou escuro. Mas a partir desse momento, a ruiva parou de enxergar com o seu olhar, mas sim com o seu coração.
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