Malígno
3 Capítulo 3
O Início
Após duas semanas de longos pensamentos e conversas internas comigo mesma, decidi que não iria procurar novamente àquela biblioteca. Vivi minha vida sem ela, e não era sem ela agora que não iria viver. E, ao que parece, meus irmãos perceberam a mesma coisa. Conseguimos, finalmente, voltar ao que éramos sem precisar de mais livros. Meus pais, finalmente voltaram da viagem que realizaram após o telefonema que receberam, e que foi o grande causador de uma dúvida cruel nas mentes de meus irmãos, além da minha.
Nossas vidas permaneciam as mesmas, até que uma hora se tornou monótona, estranha e apreensiva. Meus pais, mesmo presentes, viviam distantes. Meus irmãos, mesmo próximos, estavam dispersos, e minhas percepções, mais aguçadas. Me sentia como uma super-dotada. E adoraria se estivesse errada.
Em mais um de meus pesadelos, que se tornaram freqüentes, vi algo parecido com o que viria posteriormente. Vi caixões e ouvi gritos por socorro, vi mares de gente, detalhadamente nuas e de tamanho sofrimento, que era realmente preferível morrer. Basicamente o inferno em minha mente. E acordei aos berros de minha irmã, que parecia desesperada:
- Ammy?! Ammy?! Acorda?!- Ela gritava e me sacudia desesperadamente. Eu acordei no susto, de repente.
- Ah?! — olhei pra ela, que estava pasma de susto – O que aconteceu, Chistally, porque você está assim?
- Ammy, olhe só para você! – Pude me olhar com cuidado, e não acreditei no que vi. – Me diga, Ammy, o que aconteceu com você.
- Eu... Eu realmente não sei. – Eu estava completamente branca, suava como se tivesse uma cachoeira em mim, e em minhas mãos haviam facas, grandes e pontiagudas, além de eu estar envolta quase que por completo por papéis com o mesmo desenho, rasurado, recortado, sempre o mesmo significado em um desenho: morte próxima...
- O que significam esses desenhos, Ammy, porque você só desenha isso agora?
- Chris, não desenho isso porque eu quero, simplesmente desenho, sem controlar minhas mãos.
- Como? – Agora ela já esta sentada ao meu lado, na cama, e mais calma, também.
- Quando desenho, entro em um transe, e por isso, não sei o que estou desenhando.
- Não sei como isso acontece, mas você não deveria dizer isso à alguém?
- Não posso, prefiro descobrir sozinha. Não sei se é seguro.
- Você não desconfia de uma dupla personalidade?
- Não. Não posso ter isso.
- Mas...
- Não, Christally, não.
- Tudo bem, mas apenas fique esperta, nós nunca sabemos o que nos leva a fazer algo,principalmente se estamos inconsciente.
- O que você quis dizer com isso?
- Nada, Ammy, apenas durma agora. – E lá se foi ela, de volta a sua cama, e eu, à minha interrogação: O que está acontecendo comigo?
Após esse dia, tudo realmente mudou. E começou.
O desejo de Petterson
Na manhã seguinte, acompanhei sucintamente o que cada um de meus irmãos faziam, para se distrair ou para passar o tempo, que cada vez se tornava menor, sem que soubéssemos. Bem, como todos nós éramos fissurados pela leitura, não há muito o que dizer sobre os hobbs de cada um.
Mas, algo que vi me desesperou profundamente.
Petterson, meu pequeno irmão, caminhava distraidamente pela casa, quando de repente, parou na sala de casa, justamente na cadeira que ficava de frente para a biblioteca oculta. Ficou lá por bastante tempo. Parado. Fixo. De onde eu estava, dava a impressão de que ele nem piscava. Estava completamente inerte ao nosso mundo. Encontrava-se objetivamente fixado em sua vontade. Pude ouvi-lo dizer: “... Hoje eu preciso saber...”. Estava ansioso.
Ficou na mesma posição, com o mesmo olhar fixo por horas. Mas eu estava disposta a ficar dias para descobrir o que ele tanto queria no âmago de sua alma.
A noite chegou. Meus irmãos tinham ido dormir, menos Petterson. Olho no relógio, 2h da manhã.
Petterson dá o primeiro movimento de volta ao nosso planeta. Ao se levantar completamente, olha em volta, para ter a real certeza de que não há ninguém acordado na casa.
Ele tira o criado-mudo que estava encostado na parede que dava para a biblioteca. Começa a retirar o papel de parede. Realmente vi o brilho nos olhos dele ao tirar aquele papel de parede. Mas também, não dá pra ver muita coisa quando se está no armário em baixo da escada.
Enfim, como se estivesse possuído pelo desejo incontrolável de ver algo que só imaginava, Petterson abriu a porta, pequena e velha que dava para a biblioteca, e entrou sem fazer um ruído a mais, e sem olhar para trás.
Esperei durante uns dez minutos e enfim tomei coragem para segui-lo. Caminhei muito levemente até a porta, que por um erro de Petterson, estava aberta. Desci os degraus com mais cuidado ainda para não tropeçar e cair, para não fazer barulho e assustar Petterson e para tentar não me assustar com o que eu veria posteriormente.
Caminhei entre o corredor reservado daquela biblioteca, para evitar ser vista. O corredor passava do lado dos setores, mas era coberto por paredes de vidro fumê escuro, de onde quem está do lado de fora não pode te ver.
Mas, infelizmente, eu via, e perfeitamente, o que Petterson foi fazer naquela biblioteca.
Acompanhei os passos acelerados de Petterson até o setor “Suspense”.
Rapidamente ele virou de costas, pegou um livro e correu para a mesa no canto mais reservado da biblioteca.
A princípio, não julguei nada demais, afinal, ele era louco por livros, mas pensei bem, e lembrei que aquele não era o gosto de Petterson, então o segui. Quando vi o livro em questão, quase dei um grito de pavor. Não acreditei que ele havia pego justamente aquele livro. Queria arrancá-lo de lá imediatamente, mas também queria saber o que ele ia fazer. E isso custou nossas vidas.
Fale com o autor