Malin

1 Capítulo 1 - Um Novo dia


Com um grito abafado tudo retornou a sua mente, mas nada fazia sentido. Recobrou sua consciência enquanto ainda navegava sem rumo, o cheiro salgado a fazia lembrar das manhãs que passara junto de seu pai no cais da cidade enquanto desenhavam na areia e fingiam que tudo aquilo duraria para sempre. Malin era esperançosa, mas isso era algo que nem mesmo os seus cachos negros podiam explicar. Tudo era novo, diferente, e foi com o choque da onda à proa da pequena canoa que seu estômago se revirou, lembrou-se que não comia a horas, ou seriam dias, a percepção do tempo naquele lugar não era muito exata, mas a garota não desistiu de acreditar que algo haveria de a encontrar e salvar. Minutos duravam horas à deriva e a mente vazia a fazia pensar nas piores situações, lembrava que na noite anterior deitou-se em sua cama e que tudo parecia normal até então, depois um vazio imenso preenchia suas memórias.

No céu a lua começaria a despontar e a pele rosada de Malin começava a perder sua cor tornando-se cada vez mais pálida e sem vida. Tentando manter sua mente ocupada, a garota se movimentou com tamanho cuidado para não virar o pequenino barco que ela tripulava solitária em busca de pistas. Arrastou sua palma por toda a superfície de madeira escura da canôa e nada encontrou, além de um minúsculo símbolo no fundo do transporte. Se jogou de costas na canoa e voltou sua vista para as luzes verdes que brilhavam no céu, era como presenciar a festa de final de ano que sempre passava com seus avós no interior do Kansas, os fogos desnecessariamente verdes explodindo no céu e o aconchego de seus parentes.

Sua mente começou a relaxar e Malin se sentia de volta junto de sua família, saboreando a deliciosa torta de abóbora preparada por sua tia Carleny. E com seus primos correndo ao seu redor loucos para sair na neve. Ela podia jurar que conseguia sentir o cheiro do carvalho queimando na lareira e se sentiu feliz ao estar em casa mais uma vez, mas aos poucos o sonho começou a desmoronar e o frio a tomar conta de seu corpo que agora além desnutrido começava a hipotermar. Com um salto instintivo e bastante perigoso, ela levantou.

Tudo estava diferente mais uma vez. Ao seu redor, gigantescos pilares de gelo se extendiam para todo lugar que ela conseguia ver. Sua pele que agora começava a obter um tom acinzentado estava sobrecarregada com o frio que a rodeava. A mente da garota estava prestes a explodir e com o choque da canoa em um iceberg um novo salto foi dado por ela, mas não qualquer salto, um pulo que se dá quando está apavorado e com tamanho medo. Na ponta da planície de gelo um homem poderia ser confundido com um grande urso polar, junto de seu corpo um enorme casaco de pele o esquentava. A cor branca do pelo fazia Malin lembrar de Vicky a sua melhor amiga e maior companheira canina que jamais pode ter, mas pode imaginar que teria algum dia quando seu irmão não tivesse mais alergia ao pelo de cachorros.

— Desculpa pelo susto, Katryn! — Ele já levava suas mãos ao dorso da garota a retirando do barco e a ajudando a por-se em seu colo junto ao seu corpo, um ato que parecia amigável, o que fazia com que Malin se sentisse salva e protegida novamente. Seus dedos agarravam o tecido do casaco do homem que a salvara tentando roubar o máximo de calor possível para sobreviver ao frio que os rodeava.

— Você está a salvo — Um brilho opaco surgiu no olhar do homem frio que a carregava em meio ao gelo e a neve. Seus braços agarravam o corpo esguio da garota como com medo de que ela escapasse o que fazia Malin lembrar dos abraços de seu pai que a sempre faziam sentir acolhidas, porém este abraço agora a fazia sentir submissa e entregue, algo que ela nunca sentiu antes. E com um zunido o mundo novamente se apagou para ela, seus olhos ainda abertos fixavam-se no céu e seu corpo que se agarrava à pele se soltou, e de supetão seu coração parou de bater.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.