Notas iniciais
Diferente do comum, a principal não é Alice. A história se dividi em três capítulos narrados pelo irmão da garota. (Para essa versão optei por um irmão invés de irmã)

Acredito que a imaginação é a melhor defesa que possuímos nessa vida.

Sempre que nos sentimos sufocado com a realidade podemos buscar refugio em nossas próprias mentes.

Talvez seja isso que tenha mantido minha irmã viva até hoje. Sua doce e inocente imaginação.

Tenho a visto raramente, aliás...

Desde que foi descoberto que a pequena sofria de esquizofrenia¹ nossa mãe se sentiu pressionada a interná-la em um sanatório que havia prometido cuidar dele. Porém ela nunca deve coragem de vir visitá-la e nem como fazer isso. A culpa por tê-la “abandonada” em um lugar tão horrível como esse ainda a corroía por dentro.

Imaginem como é para uma criança de apenas onze anos ficar sobre efeitos de fortes drogas apenas para não dar trabalho.

Eu queria poder tirá-la desse lugar, mas não tenho poder para isso.

Na verdade eu nem deveria poder vê-la. Visitas são proibidas. Apenas tenho essa permissão especial porque sou formado em enfermagem e escolhi trabalhar aqui apenas para poder ficar perto de minha irmã.

Infelizmente até eu corro o risco de enlouquecer se continuar muito mais tempo nesse inferno.

– Alice...? – ao abrir a porta do quarto lentamente, a chamei em tom baixo. Era raro a encontrar acordada, mais raro ainda a encontrar sã, fora dos efeitos de algumas daquelas drogas de origem duvidosa.

– Onii-chan... – sorriu minimamente a me ver e então terminei de adentrar no quarto. Puxando uma cadeira e sentando-me próximo ao leito que a pequena se encontrava.

Mesmo diante a todos os seus problemas. Alice e eu éramos extremamente próximos. Ela confiava em mim.

– Como se sente hoje Alice? – perguntei e ela sorriu sentando-se sobre a cama e com o olhar bem distante dali.

Sonhando acordada mais uma vez...

Mais historias para eu registrar em meu diário...

– Cansada... E curiosa...

– Curiosa? – voltei a indagar e ele assentiu.

– O que há do outro lado dessa toca...? É tão escuro... Não consigo enxergar... E porque o coelho está sempre atrasado...? Não importa o quanto corra... Parece nunca chegar... – cada palavra que ela dizia eu anotava em meu caderno. Buscando uma forma coerente de interpretá-las, porém muitas vezes eu preferia poder manter as mesmas alucinações.

Mesmo trabalhando ali por ela, eu evitava vê-la, pois me sentia mal e completamente culpado. Ela imaginava um mundo de sonhos naquele inferno.

– Desculpe por vê-la raramente...

– Tudo bem... O Chapeleiro e a Lebre me fizeram companhia... Até me convidaram para um chá.

– Fez amigos então? Isso é bom. – sorri tentando não transparecer minha culpa.

– Sim... O Chapeleiro sempre me conta historias sobre outros mundos... Mas ele é meio louco às vezes... E a Lebre... Ela me dá medo... Mesmo nunca tendo me ferido... Também tem os irmãos Tweedledum e Tweedledee... Mas não gosto deles... Sempre falam de uma maneira estranha... Até o Gato me mandou evitá-los...

– Gato?

– Sim... O Gato de Cheshire... Sabe o porquê desse nome? Ele sempre está sorrindo. Eu não sabia que gatos podiam sorrir... Mas... Eu não o entendo... Ele sempre sorrir e eu acabo confiando nele... Depois some... E eu me sinto mal e dolorida...

– Eu não quero que você fique perto desse gato.

– Por que...? Ele também é meu amigo... – não Alice... Você não percebe a gravidade do problema.

– Quem eu não gosto é a Rainha Vermelha... Ela gosta de fazer maldade com todos que a contrariam... E inventa problemas apenas por diversão... Tenho pena dos Naipes que estão sobre suas ordens... E o Rei... É um idiota... E morre de medo da Rainha...

– Alice... Eu...

– Onii-chan não acredita em mim, não é...? Vai dizer que estou louca também?

– O que? Não... Quem lhe disse isso?

– A Lagarta Azul... Ele Sempre diz que eu imagino essas coisas e que não é nada assim... E que não tenho mais para onde voltar...

– Alice...

– Mas eu ainda vou sair daqui... Só preciso esperar a Rainha Branca voltar... Sei que ela me levará para casa... Não é onii-chan?

– Si... Sim... – não gosto de mentir para ela, mas lhe contar a verdade parece ser uma maldade ainda maior...

– Talvez eu leve comigo uma daquelas poções de crescimento... Assim ninguém mais me chamaria de baixinha...

– Alice... Eu preciso ir...

– Mas já?

– Sim pequena... Você precisa descansar e eu... Bem... Eu preciso conversar com a Rainha Vermelha... Convencê-la a não machucá-la.

– Onii-chan a enfrentaria por mim? – apenas assenti. – Obrigada onii-chan... Mas cuidado...

– Eu tomarei... Agora descanse... – depositei um singelo beijo em sua testa e ela voltou a se deitar na cama.

Apenas me retirei do quarto pensativo. Encaixando cada um dos personagens que ele me contara com as próprias pessoas que frequentavam aquele local.

A história era sempre a mesma e os personagens eu já conhecia bem...

A toca escura é, na verdade, uma janela de seu quarto, a única coisa que lhe daria visão se não fosse pelo muro alto que lhe “escurecesse”, sem poder sair daquele quarto e nem poder sair daquele quarto e nem olhar como é o mundo a sua volta.


O coelho branco representava o tempo. Aquele tempo que ela desejava que passasse logo, para que um dia pudesse sair daquele lugar. O tempo que ela via passar tão rápido, porém tão lento… O coelho que sempre corre, mas nunca chega...

Três anos presa naquela prisão...

O Chapeleiro Maluco, era outro interno e Alice o tinha como seu melhor amigo. Alguém que deixava sua vida naquele lugar menos amargurada quando eu não a visitava. Era com quem criava várias teorias de como seria a vida lá fora.

Porém o rapaz, em realidade, sofria de Síndrome Bipolar, por isso a personalidade dele se mostrava ora alegre, ora depressivo, ora calmo, ora irritado. Por isso Alice dizia que ele era meio louco...

A Lebre era uma menina que dividia o quarto com o tal Chapeleiro. Ela sofria de depressão profunda, e todas as vezes que Alice teve contato com ela, encontrou-a num estado de terror e paranoia.


Tweedledum e Tweedledee eram na verdade gêmeos siameses órfãos, que também estavam largados naquele lugar. Embora não possuíssem nenhum problema mental que justificasse sua internação, a aparência que tinham era assustadora, por isso foram reclusos. Ninguém os queria por perto...

O gato de Cheshire é apenas Andrew Mohammad, um dos enfermeiros, em quem Alice sempre confiou, mas acabou por enganá-la e violentá-la. O único que fiz questão de memorizar o nome.

E o suposto sorriso do gato era na verdade o sorriso obscuro que seu agressor abria, cada vez que lhe abusava, e a deixava jogada em um canto de sua acomodação, derrotada, triste e ofuscada.

Quantas vezes já entrei em confronto com esse idiota por causa de tudo que fazia minha irmã sofrer. Porém esse demônio está sobre o “manto” da “Rainha”. Nada que eu diga ou faça irá mudar alguma coisa. No pior dos casos posso ser dado como mais um louco, fruto de uma linhagem ruim. E, assim como minha irmã, ser acusado por algum tipo de problema mental... Por essa razão continuo sofrendo calado e desejando poder arrancar o sorriso daquele cara algum dia.

Aliás, a Rainha Vermelha é a diretora do sanatório. Uma mulher má e desprezível, que não sentia sequer um pingo de compaixão para com os enfermos que estavam sob seus cuidados. Era a favor da terapia de choque e da lobotomia², e por diversas vezes ordenava que os funcionários espancassem, sedassem e prendessem em jaulas os enfermos que apresentavam comportamento que não lhe agradavam.

Uma mulher doentia e mal amada. Dentre todos, ela era a que mais precisava ser internada.

O Rei era o médico psiquiatra do local. Alguém com complexo de inferioridade e completamente incapaz de se opor às ordens da diretora.


Os Naipes não passavam de outros enfermeiros do hospital, apenas seguindo ordens o dia inteiro.

A Lagarta Azul era o terapeuta de Alice, aquele que lhe dava as respostas, que lhe explicava o que acontecia e com quem ela conversava. Tentava fazê-la acordar para a terrível realidade.


A Rainha Branca era nossa mãe, uma mulher nobre e terna, que sofreu na pele o preconceito de ter uma filha doente, tendo que abandoná-la nesse sanatório. Eu não a culpo momento nenhum pelo que fez.

Ela estava sobre pressão de varias pessoas e julgamentos de estranhos apenas por causa do comportamento de Alice. Já fraca acabou cedendo aos insultos e abandonando-a..

Hoje se culpa e sofre de depressão...

As vagas lembranças que Alice ainda possui, era de momentos com nossa mãe, e o motivo dela pensar que o mundo fora dos muros daquele lugar era melhor, era por saber que a mãe estava lá, em algum lugar, para lhe cuidar.

Mal sabe ela que o inferno a seguirá por onde for...

A tal poção do crescimento era as drogas que lhe davam. Por serem extremamente fortes, por várias vezes Alice tinha sensações diferentes e alucinações, bem como se tivesse encolhido ou aumentado de tamanho.

Tudo isso foi criado por ela como se fosse um mundo paralelo. Uma realidade menos dolorosa daquela em que vivia. Alice já não podia suportar aquele local e tudo o que acontecia com ela ali dentro, então resolveu usar de sua imaginação infantil para amenizar a dor e o sofrimento.

Mas essa dor não cessará tão fácil assim...

Vê-la lutar tão inocentemente para conseguir continuar vivendo me fere também.

E me sinto incapaz de fazer qualquer coisa por ela.

Eu, o irmão mais velho dessa pequena garota, sou apenas mais um cúmplice nesse lugar doentio...

Notas finais
Onii-chan° - para os que não estão familiarizados, significa "irmão mais velho" Esquisofrenia¹ - é um transtorno mental complexo que dificulta fazer a distinção entre as experiências reais e imaginárias, pensar de forma lógica, ter respostas emocionais normais e comportar-se normalmente em situações sociais. Para saber mais: http://www.minhavida.com.br/saude/temas/esquizofrenia Lobotomia² - mais adequadamente denominada leucotomia, é uma intervenção cirúrgica realizada no cérebro, na qual são seccionadas as vias que comunicam os lobos frontais ao tálamo e outras vias frontais associadas. Antigamente, foi muito utilizada em casos severos de esquizofrenia, sendo considerada a técnica pioneira e de maior sucesso na psicocirurgia. Quem quiser saber mais sobre pode pesquisar no tio Google Se eu fosse descrever cada tópico aqui não caberia...