Malice in Wonderland
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Eu sou mesmo um irmão horrível. Nem quando resolvo fazer algo pra ajudar, consigo fazer com que dê certo...
Na verdade não sei nem quanto tempo fiquei desacordado. Muito menos se quero saber.
Se estou em um quarto, devidamente tratado. Então não se passou tão pouco tempo assim. E também não foi nenhum deles que fizeram isso.
– Finalmente acordou. – escutei uma voz ao meu lado, virando-me com certa dificuldade. Meu corpo não parecia responder. – Se eu fosse você não me esforçaria tanto. Está nessa cama há uma semana por conta dos medicamentos.
Uma semana... Muita coisa pode acontecer nesse curto tempo...
Não sei se quero saber da realidade...
– Foi você...? Você que cuidou de mim esse tempo? – ao meu lado estava o psicólogo que sempre atendia Alice. O mais sensato daquele lugar. Que ainda, de alguma forma, se preocupava com o bem-estar de seus pacientes.
– E quem mais seria? Se ficasse nas mãos de qualquer outro você não teria acordado ainda. Aliás, pensei que Akira iria te matar. No final parece que ele ficou com pena.
– Pena? – ri internamente. – Se ele tivesse me matado teria perdido quem mais gosta de provocar.
– Isso é fato. – concordou rindo. – Em todo caso, essa é a primeira vez a qual conversamos realmente. Então nada mais justo que me apresentar. Meu nome é Seiji.
– Sim... Eu já sabia. – confessei e ele sorriu. — Charlie, irmão de Alice. – aproveitei as apresentações.
– Vocês realmente se parecem.
– O que aconteceu... Com Alice...? – mesmo não querendo perguntar, eu precisava saber.
– Ela sobreviveu ao castigo de choque. – me senti um pouco mais tranqüilo ao ouvir isso. – Porém... – pausou e isso apenas me preocupou ainda mais.
– ‘Porém’ o que?
– Após o castigo, Alice acabou se tornando ainda mais agressiva e violenta. Não aceitava que mais ninguém se aproximasse dela. E claro, ela não está morrendo de amores pela diretora.
– O que aquela bruxa fez? – tentei novamente me levantar, sem sucesso.
– Eu disse para não se esforçar demais. – me alertou novamente me ajudando ao menos sentar-me na cama. Sinto que demorará um pouco mais que imaginei para recobrar os movimentos.
– Me diga o que aconteceu com minha irmã. – pedi novamente. O Vi suspirar pensativo, como se não quisesse falar. – Por favor, fale. – eu queria ao menos manter a calma.
– Claro que a diretora não deixaria impune o novo comportamento da garota. Então apelou para lobotomia, como a única saída de aquietá-la.
– O que?! Ela enlouqueceu de vez?! Isso... Isso é uma cirurgia de risco!
– Eu sei okay! Mas o que queria que eu fizesse? Eu era apenas o psicólogo de sua irmã. Na verdade nem era pra eu estar cuidando de você.
– Não estou te culpando... Mas... – lobotomia é uma cirurgia de extremo risco. As chances de o paciente vir a falecer são maiores que acabar em sucesso. Agora imagine uma criança passando por isso.
– Você está certo em se preocupar. Afinal Alice era a sua irmã. – “era”, ouvi-lo falar no passado apenas me desesperava, porém eu tentava não demonstrar.
– Por favor... Não me diga...
– Talvez seja melhor você mesmo vê-la. – então ela ainda está viva... – E depois sair logo daqui. Eu sumirei logo também, apenas vim lhe informar dos acontecimentos.
– Se vai? Mas eu pensei...
– Eu só continuei nesse lugar por causa da sua irmã. Assim como você, eu gostava das historia que ele contava. Ajudava a esquecer do inferno que é esse lugar.
– Então por que está indo embora? Minha irmã ainda está viva, não é?
– É porque não se tem historia sem palavras. – respondeu. – Eu encontrei seu diário também. Vi que anotou cada palavra tida por Alice e fez umas comparações bem interessantes. Daria um bom livro futuramente.
– Não quero lucrar com as alucinações de minha irmã!
– Calma. Foi só uma idéia. – deu de ombros. – Afinal a “Rainha Branca” não virá buscá-lo, pelo menos não de onde está. Você precisa recomeçar sua vida de alguma maneira.
– O que quer dizer? – indaguei e ele apenas me entregou um jornal de algumas semanas atrás. – O que é isso? Como conseguiu?
– Eu posso sair e entrar a hora que quiser, lembra? Não sou paciente. – suspirou – Apenas leia a noticia em destaque.
Assim como sugeriu, apenas passei o olho rapidamente pelo titulo: “Mais uma morte sem explicação. Um novo suicídio?”
O titulo não era tão surpreendente depois dos anos que passei nesse lugar. Mas foi a foto da tal vítima que me chamou a atenção.
– Só me diga... Diga-me que isso é só uma brincadeira de mau gosto.
– Bem que eu gostaria... Pelas informações que consegui recolher e que o jornal ocultou. Tudo leva a acreditar que a situação apenas piorou depois que você e Alice vieram para cá. Ela não aguentou a pressão de ter dois filhos “doentes” e nem os insultos e ameaças. Quando eram apenas palavras, ela suportou, mas as ameaças se tornaram físicas. Duvido que tenha sido suicídio.
– Então... – é por isso que ela nunca veio. E eu também não tive nem a capacidade de ir vê-la, reconfortá-la. Dediquei meu tempo só a Alice e nem ela pude ajudar. Perdi minha família e sou o único culpado. Eu simplesmente não fiz nada.
– Eu sinto muito Charlie...
– ‘Sentir muito’ não vai corrigir nada... Mesmo assim obrigado... Você ainda tentou me fazer “acordar”...
– Ainda quer ver sua irmã? Apenas esteja ciente que o estado dela...
– Sim... Já até imagino. – o interrompi – Mas... Uma última vez...
Por mais que todas as historias loucas de Alice fossem nada além de fantasia. O final não é um conto de fadas. A realidade é amarga.
– Te ajudarei a levantar. – se ofereceu como apoio para mim. Minhas pernas reclamaram nos primeiros instantes que tentei me colocar de pé. Demorando a se acostumarem com meu peso. – Consegue andar?
– Acho que sim...
Os primeiros passos foram como de uma criança que estava aprendendo a andar, cambaleando. Ás vezes caindo.
E fiquei assim só com uma semana sem me mover...
Imagino como seria se esse tempo fosse mais longo.
Seiji ainda me guiou pelos corredores enquanto todos os outros pareciam me ignorar.
Tecnicamente eu era um “traidor”, então era óbvio ser evitado. Ninguém queria ficar na mira da diretora.
– Senhor Charlie. Está vivo. – uma voz tanto alegre vinha do quarto pelo qual passávamos. – Como vai Alice? Sinto falta de sua companhia e nossas conversas...
– Karl... – disse Seiji para mim como resposta de uma pergunta nem dita. Karl, o famoso Chapeleiro que tanto animava Alce. Ele não parece louco. Se não fosse sua personalidade conturbada não teria o porquê estar aqui. – Não acho que ela vá voltar... – senti lágrimas querendo escorrer por meu rosto apenas por escutar essas palavras.
– Oh... Isso é uma pena... – ele pareceu triste, porém sorria para mim e Seiji. Seria numa tentativa de nos consolar.
– O coelho logo deixará de correr... – ao canto vi a pequena garota que dividia a quarto com ele. A famosa lebre. Sempre deprimida em seu canto.
– Charlie... Vamos. – Seiji me puxava para chamar minha atenção.
Não me despedi devidamente daqueles dois e nem sabia como realmente agir.
Deixei apenas que Seiji continuasse me guiando até o quarto de Alice, parando na porta. Permitindo que só eu entrasse.
– Hey... Alice... – chamei meio hesitante. Não recebendo nenhuma espécie de resposta nem reação. Ela só ficava ali. Inerte. Encostado a parede, olhando pela janela. Completamente para o nada. – Alice... Sinto muito Alice... Eu... – as lágrimas que segurei até aquele momento começaram a escorrer descontroladamente. – Sinto muito... Eu não queria... Não queria que chegasse nesse estado...
Era como estivesse em “coma”. O corpo estava ali, vivo. Porém vazio.
Sem sorriso, sem brilho, sem voz.
– Charlie...
– Por que Seiji? Por que fizeram isso com ela? Uma criança...
– Eles não vêem diferença aqui.
– Eu não posso deixar isso por menos. Eu...
– Charlie já chega. Acabou.
– Não... Eu perdi tudo...
– Você ainda está vivo Charlie.
– Vivo? Não me sinto em uma situação muito diferente de minha irmã. Esse lugar me matou.
– E o que vai fazer?
– Eu... Eu não sei...
– Você precisa de um lugar pra ficar. Por um tempo. Posso te ajudar.
– Obrigado... Mas não posso deixá-la... Mesmo nesse estado.
– Charlie... – me segurou pelo ombro para que eu o encarasse tempo suficiente para acertar meu rosto. – Desculpe por isso, mas você precisava acordar. – estava surpreso demais para ter qualquer reação além de levar minha mão até o local dolorido. – Você viveu demais por ela, fez o que pôde. Mas momento nenhum o vi realmente vivendo. Charlie, você ainda pode sair daqui e é formado em enfermagem. Consegue ter uma vida melhor. Aqui acabou. – o problema de Seiji é que ele era totalmente realista. Jogava toda a verdade na cara, indiferente do quanto doeria. – Podemos fazer bem mais fora daqui. E você tem provas no próprio diário.
– Me ajude Seiji...
– Eu estou aqui para isso. – sorriu como se tentasse me dar forças.
Antes de sair daquele inferno e deixar tudo para trás, eu precisava fazer uma ultima coisa.
Enquanto Seiji persuadia a diretora em me liberar sem nenhuma nova ameaça, eu busquei por Mohammad para devolver o “favor” da última vez.
Ele ainda estava com aquele curativo sobre o nariz, não que eu me importasse. Mas serviu como alvo para meu primeiro ataque.
– Tenha isso como um “presente de despedida”.
– Você ir embora? – riu nem parecendo ter sido surpreendido. – Acha mesmo que poderá sair? E mais, vai deixar sua irmãzinha para trás?
– Sim Mohammad. Foster virá comigo. – Seiji se juntou a conversa com uma calma que só ele possuía. – E aproveite seus últimos dias, pois esse lugar está com os dias contados.
– Acham mesmo que alguém acreditará em vocês?
– Com as provas certas sim. – o bom que Seiji não se deixa abalar. – Está pronto para ir Charlie?
– Só tem mais uma coisa que desejo fazer. – ditei aproveitando que Mohammad ainda estava ao chão por causa da surpresa anterior. E lhe atingi um chute no estomago. – Isso não chega nem perto de tudo que fez a minha irmã, mas já alivia um pouco minha alma.
O resto virá quando eu finalmente te ver preso.
A vida que ele arrancou de uma criança se voltaria de forma lenta.
– Vamos Charlie. – Seiji chamou mais uma vez. E agora o segui deixando um inferno para trás junto com uma parte um dia muito importante para mim.
Recomeçar foi difícil.
Conseguir finalmente fechar aquele lugar deu mais trabalho que o esperado, mas não impossível. Assim que todas as provas foram confirmadas como verídicas, aquele inferno teve fim.
Os pacientes ainda vivos foram transferidos para onde pudessem ter a devida atenção.
Mohammad agora sofreria o mesmo ou até pior na mão dos novos “colegas” de cela. Nada mais justo por conta de seus atos.
Aquela diretora doentia foi isolada. Longe de tudo. Uma pequena solitária sem janelas reservada apenas para aquela pobre alma perdida. Alguns dizem que ela apenas acabou de enlouquecer. Mas sinceramente não me interessa o que lhe aconteceu. Todo o sofrimento ainda é pouco para ela.
Quanto a minha irmã... Apenas acabou de morrer muito antes de conseguirmos por abaixo aquele lugar.
Por conta de seu estado, teve o corpo devastadoramente abusado, tanto que acabou por ter hemorragia interna devido à violência empregada em um ato de estupro.
Não preciso nem dizer o nome do responsável e nem quando exatamente isso ocorreu.
Mas como fiquei sabendo disso mesmo estando longe daquele lugar?
Karl me contou tudo desde minha “demissão”
Aliás, eu continuei minha profissão como enfermeiro cuidando de pessoas digamos... “Especiais” e Karl acabou se tornando um de meus pacientes favoritos. Mesmo com suas crises de personalidades ainda era uma boa pessoa. Finalmente pude entender por que Alice gostava tanto dele.
O gentil e louco Chapeleiro.
Sai da casa de Yutaka depois de me ajeitar, porém ele sempre vinha me visitar para ter certeza se eu ainda estava reagindo bem.
Muitas pessoas ainda me evitam por eu ficar perto daqueles com “problemas”. Mas já não me importo.
Perto da realidade que aqueles que se consideram normal vivem. Ser louco parecia a única maneira de ser feliz.
Aliás...
Aquelas histórias marcadas em meu diário repercutiram em contos infantis.
Todos precisam de fantasias para conseguir viver nesse mundo.
Por mais que neguem todos precisam sonhar para ao menos sobreviver...
"Eu não posso viver em um conto de fadas de mentira..."
"Eu me sinto tão livre agora
Não irei desistir, pois estou orgulhoso de minhas cicatrizes
E eu posso ver que estive desperdiçando muito tempo."
(Faster — Within Temptation)
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