Os gêmeos, Anne e Gracie e os outros alunos tiveram que passar a noite de observação na Ala Hospitalar por insistência de Madame Pomfrey, apesar de já estarem se sentindo melhor. Ao contrário do que todos pensavam, Dumbledore não se pronunciou sobre o incidente no jantar daquela noite, o que não ajudou em nada o estado de nervos deles. No segundo em que Rony e Hermione puseram o pé no Grande Salão, eles foram cercados pelos grifinórios, mas para qualquer pergunta que fizessem a resposta era sempre a mesma:

— Dumbledore só vai dizer qual será o castigo quando todos os alunos estiverem presentes.

Não adiantou questionar aos outros monitores tampouco, então eles foram forçados a esperar. O que todos achavam era que a demora apenas poderia significar que os professores estavam imaginando um castigo à altura da confusão que eles tinham aprontado.

Na manhã seguinte, os alunos feridos tiveram permissão para tomar café com os outros. Cada um se dirigiu a sua mesa e começaram a comer e conversar, mas quando o período de tempo destinado ao desjejum estava quase no fim, Dumbledore levantou-se chamando a atenção de todos. As conversas cessaram imediatamente e o salão caiu em um silêncio mortal. A atmosfera ficou carregada de tensão e o semblante dos alunos assemelhava-se ao de um prisioneiro prestes a ouvir sua sentença.

— Como todos devem saber, ontem, este castelo teve um de seus dias mais tristes ao presenciar a lute entre tão bons amigos.

Ninguém teve coragem de contrariar Dumbledore e dizer que os sonserinos não eram amigos deles mesmo que dirá dos outros alunos.

— Ao longo de dois meses, seus professores os puniram das mais variadas formas para que tais atos não se repetissem, mas de nada adiantou e eu não estou nem um pouco surpreso. Pelos anos de experiência sei que uma boa conversa é muito mais útil para terminar desavenças do que um castigo. Assim como eu previ, de nada serviram essas punições, então, ontem, depois do jantar, eu me reuni com os professores para decidir o que fazer. E, finalmente, depois de muito pensar eu tive uma ideia que irá agradar a todos – Dumbledore sorriu ao olhar para os alunos.

Porém, não era apenas um sorriso comum. Sabe aquele sorriso que as crianças levadas dão quando estão prestes a fazer uma travessura? O diretor estava rindo desse mesmo jeito que vocês estão imaginando e ele até chegou a dar risadinhas.

Mesa da Lufa-Lufa

— Gente, – Gail sussurrou se encolhendo no banco. – por que ele está rindo assim?

— Não sei, mas não estou gostando nem um pouco – Cedrico disse apreensivo.

— Eu sempre disse que o Dumbledore tinha uns parafusos soltos – Gracie tentou brincar, mas nem ela conseguia rir naquela situação.

Mesa da Grifinória

— Harry? – Rose chamou o garoto.

— Oi – ele respondeu sem conseguir tirar os olhos do diretor.

— Você que conhece melhor o Dumbledore, pode me dizer por que diabos ele está sorrindo que nem um maníaco?

— Ele não está sorrindo que nem um maníaco – Hermione disse sem muita certeza.

— Então por que eu estou com mais medo desse sorriso do que dos sorrisos que Fred e Jorge dão quando vão aprontar? – Anne perguntou se virando lentamente para ela com o medo estampado no rosto.

Mesa da Corvinal

— Padma, ele não disse mesmo nada para os monitores? – Ally indagou pela milésima vez.

— Não, não disse Ally – a garota respondeu com um suspiro. – Mas não vai ser preciso esperar mais.

— Não tenho certeza se isso é bom ou ruim – Luna falou mais para si mesma do que para os outros.

Os professores olhavam para o diretor de forma descrente, não acreditando que o que tinha sido decidido pudesse dar algum resultado positivo. Ao contrário, a maioria estava achando que depois do anúncio de Dumbledore as brigas só piorariam. Ainda rindo tão inocente quanto uma criança travessa, o diretor estava alheio ao modo como era visto por todos do salão.

— Ontem, durante a reunião, eu passava minha mão distraidamente pela estante da sala tentando achar a inspiração que me faltava para a solução adequada para nosso problema, quando meu olhar se deteve em um livro muito peculiar. Eu o retirei da estante e percebi que a solução que eu procurava estava agora em minhas mãos. O livro em questão se chama Alice no País das Maravilhas, é um livro de conto infantil que foi escrito por Lewis Carroll, um trouxa, mas que tinha muita imaginação. Ele achava que além do mundo em que vivia existia um outro, muito semelhante em alguns aspectos ao seu mundo e completamente diferente em outros. Lewis tinha certeza que este mundo era mágico, com animais falantes e lugares cheios de segredos e que para chegar lá ele só precisaria procurar por uma passagem que conectasse os dois mundos. Durante sua vida, Lewis procurou incansavelmente por este mundo mágico, mas nunca foi capaz de encontrá-lo. Quando se aproximava do fim de sua vida resolveu escrever um livro que narrava as aventuras de uma menina que conseguiu chegar ao seu tão sonhado mundo. Este livro sempre foi um de meus preferidos, pois retrata o lado mais inocente do ser humano de acreditar que tudo pode ser possível se você tiver fé. – ele fez uma pausa e riu ao perceber que os alunos não estavam entendendo nada. – Vocês devem estar se perguntando o que este livro tem a ver com esta situação, bem eu irei dizer agora – Dumbledore fez uma pausa só para aumentar a curiosidade dos alunos. – É simples, todos vocês irão fazer uma peça de teatro baseada neste conto – disse de forma tranquila e calma com um sorriso estampado no rosto.

Os alunos demoraram alguns segundos para assimilar o que tinham acabado de ouvir. Será possível que eles tinham ouvido mesmo Dumbledore dizer que eles trabalhassem juntos com os alunos da Sonserina? Assistir uma aula com os sonserinos já era irritante o suficiente para eles brigarem, o que dirá fazer uma peça de teatro que exigiria que eles passassem várias e várias horas juntos, além do horário de aula.

Onde Dumbledore estava com a cabeça para sugerir uma coisa dessas? Era a pergunta que todos os alunos se faziam agora. O próprio levantou a mão indicando que não havia terminado e os alunos voltaram a fazer silêncio.

— Mas para deixar esta peça mais divertida vocês não irão se basear na história original. Neste verão enquanto fazia uma visita a casa de uns amigos, encontrei um manuscrito muito interessante – e aqui ele levantou um pequeno livro de capa roxa com letras douradas e a ilustração de uma menina loira tomando chá com um homem de cartola e uma lebre e de lado estava um coelho branco olhando para um relógio de bolso.

— Gail, me diz que eu estou alucinando – Gracie fixava o livro na mão de Dumbledore com os olhos vidrados.

— Se você está alucinando eu também estou – Gail se virou rapidamente procurando as amigas na mesa ao lado.

Ally focalizou Anne e mexeu os lábios fazendo uma pergunta silenciosa:

— Como ele encontrou esse livro?— mas a garota apenas obteve um balançar de cabeça negativo como resposta.

— Ai, Merlim, me diz que ele não vai fazer o que estou pensando – Rose implorava com as mãos juntas.

Nenhum dos amigos entendeu a reação das garotas ao ver um simples livro, mas o diretor continuou a falar impedindo que eles perguntassem qual era o problema.

— Este livro que vocês estão vendo é uma sátira, por assim dizer, da história original de Alice no País das Maravilhas. Os personagens são quase os mesmos nos dois livros, porém neste aqui a história é bastante diferente e devo dizer que gostei mais dessa versão. Eu não irei contar a história por que quero que seja uma surpresa para os que conhecem e os que não conhecem o conto original. Mas eu direi quem é o autor, ou melhor, as autoras deste livro – Dumbledore abriu o livro e começou a ler. – Wonderland às Avessas escrito por Alice White, Gail Baker, Rose Green, Anne Scorpion e Gracie Moore. Ilustrações de Gail Baker e Anne Scorpion.

Todos no salão se voltaram para as cinco amigas que não sabiam onde enfiar a cara tamanha era a vergonha que sentiam.

— Vocês farão a peça de acordo com esta versão e como devem ter percebido que as autoras do livro se encontram aqui, elas é que irão dirigir a peça para que tudo saia de acordo com o livro – Dumbledore falou animado.

“Fudeu”— as cinco pensaram juntas.