Notas iniciais
Comentários críticos e elogios são sempre bem-vindos!

A viagem de trem pareceu muito lenta, com a cabeça encostada na janela, Draco adormeceu. Viu-se levantando a Taça das Casas, seu pai sorrindo com orgulho, todos gritando o seu nome. “Draco! Draco!” Sentiu balançarem seu ombro, abriu lentamente os olhos e viu Blásio Zabini.

– Draco, acorde, já estamos chegando à estação.

O trem enfim parou e todos desceram na plataforma. Draco vasculhou o local a procura dos pais, avistou os Weasley sorrindo e abraçando-se e pensou com inveja que gostaria de se juntar a eles. Ao longe viu sua mãe, linda, sorrindo e ele foi ao seu encontro, porém não encontrou seu pai ao lado dela.

– Oi mamãe. – ela deu-lhe um beijo na testa. Draco olhou-a com a sobrancelha erguida.

– Hum... Querido, seu pai não pôde vir, houve problemas no Ministério e ele teve de ir pra lá. – disse ela apertando o ombro de Draco carinhosamente.

– E que horas ele foi pra lá? – perguntou Draco.

– Faz dez minutos... – a expressão de Draco enrijeceu, Narcisa vendo a desaprovação do filho, tornou a falar – Tenho certeza de que ele queria estar aqui Draco, mas é o trabalho dele...

– Entendo. – disse Draco com a voz fria e sem emoção. E mais amorosamente completou – O que importa é que você está aqui, mamãe. – sorriu-lhe. Ela sorriu de volta.

– Vamos, deixe-me levar seu malão.

A DECORAÇÃO DA MANSÃO DOS MALFOY permanecia a mesma; ampla e espaçosa era escura e um pouco abafada, cortinas verde-musgo em todas as janelas, um enorme tapete preto e mofado encontrava-se no centro da sala de estar e vários quadros obscuros e depressivos, não tinha a mesma aparência de quando era mais nova, era mais aberta e cheia de cores, mas de qualquer forma, Draco sentia-se confortável, afinal estava em casa. Levou o malão para seu quarto no andar superior, deixou-o de lado e jogou-se na cama de costas. Estava terrivelmente cansado, cansado de tudo, daquela escola, daqueles alunos, do diretor, e principalmente de seu pai.

A porta entreabriu-se e Draco viu sua mãe entrando devagarzinho no quarto.

– O que irá querer para o jantar, querido? – disse docemente.

– O que preferir mamãe. – ele deu de ombros.

– Nada especial? – perguntou ela.

– Não... – Narcisa deu de ombros levemente e saiu do quarto. Draco mirou o teto, os olhos estavam pesados. Não sabia quanto tempo haviam se passado quando uma porta no andar debaixo abriu-se fazendo barulho. Ouviu a voz de seu pai abafada por seus passos.

– Tive um dia cheio Ciça, não quero falar sobre isso... Quê? Ah, ah sim...

As vozes cessaram, houve pequenos passos na escada e no corredor, Draco rapidamente fechou os olhos, não queria ver o pai. A porta se abriu, Lúcio Malfoy entrou pé ante pé, olhou para o filho, suspirou, fechou as cortinas do quarto, e saiu fechando a porta atrás de si, o som de seus passos foi ficando cada vez menor conforme se afastava do quarto do filho. Draco sentou-se na cama, tirou os sapatos, colocou a coberta por cima do corpo e pensando na decepção que era para o pai, acabou adormecendo.

Na manhã seguinte, acordou com um leve zumbido nos ouvidos, balançou bruscamente a cabeça. Afastou de si as cobertas e se pôs de pé, alcançou o roupão no cabide que, assim como suas vestes de Hogwarts, tinha o emblema de Slytherin. Sentia como se mesmo fora da escola, a mesma não o deixava. Arrastando os pés, abriu a porta e pôde ouvir a voz de seus pais conversando, provavelmente estavam na cozinha. Desceu devagar para não fazer barulho, mas também não queria ouvir sobre o que os pais conversavam, apostava que era sobre ele de novo. Entrou na cozinha, sua mãe parou de falar e mirou-o, um sorriso misturado à surpresa e constrangimento apareceu em seus lábios. Draco sentou-se na cadeira defronte à mãe, Lúcio lançou-lhe um olhar de reprovação.

– Bom dia pai, mãe.

– Bom dia, querido, quer panquecas? – Narcisa perguntou bondosamente levantando-se e indo para o fogão.

Draco meramente sacudiu a cabeça num “sim”.

– O que andou aprontando na escola dessa vez? – perguntou-lhe o pai friamente.

–Como assim? – Draco sentiu suas costas retesarem.

– Eu soube o que falou para Potter no ultimo dia de aula. – Lúcio lançou ao filho um olhar cortante.

Como ele poderia saber? Havia alguém na escola que espiava Draco para depois ir correndo contar a Lúcio todas as travessuras do filho?

– Era brincadeira...

– Sei. – interrompeu-o Lúcio – Não gosto dessas suas brincadeiras Draco. Já te ordenei para que deixe o garoto Potter em paz, Dumbledore está sempre ao lado dele e isso pode ser prejudicial a mim. E, digamos que o garoto estava certo, ele acabou com você, Draco, sabe, no Quadribol... – Lúcio balançou a cabeça, o tom de desapontamento.

Draco baixou os olhos para a mesa. Seu pai não ligava se Dumbledore tirasse pontos de sua casa ou se o expulsasse, Lúcio estava mais preocupado com seu status social do que com sua família. Como seu pai, que fora tão bondoso com ele até seus onze anos, poderia estar daquele jeito agora?

Tomaram o café silenciosamente, Draco não ousara falar com o pai até que este pigarreou alto e mirou Draco que levantou lentamente os olhos.

– Draco, já arrumou suas malas?

Draco sorriu levemente ficando satisfeito com a mudança de assunto.

– Já sim pai, coloquei...

– Pois desfaça-as. – Lúcio disse interrompendo o filho.

Draco olhou do pai para a mãe com ar exasperado.

– Como?

– Desfaça-as. Não iremos mais. – repetiu Lúcio.

– Mas pai... – Draco tentou argumentar.

– Suba e desfaça as malas. Agora. – Disse Lúcio, seu tom era arrogante.

Draco olhou para a mãe em busca de resposta, a boca meio aberta e os olhos arregalados. Narcisa olhou para Lúcio.

– Querido, Draco merece uma explicação.

Lúcio olhou para o teto por um momento e depois mirou os olhos da esposa. Suspirou.

– Tudo bem. – virou-se para Draco. – O Ministério quer que eu resolva alguns problemas, pelo jeito Dumbledore e Potter estão dando muito trabalho no momento.

A expressão de Draco mudou de perplexa para indignada e depois fúria.

– Potter? É por causa do Potter que não posso ter férias de verão? – sua voz foi se alterando a medida que falava. – Porque tudo gira em torno do Santo Potter?

– Draco, não o chame assim... – Narcisa o repreendeu.

– Por que não?! Desde que pus os pés em Hogwarts só ouço falarem em Harry Potter! Até os alunos da Sonserina só falam dele! Dumbledore só tem olhos pra ele! Snape dá mais atenção a ele do que pra mim! – ele se levantou – E desde que Potter derrotou novamente Você-Sabe-Quem neste ano, o meu próprio pai só fala dele! – nessa ultima frase, Draco já se encontrava gritando com os pais em pé.

– Sente-se, Draco! – gritou Lúcio.

Draco respirou fundo, sua respiração subia e descia conforme o ódio em seu peito crescia. Sentou-se e encarou os olhos furiosos do pai e a expressão de terror nos olhos da mãe.

– Não vou tolerar essas suas explosões por causa de Harry Potter. – Lúcio olhou com fúria para o filho — Sei como se sente com relação a ele, mas é o meu trabalho e se não fosse pelo meu trabalho você não moraria nesta casa, não teria todas essas roupas de primeira mão, e não teria tudo o que quisesse no momento em que quisesse. Agora você vai subir, desfazer as malas e iremos fingir que você não gritou comigo e com sua mãe.

Draco balançou a cabeça ainda com o ódio aflorando em seu peito. Quando estava prestes a se levantar, Lúcio ergueu a mão para detê-lo. Ele esperou.

– Sim pai?

– Está de castigo durante um mês. Nada de enviar cartas aos seus amigos, nem jogos, brincadeiras, passeios com sua mãe, absolutamente nada.

Os olhos de Draco encheram-se de lágrimas.

– E o que eu farei durante esse tempo? – perguntou com os dentes cerrados e as mãos em punho ao lado do corpo.

– Temos uma enorme biblioteca, leia um pouco, faça seus deveres da escola, mas nada que contenha diversão.

– Mais alguma restrição pai? – Draco contemplou a sala do outro lado do cômodo.

– Não. – respondeu Lúcio friamente.

Draco saiu pisando duro no chão coberto por um enorme tapete felpudo negro e dirigiu-se novamente ao quarto. Bateu a porta atrás de si e chutou com força seu malão, a dor que sentiu foi insuportável, xingando baixinho e segurando o pé, sentou-se na cama, seus olhos permaneciam cheios de lágrimas, tanto por ter quase quebrado seu dedo no malão, quanto pelas palavras de seu pai, mas não ousava chorar. Apoiando o pé devagar no chão, levantou-se e se encaminhou para a janela, dali podia contemplar os vastos terrenos de sua casa e, ao longe o sol ia se levantando, seu brilho tomando forma e se adensando, iluminando a enorme Mansão dos Malfoy.

Mirando aquele vasto campo que era sua casa, lembrou-se de dias mais felizes. Dias nos quais o pai chegava em casa com pequenos presentes para Draco e para a mãe. Fins de semana nos quais jogavam xadrez de bruxo em frente à lareira, e ao anoitecer, Lúcio sentava-se defronte de Draco na mesa do jantar e discutiam sua ida para Hogwarts dali um ou dois anos, taças que ganharia no Quadribol, prêmios por ser o melhor aluno em Defesa Contra as Artes das Trevas e Poções – matérias nas quais estava eufórico para executar -, os planos para o futuro, falavam até de um possível cargo no Ministério da Magia.

Porém, todos os sonhos se esvaíram quando Draco ingressara em Hogwarts aos onze anos. Já ouvira o pai contar várias vezes sobre Harry Potter, mas nunca o menosprezara tanto quanto naquele dia em que o mesmo rejeitou sua amizade em frente aos novos alunos. No primeiro dia de sua volta para casa nas férias de verão, mal passara pela porta de entrada e seu pai já estava a sua espera perguntando como ele era o Potter. Queria contar-lhe sobre as coisas que fez, que fora um ótimo aluno e que o Professor Snape o adorava. Mas em vez de contar suas histórias para o pai, Lúcio só sabia era perguntar sobre Harry Potter. Se era verdade que havia derrotado o Lord das Trevas novamente, queria saber a história completa, mas Draco não sabia de toda a história, Dumbledore não contou para a escola, só haviam suposições e mais nada, os únicos que sabiam eram aqueles que rodeavam Potter, e Draco não era um deles, mas o pai insistia em lhe arrancar informações que ele não obtivera.

Seu ódio por Harry Potter aumentou a partir daquele dia. Todos os dias, Lúcio Malfoy chegava em casa contando pequenas “curiosidades” sobre o Santo Potter, mas ninguém além de Draco e Severo Snape – o garoto o admirava por isso – viam realmente quem Potter era. Obviamente, era o protegido de Dumbledore que não desgrudara do menino desde que colocara os pés na escola. Os sonhos de Draco foram destruídos. Em sua casa não haviam mais xadrez de bruxo ou planos para o futuro, agora só havia Potter, Dumbledore e o-que-será-que-Potter-está-fazendo-agora?

Draco vinha suportando isso havia quatro anos. Cada vez que ouvia a voz do Menino-Que-Sobreviveu ou que ouvia falarem dele, subia-lhe a bile, sentia-se enojado e então o ódio e a fúria afloravam-lhe o peito.

Foi puxado de seus devaneios pelo som das batidas baixas que vinham da porta. A porta se abriu e viu a mãe com lágrimas nos olhos, acontecia sempre que Draco brigava com o pai. Ela não gostava de conflitos na família.

– Mamãe, não precisa chorar. – Draco levantou-se e foi abraçá-la.

– Porque vocês não podem conviver bem? Desde que entrou em Hogwarts, só o que você e seu pai sabem fazer é brigar. – seus olhos eram suplicantes.

– Talvez ele prefira o Potter como filho. – Draco disse com amargura.

– Não diga isso! Lúcio o ama, Draco. Ele é apenas superprotetor...

– Superprotetor?! Com o Potter e com Dumbledore, só se for!

– Chega! Não tolerarei mais isso. – Sua postura ficou rígida. Narcisa enxugou as lágrimas com os dedos, respirou fundo e mirou Draco. – Escute bem, Draco Malfoy, você irá começar a respeitar seu pai e não levantar mais discussões. Sei que você estava certo esta manhã – interpôs ela, antes que Draco pudesse interrompê-la. – Mas ele é o seu pai e, para ele não existe discussão racional com uma criança de quatorze anos.

Draco baixou os olhos. Já não bastava o pai censurando-o, agora era sua mãe que o fazia. Acenou brevemente com a cabeça, virou-se e foi postar-se diante da janela, olhou para a rua lá embaixo e seus pensamentos vagaram a esmo. Sentiu a mão de Narcisa em seu ombro, mas em vez de sentir-se seguro, sentiu medo e raiva. Olhou para trás, para ver Narcisa deixando seu quarto e se afastar pelo corredor.

Notas finais
Obrigada à vocês que tiram um tempinho de seu dia para ler os novos capítulos da minha história :D
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.