Maledictions
3 Encarceração num corpo de luxúria.
Notas iniciais
– C–como assim?
Ele parou e a olhou, praticamente indignado. A garota parecia examiná-lo antes de fechar a cara e emburrar a voz.
– Kid, o que deu em você? Passou o dia inteiro ignorando o que eu falava e quando a Tsu-chan e o Black Star chegaram você simplesmente virou a cara! O Black foi super legal com você e você o tratou como um nada! Você está muito estranho, sério!
Kid encarou as toalhas em sua mão e suspirou. Talvez estivesse certa, ou não. Simplesmente não aguentava toda aquela maldita situação. Nunca foi uma menina, nunca sentiu nada do que sentiu hoje enquanto era homem e agora tudo o que podia fazer era ficar sentado e esperando algo acontecer. Simplesmente não estava aguentando toda essa droga de espera.
– Olha, Me... Me Desculpe, Liz. É que isso é meio novo para mim, acho que me afastei demais com os meus pensamentos no shopping, me perdoe.
A loira sorriu assentindo e dirigiu-se as escadas.
– All Right! Apenas tente vestir algo bem simétrico, tá? Bom banho!
O garoto adentrou calmamente a porta de madeira escura e polida, trancando-a em seguida. Colocou as toalhas por sobre o balcão e olhou-se ao espelho.
Espera.
Ele era uma garota agora. Como assim tomar uma ducha se ele é uma menina? Quer dizer, ele teria que tomar banho de um jeito ou de outro, mas, não era o seu corpo. Bem, era o seucorpo, mas não assim! Como raios ele iria tomar banho?!
O moreno encarou seus orbes dourados e os cílios grossos ao espelho. Não havia se lembrado de ter visto o próprio corpo depois da missão, sequer de ter tomado um banho. Fora até ao shopping com um short de Patty e a camisa social, até não acreditara que Black Star havia gostado daquele estilo tão moribundo de roupa. Sorriu de canto. Deixando toda essa dificuldade de lado, até que era uma menina muito encantadora. Não que ele fosse uma menina encantadora, óbvio que pensar isso era bem perturbador, então resolvemos apenas pensar que aquela menina no espelho era realmente encantadora.
Sorriu largamente ao concluir o pequeno meio de enganar-se, ainda encarando os orbes dourados ao outro lado do grande espelho de vidro também o encarar, sorrindo. Suspirou fundo e levou uma das pequenas e finas mãos pálidas até o primeiro botão da camisa social e apertando-o de leve, viu-se soltar-se do outro pedaço fino do tecido, mostrando um pequeno pedaço da pele branca. Sentiu sua curiosidade crescer e seu corpo esquentar, logo dirigindo-se ao próximo fino botão. Viu os botões um a um, caírem e soltarem da fina camisa, dando a linda visão da lisa e branca barriga. Engoliu em seco, sentindo seus olhos comerem-no. Não que estivesse se excitando, era apenas a curiosidade, certo? Não. Não esperava que a camisa caísse sozinha entre seus ombros e pousa-se ao chão, simplesmente dando aquela incrível e perfeita visão do peitoral feminino. Os seios medianos, perfeitamente intactos. As pontas rosadas e redondas. Desceu os orbes, lentamente até os músculos quase invisíveis da barriga no espelho. Cada um, praticamente invisíveis. Sua forma masculina não havia tantos músculos pelo corpo, mas óbvio que havia pelo menos o peitoral completo. Então, obviamente o corpo feminino não era lá parte de se formar tão cedo como o masculino. Deixou de lado os pensamentos, parando os olhos até o primeiro botão do short jeans folgado que usara. Instintivamente os orbes dourados voltaram para o próprio corpo, levando uma das mãos até lá, retirando o botão vagarosamente de sua casa. Viu o zíper aberto e inconscientemente abriu as pernas. O short deslizou pelas coxas finas e brancas, pairando entre seus calcanhares. Retirou o boxer com os olhos apertados, com certo receio ao olhar a sua nova intimidade.
Suspirou e entrou na ducha, rolando os dedos sobre a torneira, deixando a água quente jogar-se contra si. Pegou um dos muitos sabões líquidos feminino por ali e lentamente derramou-o a palma da mão, levando-o logo a sua coxa.
Ah, aquela coxa. Passou os dedos entre a pele macia e levou-os massageando de cima abaixo, acabou soltando alguns suspiros ao meio. Passou as duas mãos entre a outra, massageando-a levemente. Desceu até as pernas firmes e finas, voltando à barriga. Deslizou delicadamente as unhas sobre aqueles mínimos músculos de pele clara. Cada um, perfeitamente intacto e perfeitamente colocado. Seu corpo já estava totalmente em chamas. Sua parte íntima chegava a praticamente latejar. Mas que merda. Kid era um shinigami, um shinigami com um ótimo controle sobre seu corpo e sobre seus desejos, principalmente carnais. Não era possível que um simples banho como aquele iria conseguir excitá-lo daquela forma.
Respirou fundo e fechou os olhos, levando as mãos com o sabão líquido até seus seios, apertando-os levemente. Não aguentou, um pequeno e leve gemido escorreu entre seus lábios, assustando-o de leve. O menino abriu os olhos e retirou as mãos, totalmente envergonhado e vermelho. Talvez fosse hora de parar com as carícias pelo novo corpo, antes que aquilo evoluísse a algo muito maior. Terminou de esfregar-se rapidamente, lavando rapidamente o rosto e desligando a ducha. Pegou uma das toalhas, enrolando-se bem. Talvez não fosse muito bom encarar-se no espelho outra vez. Secou-se sem nem mesmo ver, logo pegando ao monte de roupas que Liz lhe deu, uma das calcinhas novas.
Preta com rendas. Da forma que sempre disse a Liz que achava repugnante uma adolescente usar. Ah, Liz. Ela certamente deveria estar gargalhando do sofá. Maldita Liz. O menino suspirou e olhando para cima, vestiu rapidamente a calcinha, puxando entre o montinho de roupa um pequeno e colorido sutiã. Rosa, babadinhos femininos e estampas de morango. Resolveu sequer pensar no que raios achava daquilo, apenas vestiu. Pegou o vestido a mão. Aquilo parecia realmente apertado. Vermelho e com alças mínimas. Suspirou e vestiu-o, puxando os fios negros e compridos para fora do vestido e olhando-se, finalmente ao espelho.
Aquela visão. Aquela maldita visão. O vestido vermelho. Aquele vestido de algo que parecia praticamente couro colara em seu corpo fino. Suas coxas finas acarretaram a aparência de longas e até mesmo cheias. Viu sua cintura antes muito bem fina, afinar-se três vezes o normal, dando um grande afirmamento em seus seios medianos que pareciam espremer-se um contra o outro. Realmente, aquela visão era muito mais que tentadora. Bagunçou levemente o cabelo úmido, deixando as madeixas negras emoldurarem sobre seu ombro, afinando seu rosto. Os cílios grossos aumentaram ainda mais a beleza da pele pálida e os olhos dourados, o que levou certo rubor as bochechas pálidas. Inconscientemente sorriu de canto, quase invisível.
– Oe, Sammi-chan, está tudo bem aí?
Saiu do transe ao escutar a voz feminina da mais nova das Thompson.
– Patty? Ah, sim. Eu... Eu já vou sair não se preocupe.
Puxou as roupas sujas e a toalha molhada entre os braços, ainda descalço. Abriu vagarosamente a porta, olhando a garota mais alta sorrir. Um simples vestido rosa comportado, parando em suas coxas grossas. Os seios volumosos pareciam bem maiores agora. Resolveu apenas subir os orbes até os azuis da menina.
– Sammi-chan! Você é muito linda!
Sorriu.
– Uh, obrigado Patty.
A garota gargalhou e saltitou entre o corredor, sumindo entre uma das portas. Poderia ser assustadora e insana, mas Patty realmente era encantadora. Pelo menos do jeito dela. O garoto caminhou calmamente, descendo as escadas. Pronto para enxergar a mais velha das Thompson no sofá, pintando as unhas.
E foi realmente o que viu. Tirando a parte de pintar as unhas. Liz estava se maquiando. Perguntou-se se também precisaria maquiar-se.
– Oe, Liz. Esse vestido é muito tentador, não?
Os orbes azuis olharam o mais novo de cima abaixo. Kid ficou um pouco incomodado.
– Claro que não, Kid! Ficou ótimo em você!
Sorriu sem querer, de novo. O que fez Liz sorrir também.
– Eu vou... Precisar passar isso?
Liz sorriu e entregou-lhe uma caixa de sapatos.
– Lógico que não, seu rostinho já é lindo assim, se passar estraga. Agora põe logo essas sandálias e vamos.
O garoto assentiu e sentou-se, abrindo a caixa e encontrando um par de saltos alto, avermelhados. Colocou-os ao pé, arrumando as fivelas da sandália em suas pernas e amarrando-as firmemente. Levantou-se quase num pulo. Sentiu-se no mínimo vinte centímetros mais alto. Respirou bem fundo e colocou um pé na frente do outro, tentando acostumar-se com os novos pesos. Liz apenas riu e chamou Patty. Lembrou-se que Kid não havia sequer lembrado-se de checar a simetria da casa. Talvez trocar de sexo realmente fora ótimo ao jovem shinigami.
OoOoOo
– Hei bem vindos! Fico muito feliz que tenham vindo!
A loirinha de olhos esmeralda sorriu docemente, encarando principalmente o shinigami.
– Tsubaki me contou sobre Kid ter ido viajar, é uma pena ele não poder festejar conosco. Mas deixando isso de lado, é ótimo termos a Sam-chan para festejar! Por favor, entrem!
As meninas sorriram enquanto Maka abria passagem para a sala do pequeno apartamento. Não havia tantas pessoas quanto Kid esperava, pelo menos não tantas até agora. Enxergou alguns rostos familiares em meio à comida, bebida, agitação e música alta. Viu Kim se aproximar, junto de Soul e um copo de alguma coisa muito forte.
– E aí meninas, qual a boa de hoje?
Kim riu, suas bochechas estavam num tom bem mais forte que o normal. Perguntara se a menina havia bebido, ou algo do tipo.
– Hum, olá. Sou Sammi.
Kid nunca viu um sorriso tão grande quanto o que Kim abriu. Um olhar de puro deboche e cheio cinismo. Soul iria pegar sua mão, mas Kim foi mais rápida, puxando-o para longe.
– Kid, Kid... O que houve heim?
O menino engasgou-se ao ouvir o próprio nome, o que fez Kim rir mais alto ainda.
– C-como você sabe?
– Já ouviu falar que a alma nunca muda, só a aparência? É meio lógico que é você aí, idiota.
O menino engoliu em seco. Havia esquecido completamente da lição mais importante de almologia. Mas se Kim conseguia enxergar sua alma, como Maka não?
– Vai, me conta.
Os orbes de ouro encontraram-se com os de esmeralda. Kim o encarava como se quisesse respostas claras. Ele suspirou e puxou-a até um canto bem mais afastado do pequeno apartamento.
– Não sei como, mas sei que foi em uma missão. Havia uma bruxa fazendo alguns sacrifícios e lembro-me de ter lutado com ela, ou algo assim. Depois disso, acordei assim.
A pinkette levou um dos dedos á boca, em modo pensativo.
– Um feitiço iria deixar rastros, sabe. Mas não tem nada de errado na sua alma ou coisa assim, da pra ver. Então, penso se seria uma maldição. O que acha?
Kid parou para pensar. Era bem lógico. Como não havia pensado nisso? Seu corpo feminino era bem mais lerdo que o normal. Suspirou e concordou. Agora só faltava encontrar uma forma de descobrir que maldição era e como acabar com ela. Ou seja, não saiu do lugar.
– Eu posso te ajudar se quiser.
Encarou Kim.
– O quê?
A menina parecia confusa. Kid franziu o cenho e a encarou friamente.
– Se pensa em me cobrar, não, obrigado Kim.
Os orbes de esmeralda abaixaram-se ao chão e as bochechas ganharam um tom avermelhado, outra vez. Um pequeno sorriso formou nos lábios da menina.
– É que... Eu pensei se poderíamos sair um dia, sabe.
Arregalou os olhos, encarando-a. Sentiu sua intimidade latejar outra vez e suas bochechas esquentarem. Kim sentia atração por ele? Desde quando?
– Ãh, bem, quando eu voltar na minha forma normal, quem sabe nós-
– Não. Queria saber se poderia sair com você... Assim, menina mesmo.
Kid engasgou. Mas que raio?! Kim era lésbica?!
– Em troca, irei lhe ajudar. Se não concordar, finjo que nunca te vi.
Suspirou. Parece que não havia opção, não é?
– Tudo bem, eu saio com você. Sexta às vinte?
As pupilas de Kim dilataram pelo menos três vezes o tamanho normal, com um brilho novo nos olhos e as bochechas totalmente enrubescidas. Deu um sorriso de leve, apenas para não parecer tão desesperado para querer ajuda. Kim era uma menina legal, mas assim como Maka, Tsubaki, Patty, Liz, Jackie, não despertavam interesse nenhum. Lógico que algumas haviam um ótimo corpo, mas nunca ligou realmente para isso. Já se questionara trocentas vezes sobre sua opção sexual, mas o quê realmente importava? Toda essa mudança estava quase o fazendo se questionar outra vez.
– Sam!
Saiu do transe, encarando o dono da voz infantil. Pele morena e cabelos azuis. Maldito Black Star.
– Oh, Black Star, olá.
O menino gargalhou e sentou-se ao seu lado, Kid não havia reparado, mas estavam praticamente num quarto pequeno. E muito bem arrumado. Perguntava-se se era o de Tsubaki, pelas pinturas de flores espalhadas nas paredes de tintura clara e pastel. Não era simétrico, mas era organizado.
– Está curtindo a festa do Todo Poderoso?
A “garota” balançou a cabeça, concordando levemente. Algo lhe dizia que a noite iria ser bem longa.
– Ótimo! O que acha de irmos dar uma volta? Vamos, eu te pago um lanche light ou coisa que meninas curtam!
Iria dizer não, mas o moreno agarrou-lhe pelo pulso, levando-o até um pequeno elevador nos fundos do apartamento. Em instantes já estavam na rua. Ficou boquiaberto, Black Star era rápido não só nas missões então. Repetiu outra vez, mentalmente: Maldito Black Star.
– E então, como é onde mora?
Acabou que Black (podemos ter essa intimidade, certo?) pagou-lhe uma casquinha de baunilha. Não havia pedido muito menos recusado. Estavam três ruas abaixo do Shibusen e podia sentir a risada de seu pai e aquela arma estúpida rindo amargamente dentro de sua alma. Não via, mas sentia. Black estava até agora falando sobre sua família, já que o jovem shinigami havia questionado-o, para enfim fazê-lo prestar menos atenção em si. O que não dera muito certo.
– Mas então, onde você mora é maneiro?
Kid o olhou de canto e assentiu. Precisava inventar uma desculpa.
– E bem calmo também, eu particularmente gosto. Não é grande e nem pequena, é popular, mas nem tanto, acho bem legal sim.
O moreno sorriu.
– E sua infância? Foi melhor que a minha?
O shinigami suspirou e pensou por alguns segundos. Inventar, isso era uma arma.
– Ná, não acho que ela tenha sido grande coisa.
E deu outra lambida leve no sorvete. Black sorriu e chutou algumas pedras da rua.
– Fala aê, vai. Não sou fofoqueiro e nem nada!
Um sorriso calmo formou-se aos lábios do shinigami.
– Tá. Meu pai nunca parava em casa, então eu sempre fui trancado dentro da nossa mansão, com algumas empregadas e tudo mais. Então eu acabei ficando sozinho por um longo tempo, sem amigos ou esse tipo de coisa, mas, aprendi a me virar.
Kid não mentiu. Realmente sua infância fora trancada numa mansão. Mas obviamente ninguém sabia disso, muito menos suas armas.
– Hum. Parece ter sido um tédio.
Kid riu de leve e voltou a tomar o sorvete.
Os dois sentaram-se num banco de praça, as estrelas pareciam três vezes maiores, o céu estava num tom mesclado de azul noite com o negro. Provavelmente já era bem tarde.
– Sam, você é tipo aquelas minas que falam pronome de macho, né?
O sorvete havia acabado e o olhar esverdeado passou a olhar os orbes dourados. Aquele olhar curioso e infantil. Mas, espera. O que?
– O que?
Piscou três vezes, tentando assimilar a pergunta, quando finalmente se deu conta. O pronome. Ele estava falando normalmente.
– Ah, sim, desculpe-me por isso, é sem querer.
Black Star riu.
– Normal, eu troco também esses bagulhos.
Outro riso escapou da garganta do menino, sem querer. Kid até se assustou.
– Bom, acho melhor eu ir para casa, Liz e Patty podem se preocupar e tudo mais.
O moreno azulado levantou-se num pulo, oferecendo o braço para a garota. Kid sorriu e passou as mãos entre o pequeno gesto, agradecendo. Caminharam de volta, em silêncio.
Até que Black Star não era tão péssimo assim.
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