Maldição dos vivos
1 Lágrimas do Inverno
O tempo cinzento, úmido e frio. Antes do sol nascer, já era perceptivel que mesmo com o inverno tendo seus ultimos suspiros, ele não se renderia facilmente à primavera que estava próxima. Os últimos dias foram difíceis para Eurielie, não entendia como alguém é capaz gostar tanto de frio ou ser apaixonado pela neve e falar maravilhas do quanto algo fica bonito ao ser coberto por grossos tapetes brancos de cristais congelados. Desde quando algo verdadeiramente belo machuca? pensou. O frio castiva-a severamente, seus dedos enrijecidos, suas bochechas doloridas, o corpo demorava para responder os movimentos fazendo a vontade da baixa temperatura prevalecer. Detestava tremer, sentia-se fraca e vulnerável por não conseguir controlar os joelhos e braços que estavam a ignorando como se pertecessem a outra pessoa. Elie, definitivamente odiava o frio pois não era natural de onde crescera, os agasalhos eram incomodos, o céu brusco que dava um tom de melancolia a tudo, o vento gélido que trazia consigo as vezes banhos mortíferos das nuvens que por sua vez tornava o ambiente realmente melancólico mas o principal motivo de detestar essa maldita temperatura era que lhe trazia um sentimento horrível, tudo ali era motivo de desconforto.
Pelo menos não tem nevado e pelo jeito não estarei aqui quando o proximo floco cair. Ela desejou com todas as forças que jamais chegasse a ver sequer um granulo branco, se apenas a ideia de nevar deixava-a mal não saberia como a dor consumiria-a por azar se chegasse a realmente presenciar granulos sendo repelidos dos céus para perto de si. Belle sua idiota, como pôde gostar de algo tão estúpido?
Foi uma desgraça o que aconteceu, Elie encontrava-se muito abalada pelo assassinato mas era a única que realmente estava tomando alguma atitude para fazer justiça. Arienne, Tabitha, Velha Bakhita, Nile, Ainda não conseguiu superar o que aconteceu com sua amiga e mesmo a irmã mais velha tendo a proibido de fazer algo a respeito, não conseguia simplesmente encostar a cabeça no travesseiro e dormir como se tudo estivesse como antes, porquê não estava nem ficaria, sem contar que ela não conseguiria dormir com as imagens se materializando em seus sonhos deixando-na impotente mais uma vez. Aquilo seria dezenas de vezes pior do que a dor que estava sentindo nestes dias. Entretanto, fazer o que estava fazendo tranquiliza-a pois se não fosse ela quem o faria em seu lugar? Uma droga é fazer isso justo aqui! Onde você está em tudo. No ambiente, no céu, na chuva, no vento, não importava para onde os olhos de Elie estivessem apontando e mesmo com ambos fechados o frio que sentia em sua pele fazia-na pensar que estava abraçando o corpo de Cibelle sem vida.
De outro modo seria mais complicado perseguir alguém. Pensara no início. Uma pessoa no frio, não faz questão de sair, prefere uma aconchegante lareira, cobertores e algo quente para manter o corpo aquecido. Caso resolvesse deixar a comodidade do lar apenas por ocasiões realmente necessárias, seria para um lugar proximo onde poderia permanecer até estar preparada mentalmente e fisicamente para prosseguir sua rota em meio a quem sabe eventuais momentos de geada, se fosse para outro destino exceto a casa repetiria o processo até que retornasse, as chuvas que ocorriam de tempos em tempos deixando esse processo mais longo. O homem velho a quem Elie estivera observando nos últimos dias mais parecia uma presa inocente, presa e incapaz de sentir o predador que está perto até que ela o ataque revelando suas garras.
A garota estava sozinha. Ninguém concordou em ajudá-la, ao descobrir que Belle havia sido morta por aquele desgraçado.Todos procuram viver em função de si mesmos. Ninguém está disposto a se arriscar totalmente pelo outro, as relações sociais servem apenas para se ter algum benefício próprio em função de alguém e caso não seja mais possivel obter lucros se torna algo dispensável. A sua força estava aí, os pés não fraquejavam mesmo com os protestos do corpo pois lutava não apenas por ela mas sim pela melhor amiga que se fora. Nem mesmo as outras que eram mais velhas, experientes e mais competentes do que Elie teriam tamanha determinação que a garota mostrava, qualquer pessoa em seu lugar teria sinais de exitação, esta seria a falha crucial a ser cometida. A fraqueza está na exitação. As pessoas são assim, fracas e previsiveis. Previsíveis por serem fracas e fracas por serem previsíveis. A exitção não era uma opção, não se fazia a necessidade de se escolher o que fazer, no instante que soube que a amiga que tanto amava havia sido assassinada, soube na hora a medida que deveria ser tomada e era pagar sangue com sangue. Não importa com qual lado do tabuleiro estou mexendo. A guerra é virá. Mesmo com todos advertindo-a de que Belle não voltaria com isto a jovem não se importava, não passára pela cabeça trazer a amiga de volta com mais sangue derramado, só procurava vingança e nada além.
Mas ‘Old’, maneira como chamam o velho por aqui, não estava facilitando sua tarefa. Apesar de 50 anos ser uma idade muito nova para alguém com aquela aparência, demonstrava uma disposição de um sujeito que possuía a metade disso. Devia ter aproximadamente 1,84 metros de altura, apesar dos trajes de frio que o deixava mais inchado teria um peso em torno de 82 quilos. Um chapéu bowler cinza escondia uma aparente ausência dos cabelos grisalhos no topo da cabeça que existiam apenas aos lados de suas orelhas grandes. Uma face enrugada era composta do rosto geométrico em formato de diamante, a boca fina que hora ou outra exibia um charuto entre os labios deixava-o com um ar sinistro, nariz fino com pelos brancos lhe saltavam as narinas e olhos claros que lembravam pedras de gelo tornava seu olhar algo frio e impiedoso. Usava sempre uma jaqueta velha militar de couro que permanecia fechada a uma medida do peito revelando um suéter de lã por dentro, calça jeans escurecidas pela idade e sujeira tinha barras abarrotadas pelas poças d’água que faziam pequenos lagos nas calçadas da cidade e seu sapato side gore preto de solas já gastas e totalmente encardido não fazia sequer ruído perante a maneira que o homem movimentava-se. O clima não passava de mero detalhe, seus passos aparentavam firmeza tanto em chão duro quanto numa poça de lama.
O velho não costumava permanecer muito tempo em algum lugar, exceto quando precisava esperar alguém, mas isto não o deixava com sinais de raiva ou irritação por ficar mais tempo congelando, Elie até começou a pensar que era algo de seu agrado. Mas após terminar o compromisso, que geralmente era conversar com um informante, receber papéis em pastas ou entregá-las à outros. Old dava continuidade a seus afazeres com a disposição de como se fosse a última tarefa do dia, mas não era, na noite passada a madrugada já havia pego algumas horas do proximo dia quando ele retornou para aquela velha espelunca que se denomina Hotel Badger, um lugar horrível onde mofo parecia ser especialidade tanto no cheiro quanto na comida.
Por sorte hoje foi um dia calmo, Old estava num ritmo mais tranquilo do que nos ultimos dias, não que fosse um problema a agilidade pois nesse quesito Eurielie era perita, sempre conseguia esconder-se a tempo quando o velho suspeitava de algo, aproximar-se quando desejava ouvir alguma conversa, enxergar algo e manter ele sempre à vista. Já contou 6 informantes diferentes de Old, cinco homens e uma mulher, as conversas são rápidas e em tons moderados, todas acontecem no Red Neck Pub, um dos bares locais que abrigava todo tipo de cliente, enquanto houvesse alguém dentro o lugar funcionava. Suas mesas redondas feitas de carvalho europeu pintado de preto tinham em suas cadeiras pessoas na boa parte do dia. Lá era um ponto de reuniões popular na região pois também funcionava como lanchonete, jovens, grupos de amigos, encontro de casais, pessoas que voltavam do trabalho ou que desejavam um lugar para descontrair e ouvir algo, mas isto apenas quando a noite começava e algum grupo músical se apresentava, mas na maioria dos dias caixas de sons com velhos cd’s era o que se tinha para aproveitar. A música não era grande coisa mas ao menos podia-se ficar lá em torno de uma hora antes de começar a enjoar de lá. Iluminação durante o dia era pouca, parecia que não existia eletricidade pois os lustres largos que haviam não tinham potência o suficiente deixando o lugar com um tom depressivo. Elie sentia-se desconfortável com o que isso lhe lembrava. Mas com o tempo que fazia o problema da iluminação foi respondido, com uma instalação de luzes em formatos de potes pequenos com tampas por toda a extensão do bar dando destaque aos nichos de madeira avermelhada com garrafas vazias de marcas importadas, mesmo assim o lugar não demonstrava ter uma grande iluminação, ao menos Elie se manteve escondida graças a isto.
Old fazia seus encontros em horários variádos no pub, o tempo mínimo para um encontro do outro era de aproximadamente uma hora e trinta minutos, entre os intervalos ele visitava praças, hospitais, escolas, dava uma checada no ambiente com seus próprios olhos para ver como que as coisas estão. Para suas reuniões, se adiantava em todas as vezes em torno de vinte minutos e permanecia no balcão feito de paletes empilhados e lixados com uma pedra de mármore por cima, bebendo no começo do dia doses de Sticke e ao entardecer ele opta por Altbier até começar seu compromisso. Todos os chamam de Old, tanto os informantes quanto as demais pessoas da região por isso Elie não descobrira o verdadeiro nome do homem. Ele limita-se em usar ‘você’ para todos sem demonstrar intimidade, os encontros duram no máximo 5 minutos ocorrendo em mesas váriadas. Quando a pessoa que o velho está aguardando entra no bar, ele espera alguns minutos antes de se juntar à ela. Talvez seja para verificar se o contato está sendo seguido. Quando está satisfeito ao concluir que ninguém está de olho em seus homens, Old se junta a mesa levando uma garrafa da bebida junto com dois copos, senta-se ao lado oposto ficando de frente para a pessoa e despeja a bebida em ambos os copos servindo-nos.
Ceres estava certa sobre o que falou à respeito desse cara. Ele não deixa quase nada escapar de seu radar, um mínimo descuido e alguém poderia facilmente cair em sua rede sem ao menos perceber. Mas isto não preocupava a garota, sabia que tinha conseguido manter a descrição e investigar Old ao mesmo tempo, havia coletado algumas informações importantes a respeito do velho. Toda noite às 23 horas, ele fazia seu relatorio do dia por um telefonema. Elie não fazia idéia de quem poderia ser do outro lado da linha. Isto a deixava perplexa. Pois descobriu algo realmente grande, o velho mantinha a área sob controle porquê estava escondendo algo nos arredores, e seja lá o que fosse deveria ser de extrema importância pois a pessoa com que ele falava nas ligações demonstrava uma seria preocupação. O que poderia ser? Não que Elie estivesse muito preocupada com o que acontecesse naquele lugar, entretanto seria um bom plano conseguir algo valioso quando voltasse, sabia que seria seriamente repreendida e não queria imaginar o que mais estava-a aguardando. Poderia se redimir caso descobrisse o que estava acontecendo lá.
Fica pra mais tarde esse assunto. Old, estava num parque pequeno e vandalizado que havia na cidade para fazer a ligação noturna, um bosque cheio com iniciais de nomes cravadas nos troncos de suas ávores tomava a maior parte do lugar, arbustos altos, um pequeno lago em seu centro, espalhado pelo território haviam bancos de concreto largos e pixados.
Elie por um momento achou engraçado, até parecia que o tempo detestável estava a seu lado dando-lhe suporte para que pudesse cumprir sua missão. O sol levara consigo a chuva que a perturbara durantes todos esses dias dando espaço à noite acompanhada do vento audacioso e inquieto, que entre as árvores corria velozmente fazendo-nas assoviar um canto de inverno gelado. A lua como um holoforte que dava destaque a uma apresentação, ofuscava o brilho das estrelas e mantinha-se ao céu deixando um tom perolado sobre a superfície do lago.
A garota sentia seus ossos se retorcerem na carne pelo frio que estava fazendo, de nada já adiantava usar grossas camadas de agasalhos e meias durante o dia, quem dera agora que a temperatura estava bem mais mortifera e seu corpo conta com um numero menor de roupas. Era necessário se sentir mais leve abrindo mão de dos tecidos que poderiam comprometer seus movimentos caso precisasse depender da sua disposição corporal completa. Vestia agora apenas um conjunto de couro cintético escuro. A sensação era estar completamente nua, podia sentir o frio no corpo todo.
Old, permaneceu parado à frente do lago. Arrumou o charuto em sua boca e levou o telefone ao ouvido.
- Sou eu. — Comprimentou.
Eile estava em torno de 15 metros atrás, escondida no bosque, a iluminação da lua indenmizava as lâmpadas quebradas nos postes.
- Ora, desde quando somos tão cordiais em uma conversa? — Falou o homem com desdém.
A garota estava às costas do velho a voz dele era a única que conseguia ouvir. Acalme-se! Ordenava ela para o corpo que começava a queixar-se por estar abaixada coberta por arbustos molhados que deixaram seu corpo dormente.
- Ok. Parei, você está certo... — Um tom de desculpa misturou-se à sarcasmo na voz de Old.
Eurielie afrouxou um pouco as pernas deixando os arbustos à altura dos seios.
- Escute-me Earlon... — havia exitaçao em sua voz. — Nós precisamos conversar...
Earlon! Elie obteve um nome. Quem será esse tal de Earlon…? Foco! E num movimento de instinto abaxou-se como um gato em posição defensiva, Old havia virado em sua direção. Caminhou poucos metros e sentou-se em um banco voltando a dar as costas para o bosque.
- Eu sei. Me desculpe, — declarou com ar de cansado — mas você precisa me escutar. — Insistiu. — Garanto que lê os jornais e sabe do que está acontecendo certo…? — Aparentemente a que a pessoa com quem o velho falava o interrompeu.
Para o azar de Elie, Old estava num banco de encosto alto. Mesmo com a iluminaçao da lua, era possivel enxergar apenas o chapéu rasgado do homem.
- É claro que não estou pedindo isso! — Protestou o velho elevando sua voz. — Acontece que não podemos continuar a vida inteira assim, mais cedo ou mais tarde você sabe que algo vai acontecer e mesmo eles não tendo a mesma vontade que da nossa para fazer o desejo dele, garanto que podemos contar com a ajuda...
A dor retornou ao corpo da jovem. Podia sentir sua pele congelando e percebeu que começara a ter dor de cabeça. Só mais um pouco. Old desligaria o celular a qualquer momento dando a informação de que não tinha problemas lá, assim ela poderia enfiar um projétil de usar sua RT 88 na cabeça do homem e ter um tempo para conseguir apagar os vestigios para poder sair daquele lugar..
O velho deu um gemido em tom de discuçaoi e permaneceu em silêncio enquanto deixava o celular entre seu ombro direito e o ouvido, suas mãos desocupadas tiraram-lhe o chapéu e movimam o charuto longe da boca. A garota via a fumaça se deslocando e uma das mãos que agora estava penteando o pouco cabelo desarrumado que surgiu.
A garota, por um momento penso que sua arma havia se transformado em gelo, mesmo com as luvas podia sentir o metal glacial que havia se tornado o revolver. Engatilhou seu bloco congelado mesmo assim e abriu terreno prosseguindo alguns metros. Já está quase na hora.
- Bom, nada que valha a pena em se preocupar na minha área. Sem problemas.
Finalmente.
Eurielie prendeu a respiração, curvou as costas costas com o maximo de cautela que encontro e deu o primeiro passo. Seus olhos estavam pregados na nuca de Old que a ausência de chapéu deixou. Ele ainda não desligou o telefone. A voz estava falando algo para o homem, Elie conseguia ouvir um leve tom masculino que vinha da orelha direita de Old. Ainda nao posso fazer nada. Acomodou-se ao lado de uma árvore com o maximo de silencio que pôde e mais uma vez colocou-se a esperar.
- Eu compreendo, não está sendo fácil para ninguém mesmo. — Concordou o velho.
Quase que ao mesmo tempo, uma enorme nuvem píntou sobre o parque uma sombra negra e enorme, matando todo vestigio da luz que havia lá até agora pouco. Euriele aos poucos cameçava a perder de vista da cabeça do homem que deu um passo instintivo para continuar de olho no objetivo. Um leve ruído de galho quebrando se fez aos seus. Pânico tomou conta de si, o ruído havia sido baixo mas era perfeitamente possível que o velho conseguiria escutá-lo. Será que a conversa o manteve distraído? A garota não sabia a resposta, se escondeu atrás da arvore sem ao menos checar se o homem tinha percebido alguma coisa. Olhou rapidamente para a direçao do banco para avaliar. Embora estivesse totalmente escuro ela conseguia enxergar o formato do chapéu que estava de volta a cabeça de Old.
- Está bem. Não se preocupe, todos nós precisamos descansar, pena que nao haja tempo para isso. — Falou o velho. Ele não percebeu!- Ao menos podemos ter algumas horas de vez enquando. — Fez uma pausa. — Então está bem, boa noite.
O medo paralisara Elie, não mexeu sequer um musculo enquanto o velho mexia os labios, era como se estivesse esperando o consentimento dele para que ela pudesse respirar novamente. Quando percebeu a situação, rapidamente deu partida em direçao ao banco, sem fazer barulho algum. Foi dificil, estava cega e agora era responsabilidade dos outros sentidos guia-la para o velho. Quando chegou ao seu destino, levantou sua mão que portava o pedra de gelo, no movimento percebeu que estava tremendo. Por Belle. Por Belle. Por Belle. Por Belle. Isso deu forças para que ela colocasse a ponta da arma apontada para o chapéu de Old. Ganhei. Estava prestes a apertar o gatilho quando, ao pressionar o cano da arma contra o chapéu, teve um susto ao descobrir que o objeto estava apenas equilibrado sobre o encosto do banco e caiu com o empurrão do revolver. Onde está o velho? No impulso levantou-se totalmente para verificar o assento de concreto que estava vazio exceto pelo charuto enfumaçado.
- Boa noite garota. — Disse Old às costas de Euriele. — Vire-se devagar, e deixe a sua arma nesse banco.
Mais uma vez, Elie era petrificada pelo medo. Seu corpo tornava a desobedecê-la.
- Acho que você não me ouviu menina. — Falou em tom de repreensão. — Deixe a droga dessa arma e vire-se.Já. — Ordenou o homem.
Como se a voz do homem fosse uma ameaça para os membro gelidos da garota. Quase que instantaneamente deixou a arma cair no assento do banco e com as mãos elevados deu um giro lento para a direçao do velho.
- Boa garota. — Falou ele em aprovação, e continuou. — Agora, conte-me seu nome.
Old estava apontando sua arma a poucos centimetros do rosto da jovem. A respiraçao da garota embaçava o metal do silenciador que havia na ponta.
- Acho que ouvir não é o seu melhor. — Lamentou o homem. — Qual o seu nome? — Disse rigidamente.
A cabeça de Elie estava rodando, não conseguiu compreender com exatidão a pergunta. Nome? Ele quer saber meu nome? E derrepente gritou com raiva como se tivesse recobrado a conciencia.
- VOCÊ TAMBÉM PERGUNTOU O NOME DELA ANTES DE MATÁ-LA?
Com a mão esquerda, empurrou a arma longe de sua cabeça, sentiu a bala passar acima de seu ombro direito indo em direção ao rio. Logo correu sem pensar duas vezes para o bosque. Maldita escuridao! A nuvem não deixou o parque. A jovem corria com as mãos estendidas para a frente para tatear as eventuais árvores, tropeçava aos arbustos que se prendiam aos pés e a enxarcavam ainda mais. Ainda em disparada voltou a cabeça para trás. Conseguiu identificar o vulto que movia em sua direçao e aumentou a velocidade.
Os musculos de sua perna começaram a calejar, sabia que sua força estava acabando. A adrenalina que teve foi o suficiente para levar o resto de energia que havia em seu corpo. d
Desde que soube da morte de Cibelle recusava-se a comer e caso o fisesse era sempre pequenas porçoes. Sua cabeça estava prestes explodir, sentia-se tonta e começou a cambalear. Acabou tropeçando na raiz de uma arvore e não conseguiu evitar a pancada forte de seu rosto contra a o tronco grosso que surgiu.
Caiu de brussos ao chão perdendo os sentidos por alguns segundos. Quando acordou viu que tinha caido sobre uma grama vermelha e molhada. Com muito esforço, rolou e rastejou-se em direção de uma ávore proxima e se encostou. Já não havia saída naquela situação. Isto se concetizou ao ver Old se aproximando com a arma apontada novamente em sua direção.
- Seu nome. — insistiu novamente o homem.
A garota fez silêncio e com uma das mãos começou a mexer dentro do bolso da jaqueta,
até uma pistola NAA prateada se revelar. Sem forças alguma, começou a elevar o braço para apontar contra o homem. Viu a expressão dele, devolveu um olhar de desprezo e humilhação. Sabia que naquele instante, o gatilho da arma dele seria pressionado e que ela não conseguiria apontar sua arma para ele a tempo. No momento em que o homem estava para disparar, a garota ainda estava com uma das mãos no bolso da blusa.
O barulho da arma foi baixo, mas o gemido de dor que Old dera ecoou o bosque todo. No ultimo instante seu braço fez um movimento brusco e a arma acabou apontando para o próprio pé, onde a bala foi disparada. O velho foi tomado pela dor e se abaixou. O máximo foi no pé. Sua força já havia se acabado, até ver a mão que segurava a segunda arma começar a se por contra o homem. Por Belle.
- Meu nome é Elie.
No momento que estava prestes a apertar o gatilho sentiu seu corpo esquisito. Algo que a fez parar. Um sentimento estranho tomou conta de si, uma sensação que acreditava ter esquecido retornou para ela. Algo que a amiga Belle levou consigo ao deixá-la sozinha. Uma coisa que apenas a amiga conseguia proporcionar tal efeito em Elie. Calor. Pela primeira vez em semanas sentiu calor. Em sua bochecha, caiu um pequeno floco de neve que aqueceu seu corpo. Assustada, ela olhou para o céu. A nuvem já havia passado, deixando a noite com o mesmo aspecto de antes Exceto por um detalhe, agora se viam pequenos granulos nevados e prateados pela lua caindo sobre tudo. Uma chuva clara e lenta. O floco de sua bochecha começou a derreter com a lágrima que rolava em seu rosto.
- Belle…
Podia sentir a amiga, na neve, o amor de sua vida. Prometera nunca mais chorar, porém não pôde controlar as lágrims que faziam questão de sair dos olhos. Lembrando-se do que a amiga ia dizer no momento deu um sorriso e desejou ser tocada por mais neve que desciam dos céus. Queria sentir sua amiga de volta mais e mais. Quando estava prestes a levantar suas mãos para tocar os proximos pedacinhos de gelo lembrou-se da pistola que ainda estava segurando e Old.
Sentiu algo perfurar sua barriga. Old se recompora e atirou em seu estomago. A dor fez a garota soltar sua arma e ter vontade de se contorcer. Mas sua forças já a deixaram, levou as mãos ao lugar onde foi baleada vendo suas mãos sendo tingidas de vermelho vivo com a claridade da lua. Mais neve caiu sobre si e voltou a se lembrar de Belle. Já não podia fazer mais nada se não ficar lá esperando a sua hora. Não queria olhar para Old, abaixou a cabeça e com a visão ficando turva contemplou a chuva de neve que caia sobre si. Sentiu a vida em seu corpo se indo juntamente com o calor. A última coisa que notou foi o cano gelado da arma de Old em seu peito.
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