Maldição dos Deuses

13 Janeiro * Sou Luke Castellan


Não tinha percebido como tudo tinha mudado até o momento em que me dei conta de que não via Thalia tão frequentemente quanto antes. Agora que as pessoas achavam que eu era filha de Poseidon, os olhares todos mudaram e eu fui inocente ou burra demais para perceber isso antes. Se antes olhavam para mim como uma novata, agora, os olhares eram de respeito (o que era estranho porque eu continuava sendo uma novata). Thalia estava tendo que dividir atenção comigo e com Percy. E não foi só nos fulminantes olhos azuis dela que eu percebi raiva ao ter que reconhecer que não poderia mais me tratar do mesmo modo. Os olhos verdes de Percy também indicavam infelicidade. Mas diferentemente de Thalia, ele não tinha raiva de mim, eu não era uma boa leitora de emoções, mas achava que ele estava com medo. Medo de não ser tão bom e inveja porque eu também tinha ganhado um presente incrível de Poseidon. Talvez até mesmo os mais humildes e que não buscam a fama, no fundo querem ser reconhecidos, mesmo que por seus entes próximos. Eu mesma tinha muito disso.

Estava no fundo da floresta, numa aula de Resistencia com o Chalé 9 (muito durões por sinal), ainda era de manhã, mas as copas das árvores tampam quase completamente a luz do dia deixando o ambiente agradável.

Aconteceu tão de repente que eu tenho dificuldade de descrever. Os dardos voaram tão rápida e precisamente para os meus colegas que eu nem tive tempo para pensar. Quando vi o grupo de 5 pessoas que eu acompanhava naquele momento estava no chão. Eu já estava ofegante por causa das provas que enfrentava na aula, mas fiquei completamente sem ar quando vi aquela cena. Olhei para a direção dos disparos. No momento, os pensamentos turvos, eu só elaborava coisas que pudessem me salvar do que quer que eu tivesse que enfrentar. Como chamar ajuda? Eles estavam muito distantes não ouviriam. Talvez as dríades e os espíritos da floresta pudessem me ajudar, mas como chama-las. Percy me falara da uma chamada Júniper, mas não sabia se funcionaria.

No momento, a solução mais plausível foi sacar Safilianty, apesar de não conseguir controlar o tremor nos braços, me posicionei para receber qualquer ataque.

—Então você é a filha de Poseidon.

—Quem está aí?

A voz grava, melodiosa e maliciosa deu um passo a frente, entrando numa brecha de luz onde pude vê-lo. Era um garoto, mais alto que eu, mais velho que eu, mais equipado que eu, usava uma armadura completa e All Star, isso me chocou. Seu rosto era muito belo, os olhos azuis pálidos angustiados, mas que traziam algo divertido e travesso, seu cabelo areia em corte militar, dentes lindos, num sorriso malicioso, tudo isso num flash que não passou batido a grande cicatriz que ele levava no rosto, seguia da testa até a metade da bochecha, era branca, já estava ali há um bom tempo, apesar disso era extremamente cativante.

—Quem sou eu? — ele gargalhou – Aparentemente, não te ensinaram nada, filha de Poseidon. Arma bonita a sua, cuidado, por que eu sou um famoso ladrão. – disse enfaticamente.

Filho de Hermes, um dos ruins.

—Sou Luke Castellan.

Meu coração parou imediatamente, sentia como se veneno de dracaena tivesse penetrado meu corpo pelos ouvidos com aquelas palavras. Era ele. A causa de tanta discórdia, de tanto sofrimento. Quem tinha cativado tanto Thalia quanto Annabeth. Tinha a amizade de Percy. A raiva por meus amigos recém conhecidos subiu e só consegui cuspir as palavras:

—Você é o traidor.

Ele riu.

—Visão engraçada a sua. Eu me vejo mais como um Libertador de todos os Semideuses e do mundo na verdade.

—Não vejo como ameaçando o Acampamento você possa conseguir alguma coisa.

—Lingua afiada a sua, filha de Poseidon. Infelizmente, esse é um momento para se ter medo.

E eu estava, paralisada de medo, caso contrário já teria atacado, o que seria uma burrice também porque os boatos eram de que Luke era um dos melhores espadachins da geração. Me sentia patética com Safilianty apontada para ele, e ainda mais sem estar firme.

—O que você veio fazer aqui? Se quer me matar, vamos logo, comece a lutar comigo.

—Bom, pelo que vejo não seria preciso muito para te derrubar. Por outro lado, você tem olhos muito mais ferozes que os de Percy, mais garra. – e completou com desdém — Só um gatinho assustado tentando se impor.

Fiquei com raiva e ataquei-o. Nunca tinha visto alguém sacar uma lamina tão rapidamente, a espada dançou em sua mão enquanto eu o golpeava, mas ele não foi rápido o suficiente para parar Safilianty com a espada e parou-a com a mão, enquanto passava sua arma por trás da minha nuca, me puxando para um abraço mortal. Tinha me faltado estratégia, mas ele estava me deixando muito mais nervosa que o normal.

—Dica de combate: nunca se precipite.

O sangue escorreu pelo ouro branco marinho, pingando em meu ombro, lentamente, sem que ele fizesse um mínimo sinal de dor. Seus olhos me encaravam fixamente. Me esforcei e consegui tirar meu olhar assustado do rosto encarando-o como quem não tem medo daquilo. A espada gélida roçava minha nuca, num convite sensual para a morte. Provavelmente já estava sangrando. Pedi desculpas mentalmente para todas as pessoas com quem tinha falhado na vida, principalmente meus pais, uma espécie de epitáfio mental que passa na nossa mente quando estamos de cara com a morte, ou com um semideus lindo de morrer.

—Não vou te matar agora. Vim até aqui para saber se você seria uma ameaça a meu plano. Mas pelo visto, não vou ter que sujar minha lamina com seu sangue.

...

Quando acordei estava na enfermaria e ainda estava claro.

—O que aconteceu, Gi? – Quiron estava na cadeira de rodas ao lado de minha cama, com todos os Conselheiros de Chalé me observando com olhos arregalados, alguns um pouco mais preocupados outros mais entediados.

—Eu... – minha cabeça doeu.

—Luke esteve aqui? – perguntou Annabeth antes que eu pudesse respirar.

—Sim...

—Como assim? Não entendo porque, achei que ele quisesse me converter para o lado dele, pensei que viria atrás de mim – disse Thalia.

—Silencio. Deixem que ela fale.

Contei a eles a cena, nos detalhes que eu lembrava, omitindo as partes em que eu permaneci sem reação e nos momentos em que não pensei claramente, não tive estratégia. Estava envergonhada, com raiva. Nunca me sentira tão impotente na vida, tão impotente perante a morte iminente. Talvez pior que isso, foi o fato de ele não ter nem me considerado digna de matar, eu estava arrasada, mas, como sempre, tentei não pensar nisso naquele momento.

—Não entendo porque ele veio até aqui só para saber quem eu era, sendo que ninguém tem certeza se eu sou realmente filha desse maldito...

—Não fale assim dos deuses.

O olhar de Thalia e Anabeth ao ouvir que Luke viera até o acampamento por mim, foi terrivelmente triste. Acho que elas ainda tinham esperança de que ele pudesse voltar a ser bom.

—Não temos tempo agora, não podemos adiar o ritual de encerramento por um traidor como o Luke. Depois da fogueira quero reunião com os Chefes de Conselho, informarei Sr.D que certamente tomará as devidas providencias para esse caso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.