Notas iniciais
OIIIII! Gente, sério?! Nem com os meus toques vocês tomam vergonha na cara? C-O-M-E-N-T-E-M! PELO AMOR DE DEUS!

Depois da aula de Educação Física extremamente maçante, ela foi chamada na diretoria. A ruiva até se lembrava das reações dos colegas. Os olhos de Alex, Ian e Taylor quase saltaram das órbitas de tão arregalados. Claro, não era todo dia que Sophia Merenwen, a santinha do reformatório, era chamada para conversar com a diretora. Ela dera de ombros e seguiu até a “tão temida sala da diretora” que a propósito já conhecia, do dia que ela e a Lina faltaram aula e tiveram que dar explicações. Não tinha nenhum instrumento de tortura á vista que ela se lembrava.

Deu duas batidinhas tímidas na porta e ouviu um “entre”. Abriu e entrou murmurando um “com licença” e se sentando, recatada como sempre:

–Senhorita Merenwen.

–Sim?

–Os seus pais pediram pra avisar que não virão nessa visita. Houve um problema com a sua tia materna, Odette, e eles tiveram que viajar ás pressas. Mas que mês que vêm eles virão, não se preocupe.

–Tudo bem. Mais alguma coisa? –A voz saía extremamente doce, era a voz que usava pra toda autoridade com que falava. Convencia-os muito fácil de que ela era inocente de tudo e qualquer coisa que pudesse envolver seu nome e como ela sempre era mesmo então tudo bem.

–Não, pode ir.

–Obrigada. Com sua licença. –E saiu.

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Aqueles corredores ainda pareciam os labirintos de uma prisão para a garota, mesmo depois de tanto tempo já naquele lugar. Ela adorava o quarto que dividia com Melina, mas ficar lá dentro o dia inteiro a sufocaria até a alma. Então foi até o gramado, numa parte mais afastada. Não sabia onde estavam os outros e se fosse procurar acabaria mais perdida do que já estava.

Fechou os olhos azuis levemente apenas pra apreciar a leve brisa que estava passando. Geralmente o Reformatório era bem abafado então qualquer brisa era um paraíso para os seus moradores, especialmente para aquela.

Permaneceu de olhos fechados, apenas curtindo o silêncio do gramado naquela hora. Então ela sentiu alguém se sentar ao lado e tirar os cachos do pescoço, roçando um dedo ali. O corpo dela se arrepiou então a garota nem abriu os olhos:

–Oi Ian.

–Nossa como sabe que era eu?

–Seu perfume. –Uma pequena parte da verdade. O perfume dele era inconfundível pra ela. Amadeirado, cítrico e com um quê de menta.

–Ah. Eu também reconheço o seu.

Abriu os olhos, curiosa:

–Eu não passo perfume. Só muito de vez em quando.

–Seu perfume natural querida. Avelã, cereja e um toque de baunilha. Bem Sophia Merenwen mesmo.

–Nem eu sabia disso. –Riu e depois suspirou levemente. –Cadê o resto do pessoal?

–Sabe que eu não sei. Eles sumiram do nada. Vocês têm esse dom, não é? De fazer puf, cortina de fumaça e simplesmente não está mais ali.

–De vez em quando. –Riu discretamente.

–De vez em sempre. Mas enfim, o que foi lá na diretoria? Devo dizer que é a primeira pessoa que volta viva de lá.

–Bobo. Nada, meus pais tiveram um problema e não poderão vir nessa visita. Mas na próxima disseram que vão aparecer. Eu até acho um pouco melhor. Ainda não estou pronta pra vê-los depois de tudo. –Respirou fundo, sentindo o ar preencher os pulmões. –E você? Algum parente vem?

–Provavelmente não. Só tenho minha mãe e ela não suportaria me ver aqui, já que se sente culpada.

–Por quê?

–Olha Soph... –Ele suspirou longamente, como pra dar uma pausa maior. –É uma longa história. Não gosto de contar.

–Tudo bem, mas se quiser falar, sou uma boa ouvinte.

Ficaram em silêncio por uns dois minutos, até ele tomar fôlego e começar:

–Eu amo muito minha mãe, Sophia. Ela foi a ultima pessoa que sobrou da nossa família. E ela me ama também. Mas é difícil, o vício com as drogas. Ela se viciou quando eu tinha três anos, com a morte do meu pai e daí pra agora foi só piorando. Sabe, foi um vício mesmo e pra se manter ela começou á traficar também. Então, quando tudo aconteceu, foi um borrão. Um homem chegou lá em casa, ele não tinha se ligado que eu estava lá. Mamãe estava com dívidas de drogas e não dava pra pagar. Ele ergueu a arma então eu pulei por trás, o desarmei e atirei. Eu matei um cara Sophia. Pra defender a minha mãe, mas mesmo assim. Tirei a vida dele, sem pensar duas vezes.

“Depois que tudo foi descoberto, fomos para a delegacia. Eu poderia falar Soph, poderia falar que era legítima defesa. Mas aí descobririam da minha mãe, que ela era traficante e ela seria a presa. Então eu menti e convenci-a á mentir também. Eu não seria fichado já que sou de menor e só teria que vir pra cá então, seria um sacrifício que eu estava disposto á fazer”

–Ian... Meu Deus

–É só Alex sabe dessa história. E agora você. Não gosto de contar, foram dias turbulentos da minha história. Sou péssimo em mentir e tive que aprender no improviso mesmo. Mas pra defender quem a gente ama.

–Né? –Sorriu gentilmente, mas um sorriso grande, daqueles sinceros mesmo. –Nossa, Ian, sinto muito. Mas sinceramente, eu te admiro demais. E te entendo. Você meio que me surpreendeu agora. Ian e seus atos heróicos.

Ele riu e então tirou um cacho que havia caído no rosto da ruiva. Sinceramente, ela já havia desistido de domar aqueles cachos. Ian o pos delicadamente por trás da orelha, sorrindo:

–Ah, eles não tem jeito. –Comentou sem graça, baixando os olhos azuis de cílios longos, encarando o chão. –São indomáveis.

–São lindos. Como você. –As mãos dele saíram do cabelo para delicadamente afagar seu rosto, com cuidado, como se ela pudesse quebrar á qualquer momento. –Adoro seus cabelos. Cachos ruivos, que emolduram seu rosto com uma perfeição que só podia ser você mesma. Adoro seus olhos. Foi à primeira coisa que eu vi quando você chegou e foi quando eu soube que estava completamente perdido. Eles são um mar, que se você não tomar cuidado, te puxam, te dominam e te hipnotizam. Olhos de ressaca, como diria Machado de Assis. Seu nariz, tão bem feito, arrebitado. E o que dizer da sua boca? Linda e completamente tentadora, principalmente quando já se tocou nela. É a coisa mais doce e inebriante que eu já provei em toda a minha vida.

Sentiu a face corar e o coração dar um salto. Por quê? Por que ele tinha que falar coisas daquelas? Por que a mente dela ficava tão confusa? Por que eu não podia simplesmente esquecer Ian ou esquecer o passado?

–Ian...

–Shiii. Para de lutar. Não vai funcionar. –Então ele se inclinou e tocou os lábios nos dela. Bem lentamente e delicadamente, sem forçar passagem. Mais uma vez ele queria deixar que ela se abrisse se quisesse, sem forçar nada. E mais uma vez ela se abriu, entreabrindo os lábios, deixando com que eles se aprofundassem. As línguas travavam uma batalha deliciosa por espaço e procuravam vasculhar cada detalhe da boca do parceiro. Ian levou as mãos até a cintura fina da garota a enlaçando ali, mas com delicadeza. Não queria assustá-la e faze-la se afastar.

Os dois se afastaram por causa do ar, mas apenas uns centímetros. Eles sentiam a respiração um do outro e para Sophia aquilo estava perigoso demais:

–Ian... Por favor... Não vai dar certo.

–Só se você não se permitir tentar. –Eles ainda estavam muito perto e a respiração lenta dela era sentida por ele. –Vamos tentar Sophia. Eu sei que você também quer.

–Ian...

–Uma chance. É só isso que estou te pedindo.

Sophia respirou fundo e o beijou. Estava mandando ás favas o maldito passado e os malditos traumas. Ela gostava demais daquele rapaz e não queria deixar com que ele escapasse. A ruiva queria estar com ele.

Ian recebeu o beijo surpreso e veio como um “sim” pra ele. Sorrindo entre o beijo, ele o aprofundou, mas logo se afastou. Não queria ir muito rápido, não com ela. Queria aproveitar tudo com Sophia, cada detalhe.

–Só não desista de mim. –A voz da ruiva saiu num sussurro.

–Nunca.

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Quando Sophia entrou no quarto após receber um selinho breve de Ian, Melina estava olhando pra ela como se tivesse acontecido a melhor coisa do mundo.

–Conte-me tudo!

–Meu Deus! –A ruiva ri e se senta. –Pare de ser tão maliciosa. Ele me pediu uma chance. Eu dei.

–Sophia Merenwen está oficialmente namorando?! Épico! –Melina abriu um sorriso maior que o rosto. A sua vida amorosa não estava dando muito certo, mas era bom ver que Soph estava começando á se abrir. Sabia que quando se tratava de alguns casos, a ruiva se encolhia numa cápsula criada para se proteger e não se abria. Era bom ver que Ian estava ajudando nisso. Afinal, quem melhor pra confiar àquela ruiva? Ela não confiaria á amiga a mais ninguém.

Ruiva que naquele momento tinha as maçãs do rosto da cor dos cabelos:

–Não precisa de tanto alarde Melina. Calma.

–Não precisa de tanto alarde? Qual é ruiva? A gente está na batalha por você e o Ian há tempos. Foi complicado te convencer.

–Eu gosto dele. –As orbes azuis encaravam o chão e as faces estavam incrivelmente coradas. –De verdade, gosto muito. Mas isso não significa que vá dá certo. Eu tenho muitos problemas Lina.

–Ele não parece se importar com eles. –Lina sorriu gentilmente. –Relaxa Sophia. Todos aqui temos problemas e você é uma das garotas mais fortes que eu conheço. Vai tirar esses problemas de letra, sejam eles o que forem.

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–Por que eu sabia que te encontraria aqui?

Soph tirou os olhos do livro e sorriu para Alex que se aproximava. A ruiva estava no mesmo lugar de sempre da biblioteca, na mesa mais distante de tudo e de todos, encoberta pelas sombras. Aquela mesa era um de seus lugares favoritos no reformatório, perdendo apenas para a clareira.

–Não é muito difícil. –A garota respondeu sorrindo vendo o amigo se sentar ao seu lado.

–Verdade. É você, não é? –Ele sorriu docilmente. Aquela ruiva inspirava tudo o que tinha de mais doce e delicado em você. –Soube de hoje.

–Meu Deus. Já?

–Acho que até a diretora já está sabendo Soph. Você me ouviu então? Que bom. Torço demais para vocês dois. Você merece alguém como ele. Ele merece alguém como você. Tudo vai dar certo.

–Eu não confiaria muito nisso não, mas se você diz. E você Alex? Melina?

–Fui falar com ela. Pedir perdão, ela ignorou completamente.

–Estamos falando da Melina, Alex. Ela não vai simplesmente te perdoar por causa de um pedido de desculpas. Quando você falou que a usou, você não feriu só o coração. Feriu o orgulho. E você sabe tanto quanto eu que ela é uma menina bastante orgulhosa. Então Alex Burg, vai ter que fazer por merecer.

–Muito animador. –O loiro revirou os olhos e riu. –Alguma ideia?

–Nenhumazinha. E se tivesse não falaria.

–Má. –Alex deu um peteleco de leve no nariz da garota. Ele adorava fazer aquilo. Ela sempre franzia o nariz delicadamente e isso era adorável.

–Faça algo grande. Romântico. Digno de Melina Wilde. Porque ela vale a pena Alex.

–Concordo plenamente. Bem, boa sorte pra mim com ela. E boa sorte pra você com o Ian.

–Algo me diz que eu irei precisar.

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Quando a ruiva entrou no quarto, Melina não estava. Mas não foi isso que chamou a atenção dela. Era um pacote com um lindo papel de presente azul e cor de rosa bebê, com um laço cor de rosa em cima de sua cama. A ruiva se aproximou e viu que, preso ao laço, havia um bilhete escrito com uma bela letra dourada “Sophia Merenwen”. Sem assinatura, nem nada.

Curiosa, a garota desfez o laço e viu uma caixa. Dentro dela, havia uma bela caixinha de música. Redonda, azul bebê com brancos e ricamente ornamentada com detalhes delicados. Quando Sophia a abriu, um cavalinho com uma linda garotinha surgiu e começou a girar enquanto uma canção doce preencheu o ambiente.

Algo dentro dela remexeu.

“Eu pensei que nunca mais veria isso.”

“O que?”

“Essa caixinha de música é minha Sophia. Ganhei-a com oito anos. E eu e Trace ganhamos, mas a dela obviamente era diferente da minha. Eu costumava horas e horas olhando isso. E eu murmurava a música o tempo todo, tanto que Trace me implorava pra parar. Como se ela tivesse moral, ela murmurava a dela o tempo todo também.”

“E como isso veio parar comigo?”

“Com toda sinceridade do mundo, eu não sei”.