Maldição Wilde
20 Capítulo 18
Notas iniciais
–Makayla! –Uma garota de uns sete anos chamava. Esta tinha cabelos ruivos em ondas charmosas e olhos castanhos que emanavam firmeza. Ela estava deitada numa cama simples e estada tudo relativamente escuro, mas iluminado várias vezes por conta dos raios. A tempestade caía sem parar e muito forte e o som dos trovões era ensurdecedor.
Ao ouvir o chamado, Makayla se levantou de sua cama. Esta também era uma garota de uns sete anos e idênticas á outra só que os seus olhos eram um pouco mais amendoados, emanavam algo como doçura e meiguice.
–Trace o que foi?
–Kayla, estou com medo.
Era sempre assim. Trace sempre fora destemida, corajosa. Mas tinha medo de algumas coisas pequenas. Makayla apesar de não demonstrar, não tinha temor de quase nada.
–Já estou indo. –Com seus pés pequenos, Kayla se levantou de sua própria cama e com cuidado por conta de escuridão, foi até a cama da irmã e lá se deitou abraçando a gêmea para que ela se sentisse mais segura. Makayla havia nascido primeiro e por isso tinha aquele papel de irmã mais velha. Uma das duas tinha que ter e ela tinha vocação pra isso.
–Dorme comigo, Makayla. Estou com medo de ficar sozinha.
–Não vamos ficar sozinhas nunca. Sempre teremos uma á outra. Sempre.
–Sempre.
Sophia acordou de supetão se sentando na cama. Primeiramente aquele sonho estranho lhe viera à cabeça. As gêmeas, ela sabia quem eram, nunca poderia esquecer aqueles nomes e aqueles rostos embora naquela cena, ambas estivessem bem mais novas. Eram fofas e pareciam tão meigas. Tão juntas. Soph pôde sentir a ligação de ambas naquele sonho e era uma ligação forte, muito forte. Elas se amavam demais. Quando isso mudou? Por quê?
–Soph? –Ian sorriu aliviado ao vê-la despertar. Estava preocupado, a ruiva havia desmaiado já fazia duas horas.
–Ian? –Ela tocou a cabeça e então suspirou. –Droga, aconteceu de novo! Meu Deus, fiquei com tanto medo que ela te ferisse! Eu estava gritando na minha mente, sem parar, mas ela me ignorou e eu estava fraca demais pra voltar.
–Aquela vadia tinha que escolher a hora que eu não estava! –Melina sibilou e com a voz da amiga a ruiva se assustou. Vasculhou o lugar com o olhar e viu que estava no quarto de Alex e Ian. Lugar que ela estava indo mais do que gostaria. –Tipo, Ian quase me matou do coração quando me disse que você tinha sido invadida.
–Fomos dois então. –Alex sentou-se na cama, ao lado da ruiva. –Por Deus, a gente tem que começar á ficar de olho em você. E na Melina.
–E que merda de trajes são esses?! –Taylor exclamou e Sophia se perguntou se aquilo era um quarto ou uma feira.
–Calma gente! –Ela sussurrou confusa. –Ainda não estou conseguindo me lembrar de tudo. Eu estava lendo, aí eu li por muito tempo e quando parei me veio um enjôo e ela me tomou e eu fiquei lá, como sempre, excluída na minha própria mente. Makayla saiu vasculhando os quartos, alisou meu cabelo, passou maquiagem que eu nunca nem sonhei em usar, modificou meu uniforme e saiu andando por aí. Até que Ian apareceu e me tirou do controle dela.
–O que ele fez? Digo pra te tirar do controle dela? Das últimas vezes você saiu sozinha pra defender os amigos, mas você disse que estava fraca dessa última vez. O que ele fez?
Sophia corou até a alma e teve a impressão de ter ouvido uma risadinha de Makayla, mas não tinha certeza. Só sabia que mataria Melina por aquela pergunta.
–Ele me beijou. Ou a beijou, sei lá.
Todo mundo se entreolhou por dois segundos o que fez Sophia ficar ainda mais constrangida que o comum. Enfiou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos, contando até dez pra tentar fazer com que as bochechas coradas voltassem ao normal. A gargalhada de Lina não ajudou muito.
–Ian! –Melina estava rindo para o moreno. –Eu devia te bater, mas ajudou.
–Eu vou bater nele! –Alex cerrou os punhos, mas estava brincando. Ele via Sophia como uma irmãzinha mais nova e exatamente por isso só confiaria ela á alguém que merecesse. E ele não podia pensar em alguém melhor do que Ian.
–Eu não pensei direito. –O moreno tentou se explicar, levemente constrangido. Ele também não sabia o que deu nele direito. No momento em que encarou Makayla e aqueles olhos amarelos medonhos, tudo o que pensou foi em trazer Sophia, sua Sophia de volta. –Não sei o que deu em mim. Só sei que funcionou.
–Foi bom ter funcionado ou Alex e eu teríamos muito trabalho em quebrar a cara de alguns moleques. –Taylor sorriu de canto de boca. –Ela passava e os garotos babavam. Makayla pesou um pouco. Mais alguns minutos na possessão dela e eu e Alex teríamos que encher a enfermaria.
Isso também não ajudou á fazer Sophia voltar á cor normal. Ela já estava em “noventa e cinco” na contagem e nada da vermelhidão sumir.
–Graças á Deus acabou. –A voz dela saiu sussurrada mais uma vez. –Agora já está tudo bem.
–Não está. –Melina sorriu, preocupada com a amiga. A ruiva estava visivelmente cansada e Lina não entendia. Quando ela era quem tinha a mente assumida, ficava cansada depois, mas não tanto quanto Sophia. Ter a mente possuída acabava com a ruiva sem contar que já era a segunda vez que ela desmaiava depois. Tinha algo errado naquilo, até mesmo para os padrões. –Gente, vamos a deixar descansar. Ian, Alex acho que a Soph deve continuar aqui. Não sei se ela agüenta o caminho até o nosso quarto, olha o semblante da garota.
–Claro. –Ian e Alex falaram juntos. –Descanse Sophia.
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–Bem melhor. –No espelho Sophia se sentia ela mesma novamente. Os cachos voltaram ao normal e o uniforme, quase. Melina a convenceu á deixar a saia um pouco acima do joelho. Nada muito brusco.
–Agora é a Sophia que eu conheço. –Melina riu observando a colega de quarto. Odiava Makayla por ter tentado acabar com a personalidade daquela garota. A meiguice e inocência de Sophia era o que fazia dela ser tão excepcional.
–Agora sou. –Então a ruiva se sentou na cama. –Melina... Eu sonhei com elas. Não acho que seja um sonho, parecia mais uma lembrança.
–O que você viu?
–Elas eram crianças e estava á noite e chovendo muito. Trace estava com medo e pediu para a irmã ir dormir com ela. Falaram que nunca estariam sozinhas porque teriam sempre uma á outra. Seria tocante se não fosse elas.
–Uau! –Lina levantou uma sobrancelha. –Isso é esquisito porque da última vez que se encontraram, tentaram se matar. Se não fosse por nós termos nos libertado, a coisa teria ficado feia. Sairíamos muito machucadas.
–O que será que aconteceu?
–Não sei. Mais uma pergunta na nossa lista de mistérios. Acho que ela vai para nonagésima posição.
–Está sendo boazinha. Centésima primeira. –Sophia riu. –Ai, não acredito que tive a mente possuída de novo.
–Não acredito que o Ian te beijou. Ou beijou a Makayla.
–Ele me beijou. –Sophia corou levemente dando um sorrisinho tímido. –Dois segundos depois que os lábios dele se encostaram no meu, Makayla sumiu e eu retomei o controle. O problema: Eu não parei o beijo. E quando a gente se afastou, ele viu que era eu. Ele olhou nos meus olhos antes de eu desmaiar.
–Eu não sei acho isso fofo ou acho isso nojento. Vou ficar com a primeira opção. Se você retribuiu, é porque a coisa estava boa. E você queria.
–Droga, Lina. Não posso. De verdade, não quero me envolver. Eu já... –A ruiva se calou. Acabaria falando mais do que devia se continuasse naquele rumo e ela ainda não estava preparada para isso. –Só quero dizer que eu não devia ter beijado ele, que eu devia ter tido o mínimo de sanidade possível!
–Pra que você quer sanidade, garota? Não serve pra nada, te garanto. Principalmente na nossa situação querida. Eu torço por vocês dois. Por mais que eu deteste admitir, o Ian é uma ótima pessoa e te merece. E olha que é difícil achar alguém que te mereça.
–Não somos como você e Alex. Vocês combinam ambos abertos a relacionamentos. Eu não estou aberta á relacionamentos, serei um problema pra ele. Sou problemática nessa parte Lina.
–Ele gosta de você Sophia. Não acho que deva se preocupar com outra coisa, além disso.
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Clareira. Era tudo que Soph tinha em mente. Precisava pensar e relaxar ao mesmo tempo. E ficar sozinha. Longe de Ian, preferencialmente.
Olhou pela janela do quarto, o sol estava se pondo. Tinha algum tempo antes do horário da janta tocar. Melina tinha descido para a biblioteca, vasculhar os livros e ver se encontrava algum decente. Ou então releria Harry Potter da coleção de Sophia mesmo.
Saiu do quarto em passos lentos e calculados. Ainda se sentia um pouco cansada, mas nada que causasse muito caso. Logo seria hora de dormir então ela descansaria bastante naquele dia.
Ela se sentia confusa. Na verdade, muito confusa. Ian havia beijado ela. E ela havia correspondido. E havia gostado daquilo! Havia gostado muito daquilo! O sabor dele na boca dela, a forma com que eles se encaixavam bem e perfeitamente... Não saía da cabeça da garota, ferroando e a lembrando que não dava pra ignorar aquilo. Que ele a atraía e a atraía perigosamente.
Saiu do prédio dos dormitórios femininos e respirou fundo. O ar era um pouco menos abafado fora dos prédios, mas mesmo assim não era a mesma coisa do mundo lá fora. Soph sorriu um pouco. Apesar de tudo o que estava passando, o reformatório não estava sendo o pesadelo que imaginara. Não estava deslocada, não estava sozinha e não estava triste. Depois que conhecera Melina, Alex, Ian, Taylor, Kat tudo havia melhorado. Os pesadelos haviam acabado. As lembranças diminuído bastante. Era tudo que ela queria. Mas apesar disso, não estava pronta pra encarar um novo relacionamento. Talvez nunca estivesse.
–Acho que temos que conversar. –Uma voz masculina falou e ele respirou fundo. Estava tentando se manter longe.
–O que foi Ian? –Virou-se para encarar o moreno que a olhava. Os olhos dele mergulharam nas orbes azuis dela, tentando desvendar alguma coisa, qualquer coisa, que dissesse o que ela estava sentindo naquele momento.
–Você sabe o assunto.
–Ian... Eu entendo. Você não sabia o que fazer, Makayla estava no meu lugar. Agiu pelos extintos e funcionou. Obrigada por ter me tirado dela.
–Sophia, não é isso. Você correspondeu. Não adianta negar, eu vi os seus olhos. Azuis, os olhos que eu tanto amo. Você me correspondeu e agora está se afastando, estou confuso.
–Olha, eu te correspondi por que... –Sophia sentia a cabeça pesada demais pra inventar alguma coisa, qualquer coisa que fosse. –Ah, quer saber? Não tenho desculpas por ter correspondido, não tenho nada.
Foi o que Ian precisava ouvir. Num súbito, enlaçou a cintura fina da garota á sua frente e buscou os lábios dela. Com delicadeza, não forçou entrada, queria deixar que ela se abrisse se quisesse. Sophia buscou com força qualquer resquício de sanidade que tinha na mente, mas não achou. Sua sanidade havia fugido e pulado por alguma janela. Então ela entreabriu os lábios dando passagem para o moreno que aproveitou e se infiltrou na boca doce da garota que povoava seus sonhos desde o momento que pisara no pátio, confusa. O beijo se aprofundou mais, profundo, intenso. Ambos aproveitavam o gosto um do outro com desejo, mas com doçura. Ambos esperavam aquilo por muito tempo então queriam aproveitar cada pedacinho da boca um do outro. Sophia deixou sair um gemido baixo por entre o beijo o que fez Ian aperta-la ainda mais forte.
Então a sanidade de Sophia voltou com a mesma força que tinha ido e ela lentamente se afastou, sentindo o corpo doer pela falta de contato.
–Não faça isso. –Ela murmurou. –Eu não posso. Sinto muito Ian. Não sou a garota que você sonhou.
–Sophia...
–Sou uma garota problemática e traumatizada. Não quero nada com ninguém. –Ela suspirou. –Sinto muito. Não posso.
E então ela correu. Correu para a clareira com toda a força que suas pernas tinham. Não via nada, apenas deixou que seus pés a guiassem já que conhecia o caminho para a clareira com toda a riqueza de detalhes.
Quando ela finalmente chegou, colocou o rosto entre as mãos e deixou com que as lágrimas escorressem. Sentia muito. Sentia muito por Ian. Sentia pelo sentimento que crescia mais e mais dentro dela e ela tinha a necessidade de barrar. Sentia por todos os problemas e traumas que a cercava. Sentia por não poder ser concertada.
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