Maldição Wilde
16 Capítulo 15
Notas iniciais
Sophia acordou meio desorientada. Sempre acordava assim, mas daquela vez estava um pouco mais tonta. Talvez por causa de tudo que tinha acontecido. Não era todo dia que aquilo acontecia. Melina havia saído, provavelmente para a consulta o que deixou Sophia sozinha no quarto sem nada para fazer. Podia ler mais alguma coisa, mas ela sentia a cabeça pesada de tanto ler.
Foi em direção ao banheiro bocejando e de olhos ainda meio fechados e sem querer bateu na escrivaninha de Melina derrubando tudo o que tinha em cima e causando alguma dor devido ao impacto.
–Droga. –Murmurou meio que bufando e se ajoelhou para pegar as coisas que havia derrubado. Uma foto a chamou a atenção. Estava junto de uma reportagem. Os olhos azuis de Sophia simplesmente se prenderam na foto que estava ali. Pegou a reportagem se levantando e tirando as ondas ruivas que caiam sobre seu rosto.
O título estava claro “As Herdeiras Wilde Consagram seu Império”. Ela leu rapidamente a reportagem que não dizia nada demais para a época com que a fotografia foi tirada já que pelo visto parecia bem antiga. Poderia até dizer que aquilo era uma pintura, mas era real demais pra ser pintada. (Foto: http://www.emilysotoblog.com/wp-content/uploads/2013/08/5008.jpg)
A reportagem não dizia absolutamente nada, mas Soph sabia. Aquelas eram Makayla e Trace. Algo no seu íntimo reconheceu as gêmeas e não tinha como negar. Elas eram mesmas.
–Qual delas era você? –Sussurrou a ruiva intrigada imaginando qual delas seria Makayla. Os cabelos, os cabelos eram parecidos com os dela. Provavelmente ruivos também.
–Isso vai me deixar louca. –Falou Sophia arregalando os olhos ligeiramente e deixando a reportagem no mesmo lugar onde achara e recolhendo o resto das coisas do chão. Ela estava atordoada e sabia que tinha que por a cabeça no lugar. Até onde havia ouvido, Kayla se aproveitaria de sua confusa para tomar o controle. E ela não deixaria isso acontecer novamente. Pelo menos não tão cedo.
Voltou á seguir seu caminho e entrou no banheiro. Olhou para o espelho e ergueu os cabelos em um rabo alto. Já ia prendê-lo com o elástico quando a viu. Foi um reflexo rápido, mas Sophia tinha certeza. Era Makayla. Idêntica ao que vira na foto, a garota com flores brancas na roupa. E isso a fez dar um salto pra trás.
–Meu Deus. –Suspirara atordoada e assustada. Tinha que falar com Melina, mas a garota provavelmente estaria em sua consulta. Não podia deixar a cabeça confusa demais. Tinha que por os pensamentos no lugar. Respirou fundo, prendeu os cabelos em um rabo alto como queria fazer antes do reflexo e saiu do quarto.
Na verdade quando saiu não sabia para onde iria. Mas agora sabia a direção exata. Sua clareira. Um lugar proibido, mas perfeito para ela pensar e tirar qualquer confusão de pensamentos da mente. Decidida, saiu do prédio.
Estava tão focada em não pensar em nada do que acontecera antes de chegar ao lugar que levara um susto ao sentir dois braços a enlaçando pela cintura:
–Ian! –Ela gritou ligeiramente o nome do moreno que estava enlaçado com ela. -Você me assustou!
–Desculpa. –Ele sorriu e passou a mão pelos cabelos ruivos arrancando o elástico deixando com que as ondas caíssem. –Não use o cabelo preso, por favor. Ele é tão lindo solto.
–O cabelo é meu e eu faço com ele o que eu quiser. –Soph fizera uma careta fofa e arrancara o elástico da mão do rapaz, mas não prendeu os cabelos de volta.
–É. — O rapaz sorriu convencido, mas o sorriso sumiu. –Soph o que houve? Você está incrivelmente pálida.
–Estou? –Levou as mãos instintivamente ao rosto e se tocou que o susto de ver Makayla devia te-la embranquecido ainda mais.
–Foi a Makayla de novo? –O garoto sussurrou apertando mais os braços em torno dela.
–Foi, mas não desse jeito que você está pensando. Eu a vi. Vi sua aparência quando me olhei no espelho.
–Como?
–Eu... Achei uma reportagem com a Trace e a Kayla, as originais. Então eu fui ao banheiro prender o cabelo no espelho e a vi no reflexo. Foi coisa de um segundo, mas eu vi. Não estou ficando louca, sei o que eu vi.
–Olha, depois do que aconteceu com você e com a Melina eu jamais diria que você está ficando louca. Mas, por favor, fique calma. Contou á Lina?
–Não, ela está para a consulta.
–E depois disso você estava sozinha? Devia ter me procurado, ou ao Alex, ou ao Taylor. O que isso pode significar? Quando isso acontece, não é para você ficar sozinha.
–Eu sei que ela pode fazer algo comigo e que eu posso machucar pessoas. –Sophia tremeu. –Eu sei.
–Não, não é isso. Você pode se machucar e é isso que mais me preocupa. Vem, vamos para a biblioteca. Lá é um lugar calmo, praticamente vazio e que você pode se acalmar.
A ruiva pensou na sua clareira, mas preferia ir á biblioteca com Ian a ficar sozinha lá. Então simplesmente deixou-se guiar pelo rapaz que ainda tinha um braço enlaçando sua cintura.
A biblioteca era média e estava incrivelmente vazia, com exceção da bibliotecária que praticamente dormia sobre o balcão. Ian sentou Sophia num dos sofás azuis que tinha lá e sentou-se ao lado dela logo depois:
–Está melhor?
–Um pouco. Acho que fiquei um tantinho assustada. –Admitiu. -Não esperava vê-la. Ela é tão... Assustadoramente linda ou lindamente assustadora, tanto faz. É só que ela é inquietante.
–Talvez você a tenha visto no espelho porque ela é parte de você.
–Será? –Sophia mordera os lábios, sinal que estava pensando.
–Ah, não faz isso. –Ian suplicou.
–Isso o que? –A garota sorrira ligeiramente.
–Morder esses lábios. Isso é tão sensual.
–Ian! –Ela rira e batera de leve nele. –Com tanta coisa acontecendo e você pensa nisso?
–Você riu. A culpa não é minha! A culpa é dessa boca totalmente beijável.
Ela rira de novo enquanto revirava os olhos e corava ao mesmo tempo:
–Ian!
–Você está rindo, isso é bom. Não fique preocupada. Provavelmente é o que eu te falei.
–Não quero ter que toda vez que olhar no espelho vê-la. Isso vai me enlouquecer!
–Não vai. E talvez nem seja isso. Não sabemos direito nem o que elas são. Então não se preocupe, elas não farão mal á você e nem aos outros.
–Queria poder acreditar nisso. Queria mesmo.
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–Onde você estava? –Perguntou Melina preocupada no instante em que a colega do quarto entrara no quarto.
–Com o Ian, na biblioteca. Aconteceu algo.
–Comigo também. Vi a Trace no espelho.
–E eu vi a Makayla.
Melina arregalou os olhos e sentou na cama com o rosto entre as mãos. Soph sentou na própria cama e ficou observando a amiga:
–Como sabe que era a Makayla?
–Vi uma foto no meio das suas coisas sem querer. Era uma reportagem com duas gêmeas numa fotografia. Algo dentro de mim as reconheceu na hora.
–Eram as duas mesmo. O que será que é isso? Nunca tinha acontecido comigo antes e eu estou com a Trace há um bom tempinho.
–Não sei. Ian palpitou dizendo que é porque elas são partes de nós e por isso aparecem no reflexo do espelho.
–Ele pode ter certa razão nisso. As duas devem estar ainda mais fortes porque estão perto uma da outra. –A morena respirou fundo. –Droga! Detesto esse problema! Será que eu não podia ser simplesmente uma garota normal? Com os problemas de uma garota normal?
–Eu sei como é. — Sophia sorrira. –Sou uma menina de dezesseis anos que está num reformatório e tem um espírito de sei lá quantos anos querendo sugar a alma dela. –Completou com mais algumas coisas em pensamento, coisas que não diria em voz alta.
–É, parece que você me entende. –Melina conseguiu sorrir também. -Você demorou lá na biblioteca. Rolou algo á mais?
–Ai que é isso Lina. –Sophia sorrira com as bochechas coradas. –Claro que não.
–Eu também fui ver o Alex antes da consulta. Eu precisava conversar com alguém sobre o que tinha acontecido e não queria te acordar então...
–Eu até diria que podia ter rolado alguma coisa, mas acho que você estava assustada demais para isso. Eu fiquei.
–Estava. –Melina deu um sorrisinho. –Mas agora já estou mais calma. Você leu a reportagem?
–Elas eram infelizes. Com aquela vida eu seria uma pessoa depressiva, sem brincadeira.
–Duas! Devia ser terrivelmente entediante. –Melina rira ao se imaginar naquela vida. Simplesmente não conseguia. Se fosse obrigada á ficar naquela vida, a mesma vida das gêmeas, com certeza pularia da primeira ponte que aparecesse.
–Se devia! –Soph se deitou com a roupa que estava mesmo. –Ah, quer saber? Sou mais forte que a Makayla. E por enquanto estou no controle. Vou aproveitar esse tempo para descobrir mais sobre o que está acontecendo. Sobre elas.
–Estou fazendo isso. É bom ter companhia. Pode me bater, mas estou feliz em ter alguém que sabe o que eu estou passando com a Trace.
–Eu me sentiria perdida se estivesse sozinha. Eu entendo.
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Sophia ainda tinha um tempinho entre as aulas, já que ela tinha saído mais cedo da aula de Biologia (uma das únicas aulas que não tinha com Lena para a graça divina) porque havia terminado a aula cedo demais. Era entediante ficar sozinha, já que o resto da turma ainda estava na prova, que na opinião da ruiva estava fácil demais para ser verdade.
Estava andando pelo corredor dos quartos indo em direção ao próprio quarto quando alguém agarrou seu braço fortemente:
–Ai! –Falou e então viu quem era. Aquele rosto a aterrorizaria, se ela não estivesse ali se sentindo mais forte que nunca. –Droga Rafael, o que você está fazendo aqui?! –Ela praticamente gritara puxando o braço. O garoto pareceu ficar um pouco surpreso pela forma da ruiva, mas se recompôs rapidamente.
–Oras, vim visitar a minha irmã. Lembra que ela também está aqui?
–Como?! A gente tem direito á uma visita uma vez por mês.
–Subornei a diretora.
Sophia revirou os olhos enquanto fazia sua melhor cara cínica:
–Ah, é verdade, eu esqueci. –Ela disse ironicamente. –As coisas com você funcionam tudo na base do suborno. Mas se me dá licença, não estou a fim de gastar meu tempo com mauricinhos metidos e idiotas, ou seja, você.
Já ia saindo quando Rafael a segurara pelo braço novamente fazendo Sophia trincar os dentes de raiva.
“Deixe-me entrar Sophia. Posso dar uma lição nele, uma para ele nunca mais esquecer. Posso vingar você de tudo que ele te fez. É só me deixar entrar”a voz rouca e sedutora de Makayla soara em sua mente.
A proposta havia sido tentadora e Makayla repassara todas aquelas cenas que a ruiva tentava esquecer de novo de propósito. Sophia suspirou longamente antes de dizer mentalmente:
“Não. Sei quais as suas intenções e não te deixarei assumir o meu corpo. E, acredite, está sendo mais difícil pra mim do que pra você.”
–Será que dá pra me deixar em paz? –Sophia o olhou com os olhos azuis o fuzilando. –Já me fez todo o mal que podia Rafael. Então vá visitar a sua irmã e pare de atazanar á mim.
–Eu estava indo visitar a Lena. Mas então eu vi uma ruiva linda, inocente e sozinha no meio do corredor. Como resistir á isso?
–Quem disse que ela está sozinha? –A voz tão conhecida do moreno soara no corredor fazendo Sophia sorrir quase que involuntariamente e Rafael revirar os olhos. –Ela está comigo.
Ian olhou para a ruiva que fora para o seu lado enquanto Rafael fuzilava-o com o olhar. O moreno continuou:
–Agradeça por ter sido eu quem encontrou ela aqui. Se fosse Melina, você estaria morto. E se ficar mais um minuto na minha frente, vai morrer também. Então vaza.
Rafael pensou em enfrentar, mas não era idiota. Sabia que numa briga com Ian, seria massacrado. Então somente bufou qualquer coisa e seguiu direção á caminho do quarto da irmã.
Sophia respirou aliviada enquanto olhava para o amigo:
–Obrigada.
–Por te salvar de um idiota? Sempre que precisar. Quem era ele afinal?
–Alguém que eu quero esquecer. –Sophia então se permitira sentir assustada. As lembranças que vieram quando vira Rafael e que Makayla fizera questão de manter era muito pra ela aguentar. Seus olhos de repente quiseram se encher d’água, mas ela não permitiu.
–Soph, você está pálida de novo. Não sei quem é aquele mauricinho, mas se você não se acalmar eu juro que vou atrás dele e arrastarei o rosto dele nas paredes desse lugar.
–Eu estou bem. É só que... Olha, Makayla pediu para entrar novamente. Ela pediu dessa vez, falando que daria uma boa lição nele. E eu quis muito, muito aceita. Isso me assustou Ian. Não sou de querer mal ás pessoas, mas a proposta dela foi tentadora. Foi muito difícil recusar.
–Não se assuste. Quando as pessoas te fazem mal, é normal desejar um tipo de vingança. Não se culpe. Não sei o que ele fez á você, mas sei que foi algo grave. Então... Não é porque você está se tornando má ou coisa do tipo. Você é simplesmente humana Sophia. E isso é normal.
–Obrigada. De novo. –Ela sorrira. – Já saiu da sala?
–Terminei a prova. Com certeza tirei um zero. –O moreno sorriu ao ver a garota sorrir. Ela era incrivelmente doce, bonita e preocupada com as pessoas. Como podia estar tão encantado por ela, que conhecia há poucos dias? Não sabia. Só sabia que estava e que não sairia do lado dela. Nunca.
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