— Saga, presta atenção: se você pensar em falar algo, eu imploro que você não fale. Se pensar em fazer algo, também imploro que não faça nada. – Kanon definitivamente estava em um nível de paciência acima do normal naquele dia. Parecia até a mãe que dava instrução pro seu filho no primeiro dia de escola.

— Achei que você não acreditasse nessas “baboseiras”, como você mesmo diz. – estranhou Saga ao ver o irmão dando-lhe conselhos.

— E não acredito mesmo. No que eu acredito, hoje, é no nível de imbecilidade do meu gêmeo e o potencial dele destruir tudo o que construímos até agora. – se segurava o máximo, mas não conseguiu esconder a irritação que estava crescendo dentro de si, fazendo seu irmão mais velho se encolher, já prevendo a explosão.

— Tá, não está mais aqui quem falou... – suspirou desanimado — Tanta coisa pra fazer aqui, e lá vou eu bancar o mordomo de um cigano cego.

— E de quem é a culpa? – Kanon se desanimara visivelmente, pois não importava o que dissesse, o irmão insistia em utilizar aqueles termos chulos e ofensivos. Para alguém cuja própria cara era toda a propaganda de seu conglomerado, ele era bem imbecil, além de preconceituoso.

No início daquele dia, perto de umas nove da manhã, o gêmeo Daskalakis foi ao endereço indicado no papel, se surpreendendo com uma casa média, com design moderno e em um bom bairro grego.

“Será que aquele pobre homem é um servente e quer minha ajuda?”— ainda se questionou o grego, não imaginando por que estava naquele endereço.

Tocou a campainha, e ouviu uma voz de dentro ordenar “entre, estou na sala de estudos”. Não questionou e assim o fez, ficando na porta, aguardando qualquer outro convite ou recepção. Uns bons minutos se passaram quando enfim o grego pode identificar o jovem de longos cabelos escorridos se aproximar. Apesar de novamente estar usando os óculos, pode perceber de alguma forma a irritação no rosto.

— Não me ouviu dizer que estava mais a dentro? – falou irritado.

— Sim, mas não sabia onde era, esperei que alguém me recepcionasse. Não queria interromper seu trabalho. – respondeu, o que de certa forma até agradou Shaka, afinal, realmente estava ocupado e não poderia exigir do homem que fosse um entrão.

— O que eu preciso fazer? Seus mestres gostam de algo específico? Algum uniforme?

A bola dentro de Saga equivalia a umas tantas mil bolas foras, o que na mesma hora desagradou o homem que o recepcionava.

“Quer saber? Ele vai aprender da pior forma a me respeitar” pensou, se remoendo em todo rancor que o orgulho ferido pode juntar.

Seguiu dando as ordens do que precisaria ser feito ao longo do dia, horário por horário, inicialmente deixando o grego confuso. Como já previa que o abastado não seria capaz nem de limpar a própria bunda sozinho, havia escrito o cronograma do dia para que o empresário não se perdesse (tanto).

— Mas eu vou sujar minhas roupas assim... – resmungou, sem saber o que fazer.

— Tenho certeza de que roupa pra você não é problema. Da próxima, venha ou vestido adequadamente ou traga uma muda, já que desse tamanho todo, duvido que haja algo aqui que te sirva.

— Mas... – insistiu, com cara de perdido.

Shaka levantou o canto dos lábios, incomodado. Pensou bem, até que se lembrou que no início daquela manhã havia separado uma calça larga, estilo tailandesa que não havia vestido e provavelmente ainda estaria sobre o sofá da sala. Como se trata de uma calça leve, larga e de amarrar, provavelmente serviria no corpo maior.

— Naquele sofá em cima da almofada tem uma calça tailandesa que você pode vestir. É tudo o que eu tenho hoje pra te oferecer.

Saga resolveu não questionar muito, e aceitou, indo se trocar.

— Tem algo pra prender o cabelo?

— No banheiro tem alguns itens de cabelo. Você pode usar o que precisar. – falou se virando pra voltar de onde veio – Seja pontual. Ao meio dia o almoço precisa ser servido.

Poderia se dizer que era tudo muito fácil, afinal, além da casa ser decorada para ser o mais prática possível, ela ainda era do tamanho necessário para uma pessoa viver nela. Viver bem, e de maneira confortável, sem grandes luxos, mas com muito conforto.

Só que o grego já não sabia mais fazer o básico de uma faxina há décadas em sua vida. Na verdade, não entendia nada de nada. Hoje ele fazia exatamente aquilo que outros faziam para ele e por ele em seu luxuoso e requintado apartamento.

Quando o relógio bateu meio-dia em ponto, Shaka rumou para a sala de jantar, sem prestar muita atenção ao redor, confiando plenamente que o homem que por hora seria seu vassalo havia falhado miseravelmente em seus afazeres.

Qual não foi a surpresa dele ao ser recepcionado por uma mesa bem posta?

“Hm... Até que ele não parece ser um completo inútil” pensou.

Logo o grego puxou a cadeira para que ele se sentasse, aceitando de bom grado a cortesia. Imaginava que tudo aquilo fosse reflexo não apenas do medo desesperador de morrer da praga, mas de alguma forma Saga era atento às normas de etiqueta o suficiente a ponto de saber como uma mesa deveria ser posta.

— Espero que esteja do seu gosto. – falou de maneira suave.

— Obrigado – respondeu, já pegando os talheres para se servir. Levando uma porção à boca, surpreendeu-se com o sabor. – Nossa, está muito bom esse caril de vaca*. Não imaginava que você soubesse cozinhar.

— Bom... Eu não sei – respondeu, inseguro – Então resolvi pedir um delivery indiano.

— Claro... Tá, que seja. Depois do almoço volte aos seus afazeres.

A tarde aparentou ser suave e tranquila, só percebendo o andar das horas quando seus olhos já não estavam mais incomodados com a luminosidade, nem seu corpo reclamando do calor. Levantando-se, foi atrás do seu novo servo, achando estranho que nada de estranho tivesse acontecido.

Quando enfim chegou à sala, percebeu o caos no qual a sua casa se encontrava, e a cada cômodo que ia procurar pelo grego, mais seu coração se apertava com a bagunça que via. O rastro de destruição era perceptível, mas não denunciava a posição do culpado.

Estava à beira de um colapso quando enfim o grego apareceu, todo sujo.

— O que aconteceu com a minha casa? – perguntou, sua voz quase não saindo.

— Ei... – olhou incrédulo para o loiro mais baixo – você não era cego?

— NÃO, EU NÃO SOU CEGO! VOCÊ QUE É UM IDIOTA COMPLETO! – respirou fundo tentando recuperar a sua compostura – O que foi que aconteceu aqui?

— Eu só segui as suas ordens.

A vontade de Shaka era de sentar e chorar. O feitiço parecia ter se virado contra o feiticeiro.

~CONTINUA

Notas finais
* Caril de vaca é um prato indiano feito com carne de vaca. Sim, vaca. Sim, indianos também comem vaca. Todos? Obviamente que não. Aparentemente, apenas os hindus não podem comer carne de vaca por motivos religiosos, já os outros indianos não são proibidos de consumi-la, ainda que dependendo da região sua comercialização seja proibida. No geral, uma boa parcela dos indianos consomem outros tipos de carne. Como Shaka é cigano, não necessariamente ele é hindu nesta fic. Suas origens logo serão esclarecidas também, mas já adiantando, ele tem um pé na Inglaterra, e como seus pais são falecidos há um bom tempo como dito no começo da fic, isso diminuiu muito seu vínculo com possíveis costumes indianos. https://g1.globo.com/mundo/noticia/de-onde-vem-o-mito-de-que-a-india-e-um-pais-vegetariano.ghtml Receita de caril https://www.innfinity.in/pt/food/8-beef-recipes-which-are-popular-across-india/