Maldição Rom
16 Capítulo 16
Notas iniciais
"Eu vou resolver tudo ainda hoje. Não se preocupe."
Digitou a mensagem e a enviou para o sócio no mesmo instante que aguardava o carro para levá-lo ao seu destino.
A amiga era a sua maior bênção, já que com ela conseguia ser apenas ele. E era ela quem sempre o confortava e lhe dava forças para seguir em frente.
Dessa vez — que inclusive foi a primeira vez em sua vida — ela além de motivos, forças e conselhos lhe deu um senhor tapa na cara. Não moral, mas físico mesmo. Doeu na alma, mas precisava daquilo.
— Kanon?
”Shaka? Aconteceu algo?"
— Sim, preciso falar com seu irmão. Ele está na empresa?
"Não, foi direto pra casa."
— Me passa o endereço? Estou indo lá.
"Eu acho melhor deixar de lado, Shaka, pois ele estava bem irritado"
— Foi culpa minha e eu preciso resolver isso, Kanon.
"Tá, mas… Ele não vai te receber…"
Fez uma pausa, pensando em algo, até que teve uma ideia.
— Você consegue liberar meu acesso?
"Sim, mas só até a porta do elevador. Você precisa convencê-lo a liberar o acesso"
— Essa parte você deixa comigo. Só me libera a entrada.
Kanon ficou mudo por um tempo curto, concordando logo depois e já desligando para informar à recepção do prédio que alguém entraria lá. Meio rindo, meio nervoso, Kanon imaginava o que poderia acontecer ali, e qual seria o artifício que Shaka usaria.
"Queria ser uma mosquinha para ver o que vai acontecer"
O prédio não ficava tão longe, e por sorte não havia pegado o horário do trânsito pesado, chegando em pouco menos de meia hora.
— Boa tarde, senhor. O senhor Saga disse que não autoriza a sua subida.
— Boa tarde. Por favor, é uma emergência. Poderia ler esta mensagem para o senhor Saga? — estendeu um bilhete para o recepcionista que leu, arqueou a sobrancelha e visivelmente fez cara de cansaço e, após um suspiro, concordou, ligando novamente para a cobertura. Quem estava ao seu redor não aguentou as risadinhas e após concluir a mensagem rolou os olhos, desligando o telefone indicando passagem livre para o elevador.
Quando a porta se abriu, sequer se sentiu no direito de se irritar, afinal, sabia que tinha apelado. Também estava era se segurando, pois ver um homem de quase 1,90m de altura segurando um vaso de pimenteira vestindo uma blusa com um olho grego imenso estampado não era para menos.
— Você insiste em me amaldiçoar… Não te fiz nada dessa vez.
Se sentiu mal, de verdade com aquilo tudo. Nunca considerou que seu povo pudesse ter qualquer poder sobre a vida dos outros. Sempre considerou, ser um rom, de alguma forma uma maldição. Só que ver Saga daquela maneira também o fazia perceber o perigo e a irresponsabilidade de alguns atos.
— Eu queria te pedir desculpas também. Três vezes, na verdade.
Saga olhou torto, desconfiando daquilo tudo.
— Primeiro por ter ameaçado te jogar uma maldição caso não me deixasse subir, mas eu precisava muito falar com você.
— E o que você queria falar comigo?
— Podemos conversar?
Saga ainda estava um pouco ressabiado com a aparição repentina do indiano, mas não conseguia simplesmente recusar, apontando para o sofá para que assim começassem a conversa.
— Eu queria te pedir desculpas pelo que aconteceu mais cedo. Eu realmente te acusei de algo e me aproveitei da situação para fazer igual. Ainda que eu tenha meus motivos, acho que não deveria ter feito isso com você.
— Então existem motivos para algumas pessoas serem preconceituosas?
— Eu usei essa expressão pra facilitar o entendimento, mas não é bem isso. Saga, eu venho de uma realidade muito dura, e na verdade, meu maior problema hoje era aceitar quem eu era.
— E quem exatamente é você?
— Um homem interessado em outro homem, que não se enxerga na própria cultura ou no próprio povo porque toda a sua realidade foi moldada para algo que não existe — sorriu amargo — sabe, naquele dia eu tinha acabado de romper relações com meu avô, a única família que me restava porque eu já não conseguia mais ser quem os outros queriam que eu fosse.
Não se imaginava falando aquelas coisas todas, nem para seu melhor amigo havia se aberto assim, nem pra Shura ou mesmo a Mayura. Provavelmente não fosse segredo para nenhum deles, mas nunca havia sido revelado daquela maneira. Talvez, da pior forma que ele gostaria, havia se identificado com o empresário grego. Mais uma verdade amarga que precisava começar a engolir.
— E por que você está falando essas coisas comigo?
— Porque… — era mais difícil do que parecia, e seu ego forçava-o a não falar, mas precisava ir até o fim — porque quando eu disse aquelas coisas… Eu lutava contra mim mesmo. Não aceitando quem eu sou. Não era de você que eu falava, mas de mim mesmo. Eu sinto muito, de verdade.
Saga ouvia calado tudo o que estava sendo compartilhado ali, mas ficava muito satisfeito em saber que um vínculo havia se estabelecido. Sorriu com aquilo, afinal, o interesse parecia recíproco.
— Você disse três motivos… Imagino que já tenha falado dois. Qual o terceiro?
Shaka sorriu e fechou os olhos. Levantou a mão e disse:
— Eu retiro a maldição.
O indiano achou graça da expressão de alívio que o grego fez. Nunca imaginou que veria algo assim em vida, e apesar de engraçado, havia aprendido a lição de tamanha responsabilidade.
— Mas me diga: era verdadeira maldição?
— Bem… Eu não acredito, mas estava com muita raiva naquele dia, e como a sua reação não foi das melhores, acho que valia a pena retirar. Mesmo que por precaução.
O ar até mais leve ficou, e ambos riram juntos como nunca haviam feito desde o começo daquela loucura toda.
As palavras da ex ainda ecoando na sua memória, mais o tapa que ainda ardia em sua face deixando o coração de Shaka mais leve, como em toda a sua vida havia tentado estar.
— E agora, senhor administrador?
— O senhor que me diz, senhor Daskalakis. O que acontece agora?
— Duas coisas. Primeiro: voltamos a ser seus clientes, desde que você assuma pessoalmente nossas contas.
— Aceito a exigência.
— E a segunda… — Saga saiu de onde estava e se aproximou do indiano — Gostaria de tentar uma negociação mais estreita com o senhor.
— Oh… É mesmo?
— Sim. Será que podemos conversar em um local mais reservado?
— Certamente, senhor Daskalakis.
Nem toda maldição vem para o azar, para sorte de uns.
FIM
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