Notas iniciais
Espero que gostem. :)

Em nenhum momento de sua vida, Jennifer poderia imaginar que um cachorro estaria mordendo seu tornozelo. Que ela estaria caída em cima de um homem de terno e gravata e que sua blusa branca e sua saia de couro preta estariam manchadas de café. E com o terrível cheiro de café.

Vamos reformular o que aconteceu, desde o início.

Jennifer nunca fora uma garota muito pontual. Em sua época de escola sua agenda parecia pior do que as pipocas de micro-ondas que sua mãe fazia, pois estavam todas marcadas e isso não cheirava nada bem em casa quando a mãe pedia para vê-la. A garota cresceu recebendo bordoadas e caronas por estar muito atrasada na época de escola. E ela nunca poderia ter imaginado que isso refletiria em seu futuro. Jennifer nunca se importou com o horário.

O sábado começou terrível. Jennifer acordou em cima do horário e como ela planeja a roupa quando acorda, puxou as primeiras peças do seu guarda-roupa. Ela logo vestiu a saia de couro preta, e sua blusa branca de botões que a deixava com a aparência de uma funcionária boazinha. O que ela queria demonstrar. Escolheu o sapato de sempre, com um salto pequeno e que combinasse com qualquer coisa; um preto simples.

E saiu do seu apartamento. Mas quando pegou o elevador, se olhou no espelho. Seus cabelos loiros ela conseguiu ajeitar enquanto ele descia (com a sua vizinha encarando-a de cara feia enquanto a observava), mas depois ela reparou em sua roupa. A blusa estava amassada. Então Jennifer voltou para o seu apartamento, ligou o ferro e passou a blusa como o Flash. Fez duas ligações enquanto ele esquentava e comeu um bom pão com manteiga. Depois, passou a blusa devagar, atingindo os pontos que não queriam desamassar.

Cogitou a ideia de não ir três vezes e prometeu que se subisse a cinco vezes, assistiria mais um episódio de Teen Wolf e realmente não iria. Mas o máximo que cogitou foi quatro vezes, então, vestiu a blusa e saiu do apartamento.

No estacionamento a bateria do seu carro fez questão de não funcionar. E não sabendo como se lida com essas coisas, deixou o carro ali mesmo e correu para as grandes ruas de São Paulo. O seu estresse começou quando ela saiu da sombra do estacionamento e deu de rosto e corpo com o Sol aterrorizador da manha.

Começou a suar e parou duas vezes em banheiros públicos para chegar se tinha feito xixi sem ter percebido, devido o calor sob a saia de couro. Correu para pegar um táxi, mas uma velha que não lhe cheirava bem foi na frente e lhe tomou o motorista.

Chegou perto do metrô, roubou o táxi de um turista. Riu da cara dele enquanto informava ao motorista o local. Quando foi entregue de frente ao departamento onde faria uma entrevista de emprego, saiu correndo. O taxista largou o carro na rua ligado e saiu atrás do dinheiro que ela tinha se esquecido de lhe pagar.

Ela pediu desculpas mil vezes — na verdade foram três —, e deu o dinheiro para o homem, em dobro, por que tinham roubado o táxi dele. Ele ficou triste, culpou-a cinco vezes, chamou-a de vários nomes não legais, enquanto ela lhe dava as costas e deixava o taxista sem táxi chorar.

Começou a correr para passar logo pelas portas do departamento, quando ouviu um latido, e olhou para trás. Um cachorro começou a correr atrás dela, e desesperada, correu olhando para trás e caiu em cima de um homem que tinha deixado o departamento com um copo de café em mãos.

A sensação foi estranha. O homem por ter sido pego desprevenido caiu no chão com Jennifer por cima. Ela sentiu um cachorro mordiscá-la fracamente os tornozelos. Ela olhou para o homem que estava com os olhos esbugalhados de surpresa. E sorriu. Ele sorriu de volta, meio desconcentrado.

O homem era japonês. Tinha os olhos puxados de uma forma fofa, seus cabelos eram pretos bem escuros, em um corte estilo o do Brad Pitt e seus olhos um castanho escuro.

— Está tudo bem? — Foi o que Jennifer resolveu perguntar. Ela empurrou o cachorro para o lado e ele grasniu.

— Sua mocreia! — Ela ouviu um grito, do provável dono do cachorro. Ignorou-o, olhando para o homem que estava sob si.

— Estaria melhor — o homem respondeu — se você saísse de cima, sabe.

Jennifer riu sem graça.

— É — ela concordou. — Verdade.

Ao levantar-se, Jennifer apoiou seu joelho direito no local errado e custou uma dor imensa ao japonês no chão. Ela retirou o joelho de onde tinha o colocado e caiu para o lado esquerdo do homem.

— Bem melhor assim — ele disse.

Jennifer finalmente pôde levantar. Ajeitou sua saia, abaixando-a na medida certa. E finalmente olhou para sua blusa manchada.

— Me desculpe — o japonês pediu.

Jennifer balançou a cabeça em discordância, para que ele não se importasse, mesmo que a blusa importasse. Agora ela não teria como fazer a entrevista de emprego. Bem que os deuses tentaram avisá-la com todos os atrasos, certamente, deveria ter ficado em casa e assistido mais um episódio de Teen Wolf.

Suspirou e coçou os olhos.

O japonês ainda a encarava.

— Está realmente tudo bem? — ele perguntou com seu semblante demonstrando preocupação. Jennifer achou fofo. Ela sempre gostara de japoneses.

— Claro — ela respondeu confiante. — Só preciso voltar pra casa.

Ele pareceu confuso.

— Não ia entrar? — apontou para o departamento.

Ela assentiu.

— Até ia... mas, acho que melhor não.

— Ah é — ele concordou e riu baixinho — a roupa.

Jennifer riu sarcástica e olhou para blusa. A mesma começava a deixar transparecer ainda mais o seu sutiã rosa choque, que ela, por acaso, esquecera-se de trocar e corou. Disfarçou o olhar e olhou para cima.

— Belo dia, não é?

O japonês olhou para o céu. E Jennifer sentiu-se estúpida pelo que disse. Eles só tinham visão de nuvens. O Sol estava coberto pelos inúmeros prédios altos da rua. Riu envergonhada.

— Ei — o japonês pareceu lembrar-se de algo. — Minha mulher deixou uma blusa dela no carro, se quiser, pode pegá-la para você. É meio que social.

Jennifer já estava atrasada para a entrevista. Entretanto, aceitou ir ao carro com o japonês e ver essa tal blusa. Quando chegaram ao veículo, que não era nada demais, a não ser uma limusine. Mentira era um simples Range Rover cinza. O japonês procurou pela blusa entre os bancos, no tapete do carro, no porta-malas e, para ter certeza de que não estava no carro, ele checou os pneus. Pois é, Jennifer ficou com cara de tacho, enquanto o japonês casado checou os pneus para ver se tinha uma blusa ali.

E para a surpresa de todos: a blusa não estava no pneu. Então ele pediu desculpas, três vezes, para Jennifer, que se fez de sonsa e disse que estava tudo bem.

— Eu posso te emprestar o meu blazer — falou ele, como se lhe ocorresse à melhor ideia de todos os tempos e com ela, ele pudesse ganhar o prêmio da paz.

— Pode ser — concordou Jennifer, checando o horário em seu relógio.

O japonês casado retirou o blazer, ficando só de blusa social e gravata, e entregou à Jennifer. Ela vestiu rapidamente e agradeceu duas vezes o japonês pelo blazer. Colocou as mãos em todos os bolsos do blazer e achou um número de telefone, provável do japonês, ou não. Qualquer coisa ficaria com o Blazer pra si.

E então ela correu para o departamento. Esbarrou em uma gorda de barriga de fora que dançava na boca da garrafa em um funk alto e escandaloso e, quando a gorda retrucou, mandou-a tomar em um lugar que a gorda nunca esqueceria.

Travou na porta giratória, ficou presa por duas giradas, devido a uma criança-peste que a mãe fez questão de deixar perambular pelo departamento. Quis bater na mãe, e no filho.

Pegou um elevador lotado e teve a sensação de estar em um ônibus quando o cheiro de axila fedida se sobressaltou e um pum foi ouvido. E misturou tudo isso com o cheiro do seu café fedido, ficou uma catinga. Jennifer teve que aguentar isso por dezenove andares, saiu no vigésimo.

Passou no banheiro rapidinho, ajeitou o cabelo com os dedos e o prendeu em um rabo-de-cavalo. Tentou limpar o máximo que conseguiu o café da blusa, por fim, jogou a blusa no lixo e ajeitou o Blazer de forma que não mostrou seu sutiã e nem demonstrou que ela estava sem blusa.

Depois voltou para a sala de espera e sentou-se em meio às várias cadeiras. Ela cogitou que seu nome já tinha sido chamado duas vezes, e quando se levantou para questionar a secretaria uma moça de salto e um vestido branco chamou por seu nome.

Ainda cheirando café, ela entrou em uma sala reservada com uma vista maravilhosa: o prédio do outro lado da rua, com pedreiros suados e provavelmente fedidos. Sentou-se na cadeira a sua disposição e encarou o homem à sua frente.

— Isso é cheiro de café? — ele perguntou primeiramente. Seu rosto com uma expressão desagradável.

— Também estou sentindo — disse ela. — O senhor gosta de café?

— Adoro. — Ele assentiu e sorriu.

Durante a entrevista Jennifer fez duas piadinhas sobre cafeína que arrancou risadas do veiote, mas depois fez uma de gordo e ele não demonstrou gostar muito. Disfarçou com café de novo e no domingo de manha recebeu a notícia que fora aceita para o emprego. Comemorou comendo pizza e bebendo uma cervejinha vendo o episódio de Teen Wolf que tanto queria.

Na segunda-feira, ela acordou atrasada por que os SMS que tinham lhe mandado na noite anterior lhe parabenizando custaram sua bateria e seu celular desligou, fazendo o despertador não despertar.

Notas finais
Heuheuhu, o que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!