Maldito Cabelo - Dramione
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Deitado na cama observando enquanto ela se arruma, deixo de sentir o tempo passar. Ao contrário de mim, ela sempre foi uma boa garota. Ainda lembro da primeira vez em que pus os olhos em cima da menina que assim como eu, era a teimosia em pessoa. Um primeiro olhar não entrega esse tipo de coisa, sabia disso. Até mesmo porque o que notei de imediato foi seu cabelo espalhafatoso, de um castanho digno como um carvalho velho. Ora, o que me deu? Draco Malfoy falando como um bobo de garotas orgulhosas e pedaços de madeira? Ainda bem que Hermione não pode ouvir tais pensamentos.
Lembro bem como a cor de meu sangue, a achei ridícula quando entrou na cabine que dividia com Crabbe e Goyle. “Alguém aí viu um sapo? Um menino chamado Neville perdeu o dele”. Foda-se o menino e seu sapo, eu não conseguia parar de rir com deboche ou tirar os olhos dos cabelos de vassoura daquela garota que, como eu, era primeiranista. No entanto, deitado em uma confortável cama de casal agora sorrio por essa mesma garota levada não fazer ideia de onde jogou a saia risca de giz na noite anterior. “O que posso fazer, meu bem? Uma vez Malfoy, sempre Malfoy”, sorrio convencido.
Ela tem minha alma decorada no castanho dos olhos, sabe bem que meus sorrisos ladinos não significam boa coisa. Depois de tanto tempo ainda fico perfeitamente satisfeito por lhe causar a indignação necessária para me olhar e sorrir sádica. Eu poderia agradecer a Merlin por seus sorrisos cretinos, mas não o faço por saber que ele não tem nada a ver com isso. O motivo de seus sorrisos sou eu.
Se o Draco daquele primeiro de setembro soubesse do teor dos meus pensamentos agora — mesmo os não sexuais — ficaria chocado, achando que algo deu muito errado no futuro. Mas bem, mais uma vez que se foda. Que o mundo pare e inveje o fato de Hermione estar seminua em minha frente, dizendo que precisamos agir como duas pessoas normais enquanto os olhos carregados de malícia analisam meu corpo nu, contradizendo-a.
Por ironia, destino — ironia do destino, quem sabe — sempre nos odiamos. O sentimento, seja ele qual for, é sempre mais satisfatório quando recíproco. Na verdade, ela seria a última pessoa que eu iria imaginar em um cenário como esses. Ok, em partes. Acontece que foi ódio em demasia até chegarmos aqui. Nunca nos demos bem no colégio, e não tenho motivos para negar a responsabilidade que certamente me pertence. Foram anos de insultos, implicâncias, desavenças das mais variadas formas, divertidas provocações. Pobre dama que fiz da vida um inferno… Um sorriso estica meus lábios ao pensar isso. Ela definitivamente mereceu.
Eu disse que sou responsável pela nossa má conduta, mas não sou o único. Hermione se tornou melhor amiga do garoto que feriu o orgulho do maior orgulhoso que conheço: eu. O outro amigo, esse paspalhão e ruivo, é até hoje o que de mais patético existe no mundo, na minha opinião. Já a garota do Trio de Ouro era a melhor aluna da escola, a mais irritante e teimosa com a qual já tive que conviver. Tudo nela é grandioso: maior, melhor. Assim como não há palavras pequenas para nós dois. Sendo assim, a mulher que está só de calcinha analisando seu reflexo no espelho e me perguntando sobre as novas leis bruxas aprovadas e o paradeiro de seus saltos vermelho sangue, no começo era minha rival por associação.
Pergunto se já procurou seus calçados no banheiro, onde desconfio ter os jogado em um ímpeto de impaciência para admirar logo o esplendor daquele corpo. Eu ansiava por vê-lo livre da mais ínfima amarra. Vendo a bunda dela ir até lá e voltar, ainda parcialmente descoberta, sei que fiz muito bem em dar motivos para a leve caminhada.
Essa visão me desconcentra, aonde é que eu estava? Ah, claro… Então descobri sua linhagem, e embora não me importasse com isso, fiz de um insulto um apelido para irritá-la. “Sangue-Ruim, por um acaso está morando na biblioteca?”. “Sangue-Ruim, qual o problema com a sua cara?”. Sangue-Ruim… Rio ao lembrar disso, pois o que eu odiava não era a procedência de seu sangue. Eu não queria uma transfusão, então que diferença faria? Não que eu soubesse o que era uma transfusão na época, de todo modo... O que fazia meu interior queimar, trazendo à tona todo o despeito que alguém conseguiria sentir era a indiferença a qual minha eterna Sabe-Tudo queria me condenar.
Aqueles olhos castanhos e espertos não tinham o direito de passar por mim sem esboçar reação ou deixarem de afetar-se com minha imponente presença. Cumprindo minha lei, eu não deixaria que a tentativa passasse sem punição. O divertimento em vê-la perder o controle era tal que eu não mais esperava que a pequena insolente não me julgasse digno sequer de um olhar. Vê-la já me trazia divertimento imediato. Era automático, meu sorriso surgia junto com sua presença.
Começou como uma brincadeira boba, embora maldosa. Eu via o trio patético, provocava o odioso Potter e Hermione tentava movê-los como se eu fosse nada. Então era a vez do Weasley receber minhas palavras. Passei a odiá-lo mais quando vi que a garota dos cabelos cacheados parecia se importar mais com ele. Estranhamente, aquela ninguém me enfrentava. Punha-se a frente dos dois palermas e tinha a audácia de me encarar, chegando mais perto e não fazendo a mínima questão de esconder sua revolta quanto à minha existência.
Poderia parecer errado, mas eu admirava tanto isso nela que foi o bastante para respeitá-la. Não que fosse admitir isso algum dia, embora seja exatamente o que esteja fazendo, mas eu adorava vê-la vociferar, comprimir os lábios em desgosto, se exaltar. De um jeito estranho, me sentia no céu quando estava com ela. Essa foi minha perdição, adorava a assistir perdendo o controle. Saber que a culpa era toda minha me deixava em um estado de felicidade jamais alcançado de outra forma.
E pode parecer exagero usar qualquer palavra derivada de “magia” quando se é um ex-aluno de Hogwarts, mas acredite quando digo… Havia mágica nos nossos rituais. Eu a provocava, ela caía. Eu apelava, e seus olhos não saíam de mim. A pobre garota tentava me botar medo chegando mais perto, mas mal sabia ela que aquilo estava longe de ser ameaçador. Eu fazia meu jogo, estava sempre disposto a ir até às últimas consequências.
E o prazer era garantido quando a pequena boca que hoje faz maravilhas com o meu corpo se abria minimamente em descrença. Ela não acreditava que eu fui capaz de dizer tal coisa? Ok, moça bonita, direi de novo. O pescoço vermelho me deixava louco de vontade de imprensá-la entre meu corpo e uma parede para descobrir o estado da pele restante. A respiração entrecortada devido a um impropério descabido fazia com que eu passasse as noites imaginando como seria tê-la embaixo de mim, ofegando e dizendo meu nome. Como será que o nome Draco sairia da boca da santinha de Hogwarts? Gutural, em forma de sussurros, súplicas, gemidos desesperados? Dessas e de outras formas mais, garanto.
Aquela pose de boa moça… Droga, eu queria destruí-la de tal forma que ninguém jamais conseguisse acreditar que um dia ela foi assim. Em contrapartida, o mundo que se partisse ao meio depois de um maremoto, essa visão deveria ser só minha. Mas entre a reação em cadeia, havia algo que eu não podia lidar. Não era a epiderme que após o sexto ano passou a se arrepiar com a minha presença. Também não era seu rosto corando enquanto a outrora doce Princesa da Grifinória borbulhava de ódio. O vermelho do pescoço enquanto ela tentava não puxar a varinha das vestes e me azarar no meio de um corredor qualquer, correndo o risco de ser pega… Confesso que sempre achei uma graça, mas ainda não era isso. Teve algo que me fez parar aí, saber de cor todas essas coisas e provocar tais situações.
Apesar do despeito, passei a admirar minha adversária cada vez mais ao longo dos anos. Hoje me rendo ao admitir que minha obsessão pela “Granger” só poderia dar nisso, e por muito tempo fingi não saber. Conheço aquele corpo perfeitamente, sei do que gosta e como gosta. Sou especialista na mulher de vinte e sete anos à minha frente. Posso fechar os olhos agora mesmo e ainda assim ver os olhos castanhos e brilhantes em eterno desafio, a constelação de sardas perto de seu nariz ou a boca pequena e perspicaz, capaz das melhores tiradas. O corpo curvilíneo que admiro, ainda jogado na cama enquanto ela se movimenta, não foi o que me fez tomar como objetivo de vida conquistar essa mulher.
Passamos por uma guerra em que ficou claro que mais do que rivais, éramos inimigos. Tenho plena ciência de não ser uma boa pessoa antes disso, e mesmo no pós-guerra preservo alguns defeitos. Mas o que demorei tempo demais para perceber é que antes e depois daquilo tudo, era o marrom de seus cachos que me trazia alegria e esperança. Eram seus olhos, da mesma cor, que sempre me devolveram o sorriso ao rosto.
Tanto que ao voltar para Hogwarts com o intuito de terminar o sétimo ano, passei a evitá-la. Vê-la ao longe já era um contentamento, embora eu não fizesse alarde como outrora. Então imagine minha surpresa ao ser procurado em um sábado em que aquela bruxa terrível afirmou não conseguir se concentrar nos estudos, pois sentia falta das nossas brigas. Foi um simples “Pare de me ignorar e vamos brigar logo, para que eu consiga me concentrar nos meus N.I.E.M.s” que me arranca gargalhadas até hoje. Fui um cavalheiro ao ajudá-la nisso, e só então notei que não era o único a ser afligido por aquela urgência tão conhecida. Como tinha que ser, em alguns dias não pude resistir à tamanha tentação e lhe roubei um beijo enquanto íamos a algum lugar. Seria a cozinha depois de uma noite de estudos? Realmente não importa, éramos nós dois e um desejo maior que o mundo nos consumindo.
Quando enfim a tive em meus braços, podendo assim misturar meus dedos com o castanho de seus cabelos, vendo o castanho de seus olhos brilhar tão de perto, o sorriso não era só meu. Eu poderia enumerar todas as coisas que me dão nos nervos em relação a Hermione Granger Malfoy, ou mesmo as que me fascinam, mas só há um culpado. A culpa sempre foi do marrom de seus fios, que desde o primeiro momento reclamou minha atenção. O castanho de seus cabelos se infiltrou em minha vida de tal forma que passei a odiar as outras cores.
Meses depois ao sermos pegos aos beijos por um professor da época, decidimos que o mundo poderia ir para o inferno se não gostasse, mas ficaríamos juntos. E assim, nove anos e milhares de brigas depois, me encontro largado em nossa cama, a observando enquanto deveria estar me arrumando para mais um plantão no St. Mungus. Do meu lugar privilegiado, a observo se pentear em frente ao espelho como que hipnotizado.
A sinto em minha pele, dentro dos meus ossos e fazendo seu caminho tranquilamente rumo ao meu coração. A sinto no fundo dos meus olhos, em cada sorriso que dou, assim como nos dedos, nas pernas, braços e naquela outra parte. E o mundo inteiro reage, se desfaz e chora de contentamento, pois ela está comigo.
O tempo para por cortesia, e meus pensamentos se esvaem quando Hermione joga a cascata de cachos somente para um lado do rosto. Ela se vira e me diz “Maldito cabelo!”, e eu digo “sim”.
Notas finais
E aí, o que acharam?
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