Notas iniciais
Segundo capítulo um pouco atrasado. Espero que gostem ♥

Acordo me sentindo ainda cansado depois de passar boa parte da noite com os meus amigos, no final, não tínhamos apenas ido à uma festa. Saímos mais cedo do que o esperado e corremos para a casa de Anthony onde passamos a noite acordados. Cheguei em minha casa com o nascer do sol e nem me preocupei em mudar de roupa antes de deitar na minha cama e dormir como há anos não fazia. Ainda sonolento, viro-me para o outro quarto e giro o relógio de cabeceira em minha direção e me assusto percebendo que já passa das 14h. Meus pais já deviam ter me acordado já que ainda é final de semana, a menos que eles estejam fazendo.... Não, não quero pensar no que eles podem estar fazendo às 14h da tarde de um sábado.

Lembro-me que eu devia estar na escola às 15:00h para recuperar as aulas do professor de geografia que tinha faltado a semana inteira, mas imagino que não vá chegar a tempo. Massageio os olhos para tirar o peso do sono e enfim me sinto mais acordado. Porém, quando me viro para o lado que estava dormindo, me assusto com o que vejo e pulo assustado ainda em cima da cama.

—Ah, olá!-diz uma garota sentada na cadeira em frente à mesa do meu quarto. Ela me olha sorrindo como se sua presença não fosse nada demais.- Finalmente você acordou, não aguentava mais esperar.

—Quem é você e o que está fazendo na minha casa?-pergunto olhando ao redor para ver se encontro algo com que posso me defender. Eu acho que nunca a vi na minha vida e isso é o mais assustador.

—Que pergunta boba de se fazer!-ela diz em tom de naturalidade.- Nos conhecemos a vida toda, bobinho!

—Não nos conhecemos, não.-digo ainda tentando entender como ela conseguiu entrar no meu quarto.-Eu tenho boa memória, me lembraria se te conhecesse.

—É claro que tem...-ela responde em tom irônico.

—Saí da minha casa!-quase grito apontando em direção à porta.

—Você não pode me expulsar daqui.- ela diz voltando a sorrir com naturalidade.-Eu também moro aqui.

—É o que?-pergunto sem entender nada.-Eu nunca te vi, não sei seu nome e nem como entrou na minha casa, mas se você continuar insistindo em ficar aqui, vou ter que chamar a polícia.

—Não posso te dizer meu nome.- ela responde em tom sério. Ela não parece estar brincando.

—Você invade minha casa e não pode nem dizer seu nome?-digo agora de joelhos em cima do colchão. Ela continua sentada na mesma posição esse tempo todo.

—Eu não tenho um nome específico.- ela dá de ombros.- Cada pessoa escolhe me chamar por algum adjetivo diferente. Sou adaptável.

Franzo o cenho completamente confuso, do que essa maluca está falando?

—Não tem nome específico?-repito sem entender nada. Ela balança a cabeça concordando.- Há quanto tempo está na minha casa?

—O mesmo tempo que você.-ela responde enigmática mais uma vez.- A vida toda.

—Pare com essas respostas idiotas!-eu digo irritado.-Me fale quem você é e depois vá embora da minha casa!

—Eu já disse que não tenho nome específico.- ela repete em tom condescendente, como se eu fosse uma criança que não entende um conceito fácil.- Veja, eu sou você.

—Você é completamente louca!-digo tentando me levantar, mas ela estica suas mãos e sem se levantar da cadeira, me puxa de volta ao colchão.-Do que está falando? Eu não te conheço.

Ela suspira. Parece cansada de repetir a mesma coisa.

A garota se inclina na cadeira mais uma vez e alcança a mesa ao lado da minha cama, abrindo a primeira gaveta em seguida. Algumas mechas do seu cabelo escuro caem sobre o rosto enquanto ela remexe na gaveta procurando alguma coisa lá dentro. Estou em choque demais para fazer alguma coisa a respeito.

Ela sorri quando parece encontrar o que queria e se arruma mais uma vez na posição de antes depois que fecha a gaveta e vejo um pequeno objeto balançar em suas mãos quando ela volta a me olhar.

—Ontem você ganhou isso de presente da sua tia Edith.- ela começa a dizer e vejo que ela segura nada mais, nada menos do que o amuleto que joguei na minha gaveta quando cheguei em casa. Como ela poderia saber onde eu o guardei, ou pior: como soube que eu o tinha?-Ela disse que esse amuleto poderia te conceder um desejo, e você desejou que uma parte sua pudesse ser separada do seu corpo para que você não tivesse que lidar com sentimentos como culpa, arrependimento ou responsabilidade. Então, aqui estou. Sou seu desejo. Sou seu subconsciente.

—Não, isso não foi um desejo.- digo balançando a cabeça incrédulo.-Eu disse que gostaria que isso pudesse ser feito, mas achei que os boatos de que minha tia fosse uma bruxa fossem só boatos. Ninguém nunca acreditava nela!

—Bom, o amuleto não leva em conta suas crenças.- ela me reponde girando o objeto entre seus dedos.- O amuleto é o que é, e no momento em que você disse que queria se separar de sua parte que não pode como controlar, como seus sentimentos de culpa e responsabilidade, foi o que a magia do amuleto fez por você. Você foi avisado, mas subestimou magia poderosa, agora lide com as consequências. Eu.

—Não, isso não pode estar acontecendo.- Digo ainda mais assustado. O que ela falou faz todo o sentido, não sei se posso duvidar tanto assim de que ela diz a verdade. Ela falou coisas que ninguém além de mim teria como saber.

Ela me olha com a cabeça um pouco de lado, como se avaliasse meu desespero.

— Prove que você é meu subconsciente, então.- peço.- Porque se você fosse meu subconsciente, seria igual a mim. E você, você é uma mulher.

—Tudo bem.-ela diz dando de ombros. A garota se levanta e deixa o cordão com o amuleto de novo em cima da mesa onde estava guardado e começa a caminhar pelo quarto, parece concentrada em procurar alguma coisa.- A forma como me materializo pouco importa, há razões para as quais assumi o corpo de uma mulher que pouco importam agora. Eu poderia ter qualquer aparência, como subconsciente, sou uma força extra corpórea e não tenho forma fixa. Sou feita da força do pensamento e de milhares de anos de evolução humana. Modelo minha forma de acordo com o ser em que habito. Já me manifestei dentro de sua cabeça diversas vezes, mas você não podia saber que era eu. Sempre que você dorme ou entra em situação de perigo, sou eu que assumo o controle do seu corpo e todas as memórias que seu cérebro considera desnecessárias estão comigo. Afinal, Lavoisier estava certo, "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Ela para de andar no meio do quarto e se vira me olhando com seu sorriso normal mais uma vez.

—Você parece saber muito para ser meu subconsciente.- comento fico a observando.

—Aprendo tudo que você sabe.-ela responde dando de ombros.-Sou sua parte mais primitiva, mas sei mais coisas sobre você do que pode imaginar. Minha existência começa quando você ainda era um feto, quarto mês, por aí. É só quando o cérebro e o sistema nervoso começam a se desenvolver que eu finamente passo existir. Sou a força que te torna humano e que o aproxima de qualquer outra espécie nesse mundo, sou sua vida.

—Se você sabe mesmo tudo que eu sei, me diga algo que só eu poderia saber.-peço. Se isso for mesmo verdade, esse teste pode funcionar.

—O que? Tipo sua paixão avassaladora por Leia Organa aos 11 anos?-ela diz e começa a rir.

—Cale a boca.-digo irritado.-Quer que o mundo te ouça?

—Ah, não precisa sentir vergonha disso, Derek.-ela diz já controlando o riso.-Eu já disse que sei de tudo. Tenho te acompanhado a vida inteira, desde que você era só um bebezinho. Mas aquela parte de comer terra aos 2 anos não foi culpa minha. Isso foi você mesmo, não é meu departamento o que você coloca na boca.

—Você fala como se meu cérebro fosse uma empresa.-comento.

—E é, de certa forma.-Ela responde sorrindo.-Cada área do cérebro é dividida para ser responsável por áreas específicas do seu comportamento e personalidade. Mas vejo que é esperto o bastante para notar que estou falando a verdade. Pensei que fosse demorar mais. Acho que agora que boa parte da sua desconfiança e sendo de preservação não está mais ligada ao seu corpo e sim comigo, você passa a confiar mais fácil. Temos que tomar cuidado com isso.

—Eu não sei se já confio em você.-digo.-Você parece dizer a verdade, mas qualquer pessoa poderia saber sobre Leia.

—Tudo bem, por adivinhação, talvez.-ela concorda balançando a cabeça.- Mas será que saberiam sobre o postêr que você ainda esconde?

Ela sorri e tira da parede o quadro enorme do meu desenho de Assasin´s Creed feito na escola e revela o antigo poster já meio rasgado de Leia Skywalker que nunca consegui tirar da parede.

—Eu sempre achei essa foto bonita.-ela diz e me olha contendo o riso.

Ela para de rir baixo e se aproxima da cama, se abaixa ao meu lado e puxa algo debaixo da cama. O objeto faz o familiar barulho de algo pesado em atrito com o piso de madeira e sei exatamente o que ela pegou.

—Alguém mais poderia saber sobre a existência disso também?- ela pergunta largando delicadamente a caixa de madeira desgastada com detalhes em metal que um dia foi da minha avó paterna e a uso para guardar todos os objetos que tenham algum valor para mim, mesmo que seja apenas sentimental. Ninguém sabe sobre isso, nem mesmo meus pais, ou iriam jogar fora tudo que há nessa caixa. Desde os ingressos de cinema que assisti com os meus amigos ao anel de prata que encontrei no Millenium Park, e que, apesar dos meus esforços, nunca encontrei a dona.

—Tudo bem.-respondo e interrompo sua tentativa de abrir a caixa pondo minhas mãos por cima das suas.- Me convenceu, subconsciente. Já pode para de mexer nas minhas coisas.

—Nossas coisas.- ela corrige.-Somos a mesma pessoa, apesar da aparência diferente. Tudo que é seu também é meu.

—Faz sentido, mas acho que não posso ficar te chamando de "Subconsciente" o tempo inteiro, você precisa de um nome se vai ficar aqui por tempo indeterminado.

Ela assente concordando.

—Como devo te chamar?-pergunto.- Você tem o comando central. Escolha.

—Não posso simplesmente pedir que o amuleto te prenda de volta na minha cabeça?-pergunto e espero que ela não se ofenda. Não sei até quando meu subconsciente pode se parecer com a forma que assume e se ela tiver a personalidade de uma mulher...

—Imagino que não, Derek.-ela me responde depois de alguns segundos em silêncio e interrompe meus pensamentos.-O amuleto tinha magia para um pedido e agora que está feito, não há mais nada. Se me quiser de volta aí dentro, imagino que tenha que falar com sua tia.

Contorço o rosto em uma careta ao pensar que teria que me encontrar com a minha tia maluca que me trouxe problemas que não sei lidar. Como o que estou vendo na minha frente bem agora.

—Tudo bem, terei que pensar em um nome. Nada de interessante me vem na cabeça agora. Assim que decidir te aviso.-ela assente concordando.

—Como quiser.-ela dá de ombros mais uma vez.

—Você...tem que comer, dormir e essas coisas de humanos também?-pergunto sem saber como devo lidar com ela.

—Como qualquer outra pessoa.-ela responde e me sinto aliviado, assim talvez seja mais fácil explicar para os outros que ela é só uma visita ou algo do tipo. Duvido que mais alguém possa acreditar nessa história de pedidos mágicos e amuletos.

Eu a olho com mais atenção tentando ver do que posso inventar sobre quem ela é para o resto do mundo. Até agora eu não havia notado, mas ela veste roupas minhas que parecessem enormes nela, imagino que tenha pegado da pilha de roupas que é meu armário, a julgar pela maneira que as roupas estão amassadas. De certa forma, ela se parece comigo, como uma irmã gêmea. A mesma pele bronzeada, mas clara, os mesmos olhos azuis e o cabelo preto e crespo da minha mãe. Talvez eu possa dizer que ela é uma parente que veio me visitar por alguns dias. Sim, isso pode funcionar, mas não se ela estiver usando minhas roupas. Olho o relógio na minha mesa de cabeceira uma última vez, quase 15h. Não vai dar tempo de ir para a escola.

—Tudo bem, subconsciente, você ganhou.-ela levanta a cabeça de um dos livros que ela havia pego da estante do meu quarto.-Não vamos à escola hoje.

—Não?-ela pergunta interessada.

—Não, não vamos.-respondo sorrindo e me levantando da cama.-Vamos ao shopping. Quero que você seja uma parente que veio me visitar por alguns dias, mas você vai precisar de roupas novas, não pode ficar usando as minhas o tempo inteiro.

Ela assente concordando.

—Agora, por que você não vai até o quarto dos nossos pais e pega uma roupa do armário da nossa mãe para usar enquanto eu me arrumo aqui?-eu sorrio e tento parecer o mais gentil que consigo enquanto ainda não sei como devo tratá-la.

—Você está com vergonha de se trocar na minha frente?-ela para de andar e tira a minha mão de suas costas impedindo que eu continue tentando empurrá-la para fora.

Assinto confirmando. Pensei que fosse óbvio.

—Não precisa ter vergonha de mim, Derek.-ela sorri.- Tenho te visto a vida inteira, toda sua puberdade. Enxergo pelos seus olhos. Não há nada que já não tenha visto.

—Sim, mas aparentemente ainda tenho um senso de pudor, então, por favor, respeite.-digo.

—Você vai ter tudo que sempre teve enquanto eu estiver perto, gênio.-ela diz voltando a caminhar e abre a porta do meu quarto.- Estamos fisicamente separados, mas ainda estamos ligados o suficiente para que minha presença no mesmo ambiente te passe tudo que você não teria sem sua subconsciência.

—Como se eu estivesse em dose dupla?-pergunto.

—Isso mesmo.-ela assente com a cabeça e saí do quarto fechando a porta em seguida.

Tudo bem, shopping em um sábado com a minha subconsciência em forma de mulher. O que pode dar errado?