Malditas Mentiras

1 Surpresas das surpresas!


Subi as escadas tropeçando nos meus próprios pés e desequilibrada. Tinha bebido duas garrafas de vinho tinto, comprado num super-mercado não muito longe da minha casa. Era a primeira vez que bebia tanto. Mas não era a primeira vez que pensava em faze-lo. Tudo estava um completo desastre na minha vida. Beber, naquele momento, pareceu-me a melhor coisa a fazer. Eu queria esquecer tudo e de todos. Estava farta de ouvir os outros, de consolar os outros. E principalmente estava farta de ser julgada pelos outros. Quem pensam que são para julgar-me. Logo eles, que passavam o tempo a usarem e desusar o meu “ombro” para desabafar os seus problemas. Eu queria que todas essas pessoas, mulheres e homens, que fossem para o inferno. Queria que todos eles ardessem no inferno se realmente existir um. Que desaparecessem da minha vida.

Ao chegar a porta do meu apartamento procurei as chaves. Maldita mala de mulher. Porquê que eu tinha de ser logo uma mulher tão desarrumada. A minha mala estava cheia de bugigangas desnecessárias. Ou seja, a mala só tinha lixos. Mexi e remexi na mala procurando pelas malditas chaves. Que chaves tão matreiras!

«Ah, cá estão! Então, pensaram que podiam esconder-se de mim?» disse em voz alta.

Tirei as chaves da mala e olhei para a porta. Procurei no molho a chave para a fechadura. Semicerrei os olhos. Era impressão minha ou a porta estava a “andar as voltas”. Tentei introduzir a chave na fechadura.

E nada. Não entrou.

«Porra, entra de uma vez!» gritei

Dei uma ponta pé na porta. Além de ter a visão desfocada por causa da bebida, ainda, tinha de aturar a porta a mexer-se como se não quisesse que eu, a dona da casa, entrasse.

«Para quieta porta estúpida!» berrei com os nervos a flor da pele

Não sei o que era pior.

Se era eu a falar com as chaves ou gritar com a porta. Não estava a espera de ouvir uma resposta. E nenhum deles me respondeu.

Afinal, eram objectos inanimados. E objectos não respondem.

«Quer ter calma» disse uma voz

Ou será que respondem. Pensei meio confusa. A voz vinha de dentro do meu apartamento. Ouvi um clique da fechadura a ser destrancada do lado de dentro. A porta abriu. Eu nunca adivinharia quem estava do outro lado da porta. Nem sequer prestei muita atenção a voz. E surpresa das surpresas. Quem estava dentro do meu apartamento era o meu marido. O sacana tinha-me deixado há três anos atrás. Não houve divorcio nem nada parecido. Simplesmente, num dia como todas as outras, chego em casa depois do trabalho e ele não estava. Tinha levado as suas roupas e nem deixou um bilhete de despedida. Foi-se simplesmente embora.

E agora tal como saiu, voltou sem avisar.

Três anos depois, aqui está ele, de toalha a volta da cintura com o corpo molhado. Como se nunca tivesse saído. Pingos de água escorriam-lhe desde do peito nu até a barriga, lindamente esculpido com abdominais. Parei um bocado a apreciar aquele belo corpo a minha frente. Eu podia estar completamente bêbada, mas não estava cega. Além disso, eu não me lembrava daquele corpo há três anos atrás. E, céus, ele se tornou num deus grego. E que deus.

«Mas, mas que…» balbuciei sem palavras

«Vais entrar ou ficas ali parada a apreciar-me.» Provocou

«Claro que vou entrar. A casa é minha esqueceste.» Retorqui desavergonhadamente.

«Não Paolla. Não me esqueci» acrescentou «A casa também é minha.»

«Vai a merda, Victor.» Refilei, enquanto entrava procurando as paredes para agarrar-me. «Perdeste tudo quando foste embora.»

Victor não respondeu, ocupou-se antes a fechar a porta atrás de mim. Segui na direção do sofá a minha frente. Quando estava suficiente perto do sofá, deixei-me cair em cima dele como se fosse uma morta.

«Então, porque que voltaste» Ele voltou na minha direção como se fosse a pergunta mais parva que já ouviu na sua vida. «Oh! Não me digas que sentiste saudades de casa.»

Eu queria dizer “ minhas” mas, decidi não fazer figura de idiota. Victor era um homem muito inteligente, por isso, ele poderia ter voltado pura e simplesmente para saber se já tem alguém a substitui-lo na minha vida. Mas a frase era suficientemente clara para que ele percebesse a mensagem escondida. E, talvez seja por isso que não respondeu.

Ele virou-me as costas e dirigiu-se ao meu quarto. Que há três anos era nosso. Não respondeu a minha pergunta e nem voltei a repeti-lo. Naquele momento só queria dormir e curar-me da bebedeira. Depois teria muito tempo para fazer a vida dele num inferno. Ele bem que poderia preparar-se, porque a sua vida não seria tão fácil como fora antes. E eu já não era a menina que deixou. Agora sou uma mulher. Aprendi a viver sem ele e sem ajuda de ninguém. Cresci e amadureci-me nos últimos três anos. Suportei os olhares de pena das pessoas que nos conheceram como casal. Finalmente consegui fazer com que a minha vida tomasse o rumo certo. Não deixaria que ele estragasse o que custou-me a recuperar. A minha dignidade.

Notas finais
Espero que gostem da História. Não tenham medo de comentar.