Maldita Porta
1 Capítulo único
Notas iniciais
Acordei em um corredor de pedra, frio e úmido. Era totalmente fechado, e a única luminosidade vinha do final dele, pela fresta de uma porta. Uma voz ecoava em minha mente, e gritava “fuja”, o medo me dominava. Não tenho a mínima ideia de como vim parar aqui, e a vontade de fugir era enorme. Fugir para onde? Atrás de mim o corredor acabava, e a única saída era aquela porta.
Caminhei receosa até aquela porta, e quanto mais me aproximava dela, mais podia sentir a energia negativa que o cômodo atrás dela irradiava. Cheguei até meu destino, toquei a maçaneta e então abri a maldita porta.
O que havia no outro cômodo era assustador, uma luz branca piscava me deixando tonta, as paredes tinham pontas de aço, nas quais reparei sangue. O chão era cheio de armadilhas e logo visualizei uma pessoa com uma túnica de morte, tinha uma foice na mão esquelética e branca como algodão.
Era uma figura realmente assustadora, tinha quase dois metros de altura e eu não podia ver seu rosto através da roupa macabra. Em suas mãos eu podia ver suas veias, através da sua pele praticamente transparente. Seus dedos eram ossudos, era assustador.
Mesmo por trás do seu capuz eu podia sentir que aquela pessoa me observava, e andava devagar na minha direção. Meu corpo estava paralisado, mas a voz ecoava em minha cabeça. Fuja.
Tentei tirar os olhos dele, mas era impossível, hipnotizante.
Ele chegou perto o suficiente para eu sentir o seu frio, seu corpo congelava o ar a sua volta, e minha vontade era deitar ali naquele chão, encolhida, aquecida.
Corri, finalmente obedecendo meus instintos gritando. Olhei para trás e vi que ele me perseguia, andando vagarosamente. Quanto mais eu corria mais me sentia presa, a impressão era de correr numa esteira, as paredes ao meu redor iam ficando para trás numa velocidade extremamente lenta.
Fim do corredor, e nele havia arame farpado por todos os lados, e a única saída era me encolher no canto e esperar, inutilmente, um milagre.
— Prazer, eu sou a Morte. – Aquela voz era indescritível, e perturbadora, como os pensamentos mais obscuros que se possa ter.
Observei-o, era minha única saída. A morte viera me buscar.
A Morte tirou seu capuz, seu rosto era tão branco quanto as mãos, seus olhos eram brancos, de forma que só era possível ver suas pupilas no meio de um branco sem fim. Seu nariz era fino, pontudo e comprido. Não tinha lábios, e quando sua boca se abria era como se atrás dela houvesse um buraco negro. Não tinha cabelos, o que deixava evidente o formato comprido do seu rosto magro.
— Não tema, só vai doer um pouco. Logo estará livre dessa vida miserável.
Como não temer a morte? Era o fim de tudo, e eu sequer havia me despedido de quem mais me importa. Afinal, quem mais me importa? Nem me lembro mais. Será que alguém me importa?
— Não se iluda, ninguém te ama. Sua vida será apenas mais uma acabando hoje, apenas mais alguém indo para a escuridão eterna, a morte.
E então, sem amor, de que me importa a vida? Sem sonhos, sem amor. Não preciso mais de vida.
— Exatamente, vamos acabar com isso logo. – Ele concluiu, olhando me nos olhos.
Lentamente sentia minha vida indo embora, mas eu ainda estava ali, sofrendo. Doía, e muito. Uma dor incapaz de ser escrita, apenas doía. Depressivo estar morrendo sem morrer de verdade, apenas minha alma era sugada, e minha essência se ia.
Não aguentei meu próprio peso, caí com toda a força possível no chão, e sentia meu corpo atravessá-lo. Minha queda durou um tempo eterno, e as paredes se moviam rapidamente à minha volta. Finalmente parei de cair, pairei no ar por poucos segundos e então alcancei o chão.
O ambiente era diferente, totalmente negro. Lá estava a Morte, observando-me. Seus olhos brancos brilhavam naquela escuridão toda, e podia sentir sua diversão em tirar-me a vida.
Então abriu a boca, e pude sentir todo o ar ao meu redor congelar, e então tudo escureceu.
Senti meu corpo ser sacudido, acordei com um susto. Olhei ao redor, estava em um metrô vazio, e já estava escuro do lado de fora.
— Calma, você estava tendo um pesadelo. – Alguém me disse, olhei e pude reconhecer aqueles traços, era a morte.
Saí correndo quando as portas se abriram, com toda minha velocidade cheguei à avenida fora da estação, olhei para trás e ela me seguia. Atravessei a avenida, tudo que ouvi foi uma buzina de caminhão, e então tudo escureceu.
Nos segundos anteriores ao fim pude ouvir uma voz sussurrar...
“Não se pode fugir da morte, sua tola.”
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