Maldita Coincidência
1 Maldita Coincidência
Notas iniciais
A Senhorita Marie sentou-se no sofá rubro enquanto aguardava ao lado de Dona Cecília a chegada do Ilustre Senhor Matias e sua esposa, Senhora Eleonor. Havia muito tempo as duas mulheres não os viam e a saudade era grande. A visita duraria três dias.
O Senhor Matias logo entrara, acompanhado da mulher. Todos se cumprimentaram e se dirigiram até a sala de estar para tomar um chá. Dona Cecília ria com os comentários diversos do Senhor Matias, um homem já idoso, mas de um humor jovial. A Senhora Eleonor estava mais interessada em falar sobre a arquitetura da casa. Havia insistido muito com o marido para que comprassem a bela mansão onde residiam, pois a arquitetura era romântica e essa era a principal paixão da Senhora.
A Senhorita Marie estava quieta. De vez em quando sorria com as piadas do Senhor Matias, bebia o chá, mas sentia-se incomodada.
Quando a tia a convidara para visitar o casal, aceitara apenas por cortesia. Seu problema era nada mais nada menos que a Senhora Eleonor. Não era uma má pessoa, pelo contrário, Marie a admirava muito, até demais. Era elegante, sabia usar roupas bonitas, combinar acessórios, tinha um gosto fino para comidas e bebidas e era inteligente.
Apesar de todas as qualidades de Eleonor, havia nela um simples defeito: uma pequena verruga no canto do olho direito. Aquele pequenino defeito perseguia Marie como um gato a um rato. Não aguentava olhar para os olhos da mulher e encarar aquela verruga.
A Senhora levantou-se e pediu que Dona Cecília e Marie a acompanhassem pela sala. Enquanto caminhavam a Senhora explicava cada detalhe da casa minuciosamente. Falava sobre a história do piano do marido, sobre a arquitetura dos corredores, as obras exibidas nas paredes, sobre a história do romantista que construíra aquele lugar e todos os demais pormenores. Marie, porém, não conseguia prestar atenção à tagarelice da Senhora Eleonor, pois estava à sua direita, os olhos focados na verruga. Incomodada, Marie passou para o lado esquerdo e tentou se concentrar na fala da mulher.
Quando terminou o discurso, a Senhora guiou as duas mulheres até seus aposentos. Eram sofisticados e bem organizados. Ambas ficaram satisfeitas.
Chegada a noite, Marie não conseguia dormir. Saber que a dona daquela verruga perseguidora estava a menos de sete metros a perturbava. Precisava acabar com aquele tormento. Não poderia aguentar muito. A situação lhe era insuportável!
No dia seguinte a Senhorita Marie levantou-se determinada. Não queria mais ver aquela verruga. Por que aquela mulher não tirava aquilo de algum modo? Uma cirurgia de remoção, coisa simples. Por que ficar com aquilo no rosto?
Mas se a Senhora não queria tirar aquilo, tinha que sumir com ela de algum jeito. Tinha que se livrar daquilo o mais rápido que pudesse. Se a deixasse, logo se veriam novamente e todo o transtorno recomeçaram. Não queria. Não ia deixar. Tinha que fazer algo e iria fazer, talvez naquele mesmo dia, talvez não. Assim que tivesse uma oportunidade.
O dia passou devagar para a Senhorita Marie. Ela observava Eleonor o tempo inteiro, esperando uma oportunidade boa, porém não conseguia ficar a sós com a anfitriã.
Outra noite atordoante.
Por fim, o terceiro dia. Marie e Dona Cecília iriam embora ao cair da tarde. Marie não teria outra oportunidade tão cedo. Fez as malas com Dona Cecília, almoçaram, se divertiram um pouco mais com as piadas do Senhor Matias. Estavam prestes a sair quando a Senhora Eleonor as chamou. Queria presenteá-las. À Dona Cecília deu um bonito colar e par de brincos. Dona Cecília, agradecida, a beijou e saiu, dizendo que esperaria Marie no carro.
À Senhorita deu um belo vestido vinho. Marie ficou muito agradecida. Era um vestido lindo. Ela olhou para a Senhora com um sorriso meigo. Mas sua expressão mudou ao ver a verruga. A maldita estava lá. Incômoda. Perseguidora.
Era aquela a chance. Marie se levantou e pegou um castiçal que estava sobre o piano. A Senhora levantou-se.
"Belo castiçal".
"Oh! Sim, maravilhoso".
Marie a olhou com raiva. Não. Olhou para a verruga com raiva. O castiçal foi jogado na direção dela. A Senhora caiu, chorando, com a mão no rosto. Marie retirou um pequeno punhal de debaixo da blusa e o enfiou na verruga com tamanha força que o punhal entrou mais do que devia. Marie não se importava. Tudo o que queria era se livrar da maldita verruga e ter a certeza de que não a veria mais.
Marie a golpeou mais uma vez, com mais força ainda, fazendo com que o olho da mulher saltasse para fora. O sangue jorrava abundantemente. A Senhora morrera, mas a verruga fora destruída. Nunca mais aquilo incomodaria alguém .
O cadáver! O que fazer com o cadáver? Marie tentou arrumar o olho de Eleonor que saltava para fora, puxou e guardou cuidadosamente o corpo e o castiçal dentro de um baú que ali estava. Empurrou o baú até o armário.
Havia sangue no chão, mas ela não se preocupou. Simplesmente colocou um tapete que encontrou no armário sobre ele. A Senhorita se dirigiu ao lavado, limpou as mãos sujas de sangue, a roupa onde havia alguns respingos, arrumou os cabelos e saiu, muito feliz e despreocupada.
Dona Cecília quase dormia. O Senhor Matias conversava com o motorista, dando instruções para que levasse as mulheres até o aeroporto em segurança.
"Está demorando muito", Dona Cecília pensou.
Logo a Senhorita Marie apareceu. Entrou no carro, estava sossegada. Finalmente em paz.
"Perdoem-me, a Senhora Eleonor e eu fomos aos jardins atrás da casa para conversarmos e acabamos nos estendendo. Ela ainda está por lá".
O Senhor Matias sorriu, cumprimentou as duas mulheres e o carro partiu. O aeroporto não ficava muito longe. Levaram alguns minutos até chegar lá e pegaram o voo.
O Senhor Matias estava sentado no sofá. Eleonor ainda não havia aparecido. O que fazia há tanto tempo no jardim? Foi até lá. Não a encontrou. Vasculhou todos os possíveis lugares onde poderia encontrá-la, sem sucesso. A cozinheira não a vira. O jardineiro também não. Tampouco a empregada. Onde poderia estar?
Chegada à noite, o Senhor Matias resolveu alertar a polícia, mas assim que pegou o telefone ouviu o grito da empregada. Correu até o quarto e se deparou com o jardineiro puxando o baú onde estava o corpo da esposa. O olho não estava na posição correta.
Marie estava feliz e muito em paz. Jamais veria a maldita verruga novamente.
No dia seguinte, sua tia a convidou para tomar chá na casa de uma senhora. Ao chegar lá, Marie paralisou ao ver a anfitriã; uma mulher idêntica a Senhora Eleonor. E a maldita estava lá novamente. A mesma verruga, igual, idêntica, a mesma perseguidora.
"Esta é a Senhora Lenor. Sabia que Eleonor tinha uma irmã idêntica? E veja, ela se mudou recentemente para cá, pertinho de nós".
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