Maldição do Fogo

1 Liza - Não dá para você subir em uma árvore em paz


Notas iniciais
Pretendo colocar em cada capítulo uma música para vocês ouvirem. A desse é: http://www.youtube.com/watch?v=KIW_Ca8OWTo (Radioactive - Imagine Dragons).Espero que gostem :3

Ouviu o barulho assim que chegou ao galho. De tão estranho, não conseguiu distingui-lo. Vinha de longe, do meio da floresta.

Ainda estava transtornada. Não conseguia entender o que estava acontecendo em sua vida, era tudo confuso demais. Parecia estar tudo virando de cabeça para baixo – e era exatamente assim que se sentia.

Algumas horas atrás, estava voltando da escola normalmente. Havia sido um dia tão comum quanto os outros, e nem suspeitara de nada. Mas, ao chegar em casa, notou que algo tinha mudado. Sua mãe agia de forma... diferente.

Não que ela sempre fosse uma mãe comum, como se vê por aí. Não é possível explicar. Ela tinha sua própria definição de mim – e Liza sempre gostara disso.

Mas ali, naquele momento, ela não parecia ser a mesma mulher. Não tinha o mesmo sorriso, nem o mesmo brilho nos olhos. A última vez que estivera de modo parecido tinha sido há alguns anos antes. Mas Liza não gostava de lembrar-se dessa experiência.

A mulher não se aproximou. Não a saudou. Nem ao menos olhou para seu rosto. Continuou sentada no sofá, abraçando a almofada como se estivesse apaixonada por ela. Liza tentou chamar sua atenção, mas nada desviou seu olhar da televisão. Olhando bem, percebeu que haviam lágrimas em seus olhos.

Correu para a mãe e tentou tocá-la, mas a mulher não permitiu. Seu rosto estava sem expressão, o que fez Liza sentir-se mal. Depois da garota insistir mais um pouco, cedeu, mas com o olhar fixo e a boca ainda fechada.

Não gostava de ser ignorada. Tentou fazer com que a respondesse, nem que fosse um oi. Continuou conversando com a mulher, até cair no chão.

Não fazia ideia de como tinha caído. Era como se uma força a tivesse puxado para baixo, uma força superior à sua. Sentiu seu braço doer e então notou a mancha no piso. Também era estranha, incapaz de ser entendida. Exalava um calor pouco mais forte que o da luz do sol em um dia quente. Mas a garota gostava disso.

– Liza – sussurrou a mãe.

Ela foi surpreendida pela voz. Não esperava que sua mãe a respondesse dessa maneira, nem tão cedo. Ainda estava daquela forma, mas pelo menos emitia algum som. A garota voltou a se sentar ao seu lado e tentou abraçá-la, contudo, não foi permitida.

– Vamos dar um passeio – disse, no mesmo tom.

– Para onde? — perguntou Liza.

O sorriso que apareceu no rosto da mãe foi assustador. A garota percebeu que tinha alguma coisa de muito errado e quis correr, mas não podia deixá-la naquele estado. Tentou olhar em seus olhos, sem demonstrar o medo que sentia.

– Isso, minha filha, já é surpresa.

Aquilo também estava diferente. Sua voz soara grossa e rígida, e tinha saído de maneira natural, como se não tivesse forçado. Parecia que sempre tinha sido assim.

Àquela altura, Liza tinha certeza de que algo estava muito errado.

– O que foi, mãe?

Não houve resposta. Ela apenas se levantou e pegou as chaves. Abriu a porta e, segurando no pulso da filha, levou-a para o carro. Trancou as portas e começou a acelerar demais. Uma vez dentro, não tinha como sair.

Não podia fazer mais nada. Ficou olhando pela janela, tentando descobrir seu destino. As ruas de Long Island passavam rapidamente ao seu redor, as ruas tão familiares mas que ela não reconhecia naquele momento. O medo a cegava.

Quis fechar os olhos. Quis chorar. Quis pular do carro e correr. Quis fazer com que a mãe voltasse ao normal e percebesse que aquela não era ela.

Sua mãe lhe entregou um anel. Era dourado, com riscos em linhas curvas como ondas. A garota o colocou no dedo e sentiu-se bem com ele ali.

Contudo, esperou para ver até onde tudo aquilo iria chegar.

Não acreditava que existiam pais que realmente largavam os filhos em uma floresta e depois corriam. Pensava que isso só ocorresse nos filmes, seriados e livros. Mas aquilo estava acontecendo. Sem nem ao menos um “adeus”, sua mãe se desviou, entrou no carro e partiu, deixando a garota sozinha, no meio do nada.

O que poderia fazer? Sabia como acampar, mas estava sem suprimentos. Imaginou que iria padecer ali e que tudo era apenas questão de tempo. Sabia que sua mãe não iria voltar para levá-la para casa.

A única coisa que pensou em fazer foi subir aquela árvore.

Encaixou as mãos em fendas no tronco e começou a erguer seu corpo. Colocou os pés em outros buracos e foi tentando escalar.

Seus dedos estava vermelhos e suados, assim como seus pés, mas não parou. Continuou subindo até chegar em um galho que aparentava ser forte e grande, e, lentamente, moveu-se até conseguir ficar sobre ele. Sentou-se e respirou fundo.

E foi aí que ouviu o tal som estranho.

Mesmo de no meio da floresta, parecia estar aproximando-se dela. E isso fez seu coração disparar. A cada segundo, parecia mais próximo, e mais. E Liza ainda não conseguia imaginar o que seria.

Sentiu o calor do sol e isso fez com que ela se sentisse melhor. Deu-lhe coragem para descer da árvore e seguir o barulho para desvendar esse mistério.

E foi o que a garota fez.

Caminhou pela trilha, aproximando-se de um vale com um grande pinheiro no topo. Olhava para os lados, mas não conseguia encontrar nada.

Aquele pinheiro parecia estar chamando-a para fazê-lo companhia. Ela andou em sua direção devagar e então notou o dragão enroscado sob ele. Parecia estar dormindo, mas era assustador demais para que fizesse com que ela chegasse mais perto.

Ouviu o barulho novamente. Olhou ao seu redor mais uma vez e não encontrou nada. Mas sentiu um cheiro estranho e parecia que tudo vinha de cima.

Seu erro foi olhar para o céu.

A mulher não voava muito alto. Usava roupas negras, assim como suas asas. Suas mãos eram garras com unhas compridas, mas Liza não olhou muito para que não se sentisse enjoada.

– Cadê sua mãe? — sua voz era arrastada e fria.

A garota sentiu um frio na barriga.

– Não faço ideia – respondeu – Quem é você?

A criatura soltou uma risada e ficou fitando Liza.

– Mas já nos conhecemos, minha pequena semideusa.

Semideusa?, pensou Liza. WTF?

Ficou só mais confusa do que estava.

– O que você é?

– Sou Megera, oras. Uma das três Fúrias. Achei que já tivesse estudado isso na aula de história. Meu nome significa Rancor, e vivo para punir aqueles que devem ser punidos.

– Fúrias? Você não deveria ficar no inferno ou algo assim?

Megera tremeu, como se a garota tivesse falado a coisa errada.

– Não vou explicar para todo meio-sangue ignorante que o mundo inferior não é o inferno. Agora: diga-me onde está sua mãe, ou acabarei com você neste momento.

Liza tentou recuar. Repentinamente, aquele pinheiro parecia o lugar certo para estar.

– Não faço ideia de onde minha mãe se encontra, senhora. Ela acabou de me largar aqui.

A Fúria suspirou.

– Tem certeza de que não sabe?

A garota caiu ao tentar andar para trás e a mulher desceu mais um pouco.

– Absoluta – respondeu com a voz fraca.

E Megera estava próxima demais, com o rosto tão perto do de Liza a ponto de fazer a garota tossir com o cheiro que exalava.

Ergueu uma de suas garras e tocou a ponta na bochecha da garota. Ela arrepiou-se e tentou recuar ainda mais, mesmo sentada. E arranhou seu rosto, fazendo com que a pele ardesse e o sangue saísse.

Pousou a garra sobre o pescoço dela, fazendo-a ficar apavorada. A garota tentou se levantar, mas não conseguia. Suas pernas tremiam. Parecia ter veneno na unha de Megera.

Foi aí que aconteceu uma coisa que só tornou tudo mais confuso.

A mão de Liza começou a formigar e então estava brilhando. O anel estava ainda mais claro e produzia luz. Ficou pesado demais em seu dedo e as linhas rabiscadas estavam brancas. A garota tentou tirá-lo, mas parecia estar preso em seu dedo. Ficou quente e o brilho que saía dele começava a cegá-la. Fechou os olhos e tocou o rosto da Fúria com a mão.

Ouviu um barulho de explosão pequena. Abriu os olhos e viu Megera caída no chão, com parte do rosto queimado, mas sem apresentar nenhuma presença de fogo. Soltou um grito agudo e ficou de pé.

A Fúria já se levantava também. Ergueu-se do chão e voou em direção à garota. Mas Liza correu para a outra direção.

O pinheiro não estava tão longe. Mas ela ia o mais rápido possível. Sabia que ainda tinha mais à frente para correr e que aquilo não iria durar para sempre, porém precisava de pelo menos um pouco de tempo.

Quando o cruzou, o dragão permaneceu parado.

Megera chegou ao lado do pinheiro, mas pareceu não poder continuar. Como outra explosão, Liza foi jogada para frente e caiu de cara na grama.

Quando recuperou a consciência novamente, parecia que não tinha passado muito tempo. Mas suas pernas estavam doendo e a abertura em seu rosto ainda sangrava.

Não olhou muito para os lados. Só conseguia fitar o rosto sobre o seu. Era de um garoto, com cabelo castanho e olhos da mesma cor. Ele ergueu a mão, oferecendo ajuda para que a garota se levantasse.

– Meu nome é Randy – ele falou – Seja bem-vinda ao Acampamento Meio-Sangue.

Notas finais
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