–Você está chorando, docinho?

E ela estava, mas teria que ser forte por Sophia. Num momento tão delicado, não poderia se dar o direito de chorar. Coisas piores estavam acontecendo e lembrar-se de seu passado sombrio não era relevante. E também não daria à Isaac o gostinho de “reconfortá-la”.

–Não, estou apenas um pouco rouca, pai.

–Ótimo, não quero te ver triste, tudo bem?

“Então desliga da droga da ligação”.

“Não acho que ele irá fazer isso”.

–De qualquer forma... –Melina retomou a compostura e continuou com a ligação. –Eu preciso falar com o James.

–Creio que não será possível no momento. Mas pode conversar comigo.

–É sobre algo particular, que diz respeito à minha pena.

–Certo. Então, acho que vou desligar. Mas nos vemos logo, Melina...

–Tchau, Marshall. –Ela colocou o telefone no gancho e saiu do corredor.

O pequeno salto batia no chão, fazendo um som incômodo. Ela passou a mão nos braços, tentando afastar a faixa de ar frio que fez sua pele arrepiar. O tempo estava começando a esfriar e ela odiava isso.

Quando chegou ao quarto e abriu a porta, encontrou Ian com um olhar entristecido, Sophia estava deitada na cama de bruços para a parede e Alex girava o anel de metal no dedo anelar.

–O que aconteceu? –A morena perguntou, dirigindo a pergunta ao namorado que ergueu o olhar.

–Ela não quer contar. Eu desisti depois de um tempo.

Ela se aproximou da garota e acariciou seus cabelos, tentando inutilmente acalmar os cachos, ficando de joelhos ao lado da cama.

–Fala comigo, ruiva.

–Me deixa sozinha, por favor... –Foi a única coisa que ela conseguiu dizer antes de uma pequena lágrima escorrer.

Melina se virou para os dois garotos e deu um pequeno sorriso.

–Vocês podem voltar depois.

Alex se levantou e beijou a bochecha da namorada, sussurrando algo no ouvido de Ian que logo se levantou ainda com uma expressão entristecida.

Depois que a porta foi fechada, Melina tirou os sapatos e empurrou Sophia de leve para o lado que se afastou para que a morena se deitasse ao seu lado. Lina a abraçou e deu um sorriso, passando novamente a mão carinhosamente por seus cabelos ruivos.

–Pode confiar em mim, ok?

–Sim.

–Não vou forçar a contar, mas eu ficaria feliz se contasse.

Soph soltou um muxoxo incompreensível e voltou a chorar, silenciosamente. E Melina não se importou, porque apesar de não saber o que se pensava na mente da amiga, só queria que ela soltasse tudo para que no final, tudo se resolvesse.

(...)

–Ela está grávida, mesmo? –Taylor sussurrou, enquanto a classe conversava e esperava a professora de francês chegar.

–Shhh... –A morena disse com uma expressão repreensiva.

–Eu só perguntei.

–Pergunta inadequada, Taylor. –Alex se intrometeu, mesmo estando ao lado de Melina e evidentemente ter escutado tudo desde o início, nada havia saído de sua boca até aquele momento. Ele estava preocupado por não ter notícias sobre sua irmã postiça e por não falar com Melina como antes, mas isso era por iniciativa dela que preferia se focar em outras coisas.

–Então faça o favor de calar a droga da boca. –Ela completou, antes de olhar para o fundo da sala, onde Ian se encontrava com uma expressão indecifrável. –E se fizer isso, aproveite para tomar um banho, dá para ver que fumou.

Sophia não falava com ninguém além de Melina e nem saia do quarto, Ian havia se afastado até de Alex e a morena não dava informações, sequer abria a boca quando perguntavam sobre a ruiva. E Taylor havia recebido a informação apenas naquele momento. O “grupo” havia se desfeito e não parecia que voltaria a se formar novamente tão rápido.

Quando Melina chegou ao quarto com o almoço da ruiva, ela se deparou com o de sempre. Ela estava lendo qualquer livro que pudesse tirá-la da realidade.

–Adivinha quer vai comer com você hoje. –Ela disse, colocando a bandeja na escrivaninha e sorrindo.

–Não devia deixar o Alex sozinho.

–Está tudo bem, eu falei com ele. –Mas era mentira, e apesar de saber que ele ficaria decepcionado por almoçar sozinho ela ainda assim havia escolhido Sophia.

–Mesmo assim.

–Eu quero ficar com você, ok? Minha aula de Literatura é daqui trinta minutos, então, não temos muito tempo.

Ela pegou a bandeja e se sentou no chão, convidando a ruiva a juntar-se a ela. No final Soph deu um sorriso mínimo, mas que Melina percebeu.

(...)

Ele estava com raiva, mas escondia isso muito bem. Porém, no momento em que ela chegou a seu quarto sem bater na porta e com um sorriso nos lábios, Alex não conseguiu segurar mais.

–Eu estou te procurando faz um tempão. Não tinha combinado de me encontrar na biblioteca? –Ela disse tirando os sapatos e se sentando ao lado dele na cama.

–Também tínhamos combinado de almoçar juntos, não é? –Alex disse frio sem desviar o olhar da parede.

–Eu fiquei com a Soph, desculpa. Pensei que...

–Pensou que eu não iria me importar? –Ele disse finalmente a olhando nos olhos.

Ela se assustou com o seu tom de voz fechou a boca várias vezes antes de falar.

–Porque está falando assim comigo?

–Talvez porque você tenha me deixado de lado.

Ela parou por um instante e pesou aquelas palavras. Sentiu um nó no estomago e percebeu no quanto àquela frase era verdadeira.

–Ela está grávida!

–Eu sei! Mas isso não é motivo para simplesmente parar de falar comigo e...

–E você tem falado com o Ian por acaso? –Ela o interrompeu. –Perguntou como está a cabeça dele, se está bem? Eu tenho certeza que não. –Alex se calou. –Eu não estou entendendo merda nenhuma do que está acontecendo, imagina ele! Ele é namorado dela e descobre que ela está grávida...

Ela fez uma pausa e olhou em seus olhos.

–Eu te amo, seu idiota! Então não seja egoísta. Porque você resolveu brigar comigo ao invés de dizer o que estava sentindo.

Ela respirou fundo e o sentiu pegar sua mão e beijá-la, mas não ousou olhar.

–Desculpa, ok?

–Por que eu deveria fazer isso? –Ela fez uma careta, mesmo já tendo o perdoado.

Ele riu.

–Porque eu te amo, porque você me ama e eu sou um completo idiota.

–Sim, você é... –Ela balançou a cabeça e riu.

–Obrigada, acho que aumenta meus comentários autodepreciativos.

Ela sorri e vira a cabeça ao ouvir o som da porta se abrir e Ian entrar.

–Oi, Ian.

–Oi... –Ele dá um sorriso sem graça e entra no banheiro, fechando a porta.

Alex e Melina olham para a porta por alguns segundos, antes da morena franzir o cenho e dizer:

–Isso acaba hoje. –O loiro olha para ela confuso. –Você dois no nosso quarto daqui meia hora, entendeu?

–Ok, mas como eu...

Ela já havia saído do quarto.

(...)

Faltava pouco para os garotos chegarem e Melina esperava que Taylor também viesse, mesmo que ela houvesse avisado de última hora.

Quase chegando ao quarto, cruzou com Kathleen. A loira estava correndo vorazmente e Lina queria saber o porquê, por isso a parou.

–Kathleen, tudo bem? –A morena parou e deu um sorriso irônico.

–Ah, tudo bem. E com você vaca traidora? –A loira rebateu

–Tudo um mar de rosas.

–Ótimo, agora me deixa sair do inferno que é conversar com você. –Kath já estava voltando a andar quando Melina a pegou pelo braço.

–Para que tanta pressa? Indo encontrar alguém? –Kathleen se afastou e sorriu.

–Talvez.

–Então é verdade? Foi por isso que deixou o Taylor? Outro cara?

–Não. E só para você saber, apesar de não ser da sua conta, não estou indo ver um cara.

–Ai meu Deus, você é lésbica? –Melina colocou a mão sobre a boca fingindo estar chocada.

–Muito engraçado, isso vindo da vadia total. Quer saber, não vou perder meu tempo com você! –A loira se virou bruscamente, e uma folha dos cadernos que segurava acabou por voar.

Melina pegou a folha.

–Kathleen! –A garota ignorou o grito e virou o corredor.

Melina analisou o conteúdo da folha. Ela sabia que aquilo era uma lista de coisas a fazer, e sabia o que parte daquilo significava. E apesar de estar com vontade de ir atrás de Kathleen e arrancar alguns de seus fios loiros, se conteve e retomou seu caminho.

(...)

–Ian, me faça o favor de entra naquele maldito quarto agora! –Melina sussurrou de maneira terrivelmente assustadora para o moreno que se negava a conversar com Sophia.

–Eu não vou, Melina. Se ela não quer me ver, eu também não quero vê-la.

–Ela quer te ver... –A garota deu um sorriso triste. –Ela só está com medo do que pode acontecer.

Ian ficou calado enquanto recebia os olhares de Melina, Alex e Taylor.

–Eu vou.

Melina colocou a mão na maçaneta da porta, suspirou e finalmente a abriu.