Maldição Wilde
18 Capítulo 17
Notas iniciais
Sophia suspirou e abraçou Melina delicadamente deixando com que ela chorasse. Estava numa confusão mental. Lena era a última pessoa que ela queria por perto. O que Rafael fizera ainda estava muito vívido em sua mente. Mas Makayla e Trace eram um problema mais grave que isso. E tinha também Melina... Melina era sua amiga.
–Shiii. –A ruiva afagava os cabelos da morena e ficaram em silêncio até que as lágrimas de Melina cessassem. Sophia também estava abismada com tudo e sentia um desespero crescer dentro dela tão grande que não podia nem respirar ao ver todas aquelas reportagens, fotos, notícias e derivados, mas já tinha uma pessoa chorando no quarto. Se ela demonstrasse também tudo só ficaria pior. Além disso, ela já tinha certa experiência em segurar lágrimas.
–Desculpe-me. — A morena falou depois de algum tempo secando as lágrimas com as costas das mãos. –É só que... Você não sabe como é Soph. Acordar todos os dias sabendo que existe um monstro dentro de você pronto para sair á qualquer momento. Eu matei pessoas...
–Trace matou pessoas. –Soph corrigiu.
–Tanto faz! Estava no meu corpo! Eu acordo todos os dias de manhã e é esse pensamento que vem á mente. Eu tenho medo de que mais pessoas venham á morrer entende? –A voz de Melina saía estrangulada como se lutasse contra as lágrimas. –Aquelas pessoas tinham famílias e essas famílias estão destruídas. Sophia, eu não quero que você passe por isso! Não quero que você sinta o que eu sinto! Ainda há tempo pra você!
–Ainda há tempo pra nós! A culpa não é sua e nem foi sua! E eu não vou mais ver você chorar por causa disso. Você é minha amiga. E... –Sophia se obrigou á ser forte como sempre. –Manteremos a Lena por perto ok? Ela não vai querer ficar perto de mim, mas ela gosta ou pelo menos finge que gosta de você. E, eu posso sei lá, tentar me aproximar dela.
A ruiva suspirou e caiu sentada na cama. Detonaria todo o seu orgulho. Lena fazia parte de um passado que ela queria apagar. Detonaria toda ou a maior parte de sua força. E ela não sabia se podia ou não dar certo já que Lena também não queria ficar perto da ruiva, mas ela tinha que tentar.
–Obrigada. –Lina sorriu. –Por que você e a Lena são desse jeito? O que ela e Rafael te fizeram?
–Eu preferia não falar disso.
–Qual é ruiva? Não confia em mim?
–Eu confio. –Soph sorriu daquele jeito meigo propriamente dela, geralmente usado para manipulação ou para esconder lágrimas. –Simplesmente não acho que estou pronta pra compartilhar.
–Se você diz... Mas, eu só quero que saiba que se precisar conversar eu estou aqui, eu também sou sua amiga. Quero que saiba que eu me preocupo com você também. E que eu não sou de falar essas coisas melosas então guarde esse momento na sua lembrança tá?
Sophia riu:
–Eu sei de tudo isso, mas nunca pensei que iria ver você admitir. Nessas horas uma câmera faz falta. –Ela riu ao levar uma travesseirada. –Alguma ideia do que iremos usar como desculpa para ter faltado à aula de Educação Física?
–Eu falto aula direto, mas você tem sua “reputação á zelar”. Pode dizer que eu te manipulei ou coisa do tipo, eu não me importo.
–Ou eu posso falar que eu passei mal e você ficou aqui pra me ajudar. E que não fomos para a enfermaria por achar que não é nada grave. Evita a fadiga.
–É, ou isso. Mas fala sério, eu prefiro decorar cada uma dessas reportagens até que enfrentar aquelas aulas de Educação Física. Você também não parece ser o exemplo de atleta.
–Bom, eu jogo vôlei. Não sou um exemplo de jogadora, mas sou até aceitável. Além disso, qualquer coisa eu dou um jeito de pular corda.
–Eu prefiro a piscina. –Melina deu de ombros. –Mas se for pular corda, me chama.
Sophia riu:
–Chamo sim. E... Bem, eu não sei nadar. E também me sentiria desconfortável com roupa de banho.
–Bom saber senhorita ruiva. Na próxima aula de Educação Física eu vou te enfiar num maiô, de preferência o mais revelador que tiver lá e eu mesma vou te ensinar á nadar. Todo mundo tem que saber nadar.
–Como assim maiô revelador?
–O mais revelador que encontrarmos. Ian me agradecerá imensamente.
Sophia corou mais que um tomate:
–Só podia ser a Melina.
–Eu vou fazer sim senhora! É para o seu bem! Se você não sabe nadar, alguém tem que te ensinar. E o meu pagamento é ver você corar até a alma com um maiô minúsculo e com olhares masculinos em você. E não ouse dizer não.
–Ai meu Deus, estou ferrada.
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–E foi isso que aconteceu diretora. –A ruiva explicou sorrindo e com os olhos azuis emanando meiguice. –Eu passei mal e pedi á Melina pra ficar comigo. Era apenas uma dor de cabeça, por isso não fui para a enfermaria, não achei que seria algo série. Eu geralmente as tenho, elas vêm e vão o tempo todo. Mesmo assim eu não queria ficar sozinha caso piorasse, por isso a Lina achou melhor ficar comigo.
Aqueles olhos sempre tinham o que queriam por isso a diretora apenas suspirou:
–Dessa vez passa meninas. Sophia, você é nova aqui, estou te dando um desconto. Mas que isso não volte á acontecer novamente. E se a senhorita passar mal, vá á enfermaria. Se acontecer algo mais grave não saberemos se estiver em seu quarto.
–Claro, muito obrigada. Com licença.
As duas saíram da diretoria ilesas. Assim que estavam com uma distância segura Melina deu uma risadinha:
–Então é pra isso que servem esses olhos.
–Eu falei que daria certo. Saímos sem nenhum arranhão.
–Isso é uma surpresa, aquela mulher realmente me odeia. Aposto que ela está esperando a primeira oportunidade para me transferir para um reformatório totalmente longe daqui.
–Não será hoje e a nossa falta não será essa oportunidade. Ainda bem porque não quero ficar sem minha parceira de investigação.
–Nem eu. –Ela riu.
–Bem, eu vou á biblioteca. Tentar achar um livro legal. Os meus eu já li e reli tantas vezes que posso recitá-los agora mesmo.
–Boa sorte com isso.
Sophia riu e seguiu em direção á biblioteca. Ao entrar percebeu que estava vazia além dela e da bibliotecária que folheava uma revista sem muita vontade. Então ela correu para as estantes com os olhos brilhando como se estivesse dizendo “Isso é o paraíso”. A garota pegou um exemplar bastante desgastado de “A Menina que Roubava Livros” e foi para uma mesa ler. Sua mesa era a mais no fundo da biblioteca onde mal podiam vê-la. Gostava assim.
Ela abriu o livro e seus olhos se aprofundaram nas palavras e assim ela entrou no mundo daquelas páginas. Era uma fuga tão boa da realidade que logo na primeira página ela pensou que poderia passar todo o tempo que tinha que ficar no reformatório ali e não seria tão ruim.
Então ela sentiu. Alguém tirou delicadamente seus cachos de uma parte do pescoço e roçou os dedos ali. Sua pele automaticamente se arrepiou e ela nem precisava se virar para saber quem é que tinha feito aquilo. Só tinha uma pessoa para quem seu corpo respondia daquele modo:
–Olá Ian. –A ruiva sorriu.
O moreno deu um sorriso de canto de boca ao observar a pela da moça arrepiada. Então se sentou ao lado dela.
–O que faz aqui? –A menina perguntou o encarando.
–Bem, você faltou aula. E sendo a “Sabe-Tudo” do grupo eu achei muito estranho. Então encontrei a Melina e ela me explicou mais ou menos tudo o que aconteceu e disse que você tinha vindo pra cá. Então eu desci pra cá pra te procurar.
–Achou. Já pode ir embora.
–Sei o que está tentando fazer Soph e já falo que não vai funcionar.
–E o que eu estou tentando fazer?
–Você está tentando me repelir. Mas sei que não quer que eu vá. Seu corpo responde á mim. –Ele afagou delicadamente o rosto dela fazendo com que a garota suspirasse para depois respirar fundo e se afastar.
–Ian...
–Eu sei. Estou forçando a barra não é?
Ela assentiu com a cabeça mordendo os lábios. Não devia gostar tanto dele, da proximidade dele. Céus, o que ele estava fazendo com ela? Será que ela já não havia sofrido demais? Não havia aprendido á lição?
–Eu vou parar. –O moreno sorriu. –Por hoje. Mas sei que gosta de minha companhia então podemos conversar.
Sophia riu e fechou o livro marcando mentalmente á página em que parou.
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Quando a ruiva entrou no quarto encontrou Melina com um pote médio de sorvete de flocos na mão. Os olhos de Soph brilharam e ela deixou o livro no criado mudo para tomar a colher de Lina e comer um pouco.
–Onde conseguiu essa benção? –Perguntou fazendo a garota de olhos verdes rir.
–Alex consegue essas coisas de vez em quando, não me pergunte como. E eu tenho uma colher pra você. –Ela estendeu uma para Sophia fazendo com que a ruiva devolvesse á dela. –É mesmo bom que coma comigo, divide as calorias. Afinal, amigas dividem tudo mesmo.
A ruiva riu assentindo com a cabeça e comendo um pouco. Lina não resistiu á perguntar:
–E então, o que aconteceu na biblioteca?
Soph corou violentamente abaixando um pouco a cabeça:
–Nada Melina. E nem vai acontecer. Não estou pronta para relacionamentos, já fui muito machucada.
Algo dizia á morena que isso tinha á ver com Rafael e o que quer que tinha acontecido com eles no passado.
–Ah Soph, deixa disso. O Ian é um cara muito bonito e não ouse dizer á ele que eu falei isso. E ele também é legal, mais uma vez, não diga que eu disse isso. E está caidinho por você. Não quer mesmo repensar?
–Não obrigada. –A ruiva sorriu gentilmente. –Mas você e o Alex são o casal de namorados mais fofo que eu já vi.
Melina arregalou os olhos e engasgou:
–Como assim namorados?
–Vocês andam juntos no maior chamego, se beijam, trocam carinhos, apelidos carinhoso, você chama isso do que?
–Conversa normal. Sophia! Estamos tendo uma conversa normal de adolescentes! Comendo sorvete e falando de garotos.
A ruiva percebeu e então sorriu abertamente:
–Não é? No fim de tudo não somos tão estranhas assim. Mas, não querendo te deixar triste, mas ainda temos que nos afogar em entrevistas, reportagens, fotos, notícias e derivados. Porém... Vamos terminar o sorvete primeiro.
Alguns dias depois:
Era já de tarde e Melina estava com Alex. Soph deixou o livro na metade do lado da escrivaninha. Já era o sétimo ou oitavo que pegava na biblioteca. Sua cabeça estava latejando um pouco por ter passado tanto tempo lendo, mas estava interessante demais para parar.
Ela se levantou da cama sorrindo ao lembrar da ultima aula de Educação Física. Melina havia cumprido o que prometeu. A enfiara num maiô tão revelador que ela não sabia onde a morena tinha achado e ela teve que enfrentar todos os meninos olhando pra ela. E Ian parecia num dilema terrível: Ficava admirando ou fuzilava com o olhar todos os outros garotos que ousavam olhar para a sua Sophia?
Mas aquela aula tinha tido um lado positivo. Melina era uma ótima professora e Sophia em uma só aula já conseguia boiar e nadar um pouco. Ou seja, não morreria afogada se alguém á jogasse numa piscina, mar, lago ou coisa parecida.
A garota então sentiu um leve enjôo e de repente soube. Tentou impedir, mas foi pega de surpresa demais. Os olhos azuis se tornaram amarelos.
–Passo dois. –Makayla disse. –Acabar com a personalidade da Sophia.
Droga Makayla, nem um aviso prévio? Podia pelo menos dizer um “Vou invadir seu corpo”.
Eu geralmente fico em silêncio na sua mente então tenha a educação de fazer o mesmo.
Makayla andou pelo quarto se perguntando se não teria uma maldita prancha em algum lugar dali. No meio das coisas de Melina acabou achando uma prancha e então alisou os cachos ruivos que eram uma das marcas de Sophia, ajudava o toque inocente. Depois encurtou a saia de uniforme, abriu os primeiros botões da camisa, destacou os olhos com delineador preto, passou batom vermelho e achou uma bota preta de salto alto que Soph havia ganhado e levado para o reformatório, mas nunca em sua vida havia usado. Então, só então, saiu do quarto.
Nos corredores todos estavam imensamente surpresos com Sophia. Ela estava mudada, diferente, sensual e com incríveis lentes amarelas.
–Você viu a Sophia? –Uma garota perguntou á Ian.
–Não, por quê?
–Ela está muito mudada. Maquiagem pesada, saia curta, lentes...
–Lentes?
–Sim, lentes amarelas.
O moreno praguejou mentalmente já sabendo o que era aquilo. O que mais temia. Makayla:
–Onde ela está?
–Da ultima vez que eu a vi estava no corredor dos armários.
Ela não precisou dizer mais nada, Ian saiu correndo pra lá, mas já não estava. Ele virou aquele colégio de cabeça pra baixo até que a achou num corredor vazio de uma parte desativada do colégio. A garota estava de costas, mas ele reconheceria aquele cabelo em qualquer lugar do mundo, mesmo eles estando lisos.
–Ian. –Makayla se virou lentamente. –Que surpresa desagradável.
–Makayla. –O moreno sibilou entre dentes. -Digo o mesmo.
–Sou eu. Ai, esse lugar estava tão entediante. –A voz era a da Sophia, mas soava diferente, rouca, sedutora com um leve toque irônico em todas as palavras. A mesma andava lentamente para que o seu salto batendo contra o chão fosse ouvido até ela parar quase grudada ao rapaz. –Que bom que você apareceu. Sabe, a minha hospedeira te aprecia muito. Ela ficaria tão arrasada se eu te machucasse. Tão culpada...
Ian deveria sentir medo. Mas tudo o que sentia era raiva. Raiva por aquela coisa corromper o corpo de Soph daquela maneira, raiva por ela querer tomar o corpo da garota que ele gostava de dentro pra fora, raiva por ela e a irmã estarem tirando o sono das meninas.
–Deixe a Sophia em paz.
–Você é tão fofo e tão idiota ao mesmo tempo. Ela não quer você Wolf. E nem você e nem ninguém pode salva-la.
–É mesmo? Veremos. –Então num gesto impensado ele a puxou pela cintura e tomou aqueles lábios que tanto queria á quanto tempo. No começo Makayla o empurrou tentando se afastar, mas ele a segurou pela cintura até que sentiu que estava sendo retribuído e soube pelo toque que aquela não era mais Makayla. O toque inocente das pequenas mãos enlaçando seu pescoço era de Sophia. E ela estava lhe retribuindo o beijo. Ele havia pensado várias vezes em como seria beijá-la. Mas nada lhe havia preparado para aquilo. O beijo de Sophia era doce, inocente, meigo, mas ao mesmo tempo o deixava em chamas.
Então ele se afastou e olhou mais uma vez para aqueles olhos azuis antes da garota cair desmaiada em seus braços. Ian a pegou no colo e olhou para a menina desmaiada:
–Vai ficar tudo bem. –Ele sussurrou. –Eu prometo.
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