Já passavam das três horas da madrugada e Shaka ainda não conseguia fechar os olhos. Por sorte ou azar, havia concordado com a proposta do sócio e do cliente, e nem estava acreditando muito na sua resposta agora. Não admitia em voz alta, mas sabia que quase sempre era vítima de seu imenso ego, como aquela ali.

Desde que chegara, lá pela meia noite, havia se recolhido ao seu quarto, tomado um bom banho e conversava por chat com alguém muito importante. Se sentiu feliz ao ver que além de sua casa estar aparentemente inteira, que Saga já havia se recolhido também e dormia um sono pesado.

“Mas então foi isso o que aconteceu?”

“Sim… Não acredito no azar que tenho!”

“Já pensou não ser azar? Talvez seja apenas o seu destino inevitável dando o ar da graça”

“E o que você acha que isso significa?”

“Eu acho que já te falei isso há alguns anos, meu amigo…”

“Sim, mas você sabe que não sou muito adepto dessas vidências.”

“Verdade… Pois bem. Sinto que você ainda deseja algo de mim, não é?”

“Preciso sim. Você teria como vir aqui amanhã? Eu acho que só preciso desabafar”

“Estarei aí pontualmente. Até amanhã.”

Shaka conseguiu ficar um pouco mais relaxado depois dessa conversa. Sabia que sempre que precisasse, esta pessoa, seu pedaço de céu, nunca lhe deixaria na mão.

Saga foi o primeiro a acordar no dia seguinte, e achando que o indiano provavelmente devia ter enchido a cara, pensou que talvez fosse de bom tom comprar um pacote de pão pelo menos, afinal, não sabia ao certo o que ciganos pobres comiam de manhã.

Em um momento de rara presteza, foi olhar os armários da cozinha, e fez uma breve lista do que poderia fazer — de prático — para o café. Ao menos o básico do básico ele ainda sabia fazer. E pouco menos de meia hora depois ele estava de volta do mercado que tinha ali perto com alguns chás, um pouco de café e alguns pães e geleias. Ele mesmo queria comer algo minimamente tragável, então se prestaria ao menos em fazer algo decente.

Ao chegar próximo à porta, viu uma mulher de longos cabelos cor de mel, óculos de sol, um imenso chapéu capeline coral, portando luvas cinzas e um belo vestido florido com saia evasé em um salto cone envernizado. Para alguém que vivia na alta sociedade, aquela sem dúvidas era uma mulher elegante e de bom gosto.

— Bom dia. Eu poderia ajudar a senhora? — foi se aproximando, até que a moça se virasse em sua direção.

— Ah, sim, bom dia, meu jovem. Estou procurando por Shaka Perekh. Já toquei a campainha, mas ele não me atende.

— Ah, ele não deve ter ouvido. Um momento — se pôs a abrir a porta e deixar que a bela dama entrasse — Sinta-se à vontade, já vou procurar por ele. Deseja algo?

— Um copo d'água, por favor — falou enquanto tirava o chapéu e as luvas.

Procurou por um jarro d’água, copo e o ofereceu à moça, colocando o jarro em cima da mesinha de vidro.

— Quem eu anuncio?

— Mayura.

Sem nem se importar muito se estava sendo xereta ou não, foi direto no quarto do indiano e como havia pensado, ele estava no banho. Bateu na porta e a abriu o suficiente para se fazer ouvir.

— Ficou maluco? — gritou indignado o loiro lá de dentro.

— Você tem visita. — só comunicou, quando já estava saindo, lembrou-se da informação extra — ah, é a Mayura.

Voltou direto para a cozinha, detendo-se antes na sala e colocando seu melhor sorriso.

— Em poucos minutos ele vai vir. Deseja algo mais?

— Não, muito obrigada — respondeu sorrindo.

— De nada. Com licença que vou providenciar o café.

Esta é uma faceta bem interessante do Saga, afinal, ele não estava solícito porque enfim entendeu o que deveria fazer, mas sim porque de manhã, e com fome, ele era a definição do mau humor em pessoa. Kanon costumava dizer que ele era outra pessoa.

Em pouco mais de vinte minutos Shaka aparece na sala, se desculpando pela demora.

— Eu sinto muito, Mayura, você sabe como fico quando durmo tarde.

— Sim, eu sei. Não precisa se preocupar — falava, achando graça porque o indiano já estava fazendo careta para a jarra de água que estava suando sobre o vidro e parte da madeira da sua mesa de centro. — O seu novo amigo é muito prestativo — cortou-lhe os pensamentos.

— E onde ele está? — estranhou o cheiro de café saindo de sua cozinha.

— Ele disse que providenciaria o café para nós.

O homem estranhou e muito aquela afirmação. Não sabia que ao menos um café ele sabia fazer.

— Está pronto! — ouviu-o falar com um tom de voz diferente, mas ainda tentando manter a polidez.

“Bem que estranhei… Ele é aquele tipo de pessoa que fica mau humorada sem o café pela manhã”

— Vamos então, Mayura?

— Claro!

— Saga, por favor, nos acompanhe no café. — Shaka se apressou em dizer ao perceber que o grego estava prestes a sair da cozinha. Se fosse para colocar o plano em prática, que fosse pra começar imediatamente.

— Belo nome, Saga. — e a jovem estendeu a mão em cumprimento

— O prazer é meu, senhorita Mayura.

— Só Mayura, por favor.

E os dois amigos começaram um papo leve, aos poucos inserindo o grego em suas conversas.

— Então você despertou a ira de um rom, Saga? Isso me parece perigoso! — achou graça da reação do grego, já sabendo pelo indiano o quão supersticioso ele era — gostaria de saber se vai conseguir se livrar da maldição? — perguntou sorrindo.

— E como eu faço isso? — perguntou de prontidão, desejando de verdade saber se haveria vida para ele.

— Pra ouvir o futuro você precisa ter muita coragem, grego. Parece simples, mas ele carrega uma certeza que às vezes é inevitável. — falou Shaka um pouco incomodado com o rumo daquela conversa.

— E por que eu teria medo de ouvir o futuro?

— Porque nem sempre ele é claro, e às vezes as respostas não são o que a gente espera — falou calmamente Mayura. — Sabe, muitas vezes estamos desesperados atrás de respostas, mas não da verdade real, apenas da verdade que desejamos, e fazemos de tudo para encaixar o futuro em nossos desejos. Aí, quando a pessoa vê o que aconteceu e não se encaixa naquilo que ela projetou, fica frustrada pela falha na visão.

— Mas eu preciso saber. Tem como descobrir?

— Sempre tem. — concluiu Mayura, mesmo que ao lado o indiano desse sinais claros de incômodo. — Terminou o seu café? — Saga respondeu com um aceno de cabeça — então me passe a xícara.



~CONTINUA