Vigésimo andar de um prédio inteiro que pertencia a uma única pessoa. Era a torre de negócios dos gêmeos Daskalakis, funcionava exclusivamente para todos os seus negócios. O último era onde Saga e Kanon dividiam a sala. E foi exatamente lá onde encontrou um dos irmãos. Desconfiava ser Kanon, já que ainda não era bom em identifica-los.

— Shura

— Oi. Por que me chamaram aqui?

— Chamamos não, Saga chamou. – apontou para o banheiro, no maior tédio – Está lá dentro desde que chegou. Só sei que veio igual um foguete e se trancou lá dentro.

Shura fez uma careta de quem não estava entendendo nada. Tudo o que pode fazer foi se sentar na cadeira indicada por Kanon enquanto batia na porta do banheiro chamando o irmão.

Quando enfim Kanon se sentara à mesa, eis que surge um Saga pálido e de olhos arregalados. Aquilo era estranho, muito estranho. Saga era o homem do sorriso, quem ficava à frente de todas as suas negociações por justamente ter uma postura inabalável. Kanon era prático, mais sisudo, e por isso ficava por trás, administrando e arquitetando tudo. O gêmeo sabia que só uma coisa deixava o irmão daquele jeito, mas não sabia o que poderia ter acontecido pra despertar aquilo.

— Shura, obrigado por vir – sentou-se junto dos dois, não sem antes fechar a porta e garantir que ninguém os olhava.

— Você pode dizer o que está acontecendo? – perguntou o espanhol, já ficando assustado com o que via.

— Você é cigano, não é? – olhou diretamente nos olhos verdes do homem a sua frente, que se assustou com a pergunta. Já Kanon bateu a mão na testa, já prevendo a presepada na qual o irmão ia enfiar os dois.

— Sim...

— O que significa se um cigano dá três tapas no seu ombro? – aquela pergunta tão específica continuou a estranhar o espanhol.

— ... Saga... O que aconteceu? – perguntou o gêmeo, já se irritando com aquela lenga-lenga. Explicou tudo o que aconteceu, fazendo com que os dois homens ao seu lado ficassem chocados.

— Eu não acredito que você fez isso! – o grego tentava manter a própria calma, mas estava difícil.

— Então, Shura?

— Olha... Ele te amaldiçoou... – respondeu na lata, fazendo Kanon contorcer o rosto em incredulidade e Saga começou a andar pela sala em desespero.

— Mas o que foi que eu fiz pra merecer isso? – o grego amaldiçoado andava em círculos, transbordando desespero.

— Como assim o que você fez? – não aguentando mais, o irmão explodiu – VOCÊ FOI UM FILHO DA PUTA DE UM RACISTA, SAGA! E AINDA NÃO ENTENDEU O QUE VOCÊ FEZ?????

— Eu não fui racista! – se defendeu

— NÃO? VOCÊ CHAMOU O CARA DE MENDIGO SÓ PORQUE ELE ERA CIGANO E ESTAVA NO CHÃO, DEU DINHEIRO PRA ELE SEM ELE TER PEDIDO E TELEVISIONOU ISSO???????? VOCÊ SABE O TRABALHO QUE VAI ME DAR?

— Por Atena...! – enfim a ficha de Saga caiu. – Shura... Me desculpe... Eu não tive intenção...

— Bom... Não é a mim que você precisa pedir desculpas.

— Como que eu quebro essa maldição? – se agarrou ao espanhol, como quem se agarra à última chance de sobrevivência.

— Você nem pensa antes de agir, né? – Kanon já estava de pé, do outro lado da mesa tomando uma aspirina – Você tem uma imagem pública a zelar, e aí o que é que você me faz quando age por conta? CAGA A PORRA TODA! – Tremendo, o gêmeo pega o telefone e começa a pedir as gravações daquela coletiva, gastando de toda sua influência pra evitar que aquela tragédia fosse ao ar. – A sua sorte é que não foi ao vivo, mas claro que você não está nem aí pra isso né?

Apesar de não ser tão divulgado, não era segredo pra ninguém em toda a Grécia que Saga Daskalakis era um homem supersticioso. Já havia deixado isso claro em inúmeras entrevistas e reportagens. Ostentava sua coleção anti mau-olhado e contra má sorte. Era só olhar a sua mesa que dava pra ver as plantas ao redor e os enfeites com olho grego. Vendo aquele pânico todo, Shura estava tendo a dimensão do significado da palavra “superstição” na vida do cliente e amigo.

— Eu achei que estava ajudando ele, como eu ia imaginar que aquele homem cego e todo sujo não era uma pessoa vulnerável? – só ouviu mais um gemido do irmão. A qualquer momento Saga seria filho único, pois certamente que seu gêmeo estava se aproximando de uma síncope, e que não fosse prenúncio de um infarto.

— Saga, só me faz um favor, tá? Quando você for pensar em fazer algo, não pense e não faça. – Saga estava tão apavorado que mal conseguia ouvir os gemidos recriminatórios do irmão sobre ter sido racista com um cego.

— Bom... – começou Shura, já atordoado com aquilo tudo. Se sentiria mal se não fosse o terror nos olhos do amigo grego, o que já aliviava um pouco da injustiça cometida contra um irmão seu – a primeira coisa que você precisa fazer é encontrar esse cigano e pedir desculpas.

— ISSO! – virou-se pro irmão e ordenu – Kanon! Ache esse cara! Quero ele aqui o mais rápido possível! – Kanon só não xingou Saga primeiro porque eram irmãos e seria o mesmo que xingar a família, segundo porque na pior das hipóteses seria uma boa ideia uma retratação pública.

— Bom, se era só isso, então eu vou embora – começou a falar o espanhol já cansado daquele fuzuê todo.

— Não! Eu preciso de você aqui quando ele chegar.

— QUÊ?

~CONTINUA