Maldição Divina

2 SEGUNDA PARTE: Vidas Mornas Acesas


Notas iniciais
~Segunda historia Hestia (Deusa grega da família, do lar e da lareira) É engraçado, mas a deusa da família não pode ser mãe, não vai poder casar e não vai ver seus filhos crescerem... Que ironia do destino.

Eu estava dormindo nas nuvens, esperando o entardecer, descansando um pouco. Eu protejo as famílias, uno as pessoas, mantenho a lareira acesa no inverno, eu sou Hestia.

Mal eu sabia, que naquela tarde de verão, minha vida iria mudar.

Eu senti um aperto no coração, senti isso poucas vezes em todos os meus milênios de vida, e quando acontecia era como um sinal... Era o sinal de que o destino iria quebrar uma família que deveria permanecer unida pelo amor.

Eu voei pelo céu e meu coração acelerou mais. Cheguei ao hospital e entrei na área da maternidade, passando pelas paredes como se fossem feitas de ar. Lá estava uma jovem adulta, com cabelos tão ruivos, destacando na sala de cirurgia, que parecia uma rosa rubra.

Eu me aproximei e ouvi suas palavras para o médico:
—Se for pra salvar alguém, salve o bebê! Não importa o que aconteça. Me prometa...


—Mas a sua família dis...


—Não importa! -Ela gritou em desespero. — Salve a minha pequena Grace... Salve o fruto do meu amor, das minhas escolhas... Salve a parte de mim que merece viver.

Dito isso o médico assentiu e a anestesiou. Seus olhos cálidos se tranquilizaram e as últimas lágrimas daquela mãe caíram sobre seu rosto.

Depois de uma longa cirurgia, cheia de complicações, Morpheus apareceu. Ele recolheu a alma da jovem, brilhante como seus cabelos rubros, e se virou para mim.


—Se você amar um mortal, cuide dele. Amar é o maior presente que podemos ter...

Dito isso ele desapareceu.

A jovem estava pálida e suada. Mas o pequeno bebê estava vivo, emanando um choro triste, parecia até que ela sabia que não tinha mãe. Naquele instante, o meu coração não sentiu dor, nem desespero, nem tristeza... Olhar para aquela pequena vida fez meu coração sentir calor, como o calor de uma lareira.


~•~•~•~

Eu vinha observando Grace. A família de sua mãe nunca superou a perda da jovem, e em um momento de plena tristeza e desconsolo, por não entender a decisão daquela mãe que deu a vida pela filha, colocaram a pequena Grace em um orfanato.

Sim Grace estava sozinha no mundo, e naquela altura com 13 anos, não seria adotada pois já era bem grandinha.

Eu a observava e cuidava dela como se fosse seu anjo da guarda. Ela não tinha os cabelos rubros da mãe, seu cabelo era de um castanho claro ondulado, e seus olhos eram castanho escuro. Em compensação ela tinha lábios rosados, como os da jovem que a deu a luz, e um sorriso pequeno e tímido.

Ela estudava na escola pública do bairro e não tinha muitos amigos. Hoje ela faria 14 anos, e eu tinha preparado uma surpresa. Claro, ela iria pensar que era o destino...

Eu não me importava de não ser vista, só queria vê-la feliz. Acho que o amor faz isso com a gente, faz esquecermos de ser egoístas e faz a gente sorrir tanto que nem parece existir tristeza.

Ela estava voltando da escola, sozinha como sempre. Eu tinha colocado um cordão com um pingente de passarinho no chão, bem onde sabia que ela iria passar.

Ela andava olhando para o céu e cantarolando músicas antigas, mas bem quando ela estivesse a dois passos do cordão, eu iria colocar o sol para refletir do pingente para o rosto dela.

Ela sentiu o brilho em sua visão e viu o pingente e o colar. Ela se espantou e saltou de felicidade ao pegar o colar e colocar em seu pescoço admirando o passarinho.


—Feliz aniversário, Grace...

Eu disse, mesmo sabendo que ela não podia me ouvir.

Ela parou um instante e se virou, procurando por quem disse aquelas palavras.

Ela me escutou?

~•~•~•~

O amor faz isso com as pessoas, ele faz vermos coisas incríveis, faz ouvirmos palavras acolhedoras, faz sentirmos o calor humano.

Naquele mesmo dia eu decidi aparecer para Grace.

Estava a noite, ela ainda cantarolava como um passarinho. Estava feliz com seu presente do destino. Ela desligou a luz do quarto das meninas e disse boa noite a cada uma das criancinhas. Em especial uma garotinha muda de 7 anos que ela cuidava como se fosse sua irmã...

Depois que todas caíram no sono, Grace fechou os olhos e disse:


—Meu pai do céu... Eu não sei onde minha mãe está, mas sei que você colocou outra pessoa na minha vida... E eu agradeço por ter alguém.

Ahh Grace. Nenhuma pessoa deveria viver sem uma família... E logo você que é tão sensível às pessoas e aos detalhes da vida teve a história mudada pelo destino.

Eu nunca entendi muito bem o mundo, as pessoas e os outros seres divinos, mas eu entendia Grace e eu a amava como se ela fosse minha filha, por isso fiz o que fiz.


—Grace, você pode me ouvir?

Ela abriu os olhos, e se levantou abrupta.


—Quem está aí? Mãe...?

Eu decidi aparecer pra ela.


—Infelizmente não... Eu sou sua protetora. — Disse me materializando na frente de sua cama.

Ela correu até mim e me abraçou.


—Obrigada! Obrigada, obrig... -Agora ela estava chorando, eu senti novamente seu choro cálido de quando ela nasceu... Mas dessa vez não era triste, era emocionado. Eu sabia que ela estava feliz por alguém cuidar dela de algum jeito.

Eu a abracei e acariciei seu cabelos. Ela afagou seu rosto no tecido do meu vestido branco.


—Eu estou aqui... Não chore... -Disse com uma voz doce para acalmá-la.


—Qual... Qual seu nome? -Ela me perguntou se afastando para olhar meus olhos.


—Eu sou Hestia. -Disse sorrindo.


—Hestia... É um nome diferente. O que significa?


—Significa família, lar, lareira, aconchego...


—Tudo que eu queria ter. Deus é tão bom, não? Ele me mandou alguém que é tudo que eu sempre sonhei...

Eu fiquei sem reação. Continuei a abraçá-la e disse:


—Eu não posso aparecer sempre pra humanos, e isso infelizmente te inclui... Mas saiba que eu sempre vou estar com você.

Ela concordou com a cabeça enquanto parecia pensar em milhões de coisas, então eu fui pô-la pra dormir.


—Fica um pouco mais aqui comigo...


—Claro Grace. -Falei baixinho.

~•~•~•~

Grace

Na noite em que vi Hestia pela primeira vez, achei que ela era o fantasma da minha mãe. Eu nunca conheci meus país mas não guardava nenhum rancor deles, eu não sabia o que tinha acontecido para eu ser deixada em um orfanato. Eu suspeitava que eles estivessem mortos, já que fui deixada aqui quando tinha menos de 3 meses.

Mas quando Hestia me falou que era minha protetora, eu fiquei tão feliz que chorei. Depois disso passei a prestar mais atenção no acaso, pois sabia que não era coincidência eu ter sorte em achar coisas na rua.

Desde os 14 anos eu via minha protetora uma vez por ano, no meio do verão, no mês do meu aniversário. Esses sempre eram os melhores dias do ano. Era quando eu tinha certeza que não estava sozinha.


~•~•~•~

Grace ia fazer 18 anos este ano, então não poderia mais viver no orfanato.

Ela iria fazer o vestibular, se ela passasse poderia morar no campus da faculdade. Ela estava tão nervosa, pois um novo lar dependia de uma prova de vestibular.

Agora ela estava brincando com Anne, a menina muda, agora ela deveria ter uns 11 anos. Eu já tinha aparecido para ela também, Grace tinha me pedido para dizer que ela também não estava sozinha. Então eu acabei cuidando dela também. Eu tinha passado a me importar com cada uma das crianças sem família daquele lugar. Não só do orfanato, mas das ruas e de todos os lugares do mundo.

Grace uma vez havia me dito:


—Eu sei que sou muito sortuda por ter você me protegendo, mas no mundo existem tantas outras crianças, elas também precisam de alguém.

Depois disso eu não pude simplesmente ignorar todas as outras pequenas vidas mornas que vagavam por ai, uma lareira prescisa de alguém para continuar acesa.

~•~•~•~

Grace acabou passando no vestibular, anos depois se formou em direito e passou a lutar pelos direitos e melhorias em orfanatos públicos.

Depois se casou, e adivinhe só, eu estava lá em seu casamento, seu marido era um doce com ela e eu sabia que ambos verdadeiramente se amavam. Com ele Grace adotou uma bebê, cuja o nome era Hestia.

Eu continuei acompanhando Grace até o fim de sua vida, aos 65, quando ela teve um ataque cardiaco, e acreditem nunca havia sentido tamanha dor.

Neste dia Morpheus apareceu novamente para mim, e com compaixão me dirigiu algumas palavras:


—Ao menos você pode ama-la. Agora você nunca mais será a mesma...


—Agora, mais do que nunca, parte de mim é tão mortal quanto eles, e essa parte acabou de morrer.


—Acredite em mim, agora, se sentindo um pouco mortal, você é como eles diriam "uma pessoa melhor". — Ele termina e se vai.

Encaro o meigo rosto envelhecido de Grace e dou um beijo na testa da minha querida filha, ali mesmo no meio da sala onde todos estão euforicos ligando para emergência.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.