Notas iniciais
Eu chorei com ela. Margarye representa parte de mim e eu sofro por ela. Espero que gostem.
Cora.

Era manhã de Halloween, todos estavam prontos para a grande festa que seria celebrada na velha cidade. Preparavam-se como idiotas, procurando fantasias, decorando as casas.

Crianças corriam fantasiadas pelas ruas. Havia risos espalhando-se junto ao som dos passarinhos, todos ansiosos, todos animados.

Menos uma pessoa.

Ela odiava esta data, odiava esta alegria, odiava como nunca odiou mais nada em sua vida.

Estava ansiosa, sim. Mas não pelos mesmos motivos, nunca pelos mesmos motivos. Havia chegado à velha e minúscula cidade há três meses. Instalara-se em um pequeno hotel próximo a rodovia e comprara um carro velho. Havia sido bem recebida, as pessoas eram educadas e hospitaleiras. Ofereciam-lhe bolos, biscoitos, café, almoços e abriam suas casas e vidas para conhecer um pouco da nova moradora do quarto 203 do velho hotel Mun’s.

A amabilidade do povo local a deixava frustrada, receosa e com mais raiva.

A festa era tradição da cidade, era comemorada havia quase 160 anos. Alguns diziam que a cidade havia abrigado bruxas fugitivas, que encontraram socorro e conforto na cidade, e ali permaneceram, tiveram filhos e morreram. A festa de halloween era uma homenagem às bruxas ancestrais que agora protegiam Santa Anna.

Talvez fosse por isso que ela tinha chegado ali.

Não conhecia Santa Anna. Na verdade, nem sequer sabia que existia. Ela tinha pegado um ônibus e enquanto passava pela cidade, sentiu que precisava parar e desceu. Assim, sem nem sequer pensar por uma segunda vez, simplesmente soube que seria ali seu novo refúgio e desceu do ônibus. Encontrou alívio, paz e uma liberdade que não sentia há séculos em sua vida. Permitiu-se ser normal ali e esquecer.

Mas os meses passaram e agora entrara em pânico outra vez.

Era Halloween.

Olhou no espelho pela quinta ou sexta vez, sentia-se insegura como nunca. Olhou para o bonito vestido branco do século quinze que havia escolhido como fantasia. Finalmente ele terá uso outra vez, pensou. Calçou sapatilhas e colocou o velho colar de aquamarines que tanto amava. Apertou a pequena pedra em formato de gota e obrigou-se a respirar fundo e se acalmar. Esse lugar tem poder, disse a si mesma, o poder das ancestrais irá proteger você. Ele nunca a encontrará aqui.

Ela prendeu os cabelos em um bonito coque alto, mas fios teimosos caiam nos ombros nus. Passou pouca maquiagem, focando somente nos olhos. Olhos inesquecíveis, profundos, estranhos, assustadores. Olhos que somente os filhos da lua possuíam, violetas.

- Vamos Margarye – alguém gritou para ela. Deveria ser Danna, ela disse que iria buscá-la antes da festa.

- Já vou.

Apertou a pedra azul mais uma vez, fechando os olhos enquanto fazia uma prece aos deuses antigos. Que seja diferente, somente desta vez. Então respirou fundo e foi até Danna, que a esperava na porta, pronta.

- Estamos atrasadas – disse-lhe ela. Usava uma bonita fantasia de enfermeira.

- Eu sei. Vamos logo então. – Danna assentiu e ambas saíram do quarto.

A festa acontecia no meio da praça central da velha cidade, cerca de 20 minutos do hotel. Margarye admirou-se com as fantasias e decorações. Havia luzes penduradas no alto, todos os postes estavam decorados com teias de aranha, morcegos e chapéus de bruxas. Pequenos fantasminhas e abóboras pendiam em cordas que eram amarradas nos postes. Havia enormes mesas cheias de doces de todos os tipos, formas e cores. Grandes abóboras iluminadas foram espalhadas pela praça e uma música que Margarye não conhecia soava ao fundo. Bebidas estranhas eram servidas, algumas eram verdes transparentes e fumegavam. Outras eram tão vermelhas quanto sangue.

Um homem, vestido de vampiro, sorriu para Danna, que retribuiu com um sorriso ainda maior.

- Sabia que essa roupa ia valer cada centavo. Maggy, segura isso aqui? – disse-lhe entregando seu copo com uma bebida verde – eu já volto – e seguiu o vampiro para dentro da multidão.

Margarye observou-a ser envolvida pela multidão, até que sumisse de vez. Danna havia sido muito amigável com ela, e tinha um coração bom, Maggy sabia disso. Assim como também sabia que Danna tinha a alma de uma filha da luz.

Era raro ver uma delas. Mesmo em seus muitos anos de vida, Maggy havia conhecido apenas 10. Elas eram jovem bonita, com a alma de uma cor dourada reluzente, como uma luz em meio à escuridão. Tinha o dom do amor, seu toque acalmava e elas podiam sentir coisas que outros humanos não podiam.

Ela era uma escolhida, assim como Margarye. Mas Danna havia sido abençoada pela luz, e Maggy pelas trevas.

Uma filha da lua. Era isso que ela era, e as filhas da lua não conheciam a luz. Maggy era amaldiçoada.

Ela sentou-se em uma mesa, sozinha. A festa era cheia de energia, enchendo o coração dela com tanta paz e vida como há séculos que não sentia.

- Olá Maggy – Era Marcos.

- Olá – ele sorriu para ela. Tinha um rosto bonito, tão bonito que havia prendido a atenção dela no instante que o vira. Tinha uma pele bronzeada e bonitos olhos castanhos.

- Fantasiado de pirata? Sempre achei que combinasse com algo mais assustador.

- Não me acha assustador? – ele puxou-a pelo braço, obrigando Maggy a se levantar – Eu posso roubar seu coração, princesa. – as bochechas de Margarye ruborizaram na hora. Ele a puxava contra o corpo, a proximidade deixava clara a intenção dele.

- M-Marcos – A voz falhou ao sentir o perfume que vinha daquela pele dourada. Tinha cheiro de loção pós-barba e alguma coisa que Maggy não reconheceu. Algo tão forte e sensual que fez o coração dela bater mais rápido. Não recuou como deveria ter feito, mas segurou-se com mais força nele. Deixou que Marcos a beijasse, e respondeu com urgência. Havia muito tempo que não era beijada; muito tempo que não era sentida. Séculos passaram sem que sentisse o calor do corpo mortal, e ela sentiu-se subitamente mais fria com esse pensamento. A alma dele tinha uma cor azul intensa, brilhante, e agora pequenos pontos de luz o tocavam com delicadeza. Ela leu sua alma, via desejo, serenidade e conforto. Ela viu proteção, sensualidade e uma necessidade dela. Ele estava apaixonado, apaixonado por ela.

Quando ele se afastou, Maggy sentiu que podia morrer assim. Ela se esqueceu de quem era, esqueceu-se do peso que carregava. Pela primeira vez em 400 anos ela se sentiu livre.

- Nossa – disse Marcos – Isso foi melhor do que imaginei.

Margarye sorriu. Sim, tinha sido melhor do que ela sequer se permitiu imaginar nesses últimos séculos.

- Ei princesa, o que você acha de sair daqui? Ir a um lugar mais calmo.

- Que tal meu apartamento? – Sim, disse ela a si mesma. Deixe-se ser livre, deixe-se ser amada, nem que seja uma noite.

- Oh, pode ser – ele se interrompeu – Tudo bem para você? – Ela confirmou com um sorriso.

- Tudo perfeito. Eu, ahn, só preciso avisar minha amiga de que não vou voltar com ela. Espere-me aqui, sim?

Ele concordou e deu-lhe mais um beijo. Maggy sentiu conforto naqueles braços.

Afastou-se dele, olhou para trás uma única vez, e viu-o sorrindo para ela. Leu em sua alma que estava surpreso, mas feliz. Ela também estava.

Procurou por Danna por alguns minutos, nada.

Uma corrente de ar passou por ela. Sentiu uma sensação estranha e percebeu que algo estava errado.

Foi em direção a casa em que estava sendo servidas as comidas e bebidas, seguia seu instinto como um animal. Subiu as escadas e correu em direção ao segundo andar. Viu uma porta, era branca como mármore, olhou para a maçaneta sentindo seu coração palpitando em seus ouvidos. Era ele.

Não precisava de mais nada para saber que estava certa. Reconhecia aquela energia, foi dela que durante todos os 380 anos desde sua ascensão havia fugido. Seu perseguidor, sua maldição.

O poder mágico dentro dela oscilou. Era um aviso, alguma coisa estava errado, muito errado.

Abriu a porta com cuidado, sabia que não iria encontrar algo que lhe agradasse, sabia que seria o vislumbre do inferno que a esperaria do outro lado daquela porta.

Empurrou e por alguns segundos, ficou cega.

O quarto era tão branco que chegava a parecer uma parte fora da realidade. As paredes, cortinas, chão e teto, tudo era branco.

Margarye entrou e seu coração parou.

Havia sangue pelo chão. Mas não era só isso, havia sangue nas paredes, no teto, nas cortinas brancas. Manchas com formato de mão, escorrendo pela parede, atrás da porta. Sangue, sangue e sangue.

Maggy sentiu uma gota cair em seu rosto e escorrer pela até sua boca. Tentou limpar com o dedo e viu que ele estava vermelho.

Olhou para cima e gritou.

Tecnicamente nenhum som saiu de sua boca, mas ela podia ouvir sua alma gritar, assim como seus olhos, se corpo e sua mente. Gritando e gritando.

No teto estava preso um corpo distorcido que antes havia sido humano, mas agora não passava de retalhos. O rosto tinha cortes profundos, sem cabelos, sangue pingava pelo nariz, e um pedaço do lábio inferior havia sido cruelmente arrancado. Vestia roupas brancas, porém manchas escuras de sangue molhavam o tecido fino. Mas o pior de tudo eram os olhos, ou o que se via onde deveriam ter estado os olhos. Rosas brancas ocupavam o lugar profundo dos olhos.

Margarye ainda se lembrava da primeira vez que tinha visto aquelas rosas. Foi em seu vigésimo aniversário, o dia em que havia conhecido sua maldição.

Ela havia nascido em um pequeno e pobre vilarejo. Sua mãe morreu quando Margarye tinha oito anos, e seu pai a criou. Quando tinha 15 anos ela foi estuprada por ele, e clamou a deusa muda que viesse ao seu socorro. Quando fez 20 anos a deusa concedeu-lhe um desejo. Ela seria liberta se entregasse sua alma à lua, e foi isso que fez.

No dia do seu aniversário, seu pai morreu. O sangue dele foi dado a Margarye pela deusa muda, que cumpriu sua promessa e agora esperava que Maggy fizesse a dela. Bebeu daquele líquido especo até que a sua humanidade foi arrancada de seu corpo e a luz do luar banhou-a com nova vida e poder.

Naquela mesma noite um homem foi visitá-la, disse-lhe que a escolha dela seria sua maldição. E que durante toda a sua existência tudo que ela tocasse, morreria.

Na manhã seguinte todos na aldeia foram brutalmente assassinados e somente ela havia sobrevivido, e em sua cama um par de rosas haviam sido deixadas em sua cama. Rosas brancas. Ela fugiu e abrigou-se em outra vila, que foi atacada no ano seguinte, exatamente um dia depois da sua maldição, o dia de Halloween.

Durante 380 anos ela viu tudo que amava morrer, e durante 380 anos ela fugiu.

Alguns a chamavam de bruxa, outros de feiticeira. Ela se considerava uma escolhida, a escolhida da morte, amaldiçoada antes de nascer e banhada pela desgraça.

Pensou que havia encontrado seu lugar secreto. Pensou que tudo acabaria. Mas não, ele estava de volta e todos padeceriam por culpa dela. Todos, menos ela.

Olhou o corpo com cuidado, reconhecendo as feições do vampiro que Danna tinha ido atrás alguns minutos antes. Subitamente lembrou-se dela e congelou. Precisava protegê-la, precisava proteger Danna e Marcos.

Desceu as escadas correndo, e foi assombrada pelo que viu.

Corpos espalhavam-se pelo chão. Sangue manchava as paredes, os móveis. Um grito silencioso enchia o ar, junto ao cheiro de morte e ferro. Corpos e mais corpos, dilacerados, cegos e com a expressão de pavor no rosto pálido. As malditas rosas espalhavam-se pelo chão.

Margarye sentiu-se tonta.

Correu para fora da casa. Havia um silêncio triste, tenebroso e horrendo que fazia todos os pelos do corpo dela se eriçarem. Nos alto-falantes da praça tocava a sonata moonlight.

Correu pela rua, sentindo seu coração pesado com o que via.

Morte. Sangue.

Corpos cobriam o chão como um enorme tapete. Corvos voavam no céu, rodeando. O cheiro forte já não a incomodava como há 380 anos, mas olhar ainda doía. Viu o prefeito da cidade e sua esposa, um de frente para o outro. A dona do hotel e seus três filhos, um deles tinha apenas sete anos e usava uma linda fantasia de Batman. Viu o homem gentil que vendeu o carro velho para ela, e então a pequena enfermeira encheu a mente dela. Seus olhos encheram de lágrimas ao contemplar o rosto bonito de Danna. Os cabelos castanhos agora estavam molhados do seu próprio sangue. Um grande ferimento em seu peito ainda sangrava, mas ela estava morta e em seus olhos havia rosas brancas.

Deu mais três passos e o que viu fez o corpo dela tremer descontrolado.

- NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO! – disse enquanto ajoelhava-se diante do corpo sem vida de Marcos. Abraçou-o com força e cuidado. Chorava como uma criança, ela queria bater os pés e espernear até que acordasse daquele pesadelo que já tinha durado tanto tempo. Enterrou seu rosto no peito dele, ainda estava quente, porém não se ouvia o coração bater como tinha batido antes para ela.

- Marcus- sussurrou –... Meu doce e gentil Marcus...

Lágrimas caiam de seu rosto, nublando-lhe a visão. Ela aproximou seu rosto dele e o beijou de leve nos lábios, manchando os seus com sangue.

- Por quê? – Gritou para a deusa muda – porque me desde a vida e a tiraste de mim outra vez? EU PEDI-LHE AJUDA, DEUSA, PEDI SOCORRO. E ME DESDE A MORTE, ME DESTE A DOR.

- Ela não contou a você, não é? – a voz que vinha até ela era assombrosamente fria e cortante. Maggy não se assustou, sabia que ele estava ali, sabia que ele apareceria. – Não, ela nunca diz. Esse é preço pela ajuda dela.

- O que quer de mim, demônio? – gritou Margarye. Ela o viu. Agachado em cima de um muro, completamente vestido de preto. Os olhos eram profundos e negros, assim como os cabelos e a pele.

- Não, eu não sou o demônio. Você é.

- Não, eu não sou!

- É sim, você foi banhada pela morte, pela dor. Você escolheu entregar sua alma, a morte deles é culpa sua. Somente culpa sua.

- O que queres de mim? – indagou outra vez.

- Dor. É o que a deusa me pediu para dar-lhe, querida.

- Por quê? Eu pedi ajuda, porque ela me deseja dor?

- Para que viva e saiba o preço que essa vida custa. Sua imortalidade, sua esperança vem da morte de outros. Além disso, ela gosta de brincar com aqueles que se submetem a ela, por isso mata aqueles que estão ligados a você. Eu sou apenas seu pião.

Margarye estremeceu. Sou somente um brinquedo, pensou. Tudo que toco morre. Tudo que amo se desfaz e a culpa é minha. Eu quis viver e para isso outros têm de morrer, esse é o preço para me manter viva. Eu deveria estar morta. Eu devo morrer.

- Por favor, me mate. – implorou Maggy.

- Não posso. Você precisa viver, para diverti-la, para sofrer. Você é a peça preferida dela.

Então ele foi embora.

Margarye soltou Marcus. Morrer, disse ela. Eu preciso morrer. Ela não serviria de brinquedo, não choraria, não lamentaria mais. A dor a tinha perseguido durante muito tempo e ela perguntou como nunca tinha pensado nisso antes. Tinha medo de morrer? Não, não agora, não mais.

Ela correu até a ponte da cidade, com os pés descalços tocando o chão pela última vez.

Isso é tão injusto, pensou. Eu queria encontrar a paz. Pedi por ajuda para fugir de meu pai, implorei a deusa muda por ajuda enquanto ela me via ser estuprada pelo meu próprio pai. O que eu fiz? Por que eu não tenho direito de ser livre? De ser amada?

Tudo o que você tocar vai morrer.

A menos que eu morra antes.

Ela se colocou na ponta dos pés, a beira do abismo em direção as águas fortes e escuras do rio que cruzava a cidade.

Terei paz, pensou.

E pulou.

Notas finais
Gostaram? comentem o que acharam...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!