Maldição
1 Capítulo 1
Quando falam de imprinting vocês provavelmente entendem como algo bom, e maravilhoso. Uma verdadeira demonstração de amor. O problema nesse pensamento é que está totalmente errado. Ele é uma maldição.
Pense bem, como amar uma pessoa durante sua vida inteira é algo bom? Como ter que ficar ao lado dela desde seu nascimento, sendo seu amigo, pode ser algo bom? Como sufoca-la durante toda sua vida não dando espaço para conhecer novas pessoas pode ser algo bom? Bem, eu posso responder essa pergunta com propriedade, pois presenciei o sofrimento de diversos irmãos meus por isso. A resposta é simples, não há nada de bom retirada dessa maldição colocada sobre nós.
Sinceramente agradeço todo dia por não ter acontecido comigo, e espero que nunca aconteça. Por este exato motivo não frequento uma escola. Tenho aulas particulares em casa, e meus professores são todos homens. Como nunca ouvi de um imprinting homossexual acho que não acontecerá nada tendo aulas com eles.
Imagino que após ler o relato do mais famoso shape-shifter do nosso mundo sobre isso, não irão acreditar fácil em minhas palavras. Azar de vocês. A verdade é para os poucos, nada mais sábio do que estas palavras.
Meu nome é Carl, tenho dezoito anos. Posso dizer que do meu clã sou o mais claro de pele. Vivem fazendo piadas sobre isso, me chamando de “meio-frio”, mas eu não ligo. Onde vivo não tiramos a camiseta mais de duas vezes por dia, e não temos uma amizade com os frios. Onde vivo as coisas são como deveriam ser, sem a fantasia.
Um detalhe sobre mim que é extremamente importante. Eu sou o único que não sofreu um imprinting ainda.
Era uma noite fria e silenciosa, como todas as outras próximo a minha casa, ou melhor dizendo, cabana. Estava pensando em sair e correr um pouco pelas árvores do bosque para respirar um pouco. Talvez até chegar próximo as ruas movimentadas da cidade, e espiar as pessoas de longe, evitando ao máximo encarar qualquer garota. Uma missão um tanto quanto difícil, pois toda vez que tentava não olhar, eu acabava olhando. Por sorte não sofri nenhum imprinting, e tinha quase certeza que não sofreria. Morávamos em uma cidade pequena, era muito provável que já tivesse visto todas as opções de garotas de lá. Se fosse isso, poderia frequentar as ruas e conhecer pessoas sem medo, ou receios. Por estar uma ano atrasado, eu poderia até fazer o último ano do ensino médio na escola municipal da cidade.
Enquanto estava perdido em meus pensamentos ouvi um barulho. Não estava próximo, mas minha audição aguçada o identificou imediatamente. Não poderia ser um de meus irmãos, pois eu saberia.
Frio.
Era um deles, estava ultrapassando a barreira, e eu era o único que poderia fazer algo naquele momento.
Não me transformei. Fui correndo pelas árvores o mais rápido que pude em direção ao barulho. Quem quer que fosse fazia o mesmo, em minha direção. Iriamos alcançar um ao outro em poucos segundos.
– Amanda
– Carl “o sem imprinting” – ela disse; todos os frios, ou vampiros, sabiam desse detalhe sobre mim e o tratavam como se fosse alguma fraqueza, ou algo ruim, mas faziam isso por medo. Não ter sofrido um imprinting fez de mim um ser sem fraquezas, e isso causava medo neles. Amanda fora transformada com aproximadamente vinte anos, seus olhos eram vermelhos como o sangue, e seus cabelos loiros, e longos. O corpo perfeito como de todos os frios. Uma mulher atraente, eu mesmo tinha que admitir aquilo. Mas toda aquela beleza escondia um monstro sádico, que sentia enorme prazer me ver o sofrimento dos outros. Amanda era um dos vampiros mais perigosos de sua família, os “Blood”. Sobrenome melhor, impossível.
– O que está fazendo do nosso lado, Amanda? – perguntei.
– Não entendo Carl. Nossas caças tem a mania de fugir para esse lado sempre. Como se eles estivessem seguros de nós por causa de vocês. Tão ingênuos – ela disse; seu sorriso sádico não saia de seu rosto em nenhum momento.
– Ainda não respondeu minha pergunta.
– Você era mais legal antes, Carl – ela disse, estava caçoando de mim. – Vim aqui para pegar minha caça, que aliás, eu acabo de perder. Culpa sua. – Amanda apontava para mim, enquanto falava.
– Vocês vampiros fortes e rápidos deixando pequenos cervos escaparem... Péssimo marketing para imagem de vocês – ela poderia caçoar de mim, mas não deixaria barato, eu faria o mesmo.
Meu comentário a atingira. O sorriso desaparecera. Amanda estava séria, e sentia a raiva em seus olhos. Era bem provável que iria me atacar agora. Eu não me importava. Nós, do nosso clã, éramos muito mais fortes que os vampiros. Isso acontece quando nos dedicamos somente a supera-los. Um dia conseguimos.
– Vai querer lutar mais uma vez, Ams? – perguntei; não pude conter meu sorriso de deboche naquele momento.
– Você se sente o forte, não é Carl?! – ela não esperava uma resposta para aquela pergunta. – Mas aguarde, um dia sofrera um imprinting, e será um fraco como seus irmãos. Ou melhor... – ela parou, e pensou por um bom tempo sobre suas próximas palavras. – Quando sofrer um imprinting eu pegarei a garota, a torturarei na sua frente e no final ainda farei com que torne-se uma de nós para seu sofrimento ser eterno.
Tentei segurar minha risada após ouvir todas aquelas palavras, desesperadas para me atingir, mas não consegui. Comecei a gargalhar alto, a ponto de ter que colocar a mão em meu abdômen, pois estava doendo de tanto rir. Amanda não entendia qual era a graça, e ficou mais nervosa.
– Por que esta rindo, idiota?! – ela gritava.
– Desculpe – disse, enquanto meu riso ia embora. – Simplesmente achei engraçado sua ameaça. Mas relaxa, nunca se concretizara. Eu NUNCA sofrerei um imprinting.
– Veremos – ela deu as costas e correu na direção contrária a mim.
Fiz o mesmo, e iniciei uma caminhada em direção a cabana.
Durante a caminhada refleti sobre tudo que acontecera, e se conseguiria cumprir o que disse, de nunca sofrer um imprinting. Esperava que sim, era o que eu queria. Talvez eu fosse destinado aquilo, ser o único da minha espécie a não apaixonar-se loucamente e perdidamente por uma pessoa.
Fui retirado de meus pensamentos quando senti a aproximação de alguém. Era Amanda! Estava tentando me atacar de surpresa.
Consegui me virar a tempo e segurar seu chute com meu braço direito. Ela agora estava parada no ar, com a perna esticada presa em uma de minhas mãos.
– Chega, né? – disse.
– Tudo bem – ela disse, emburrada. – Mas um dia... um dia eu te vencerei em uma luta.
Nunca, eu pensei.
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