Malaxophobia
12 Réquiem
Àquele horário, ao fim da última aula, cerca de metade dos alunos de South Park High ainda estava presente. Seria o primeiro dia de muitos em seus clubes selecionados. Pela quantidade de clubes ser superior à de salas, os encontros foram marcados para dias e horários diferentes, o que oferecia espaço suficiente para todos.
A impressão que se tem de um clube com um tema do qual se interesse é de fazer o que gosta e ganhar pontos por isso, o que torna mais agradável uma atividade que é obrigatória. Nem todos têm a sorte da primeira impressão durar o ano inteiro.
Henrietta não poderia ir até sua casa, buscar seu teclado e retornar a tempo do compromisso. Não considerou necessário trazer nenhum material além dos que usa nas aulas comuns. No primeiro encontro, deve acontecer apenas uma conversa para os integrantes se conhecerem. A líder, Patty, deverá pôr em pauta como o clube deve funcionar e o que está propondo com ele.
Ao se despedir de seus amigos, cada um deles, outros góticos, foram aos seus clubes respectivos. Foi bom terem escolhido clubes diferentes: fugir do conformismo de andar em grupos o tempo inteiro, de vez em quando, faria bem.
Patty havia dito que o encontro aconteceria ao fim da última aula. Em seguida, entregou-lhe um post it com o número da sala onde seria. Assim que Henrietta chegou e empurrou a porta do local, percebeu que não se tratava exatamente de uma sala, mas de um pequeno teatro, com holofotes, assentos para o público e um palco com imensas cortinas vermelhas. É neste lugar onde acontecem reuniões de pais e professores, palestras e demais apresentações. Um auditório bem arrumado.
Vazio. O jeito seria andar pelo lugar todo para, quem sabe, encontrar o ponto exato do encontro. Com sorte, encontraria alguém. Henrietta começava a duvidar se estava no lugar correto e sua impaciência manifestava-se. Olhando direito, se deu conta de que, definitivamente, não havia ninguém.
Patty parecia legal, com boas opiniões e bom gosto, apesar de ser uma conformista. Ser inclusive pontual poderia ser pedir demais, mas o clube era dela. O mínimo que poderia ter feito era chegar no horário que ela mesma marcou. Os outros membros do clube poderiam ter chegado antes, esperado demais e desistido, o que explicaria o vazio completo. Pensar nessa possibilidade serviu para a ira de Henrietta chegar a 100%.
Ajeitou sua bolsa na lateral do corpo e soprou raivosamente alguns fios de cabelo caídos no rosto. Ia embora, pensando ter sido feita de tola.
Mas sons de passos, parecendo vir detrás das cortinas vermelhas, a fizeram mudar de ideia. O pessoal poderia estar lá. Caminhou até os degraus ao lado do palco e os subiu, se dirigindo ao centro, onde poderia abrir caminho entre as cortinas.
Porém ouviu um som cortante. Uma única nota, sendo tocada com lentidão. Seu raciocínio foi encerrado.
Uma melodia clássica, facilmente reconhecível. Podia imaginar as cordas do instrumento sendo movidas juntas, calmamente, pela crina de um arco. Uma linha tênue entre o agudo e o grave. Um som capaz de tocar a alma de apreciadores, vindo do instrumento a qual ela oferece sua total admiração: um violino. Violino esse que mostrava ser, numa só nota, um instrumento profissional. Ou não. Poderia ser um violino qualquer, sendo tocado por um músico profissional.
A fez se lembrar de sonhos infantis, no qual desejava ser uma violinista. A fez se lembrar de quando compartilhou esse sonho com quem mais confiava: o mesmo garoto que a magoou e arrancou dela sua disposição para se apaixonar. E ouviu dele que seu sonho era tolo. Pudera: à época, crianças desejavam ser princesas ou astronautas. Sonhos conformistas, dos quais ela não compartilhou.
Gostaria que aquela tivesse sido a frase mais dolorosa que ouviu dele.
Apreciar o som do violino quando criança foi simultaneamente um dos primeiros contatos com a cultura gótica e também uma terapia. Uma única nota de um violino, pertencente a quem estava detrás da cortina, a deixava profundamente melancólica; e, ao mesmo tempo, em êxtase. A lembrava de tristes experiências passadas, mas também de sua salvação ao conhecer Michael e consequentemente a cultura gótica, quando abandonou ilusões para enxergar a verdade: a existência é um tormento. Uma única nota com muito significado. Era de tirar o fôlego.
Quis passar pelas cortinas e chegar à reunião oferecendo aplausos. O faria, caso ela fosse do tipo de chamar atenção. Por não ser sua natureza, abriu um pouco de espaço entre as cortinas para espiar o que se passava ali atrás.
Abafou uma exclamação, recuando. Arregalava os olhos, surpresa. Eric Cartman era o dono daquela nota de tirar o fôlego.
No mesmo instante, Henrietta se lembrou de tê-lo visto comprando um violino, no mesmo dia em que seu irmão quis um celular do maior mercado da cidade.
O som dos coturnos com salto de Henrietta, chocando-se contra o piso durante todo o seu caminho, puderam ser ouvidos no lugar inteiro. O auditório tinha uma ótima acústica. Cartman sabia da presença e da aproximação dela o tempo todo. E, justamente, havia começado a tocar quando ela se aproximou o bastante. Seu plano parecia ir bem. Ela havia chegado, e ele esteve à sua espera.
Patty desfez o horário marcado, como haviam combinado, para ficarem a sós. Ele fingiu fazer testes em seu violino para, com os sons, trazê-la até ele. A partir de Patty, descobriu que Henrietta admirava violinos, assim como aqueles que o tocavam. Enfim havia chegado a hora de se aproximar, perguntar o que aconteceu para estar sendo ignorado, a impressionar com seus conhecimentos musicais, ter uma conversa ainda mais agradável que as do dia do Casa Bonita e, caso tudo corresse bem, resolveriam tudo para reiniciar uma relação amigável.
Ainda fazendo de conta que não notou sua presença, Eric pensava em algo para apresentar à sua plateia de uma só. Teve em mente o uso de uma versão em violino de uma famosa música que poderia combinar com a filosofia gótica.
Quando criança, na época da inauguração do Wall-Mart, Cartman comprou seu primeiro violino apenas por estarem com um preço irresistível. Lhe veio à cabeça: por que não aprender a tocar? Sempre buscou ampliar seus conhecimentos por saber que, um dia, poderiam ser úteis. Visto que o som do violino incomodava Kyle, teve ainda mais motivação para tocá-lo e fazia questão de praticar perto do judeu quando tinha chance. Não só Kyle como muitos outros ficavam irritados, quebrando o instrumento. Sem problemas: Cartman comprava outros. Alguns violinos reserva ele desafinava propositalmente para o som ficar mais irritante. Eram bem baratos, mesmo.
Não precisou de professores para saber o que sabe; usou apenas de vídeos tutoriais da internet e muita prática. Aprendeu rápido.
Conforme passavam os anos, sua vontade de perturbar os outros diminuía. Continuava tendo muita graça, porém não a mesma. Passou a reparar mais nas pessoas e em si mesmo. Quis evoluir à medida do possível. Trocou grande parte da vontade de perturbar os outros por objetivos como melhorar sua própria imagem para si próprio, para sua mãe, até para as garotas; ficou insatisfeito consigo mesmo e melhorou, até certo ponto. Porém, acima de tudo, não esquecendo de quem ele é. Não esquecendo de sua personalidade. Guardou os conhecimentos musicais, usando-os mais tarde para mostrá-los à Patty, uma apreciadora da música clássica e, à época, sua namorada.
A melhor parte de ter colocado sua personalidade acima de todas as coisas foi ter namoradas com a certeza de ser desejado do jeito que era. Com algumas limitações.
Henrietta estava claramente tensa. Largou as cortinas abruptamente e virou-se para tomar outro rumo, pensando na possibilidade de Cartman estar aqui para o mesmo clube. Deu dois passos na direção oposta para ir embora e, piorando fodidamente a situação, uma das cortinas ficou presa em sua bota. No terceiro passo dado, parte do tecido desprendeu-se, tombando sobre o palco. A gótica ficou estática.
Ouvindo a movimentação, Cartman se voltou para ela e a viu soltar, na maior classe, o tecido do salto. Respirou fundo, ajeitou o vestido preto e o cabelo. Parecia aceitar que, a essa altura, não tinha muito o que fazer: já tinha sido notada.
— Oi. — tentando não dar risada, ele sorriu, deixando o violino no suporte. — Você parece meio enrolada de novo. Posso te oferecer um guarda-chuva, uma carona pra casa, uma toalha... Mas não o terno. Não achei em lugar nenhum.
Henrietta permanecia de costas, imóvel. Contra a sua vontade, teve o rosto tomado por vermelho, não visível devido à maquiagem. Lembrou-se de ter dormido com o terno, carregado do cheiro de Cartman.
Depois das primeiras palavras ditas a ela na ocasião em que se encontravam, Cartman continuou dizendo outras coisas. Nenhuma foi ouvida. Perguntava coisas à ela, sem que Henrietta desse qualquer atenção. Estava concentrada demais se perguntando como deveria agir.
A gótica tentava encontrar um escape deste problema. Devia dar alguns foras nele para deixar claro que não o queria por perto?
Concluiu: só continuaria a ignorá-lo. Iria embora sem dizer absolutamente nada. Devia ter pensado menos e agido de uma vez, porque ele, depois de muito falar e se dar conta de que ela não prestava atenção, se aproximou.
— Henrietta — colocou a mão em seu ombro, impaciente. — mas que merda. Você não diz nada e tá mais pálida que o normal, o que te deu?
— Não te interessa, seu gordo estúpido — cuspiu as palavras, o olhando de esguelha.
Cartman paralisou. A boca entreaberta e as sobrancelhas franzidas. O coração de Henrietta acelerava; aquelas palavras saíram rapidamente, sem pensar.
A expressão no rosto de Eric... Era ódio.
Um sentimento doloroso de remorso crescia no peito da gótica. Ela não pretendia... Não queria... Dizer aquelas palavras. De todas as pessoas do mundo... Considerava Eric uma das poucas que não merecia.
Quantas vezes ela própria já foi chamada de gorda nesta vida?
Os olhos da garota marejaram. Por sentir culpa? Por ter se colocado no lugar dele? Não sabia. Estava se odiando por sentir algo que não compreendia.
Mas ela precisava proteger a si mesma.
— Falou a magrinha mais meiga de South Park. — Eric respondeu com a mesma rispidez.
Cartman segurou ambos os ombros da gótica e a virou em sua direção. A fez olhar em seus olhos.
Arquitetou todo um esquema para que estivessem a sós num mesmo lugar. Teve boa vontade para tentar entender sua ignorância. Com o passar do tempo, aprendeu que combater ódio com mais ódio nem sempre era a solução... Mas não vai se fazer de idiota por uma mulher. Ele evoluiu... Mas tudo tinha limites.
Havia perguntado como ela estava; comentou sobre a grande coincidência que era estarem num mesmo clube; fez uma brincadeira a respeito de Henrietta ter, possivelmente, roubado seu terno como lembrança; finalmente, chegou ao ponto aonde queria chegar desde o início: perguntou a razão de estar sendo ignorado. E ela respondeu com o silêncio. Se aproximou, chamou sua atenção, e o que recebeu foi uma ofensa. A que mais odiava.
Fez bem em não continuar seguindo Mitch. Chega de bancar o bonzinho.
— Qual é a sua, garota? — segurando-a, perguntou com agressividade.
— Não é da sua conta — Henrietta deixou os nervos virem à flor da pele. O empurrou, fazendo-o largá-la. — Eu ajo com as pessoas como eu bem entender.
— Eu sabia da sua complexidade, gótica. Só não sabia que era bipolar também.
— Eu não sou bipolar!
— Não? Então por que tá me tratando desse jeito?! Qual é a porra do seu problema?!
Um silêncio tenso se firmou. Trocavam olhares de fúria nos primeiros segundos e, então... A expressão de Cartman se amenizou. Percebeu, enfim, os olhos claros e marejados da notívaga.
Hesitou. Por um momento, cogitou que ela poderia ter mesmo bons motivos para fazer o que estava fazendo. Mitch poderia estar certo... De novo.
— Henrietta. — lutou contra uma vontade de se desculpar.
Se ele pretende resolver a situação acerca da ignorância dela, ele sairá vitorioso, invicto, cheio de si. Não iria se render assim.
— O que é? — como num passe de mágica, a garota desfez completamente a face tristonha. Foi um erro se mostrar vulnerável. O fez retomar o sentimento de ódio.
— Vê se facilita pro meu lado e diz logo qual é a sua. Já tô de saco cheio há muito tempo.
— Grosso. Como espera que eu responda falando desse jeito comigo?!
— Porra, você tá sendo uma filha da puta comigo o dia todo, como quer que eu fale direito com você?!
— Dá seu jeito!
— Porra Henrietta, quero mais é que se foda. Já me fez de otário o suficiente.
— Te fiz de otário?!
— Você trata mal quem te trata bem, como fez com o Clyde e o Kenny, mas me tratou do jeito certo no Casa Bonita. Não tinha ninguém pra te levar pra casa então se fez de coitadinha pra ganhar uma carona?
— Quê?! Eu nem sabia que você estaria disposto a me levar quando veio falar comigo!
— Se eu não tivesse oferecido você mesma teria pedido, não teria? Daí ia me ignorar pra deixar bem claro que não está nem aí pra mim e que só estava interessada em chegar onde queria.
— Seu rabo deve ter inveja da quantidade de merda que sai da sua boca.
— Enquanto você não me explicar o que tá acontecendo, é na minha teoria que vou acreditar.
Eric não verdadeiramente acreditava nessa teoria. Duvida muito que uma garota tão reservada pediria carona a um cara que acaba de conhecer, nada disso nem fazia sentido. Não passava de uma chantagem pensada no jogo rápido.
Henrietta inspirou raivosamente.
— Quer saber? "Encare como quiser", Cartman. Foda-se você, eu vou pra minha casa! — balançou os dedos ao falar, apontou para a porta e foi na direção dela. Tinha raiva de Cartman, raiva da Patty, raiva de violinos e raiva da humanidade — não que antes não tivesse. Firmeza em seu andar, as botas fazendo barulho no piso, saía de lá com o pensamento de sair também do clube da música clássica, de um jeito ou de outro.
...o plano não deu muito certo. O rumo das coisas e o fracasso não estavam inclusos em suas possibilidades.
— Vai me tratar pelo sobrenome?! — Cartman falou alto o bastante para ela ouvir. — Decidiu ser minha inimiga, agora?
— É. — parou no caminho para olhá-lo. — E mais, Cartman — botou bastante ênfase no sobrenome. — Eu te desprezo.
— Foda-se você e seu desprezo. Tenta não ficar entalada quando passar pela porta.
— Tá me chamando de gorda?
— Isso já não tá na cara?
— Mas é um grosso, mesmo.
— Fazer o quê, né? Sorte. Bem grosso. Não muito grande, mas é bem grosso, pode apostar.
— Vou fingir que não ouvi isso — tapou os ouvidos e saiu correndo.
— Quanta frescura, esperava mais de você. — mesmo com raiva, se controlou para não cair na risada. — Você não era pra ser a diferentona?
Sucedeu-se silêncio. Henrietta estava longe. Cartman não conteve o sorriso orgulhoso quando percebeu que foi o vencedor da discussão.
...sem pensar que, no fim das contas, os dois saíram perdendo.
O estômago dela voltou a doer. Passada a adrenalina da discussão, voltou a sentir agonia pela fome. Ótimo. Até a comida cinza do refeitório parecia agradável.
Quando chegar em casa, poderá sanar esse problema. Quanto a ser reconhecida por Eric como uma bipolar fresca e conformista, algo que está longe de ser, será um problema à parte. Um incômodo com o qual precisará conviver, para seu próprio bem.
Para Cartman, Henrietta é, sim, uma bipolar fresca. Dias atrás estavam bem e, agora, discutiram sem motivo, como imaginava. Uma pessoa normal, daquelas que não tem uma mão falante ou objetivos socialmente incorretos, desistiria. Eric Cartman só tinha uma determinação nova para sua lista.
Se Henrietta não fosse tão... Ela mesma, teriam resolvido tudo com mais facilidade. Mas, se assim não a fosse, deixaria de ser tão interessante. "Vou descobrir qual é a dela", ele pensava. "Custe o que custar".
Sua mão esquerda se agitava. Mitch criou um monstro.
* * *
"Repetitivo. Coisa de novela adolescente tosca com músicas imbecis e romances retardados, sem qualquer tipo de lógica ou prudência.
A garota doce que se torna sofredora. A sofredora que se torna fria para se proteger. Nesse quesito, sou tão patética quanto o resto da humanidade. Clichês e mais clichês.
Estava no auditório. Acabei de “pagar o maior mico" na frente de Eric (é esse termo que conformistas usam para “passar vergonha”?). Não dava a mínima para isso, obviamente. E também não me importava com a cortina, não serei eu quem vai colocá-la no lugar. Isso se algum responsável pela escola descobrir que fui eu quem a estragou. O que realmente me interessava era encontrar um modo de escapar dessa situação.
Eric pareceu perceber minha presença depois do ocorrido. Ia me dizer algo, com toda a certeza.
Eu permanecia de costas para ele, evitando contato visual e pensando numa maneira de ir embora. Prosseguiria com a ausência de falas e sairia numa boa, assunto resolvido. Eu só devia ter pensado nisso antes do momento ir a outro patamar.
As suas mãos, cobertas por luvas amarelas, tocaram-me numa segunda vez onde fiquei desconcertada graças a ele num mesmo dia. Primeiro com a nota magnífica tirada do violino, que eu não imaginava ser uma de suas aptidões. Agora, isso. Um dos seus braços estava ao meu redor, me apertando contra seu corpo. A outra mão segurava meu pescoço, me obrigando a erguer o rosto.
Pensava que ele fosse tentar dizer algo. Pelo visto, preferiu ações a palavras.
Ouvi sua risada psicótica na minha orelha. O senti afastando meu cabelo curto da nuca com o nariz e, então, plantando um beijo demorado ali, me fazendo arrepiar. Ele devia estar levemente curvado para chegar à altura ideal e explorar as partes mais sensíveis a seu alcance. Aquele estranho calor se apoderava do meu corpo.
A saída do auditório estava logo ao final. As portas estavam abertas. Não havia paredes que me segurassem; podia me sacudir, lutar, me soltar de Eric, andar em linha reta, ir embora... Caso minhas pernas respondessem.
Ele deixou de se curvar. Me abraçava, seu peito tocando-me as costas. A mão livre ainda em meu pescoço, acariciando com o polegar. Eu estava fria, e ele o oposto. Perturbador, mas... Bom.
Levou os lábios novamente à minha orelha. Pressionou o lóbulo com os lábios e o mordeu. Deixei escapar um som constrangedor.
— Cartman — meu rosto ardia. Me deixei levar e toquei suavemente seu rosto com a ponta dos dedos.
Que merda.
Ia pedir pra que ele parasse e, quando chamei por ele, não transpareci nada disso. Transpareci uma súplica vergonhosa, na verdade.
Me senti estúpida. Xingava a mim mesma de todo os nomes mentalmente. A parte dona da razão em mim pedia para ele parar, já meu corpo dizia o contrário. Que idiota. Estúpida e fraca conformista, cedendo com essa facilidade. Ódio.
— O que disse? — me agarrou com mais força.
Meus músculos se contraíram. Não esperava ouvir sua voz desta vez.
— Eu... — parei para respirar antes de prosseguir.. — Olha, Cartman, eu...
— Não me chame de Cartman, porra.
Suei frio. A mão dele segurou com mais firmeza meu pescoço, sem delicadeza alguma. Com o canto do olho, o vi mudar de expressão, sorrindo com desdém pela minha reação assustada.
Antes com raiva na voz, Eric passou a segurar uma risada maldosa. Depois, retomou a seriedade.
— Esse é meu primeiro e último aviso. — prosseguiu. — Vou continuar a ficar em silêncio nos seus sonhos. Quero que me chame pelo primeiro nome, Henrietta. Você sabe que não sou seu inimigo. — sentia-o inalar meu cheiro, na curva do meu pescoço. Ao falar, pude sentir sua respiração. Um arrepio me transpassou. — Não me chame de Cartman. Você gostaria de ser chamada de Biggle? As outras pessoas também preferem me chamar de Cartman, e você não é igual aos outros. Você quer provar ao mundo que não é uma conformista, então faça por onde. Faça o que te peço e será recompensada.
— Recompen...? — fui interrompida por um gesto inusitado. Liberei outro som constrangedor, sem fechar a boca desta vez, o deixando ecoar no auditório. Senti aquilo por um minuto que mais parecia uma eternidade. Como poderia descrever o que senti?
Dor? Não, não era dor. Eu reconheço dor quando sinto. Isso não foi dor. Era... Bom.
Era algo bom, certamente. Depois da sensação, o resultado: uma marca roxa enorme no meu pescoço, um pouco úmida. Durante, Eric havia me inclinado mais eu sua direção.
Era bom. Horrível admitir o quanto. Pude sentir aquelas borboletas no estômago. Minhas pernas estavam fracas.
Merda. Ter borboletas no estômago é bem conformista. E emo. Principalmente emo. E gay. Muito gay. Talvez... Morcegos no estômago? É. Seria apropriado."
Saiu de casa, à noite, usando um sobretudo preto sobre o pijama e calçando um par de botas de vinil cano alto de mesma cor. South Park está, para Henrietta, agradável: sombria, vazia e gelada.
Acordou com o casaco do terno de Cartman próximo ao rosto. De novo. Os pesadelos estavam ficando mais intensos a cada noite.
Não se maquiou. Seu cabelo, bagunçado, foi preso num coque minúsculo e mal-feito. Segurava o terno em seu braço para ter uma mão vazia, facilitando para que comesse de uma caixa de chocolates. Esta noite, ela vai devolver o maldito terno.
Não, ela não vai até a casa de Cartman para devolver; vai invadir a escola e pendurar o terno no armário dele. Devolver diretamente seria arriscado demais. Pedir a um de seus amigos conformistas para entregá-lo seria humilhante.
O cheiro de Eric e o sonho com ele esta noite ainda a assombram. Estar próxima a ele agora a deixaria vulnerável.
"Culpa dele. É tudo culpa dele." amaldiçoava, devorando um chocolate após o outro, tremendo mais por medo que por ódio.
* * *
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