Malaxophobia

4 Primeira tentativa


A noite chegara na cidade de South Park. Como combinado, os quatro góticos se encontram sentados na habitual mesa do Benny's. Normalmente, Henrietta estaria munindo um cigarro aceso, mas decidiu não fumar no momento. Apenas uma hora tão especial como esta para que abrisse mão do fumo: a hora de beber café.

Conseguia sentir a bebida quente e amarga em seus lábios. O doce sabor do café, porém não tão doce. O café do Benny's não é cheio de açúcar, o que é bem diferente do café que sua mãe faz, e ainda tem alguns traços de capuccino.

Seus lábios revestidos de batom preto manchavam a borda da xícara de porcelana. Quando o gole da bebida fumegante foi finalizado, Henrietta passou lentamente a língua pelo lábio superior, sorvendo assim os vestígios. Uma ação simples e mal pensada, mas que acabou por tornar sensual.

Ela não havia se dado conta da situação, até perceber que estava sendo observada por Michael e Pete. Os dois ficaram tanto hipnotizados quanto em choque, mas o segundo ficou o bastante para vazar um pouco de café pelo canto da boca.

— Estão olhando o quê? — ela questionou, encarando a ambos.

Os dois góticos desviaram o olhar, como se nada tivesse acontecido. Em desconfiança, Henrietta semicerrou os olhos.

— Perdoe esses dois. — murmurou Firkle, ao lado de Henrietta, segurando seu café com duas mãos. — Ter uma garota no grupo outra vez deixou eles "animadinhos".

— Como é? — ela arqueou a sobrancelha.

— Coisa de homem. Você não entenderia. — completou para tomar outro gole de café.

— Pelo jeito, você entende disso muito bem.

Firkle engasgou com a bebida. Henrietta sorriu de canto.

— Então você entende mesmo? — perguntou. A conversa permanecia em sussurros. Pela reação de Firkle, suas palavras estavam confirmadas. — Você gosta de alguém, não é? Qual o nome?

— Não é da sua conta.

— Oh, então está gostando de alguém mesmo? — ela pôs um cotovelo sobre a mesa para apoiar o rosto na palma da mão.

Henrietta costumava ser ótima em fazer os amigos admitirem coisas, e talvez isso não tivesse se perdido. E, apesar de abominar o amor, estaria disposta a ajudar um amigo a não se decepcionar caso ele se envolva nesta armadilha. 

Firkle suspirou derrotado, espalhando o vapor de seu café. 

— Sei que vai insistir nesse assunto até eu admitir, então, sim. Eu estou interessado numa garota. — confessou, dando de ombros.

— E ela é da sua sala?

— É. — e voltou a tomar seu café, deixando o assunto por encerrado.

"Pobre vítima do amor." lamentou por ele em pensamento. Novamente levou a xícara aos lábios.

* * *

— Que. Tédio. — Pete esbravejou, usando a mão para afastar a franja do rosto.

— Que novidade. — Henrietta zombou da ação de seu melhor amigo. A cena era tão repetitiva que podia ser considerada conformismo.

Outro dia escolar se foi, tão semelhante ao anterior que pareceu ter sido reprisado. Aulas, cigarros, música, aulas de novo e havia terminado. Henrietta sentiu falta da velha rotina com os amigos mas, agora que a tem mais uma vez, percebeu o quanto é monótona. Ela não culpa Pete por reclamar de tédio a todo momento e suspirar em seguida; afinal, este sentimento é recíproco.

Os alunos recolhiam seus materiais dentro de seus respectivos armários pelo corredor. As líderes de torcida comentaram algo sobre uma feira de clubes que está para ocorrer no bimestre e que os alunos precisam participar de um dos clubes para ganhar pontos em atividades extracurriculares. Caso contrário, podem correr risco de repetir o ano letivo. 

Existe algo mais conformista que clubes?

Por fim, Firkle e Michael se foram. Apenas Pete e Henrietta estavam no corredor.

— Sabe o que eu não entendo? — Pete trouxe à tona um assunto aleatório.

— O quê? — perguntou, sem curiosidade de fato.

— Você fuma, bebe muito café, quase não come coisas com açúcares e gorduras e, mesmo assim, continua... você. Digo... Continua gordinha.

Henrietta, que estava colocando o código para abrir o armário, parou o que estava fazendo e exibiu um olhar mortal para seu melhor amigo. Um olhar desses, vindo justamente dela, dizia tudo e mais um pouco.

— Quer dizer — Pete passou a mão pelo pescoço. O olhar frio de Henrietta o deixara constrangido. — Você não é gorda, só é... Fofinha.

— "Fofinha"? — em vez de um olhar assassino, mostrou-lhe feições impacientes.

— É. Você... — esfregou a nuca nervosamente. — Você está ótima do jeito que está. De verdade.

“Coxas grossas. Quadris largos. Uma cintura magnífica.” Pete repetia as palavras intimamente, pois não tinha coragem ou falta de noção suficiente para pronunciá-las.

— É, eu sei que está. E acho bom mesmo que pense assim. — pausou o olhar e retornou a abrir o armário.

— E sou verdadeiro quando digo isso. Quero dizer... Além do que eu acabei de dizer, bem... — tomou folego. Iria parecer uma brincadeira idiota, certo? Pois eram grandes amigos. Certo? — ...Você tem um belo traseiro.

— Como é? — parou de tentar abrir o armário e voltou-se, furiosa, para o rapaz de cabelo bicolor.

— Nada. Até mais, Etta — segurou o riso que crescia em seu âmago e correu para a saída da escola. Apenas para piorar a provocação, chamou-a pela palavra proibida.

O que Henrietta não sabia, nem jamais saberia, é que Pete andava dedicando muito de sua atenção a ela desde que retornou a South Park. Passou muito do dia analisando os novos detalhes que Henrietta tem e, como o que mais chamou a atenção foi o traseiro, fazer uma brincadeira daquelas foi irresistível. Nervoso ou não, não poderia deixar isso escapar.

— Finalmente. — um rapaz loiro com jaqueta laranja sussurrou para três amigos que o acompanhavam. Os quatro espionavam os dois góticos de longe, escondidos por uma parede que levava a um corredor. — O amigo dela se mandou. 

— Vai chamar ela pra sair mesmo? — Kyle que sussurrou desta vez. — Você é doido, Kenny.

— Sim, doido por ela. — ele deu outra olhada na gótica. — E aquele emo tinha razão, olhem só aquele traseiro...

— Ei, bundão — Stan sussurrou para Cartman em tom mais alto do que dos outros. — Sua namoradinha tem um traseiro maior que o seu.

— Vá se foder. — defendeu-se, porém não realmente ofendido. — Você tem quantos anos? Cinco?

— Está tão preocupado em negar que ignorou a ofensa que fiz a você e seu traseiro gigante?

— Olha, Stan. Por que não veste suas roupas de gótica travesti e vai dar uns beijos no seu namoradinho judeu? — Eric apontou o polegar para Kyle. Tanto Stan quanto Kyle coraram por uma lembrança desagradável.

— Quietos vocês três. Está na hora do Kenny partir para a ação. — o loiro falou de si mesmo na terceira pessoa. — Sem Craig e Clyde por aqui, terei total liberdade para falar com Henrietta primeiro.

— E como pretende chamar aquela gótica para sair, ó vosso supremo pegador? — Cartman indagou com sarcasmo.

— É simples. Sabe o meu "jeitinho de Kenny"?

— Sei, sei.

— Ninguém resiste a ele. — e, com esta frase de efeito ridícula, finalmente seguiu em direção à garota de pele pálida.

Logo que Henrietta conseguiu abrir o armário, alguém praticamente se materializou ao lado dela. Quando esse alguém encostou a mão na porta metálica, acabou trancando-o novamente. Uma veia de estresse pulsou na testa da gótica.

— Oi. — Kenny cumprimentou. No caminho, havia bagunçado um pouco seu cabelo rebelde: fazia parte de seu "charme". Ou, ao menos, funcionava em sua imaginação.

— Oi. Poderia me dar licença? — apontou para a mão dele que, por acaso, ainda bloqueava o armário.

— É claro. — retirou a mão. — Você já esteve em South Park há alguns anos, certo?

— Uau. Nem perguntou meu nome e já quer saber da minha vida. — retornou a tentar destrancar a porta de metal.

"Ai" foi o que veio aos pensamentos de Kenny após aquela resposta. A alguns metros de distância, os três amigos que observavam tentavam controlar risadas.

— Me desculpe. É que eu já sei o seu nome. — ele explicou com toda a calma. “Para se ter o que quer, é preciso ser paciente.”

Ela olhou para si no espelho da porta, já aberta, para verificar sua maquiagem. O delineador e o batom escuros precisavam de constante vigilância.

— Isso não justifica sua má educação. Mas posso deixar passar desta vez.

Agora, a resposta da garota fez os rapazes distantes começarem a rir verdadeiramente. Kenny se dando mal com uma garota? Isso merecia ser registrado em vídeo!

— Bom, certo, desculpe mesmo. — ele ainda manteve a calma. — Agora, imagino que não tenha muitos amigos por aqui.

— Os amigos que tenho já são o suficiente. Não preciso de mais ninguém, muito menos de você caso esteja insinuando alguma coisa.

— Ah, vamos — insistia, mesmo depois de mais uma resposta grosseira. — Eu e alguns amigos vamos ao Casa Bonita esse fim de semana. Será que não gostaria de ir também e... Sei lá... Se divertir, talvez? Pense com carinho.

— Está falando em ir como sua acompanhante?

— Quase isso. O que me diz?

— Agradeço pelo convite, mas minha resposta é não. Mas veja pelo lado bom — espalhou seu batom, friccionando um lábio no outro enquanto se via no espelho. — Pelo jeito como você me tratou, imagino que seja ótimo com mulheres. Tenho certeza de que vai conseguir alguma babaca como você pra te acompanhar.

Kyle, Cartman e Stan perdiam as forças. Apesar de acharem graça da desgraça alheia, estavam todos surpresos com o quanto Henrietta podia ser direta.

— Eu... Não quero ir com outra garota. — Kenny descansou a mão numa das portas metálicas, de forma que seus dedos ficassem no interior do armário da gótica e espalmasse o armário ao lado. — Eu quero ir com você, Henrietta.

— Sabia que essa sua insistência me cansa?

"E essa sua arrogância me deixa puto" Kenny respondeu em seu íntimo. Sorriu nervosamente para ocultar o que pensava.

— Sei que é cansativo, mas preciso insistir. É por uma boa causa. — disse olhando inconscientemente a gótica de cima a baixo, parando para olhar principalmente o detalhe que foi atraente tanto para ele quanto Pete.

Ao perceber o olhar de Kenny, Henrietta finalmente achou a razão do rapaz insistir. Além dela não estar interessada em conversar, sair ou mesmo estar minimamente perto dele, agora precisará apelar para métodos de defesa mais rígidos.

 Em questão de segundos, fechou o armário com força, deixando a mão de Kenny presa à porta. Pressionou-a firmemente para manter os dedos dele sem escapatória, o susto e a dor obrigaram-no a sufocar um grito.

— Qual o seu problema?! — Henrietta perguntou agressivamente, pressionando a porta no lugar. — Por que porra você me olhou daquele jeito?!

Kenny nada respondeu; a mão dele doía como o inferno, mas ele não ousaria gritar. Tentava puxá-la desesperadamente.

— Será que você poderia — fez outra tentativa — parar de tentar quebrar meus dedos?!

— Primeiro responda a minha pergunta — exerceu mais pressão. — Por que me olhou daquele jeito? E por que continua insistindo se eu já recusei?!

— Puta que pariu — tentava puxar os dedos com auxílio dos que estavam disponíveis. Com a dor que sentia percebeu que Henrietta, além de grossa, era forte também.

— Responde! — passou a pressionar com ambas as mãos.

— Eu só queria te fazer um convite já que você quase não tem amigos! E só pra você saber, a minha mão dói muito nesse momento!

— Então vamos esclarecer algumas coisas. A partir de agora, eu não quero que você fale comigo. Não quero que olhe pra mim e nem que pense em mim. Você vai andar a, pelo menos, cinco metros de distância de mim e se ousar quebrar alguma regra eu juro que não quebro apenas sua mão mas também quebro a sua cara. Estamos entendidos?

— Sim, senhora — balbuciou com pouco fôlego. Seu rosto inteiramente vermelho pela dor.

— Ótimo. — libertou a mão de Kenny e em seguida bateu a porta do armário com toda a força. — Espero que não esqueça das minhas condições, seu loirinho medíocre e conformista.

Com isso, ela ajeitou devidamente sua bolsa na lateral corpo e caminhou em linha reta para a porta de saída.

Algo era mais do que certo: podia fazer de tudo para evitar entrar em joguinhos estúpidos de conquistadores. Caso não se defendesse ou não tivesse sido propositalmente ignorante, acabaria aceitando sair com um garoto que mal conhece; o garoto poderia acabar fazendo-a se sentir bem no evento, quem sabe a desarmaria e, consequentemente, acabaria a decepcionando em algum momento. Do jeito que o maldito tinha um jeitinho de que "pega todas", acabaria por usá-la e jogá-la fora logo depois, se ela abrisse algum tipo de brecha. Uma decepção foi impedida.

Um mecanismo de defesa que ela usa é sempre pensar no amanhã, nunca apenas no agora. Usa essa defesa a seu favor desde que sofreu aquela decepção com seu primeiro amor e jamais se decepcionou novamente desde então. Só que essa ideia de não se envolver com ninguém para não sofrer acabou fazendo-a sentir-se um tanto... Solitária.

Bem. Nada é perfeito.

Quando Henrietta se foi, os três que riam de se acabar e antes estavam escondidos caminharam até Kenny, lamentando curvado pela dor em seus dedos. Como pagamento pelo que Cartman sofreu ao perder no jogo de XBox, um novo escárnio é iniciado. Desta vez, para o conquistador.

— "Sabe o meu jeitinho de Kenny"? — Cartman repetiu as palavras, imitando a voz dele com desdém.

— "Ninguém resiste a ele" — repetiram os três juntos, rindo sem pudor.

* * *

Por querer manter o tipo físico, porém não emagrecendo demais para não perder sua identidade, Eric Cartman preferiu caminhar até sua casa desta vez. A distância da casa dele para o colégio não era grande e ele ainda poderia queimar algumas calorias no processo. Tinha também um motivo mais voltado para o interesse: o novo KFC que foi aberto bem no meio do caminho entre a escola e a residência onde vive. Ele ainda ama o molho de lá. E todas as outras coisas também.

Já a caminho de casa, levava na mão esquerda uma sacola com o lanche comprado. Pretendia degustá-lo lentamente, já que não gastou dinheiro no intervalo da escola apenas para investir na refeição.

 Ou, ao menos, era o que pretendia fazer.

— Que porra é essa? — se queixou quando viu sua mão, contra sua vontade, largar a sacola no chão. Todo o lanche com aquele aroma inebriante que o fazia salivar, despejado na calçada. Uma vergonha a todos os KFCs do mundo.

Cartman já havia passado por isso antes. A mão que deixou cair a sacola pareceu mover-se sozinha, assumindo vida própria. Ainda bem que não havia ninguém por perto para presenciar este momento bizarro.

— Hola! — a mão, com boca e olhos desenhados pelo além e usando algo que deveria ser uma peruca, cumprimentou com um ridículo sotaque mexicano.

— Mitch Conner. — suspirou, aparentando nenhuma surpresa. — A que devo sua irritante presença?

Mitch Conner apareceu pela primeira vez para virar o projeto de Cartman nas apresentações sobre a cultura da América Latina. Todos achavam que Mitch era um personagem que Cartman fingia ter vida própria e, no fim, ele realmente sempre teve vida e personalidade. Em seu passado, chegou até a servir na guerra do Vietnã.

Ele aparece justamente nos momentos mais inconvenientes e improváveis possível. Mitch fingiu ser uma artista pop chamada Jennifer Lopez, para a ira da Jennifer Lopez original. Chegou ao topo com suas músicas sem pé nem cabeça e fingiu ter cometido suicídio quando sua real identidade foi revelada.

Tempos mais tarde, havia misteriosamente retomado a fama. Nos mesmos dias em que reapareceu, Mitch ajudou Cartman a descobrir quem é seu verdadeiro pai e, com isso, descobriu que Scott Tenorman, o garoto que ele alimentou com o chili feito da carne dos pais, é seu meio irmão. Cartman havia feito chili com o próprio pai, mas isso não o afetou tanto quanto ter descoberto que possuía traços ruivos, ao que tudo parecia.

— Eu não sou Mitch Conner, eu sou H'ennifer Lopez! E gosto de tacos e burritos!

— Corta essa, Mitch. — com a mão útil, Eric removeu com um peteleco a peruca que Mitch usava.

— Devolva isso, preciso preservar o meu disfarce — Conner sussurrou com sua voz normal desta vez.

— Não se preocupe, ninguém se importaria se visse um lunático no meio da rua conversando com a própria mão. Sério, o que faz aqui? Você só aparece quando preciso de ajuda.

— E é por isso mesmo que estou aqui. A partir de agora, eu serei seu conselheiro.

— Conse... Pra que diabos eu preciso de um conselheiro?

— Pra conquistar aquela gatinha gótica, é claro.

Cartman franziu o cenho.

— Qual é, Cartman? Vai me dizer que não ficou interessado na personalidade forte daquela menina? Ou naquele “corpinho” de deusa.

— Bem... — pareceu ligeiramente constrangido. — Fiquei. Fiquei, sim. Mas só um pouquinho.

— Viu só? É pra isso que estou aqui.

— Primeiro, me responda: como sabe de tudo isso? Você nem estava aqui.

— Mas claro que eu estava. Estou aqui o tempo todo, só não digo nada.

— Cara. Você fica junto comigo o tempo todo? Isso é gay.

— Eu sei. E estando junto com você o tempo todo acabei vivenciando coisas que um homem jamais deveria presenciar. Por que adolescentes precisam ser tão nojentos?

— Não entre em detalhes, por favor. — pouco paciente e um tanto envergonhado, Eric apertou o nariz entre os dedos. — Então quer me ajudar a me aproximar de uma garota. É isso.

— Eu não só quero como vou te ajudar.

— E por que?

Se é que isso é possível, a mão esquerda teve uma longa respiração.

— Porque ando percebendo que você se sente solitário. Há bastante tempo você não encontra uma garota legal e precisa aguentar a Jenny Simons te enchendo a porra do saco. Você quis se sentir bem com o seu corpo e conseguir, você quis conquistar garotas que o fizeram sofrer no passado e uma delas ficou tão obcecada que te atormenta até hoje, você ficou mais compreensivo com as mulheres, melhorou parte dos seus defeitos e agora está se sentindo solitário. Logo quando finalmente alcançou todos os seus objetivos, não sabe mais o que fazer. E como o cara sábio que sou, tenho certeza que essa falta que você está sentindo é de alguém pra avançar com você. Posso ver naquela gótica que é ela quem vai trazer seu ânimo de volta.

Cartman não ousava dizer nada. Mitch esteve correto nas últimas vezes em que o ajudou, poderia estar correto desta vez também. Ou queria acreditar nisso.

— E então? — os olhos desenhados de Mitch pareciam mexer com as emoções do rapaz enquanto falava. — Vai aceitar minha ajuda?

— Hã... — hesitou, pensando bem em sua resposta. Do jeito que Eric sente-se “vazio”, ao menos como um jovem costuma se sentir, qualquer auxílio seria bem-vindo. Ao mesmo tempo, estava inseguro em tentar se aproximar de uma garota tão... Complicada? Difícil? Ou apenas se sentia intimidado por achá-la interessante?

— Vamos... — Mitch insistiu mais uma vez. — O que me diz?

Cartman inspirou profundamente; era como negociar com o diabo. De má vontade, ergueu a face para dar a resposta final. Essa loucura que Mitch pretende fazer tem chances de se tornar um perigo, mas foi num contexto similar que Cartman descobriu quem era seu verdadeiro pai. Não custaria nada tentar.

E, que Deus o perdoasse. Ele queria tentar.

— Tá. — respondeu, parcialmente irritado. — Eu aceito.

* * *