Malaxophobia

36 Período de adaptação [3/3]


Henrietta não conseguia acreditar que estava passando por isso.

Na casa dos Cartmans, a gótica se sentava à mesa posta para o jantar. De um lado, estava Eric: despojado, à vontade, soltando uma gracinha e outra enquanto devorava sua porção de costelas com barbecue e fritas. Do outro – e aí que vinha a melhor parte – estava a mãe dele.

Liane se vestiu para receber a nova nora como se fosse um verdadeiro evento. Porque, para ela, era mesmo. Antes mesmo de conhecê-la, a Cartman viu com os próprios olhos que a famosa garota tinha incentivado seu Eric a vestir um interessante traje nazista, além de ser capaz de espantar Jenny Simons, por quem adquiriu extrema antipatia. Assim que o filho anunciou que finalmente estavam juntos e que Simons estava fora de jogo, quis saber tudo: nome, idade, endereço, vê-la em fotos. Mas Eric fez todo um mistério, queria que a mãe conhecesse tudo pela garota em pessoa. E o momento chegou.

A mulher preparou a melhor refeição que veio às suas ideias. Usava um vestido formal justo e azul com brincos de pérolas, e Henrietta precisava admitir: “Pra uma mulher madura, essa aí tá em forma pra caramba.”

A gótica parou para tentar se lembrar de como foi parar nessa situação.

Eric a tinha convidado outra vez, sem maiores detalhes. Estava anoitecendo. Da última vez que esteve ali, quis tirar satisfações sobre a ideia dele de “distração” enquanto estavam à mesa, com os góticos, em público. Agora, queria saber o que foi aquilo na noite anterior: um Coon completamente aleatório invadiu seu quarto e simplesmente a atacou.

E ela gostou de cada segundo. Até do horror psicológico. Mas isso não vinha ao caso.

Tinha se arrumado mais para o dia a dia: a jaqueta de couro, o vestido médio, a meia-calça arrastão e os coturnos tratorados. De preto como sempre, maquiada como sempre, o colar de sempre, o cabelo desgrenhado como sempre. Provavelmente não teria se vestido melhor caso soubesse por que estava indo até lá – na verdade, provavelmente sequer teria ido. E, quando abriram a porta para ela...

— Oh, meu Deus. — a mãe de família, radiante, a recebeu na entrada.

— Ai, cacete — se afundando em nervosismo, a gótica pronunciou sem pensar.

Foi uma sorte imensa Liane estar tão contente que nem prestou atenção ao que disse. Abraçou a garota como se ela fosse um cristal. Completamente sem jeito, Henrietta teve uma demora de segundos para começar a retribuir. Não teve dúvidas de que era a mãe dele assim que a viu, eram simplesmente a cara um do outro.

Ao olhar sobre do ombro da mulher, a feição da garota passou de perdida para furiosa num instante. Lá estava Eric Cartman, sentado à mesa da sala de estar, acenando para ela com um sorriso cínico nos lábios.

Liane a conduziu pela mão até a mesa posta. Ao se sentarem, o olhar da gótica para o rapaz passava bem longe de amoroso. Estava mais para assassino.

— Qual o seu nome, querida? — a mulher perguntou com doçura, olhando diretamente para ela. Henrietta tentou ao máximo amenizar as feições, mas sua tentativa de sorriso parecia mais com uma careta trêmula. — Se dependesse só dele, não saberia nada sobre você.

— ...Henrietta. — olhando de esguelha para Eric, sentado ao lado, entendeu tudo: o infeliz não quis poupá-la de nenhuma parte do constrangedor processo de apresentação.

— Henrietta, hein? Exótico... Como você. — sorriu. A gótica viu alguma intenção oculta no gesto. — Sabe, me vesti como você por algum tempo na minha adolescência.

— Não diga? — Henrietta arqueou uma sobrancelha. Essa ela queria ver.

— Ah, eu adorava. Achava e ainda acho o máximo. Os garotos, também — deu uma piscadela para ela. Se Henrietta pudesse, teria cavado um buraco no chão para se jogar. — Mas tenho que dizer, em você fica melhor. Pra mim, era só um visual. E uma desculpa pra tomar vinho no cemitério e receber alguns olhares. Em você parece um estilo de vida, posso ver em tudo na sua postura. Como uma verdadeira rainha.

A garota arregalou levemente os olhos. Mais uma coisa que não esteve preparada para ouvir. Jurou que ouviria algo sobre seu estilo não passar de uma fase ou algo para chamar a atenção, e que também chegaria a vez dela de enjoar e seguir outro caminho. É o que a maioria dos adultos costuma pensar. Em vez disso, estava absolutamente lisonjeada.

— Obrigada... — pronunciar as seguintes palavras estava sendo doloroso. — ...Senhora Cartman.

— Me chame de Liane, por favor. — segurou a mão dela novamente. Henrietta olhou as mãos juntas com receio. — Não temos tempo pra formalidades, pretendo ser sua amiga.

E Liane conseguiu arrancar dela um discreto e sincero sorriso. Não era seu costume usar esse termo, mas Henrietta a achou “uma fofa”.

Uma pergunta lhe veio à cabeça (e não teve filtro para segurá-la):

— Como alguém doce como você pariu essa praga do meu lado?

Eric, que antes admirava a interação das duas com satisfação, fitou a gótica. Vendo-o de sobrancelhas franzidas, Henrietta quis rir.

— Oh, você precisa conhecer o resto da família. — Liane respondia, também vendo graça. — Tudo vai fazer muito sentido.

Agora fitando a mãe, Eric entreabriu os lábios, indignado.

— Bem. — ele se intrometeu. Sorriu ampla e maldosamente. — Mãe, acho que você vai adorar saber como nos conhecemos e como acabamos juntos. Sua “rainha” me deu um puta trabalho.

— Querido, boas mulheres são as que dão trabalho. No dia que quiser moleza, é melhor pegar um homem.

Desarmada, Henrietta riu dele deliberadamente. O rapaz seguia observando a mãe, inexpressivo, ao mesmo tempo que a mulher o olhava de volta contendo o próprio riso. Começou a servir silenciosamente os pratos, deixando que o casal se entendesse entre eles.

Como Eric sabia, a mãe podia estar tirando sarro dele, mas com consciência de que o filho nunca viu problemas em lidar com garotas complexas. A maioria das que ele investiu anteriormente representou algum desafio. E, ao que Liane notava, ele tinha preferência, até necessidade, por esse tipo. Eric precisava de um tipo específico de garota para se relacionar, com uma energia desafiadora e caótica, e parece ter encontrado alguém à altura. A gozação não passava de uma tentativa de deixar Henrietta à vontade: queria mostrar que ele não era mais um “filhinho da mamãe” havia muito tempo.

“Finalmente... Meu bebê com uma mulher de verdade.” Liane pensava, observando o temperamento, o visual e até o tipo físico de Henrietta. Ouvia-os contar diferentes perspectivas da mesma história e divertia-se com isso. As interações acaloradas dos dois e a disposição para comer também eram detalhes impossíveis de não se notar. Henrietta parecia boa em esconder a maioria das emoções; em contrapartida, Eric parecia notoriamente feliz.

Assistindo-os, a mulher sentia como se tivesse cumprido algum objetivo de vida. Se as primeiras impressões estivessem certas, esperava que o relacionamento durasse.

* * *

Para variar, fazia frio do lado de fora. Sobre o deque aos fundos da casa, onde ficava um conjunto de mesa e cadeiras e outros assentos para a área externa, estavam Henrietta e Cartman. Mais especificamente, sentavam-se lado a lado num confortável sofá de vime.

Exceto pelas estrelas, o céu e tudo ao redor era um breu completo. Mas a iluminação da casa do rapaz era razoável: amarelada e discreta, estendendo-se pela grama à frente até as cercas. Taças vazias da sobremesa que comeram – pedaços brownie com calda quente, a que Henrietta fez uma suprema expressão de ódio quando Eric se ofereceu para servir em sua boca – descansavam na mesinha à frente.

Cartman envolvia os ombros dela num braço. Riu por dentro: lembrar de que “teve” que fazer o mesmo quando estiveram no South Park Mall foi inevitável. A reação dela para isso não parecia muito diferente da última vez: estava emburrada e fechada. E, tal como da última vez, nenhuma iniciativa da parte dela para se afastar.

Como o bom namorado que procurava ser, Cartman perguntou:

— Por que essa cara de bunda?

— ...E você ainda pergunta? — estreitou os olhos para ele. — Só pra começar, minha adaga ainda está enfiada na minha cômoda, seu boçal.

— Oi? Como assim?

Surpreendendo-o, Henrietta agarrou sua cabeleira castanha. Forçou-o a ficar com o rosto extremamente perto do dela. Olhos levemente arregalados contra olhos cheios de ódio. Um bufar quente veio das narinas dela.

— Que raiva que eu sinto quando você se faz de desentendido. — a gótica falou entre dentes.

— ...Tá falando do quê? — insistia. Engolir o riso era bastante difícil, mas foi capaz. Ela ficava definitivamente mais atraente quando nervosa.

Frustrada, Henrietta poderia ter explodido. Porém, uma ideia começou a lhe ocorrer. Eric podia ser insuportável, podia saber como implicar com ela, mas tinha uma fraqueza capaz de silenciá-lo. A mesma que, quando ela demonstrou admiração, o induziu a admitir que era o Coon. Que o incentivou a modificar o traje conforme críticas que ela fez. E que, francamente, parecia guiar a maioria das ações dele.

— Então, não era você? — afrouxou o aperto. Olhou-o com decepção. — Que coisa... Invadiram meu quarto ontem à noite. Recebi o melhor beijo da minha vida até hoje.

O humor morreu no rosto dele. Tal afirmação mexeu diretamente... Com o seu ego. Parecia ridículo, parecia improvável, mas sentiu ciúmes de si mesmo. Por um segundo, se imaginou beijando a gótica furiosamente apenas para se provar superior a uma identidade que ele mesmo criou.

— Quem tá fazendo cara de bunda, agora? — foi a vez dela de sorrir com maldade. Quando a ficha caiu, o rosto dele afundou. — É óbvio que foi você, garoto. Não me confundiria nem se quisesse.

Assim que ele sorriu de volta, Henrietta se arrependeu imediatamente pelas palavras usadas.

— É mesmo? O que te dá tanta certeza?

Ela suspirou. Por onde poderia começar? Talvez, pelas mãos. Pela postura. Pelo cheiro. Pelo corpo. Ou pelo toque. O sabor e a sensação deliciosa do beijo. Todos inconfundíveis, era fato; ao mesmo tempo, um tanto diferentes. Principalmente em relação às atitudes e a voz. Como Coon, era como se Eric tivesse deixado de lado, completamente, qualquer limite social. Incluindo os limites dela. A linha tênue de respeito ao seu tempo.

— Isso foi uma confissão? — a gótica perguntou de volta prontamente. Nem tudo estava perdido.

Satisfeito, Eric assentiu lentamente com a cabeça.

— Parece que alguém tá ficando esperta.

— Ou você tá ficando mais lerdo. — cruzou as pernas com elegância. — Refez sua fantasia estúpida de guaxinim só pra tentar me assustar? Que gracinha.

— Nós dois sabemos que não foi essa a minha intenção. — soltou como quem não queria nada. Procurou mudar logo de assunto. — E aí? O que achou da coroa?

— Hm. — Henrietta aceitava a deixa. Agora, não sabia se queria entrar em detalhes sobre a noite anterior. — Ela é ótima. Já você...

— Em minha defesa, ela que queria te conhecer.

— Ah, vai à merda. — virou raivosamente o rosto para o outro lado. — Moleque sonso. Que bela surpresa você preparou, hein.

— Sempre muito romântica. — sorriu. Henrietta rolou os olhos. — Você teria vindo se soubesse que era pra conhecer a... — pensou rapidamente no efeito que a palavra “sogra” poderia causar. — ...minha mãe?

— ...Não sei. Talvez.

— Teria vindo tranquilamente? Ou ficaria sofrendo do momento que eu avisasse até agora?

— Está dizendo que armou tudo isso pra diminuir meu sofrimento?

— Bem, não. Só queria ver sua cara quando chegasse. — protegeu-se quando Henrietta tentou socá-lo no braço. Dando sinais de que pretendia rir, ergueu as mãos defensivamente. — Não podemos fingir que sim? Dá pra unir o útil ao agradável.

Surpreendendo a si mesma, Henrietta também queria rir. Provavelmente de nervoso, mas isso não parecia relevante a nenhum dos dois.

Cartman ampliou sutilmente os olhos quando ela o abraçou. A cabeça apoiada em seu ombro e a cabeleira negra roçando em seu rosto.

— Vai ver eu tô pagando meus pecados. — ela falou calmamente contra seu pescoço.

— Que pecados? — envolveu-a de volta. Apreciava de olhos fechados a respiração dela contra sua pele. — Deve ter freiras mais sujas que você por aí.

— Pelo menos uma única vez, Eric, cala essa maldita boca.

Ao sentir a vibração da risada sufocada no peito dele, Henrietta sorriu inconscientemente. Cartman julgou que aquele era um bom limite; gostava de perturbá-la, mas não o suficiente para jogar o momento fora.

Tocou o rosto dela. A trouxe para um beijo quente, um equilíbrio perfeito entre carinho e firmeza. Ela correspondeu sem hesitar. Ainda tinha o sabor do brownie.

* * *

Que maldita ideia ela foi inventar.

Henrietta “admirava” suas obras sobre o balcão da cozinha. Lavou as mãos com ódio na pia e secou o suor no rosto. Quando ouviu a campainha tocar – contínua e insistentemente, deixando claro que era ele – jogou furiosamente o pano que esteve usando em qualquer lugar. “É isso o que acontece quando você tenta ser minimamente mais doce.” pensava, marchando até a porta da frente. “A porra toda dá errada.”

Abriu a porta com toda a raiva. Não conseguia esconder: estava puta da vida, considerando-o culpado pelo cansaço e pelo que ela estava sentindo. Afinal, não teria se prestado a nada disso se não estivesse gostando verdadeiramente dele.

Porém, quando viu Eric e o que ele trazia nas mãos, as feições da gótica se amenizaram num instante. A ira se dissipou como vapor.

Ao passo em que Henrietta se via trêmula, sensibilizada, o antissemita sorria para ela. Entre as mãos, trazia um gato preto, totalmente preto, com um olho amarelo e o outro cego. Era como Pluto do conto de Edgar Allan Poe.

O gato tinha uma expressão azeda. Enquanto Eric o segurava, as pequenas patas estavam estendidas para a frente e o corpo esticado e imóvel. A longa cauda se movia de um lado para o outro com impaciência. Um laço vermelho estava ao redor do pescoço.

A gótica não conseguia deixar de olhar o pequeno ser. Não devia ter mais que um ano de vida e, ainda que tentasse não demonstrar, aos olhos dela parecia a coisa mais preciosa no mundo.

Quando Cartman ofereceu que segurasse, ela o pegou gato nos braços e o ouviu ronronar. Fechando os olhos, sentiu a raiva outra vez. Se recusava a se mostrar emocional.

— ...Como sabe que gosto de gatos? — ela perguntou, simplesmente. Acariciava-o no topo da cabeça.

Eric parou para relembrar a personalidade dela no geral. Se tivesse que definir a gótica em palavras, provavelmente usaria “sombria”, “mal-humorada”, “arisca”, “severa” e outros adjetivos similares.

— Palpite. — ele respondeu, dando de ombros. — Por sinal, é uma fêmea. Soube que seria sua quando vi no abrigo, a cara de vocês é igual.

— Hah. Muito engraçado. — carregando a gata, deu as costas e começou a cruzar a sala, abrindo caminho para que ele entrasse.

Assim ele fez. Entrou na casa e fechou a porta em seguida. Um odor estranho invadiu suas narinas, mas não se importou à princípio.

— Também sempre gostei de gatos. — Eric prosseguia. Começou a segui-la em direção à cozinha. — Tive uma, mas morreu há alguns anos. E quando criança abriguei uma porrada de gatos no sótão, só imagina o caos.

— Quem diria. Preconceituoso, narcisista e salvador de gatinhos.

— Até porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. — deu de ombros novamente.

Sorriu ao vê-la sorrir sutilmente com a resposta. Vendo-a deixar a gata no chão, que prontamente começou a explorar em volta, lhe veio um questionamento.

— Acha que seus pais vão aceitar? — Eric indagou.

— E eu me importo? — virou-se para ele. A resposta o agradou. — Nunca tive gato porque Bradley é alérgico. Acho melhor ele dar um jeito nisso, ou não vai ser ela quem vai sair dessa casa.

Comovido, Cartman riu rapidamente. Imaginou que Henrietta gostaria dessa ideia inusitada de presente, mas não achou que a aceitação viria com tanta facilidade.

Continuou a seguir a gótica. No cômodo que deixavam para trás, ouviram o barulho de algo caindo e se quebrando. Fora a gata, certamente. Henrietta continuou no caminho, não se dando ao trabalho de olhar o que era.

— A criatura tem um nome? — ela perguntou.

— Não acho que você ia gostar. Pode pensar em outro, se quiser.

— Bem, quando eu pensar em algo, te falo. Sempre imaginei algo sombrio e clichê, como Bastet ou Lilith.

Cartman abriu a boca para oferecer uma resposta. Porém, quando avistou o caos que estava a cozinha, com pilhas de louça a lavar, manchas na mobília, o cheiro suspeito no ar e alguns pratos com comidas peculiares sobre o balcão, esqueceu completamente o que pretendia dizer.

Se aproximou para ver o que era aquilo. Assim como Eric pensou em surpreendê-la, ela também planejou algo para agradá-lo. Algo que pudessem beliscar durante a tarde juntos. Henrietta tentou cozinhar.

Os nachos, carbonizados, pareciam carvão. O molho de queijo, aguado e com grumos estranhos, parecia tóxico. As fritas, oleosas e murchas. E o bolo, que deveria se parecer com um coração atravessado por facas...

Cartman começou a gargalhar. Gargalhar com força, sem controle, a ponto de perder o equilíbrio. Cambaleou até se apoiar numa das cadeiras à mesa. Segurava o estômago, a risada mais parecendo um surto psicótico. O bolo, sabe-se lá por qual motivo, realmente estava espetado por facas reais. Mas o coração se parecia mais com um traseiro deformado.

Vermelha de vergonha e raiva, Henrietta esperava de braços cruzados que ele terminasse seu show. Uma garota comum talvez ficasse magoada, até ofendida, por aquela reação. Como não era seu caso...

— Continua rindo pra ver se não enfio isso tudo no seu rabo.

Tentando se conter, mas ainda com uma risadinha frouxa, Eric foi se aproximando dela. Henrietta pegou um pano de prato e o usou para bater nele. Só piorou a situação.

— Sai pra lá, caralho — vendo que ele não parava, continuava a golpeá-lo. — Não me toca, seu merda!

Não adiantou. Cartman a agarrou e pressionou os lábios nos dela, a gótica tentando inutilmente empurrá-lo. Quando o antissemita distanciou o rosto, ainda a segurando firme para que não fugisse, viu fogo em seus olhos e um bico emburrado.

— Olha só pra ela, cozinhando pra mim. — zombava sem pudor. — Sempre soube que você era uma verdadeira romântica.

— Vai à merda, Eric.

Prendendo outro riso, a beijou de novo. Mais suave, desta vez. Depois de rolar os olhos, Henrietta começou a retribuir. Envolveu a nuca dele nas mãos, quase como se não quisesse enforcá-lo segundos atrás.

Ao se separarem, Cartman tornou a analisar o bolo peculiar. Estava coberto com algo preto e viscoso que parecia piche. Um pouco da massa vermelha ainda estava visível.

— Qual é a das facas? — perguntou a ela.

— É minha interpretação sobre os sentimentos.

Sem reação aparente, Eric piscou.

— Profundo.

Indiferente, Henrietta nada mais disse. Era romântica ao modo dela.

Cartman continuou olhando para as tentativas fracassadas de petiscos. Por pura consideração pelo esforço, se imaginou experimentando algum deles. Ao provar um pouco da cobertura do bolo-traseiro trevoso e perceber que estava salgada, concluiu que seria uma péssima ideia.

— KFC? — sugeriu como alternativa.

— KFC. — Henrietta deu meia volta, sem se importar com quem cuidaria da bagunça. — Você dirige.

* * *

Pesados, de complexo manuseio e acordes graves, os violoncelos se tornaram um novo alvo de interesse. Mais ignorantes e com uma sonoridade menos irritante aos ouvidos dela, Henrietta sentia alguma segurança ao experimentar tocá-lo. Uma nova colega do Clube da Música Clássica, organizado por Patty Nelson, compartilhava com a gótica seus conhecimentos sobre o instrumento. Depois de sua breve primeira tentativa de extrair algo do violoncelo emprestado, os participantes do Clube a aplaudiram.

Depois dos últimos acontecimentos, foi permitido à Henrietta retornar ao Clube da Música. Não que precisasse: depois de ser supostamente perseguida pela líder do clube anterior, estava isenta dessa obrigação pelo resto do ano. Acabou saindo melhor que o esperado. Apenas escolheu não desperdiçar uma oportunidade de aprendizado.

Assistindo-a com os demais, Eric cutucou Patty, de pé ao lado assim como ele.

— Aí. — cochichou com ela de forma audível. — Tá vendo só? Essa daí deu tanta volta pra acabar aqui de novo.

— E de quem é a culpa? — olhou-o com reprovação. — Devia dar um pouco de paz pra pobrezinha, você perturbou a mente dela.

— Tá fodida. Se tem uma coisa que ela não vai ter comigo é paz.

Bom, não era verdade. Mas valeu à pena dizer aquilo para ver Patty balançando a cabeça negativamente, achando graça. A garota agradecia pelo fardo não ser dela.

E agradecia mais ainda por ela e Henrietta estarem se comunicando outra vez depois de tanto tempo. Seguia a considerando uma interessante amiga em potencial. Com isso e com Pete oficialmente disponível, Eric não lhe devia mais nada. Somente começava a se preocupar, pois a Nelson não via o gótico há alguns dias.

— Ei, Henrietta — Patty cumprimentou ao assisti-la se aproximar. — Se saiu muito bem. Tô feliz por você ter voltado, as líderes de torcida não te mereciam.

— Agradeço. — a gótica exibiu um sorriso discreto. — Foi mal de novo por ter saído antes. E, você sabe. Por ter te ignorado.

— Não esquenta. Esse aqui bate records em fazer merda — indicou Eric com o polegar. — Sei que nada disso partiu de você.

Indignado, Cartman chegou a pôr uma mão na cintura ao encarar as duas. Não era bem assim que ele se lembrava dos fatos. Pelo contrário: se lembra de ter dado o máximo para ser gentil com Henrietta mas primeiras interações. Passou por sua cabeça interferir e se posicionar, mas achava intrigante as duas se dando bem. Nada como um “inimigo” em comum para apaziguar as relações.

Ao fim do encontro, saíram devagar do auditório. Os demais membros do Clube se dispersavam, enquanto Patty, Henrietta e Eric seguiam caminhando juntos. No corredor, o rapaz com o violino pendurado ao ombro se sentia sobrando entre as duas, ouvindo-as conversar sobre música e planejando se encontrarem para um café feito duas senhoras.

De início, não entendeu por que as duas pararam no caminho. Ao avistar o amigo emo da gótica à frente, com as mãos nos bolsos e uma expressão serena, Cartman levantou uma sobrancelha.

Henrietta se recorda que Pete não esteve bem – ou, ao menos, foi a ideia que ele quis passar. Não tiveram qualquer contato desde que Eric decidiu se exibir aos seus amigos. No entanto, ao menos naquele momento, ele parecia ok. O suficiente para começar a se aproximar dela.

— E aí? — Henrietta o saudou, um tanto desajeitada. — Cê tá melhor?

A gótica ampliou os olhos quando Pete a envolveu num abraço. Perdida, permanecia estática. Eric e Patty, igualmente. Em todos esses anos como amigos, isso nunca lhes tinha acontecido.

— Parabéns, Etta. — Pete pronunciou lenta e honestamente. Referia-se, é claro, ao relacionamento iniciado. — Sei o quanto tudo isso significa. Tô feliz por você.

— ...Pete. — Henrietta deu dois tapinhas de consideração nas costas dele. — Não seja bicha.

O gótico emitiu um riso breve. Um fator em Henrietta podia ter mudado, mas a essência seguia a mesma. Teria se decepcionado caso a reação fosse outra. A soltou e se distanciou antes que apanhasse.

Por entre o espaço entre os dois, Eric viu a expressão de Patty. Não tão disfarçadamente, a garota olhava os dois góticos com um biquinho nos lábios. Assim que identificou que o olhar era mais direcionado ao Pete, e que aquele biquinho na verdade era um bico enciumado, entendeu tudo. Agora, Patty é quem ficaria lhe devendo.

— Ô, emo. — Cartman falou bem alto, se certificando que seria ouvido. — Minha amiga ali queria falar com você, é importante.

Ofendido e confuso, Pete procurou pela tal amiga, até pôr os olhos em Patty.

E a garota estava dividida. Não sabia se fulminava Eric com o olhar ou se oferecia ao gótico um sorriso nervoso. Para deixá-los a sós, o antissemita segurou Henrietta pelo pulso e começou a levá-la embora dali, contrariando sua vontade.

A partir dali, que Pete e Patty – “Uau, que combinação. Imagina o convite de casamento” o fã do nazismo pensava – se virassem. Depois do longo dia, Cartman também merecia ficar a sós com sua gótica.

* * *