Malaxophobia
40 Malaxofobia
“— Uau, Hen! — Karen, munindo um cigarro, reparava na outra de cima a baixo. — Você parece tão... Eu não sei. Radiante? Não conheço uma palavra trevosa equivalente.
— Transou. Certeza. — também fumando, Shelly tirou sarro. Reluzia em seus trajes de cybergoth.
Ao ouvir aquilo, Henrietta ficou gelada. Seu rosto não tinha expressão, exceto pelos olhos esboçando pânico.
A cybergoth abriu a boca num “O”.
— ...Eu não acredito. — agora, sorria de orelha a orelha. — Cartman te...!
— Marsh! — Henrietta a cortou. Tinha os dentes cerrados e o rosto quente, o olhar inquisidor e o sorrisinho de Karen a perfuravam.
Apoiando-se nos joelhos, Shelly se curvava. Gargalhava, incrédula pela informação que conseguiu sem querer. Tinha jogado verde e colhido maduro.”
A lembrança, depois de tantos anos, finalmente a fez sorrir. Shelly era um saco, mas foi – e continuava sendo, por mais que não se encontrassem com a mesma frequência – uma grande amiga.
Sentada à cômoda negra em que se maquiava, Henrietta ergueu os olhos para o espelho. Viu no reflexo seus olhos recém delineados, o batom num tom escuro de roxo nos lábios e os cabelos um tanto mais curtos do que costumava manter. Mas, mais do que isso: via os primeiros sinais de que agora era uma mulher madura, que completaria trinta anos em breve.
Estendeu a mão até um de seus perfumes, cercado por velas e outros objetos místicos. O aplicou no pescoço e, então, se levantou. Ajustou ao corpo o robe de cetim longo que usava, preto e estampado com pequenos morcegos vermelhos. O quarto ao redor – um closet – guardava sua longa coleção de roupas e botas ao estilo gótico, acumulada no passar do tempo.
Saiu do cômodo e percorreu um corredor. A sala de estar ampla do apartamento, considerado entre os de maior padrão do condado de San Miguel, no Colorado, demonstrava a personalidade dos moradores. Conseguia ser minimalista e moderno, ao mesmo tempo escuro e mórbido. Praticidade aconchegante e extravagância sombria, de alguma maneira perfeitamente combinados.
Como já ocorreu tantas vezes, os olhos dela pararam num grande quadro na parede, cercado por uma moldura negra colonial. Era a fotografia de um casal, alegre e em trajes elegantes. Ainda não superava que a mulher na imagem era ela mesma.
O vestido de casamento era negro. O buquê nas mãos era composto de flores mortas, e o tecido transparente nos braços expunha as muitas tatuagens até então adquiridas. Àquela época, tinha seus vinte e quatro anos. Henrietta instintivamente ergueu a mão olhou para a aliança em seu anelar esquerdo: de aço negro, adornada com crânios, rosas e uma ametista escura.
Henrietta Biggle Cartman; assim se chamava desde o contexto retratado no quadro. Mas, ao apresentar-se formal e profissionalmente, era simplesmente Henrietta Cartman. Ainda parecia loucura.
Nunca apreciou as convenções e conformismos envolvidos num casamento. Não se lembrava em que momento mudou de opinião. Talvez pelo bendito do seu marido ter implantado na sua mente durante anos a ideia de uma festa de casamento macabra, da decoração até as malditas lembrancinhas. Também poderia ser pelo pedido inusitado que recebeu e que se viu o incapaz de negar: estavam num show do Rammstein e ele achou uma ótima ideia propor durante a performance de “Te Quiero Puta”. Não sabia se na hora riu de felicidade ou nervoso, que cara insuportável.
Do aparador abaixo do quadro, se serviu de uma taça de vinho. Caminhou até o pequeno quarto extra que transformou em escritório. Contemplou os livros pela estante que ocupava uma parede inteira, o lustre vitoriano no teto, o tapete que costumava estar em seu quarto enquanto criança e adolescente e a paisagem de montanhas nevadas pela janela escurecida. Acendeu velas pelo cômodo e fechou as persianas antes de se sentar ao computador, em que teve o primeiro gole. Sentindo o sabor do álcool, o desejo por fumar veio no mesmo instante, quase sentia o odor do tabaco.
Sentiu um toque quente em seu ombro. A textura da mão que tão bem conhecia. Tocá-la de volta foi um gesto automático, encostar o rosto sobre ela foi inevitável.
Eric a virou na cadeira giratória para que pudessem se ver. Ao contrário dela, que estava à vontade, ele vestia um terno preto, camisa social vermelha, gravata amarela e sapatos sociais, todas peças de qualidade notável. A aliança em seu dedo era reta, tradicional, embora igualmente negra. Há alguns anos decidiu não ocultar mais a particularidade de um olho azul; um detalhe marcante é bom para os negócios, pois faz com que seja lembrado. Assim como a esposa, ganhou mais alguns quilos no passar dos anos, embora ainda continuasse com um porte atlético.
O cheiro de tabaco não tinha sido impressão. Eric tinha um cigarro Black aceso nos dedos. Tirou outro do maço, beijou a mulher nos lábios e o apoiou à boca alheia, acendendo-o em seguida com um isqueiro. Henrietta tragou alegremente; era desse tipo de cuidado que ela gostava.
O tempo sempre traz reviravoltas interessantes. Quem destruiu seu cigarro uma vez, declarou seu desprezo pelo tabagismo e procurou apoiá-la no propósito de parar de fumar, também fumava. As pressões do trabalho, das finanças, dos projetos, empurraram ambos por esse caminho. Sofia ficou desapontada quando soube, mas nenhum dos dois se importou. Uma das metas de Eric era se estabilizar tão bem financeiramente que, se precisassem, seria capaz de pagar por pulmões novos.
Com economias acumuladas durante toda a vida, Cartman foi capaz de abrir e chefiar uma agência de viagens. Podia não ser algo com que sempre sonhou, mas era um ramo identificado como lucrativo. Sua mente empreendedora era uma característica que carregava desde a infância, então o sucesso não foi tão inesperado. Ainda mais porque, desta vez, optou por não divulgar demais os seus planos e por entrar em sociedade com apenas um de seus amigos: Kenneth McCormick. O antigo pobre não tinha muito o que investir quando começaram, mas tinha a lábia necessária e foi de grande ajuda, isso ele precisava admitir.
Muitos poderiam se impressionar com a qualidade de vida do casal de gordinhos. Ambos costumavam ser subestimados nesse sentido; Henrietta, bem mais do que ele.
A gótica nunca foi alguém que demostrou ambição, pois realmente não a tinha. No entanto, depois da formatura em South Park High, contrariando expectativas, ela não esperou para agir. Se não tinha interesse em trabalho massivo, menos ainda em obedecer a um chefe, que ao menos fizesse algo que não a entediasse: começou buscando por fornecedores, depois iniciou vendas online de artigos religiosos e esotéricos. Honestamente, não acreditava em nada do que vendia, mas gostava de tudo como uma grande mitologia.
Nesse processo, Eric a apoiou no que precisasse, porém a gótica evitava essa ajuda sempre que possível; de acordo com ela, se um dia se separassem, não queria sentir como se devesse algo a ele. Isso o ofendeu, mas achou justo. Achou condizente que ela não pretendesse depender dele.
Mais recentemente, Henrietta redescobriu seu apreço pela escrita criativa. Publicou um e outro livro, respectivamente de poesias e contos de horror. Sua afinidade com a literatura gótica garantiu bastante apreciação pela crítica, embora não tivessem se tornado best-sellers e ainda não pudesse viver apenas disso. Abandonaria facilmente a venda de esotéricos para viver de direitos autorais e abrir a própria editora, e já iniciou as pesquisas para tornar ambos possíveis. No entanto, a princípio, está concentrada na escrita e conclusão do seu primeiro dark romance repleto de horror e ação sobre uma mulher verdadeiramente apavorada pela possibilidade de amar alguém, algo que mudaria lentamente durante seu convívio caótico com um caçador de vampiros. Qualquer semelhança com sua própria vida seria mera especulação. Seu maior problema, atualmente, era a decisão do título.
Quando a seu velho interesse em violinos e violoncelos, acabaram não passando de hobbies. Isso não a frustrava; era inconformista o bastante para entender que a vida não é sobre realizar todos os sonhos.
— Senti sua falta — Henrietta expelia a fumaça densa do cigarro. — Seu bastardo.
Eric sorriu. Segurava o cigarro entre os dentes.
— Doce como sempre. — se sentou confortavelmente numa cadeira à frente dela. — Você que não quis vir comigo. Essa conferência foi um porre, se você estivesse lá eu pelo menos poderia me distrair.
— Sua ideia de distração é me irritar até eu dizer chega. Que bom que não fui, tinha mais o que fazer.
— Estive pensando mais em passarmos as noites em hotéis aleatórios. — mostrou um olhar perverso. — Encher você seria a última coisa em que eu pensaria. Pelo menos, não desse jeito.
Henrietta sorriu sutilmente, as orelhas vermelhas. Talvez nunca se acostumasse o bastante a esse tipo de comentário.
— Aliás. — ela estendia a mão até a taça de vinho. — Naquela noite, antes de você ir. Você se comportou feito um animal selvagem, tive dificuldade em andar durante todo o dia seguinte. Isso me assustou. — trocou um olhar inexpressivo com ele. Um silêncio estranho no ar. — Quero que faça de novo.
Assimilando a frase, Cartman soltou uma risada incontida. A fumaça frágil do próprio cigarro se unia ao dela. Como sempre, sua Etta era engraçada ao próprio modo e só quando não tinha a intenção.
Estavam longe de ser um casal perfeito. Afinal, esse conceito não existe. Qualquer casal que se preze, por mais que se entenda, acaba entrando em atrito uma hora ou outra. A maneira como lidam com esses momentos é que define a longevidade da relação. E esses dois... Bem. Brigavam com certa frequência.
Entre os maiores motivos para isso se incluíam as falhas na comunicação, as disputas de ego e a habilidade inigualável que Eric tinha para irritá-la. Nesses casos, ou se resolviam numa discussão acalorada, ou conseguiam conversar com mais calma depois de uma sessão de sexo violento. O que parecesse mais conveniente.
No entanto, por serem parecidos, alinharem seus objetivos na maioria das vezes era bastante simples. Podiam não perceber, mas só faziam questão das brigas periódicas pois mantinham o fogo – ou pira olímpica – da relação bastante alto.
Os anos transformaram o que parecia impossível para a gótica se tornar sua rotina. Não estava apenas se relacionando: estava casada. Convivendo a dois. Era bizarro, porém algo com que se acostumou. Que aprendeu a aceitar.
Sua versão entre os nove e dezesseis anos sentiria desgosto ao vê-la. Porém, a garotinha ingênua, gordinha e excluída socialmente que morou em WaKeeney parecia saltitar e dar gritinhos alegres dentro dela sempre que abraçava e beijava o marido. Sempre que ele lhe dava a mão ou o braço para caminharem juntos. A cada refeição que compartilhavam, cada programação e viagem que faziam, sua criança interior ria inocentemente de satisfação.
Por dentro, conseguia ser a maior conformista de todas.
E a pergunta que não queria calar (isso para os pais da gótica, para a mãe de Eric e para algumas amizades inconvenientes dos dois): quando raios teriam filhos?
Assim que se casou, Henrietta percebeu que o senso comum associa o casamento ao ato de procriar. Isso a irritou de todas as formas. Se tivesse uma mente fraca, teria se deixado ser pressionada pelas cobranças feitas principalmente sobre ela – afinal, segundo os conformistas, uma mulher só é verdadeiramente feliz e completa depois de gerar uma criança.
Babaquice. Sempre foi completa, mesmo antes de Eric. Se relacionar e se casar eram um bônus, não o início da felicidade ou o meio para um fim.
A resposta para a tal pergunta era bastante simples: nenhum dos dois pensava nisso. Se importavam mais com suas carreiras, em levar uma vida confortável e ter seus luxos atendidos do que em se preocupar o tempo todo com um ser humano em desenvolvimento que dependeria deles 100% do tempo. No momento, mal tinham paciência com a gata idosa que circulava no apartamento e derrubava suas coisas, que dirá com um filho. Então, gerar seria uma escolha imprudente. Poderiam mudar de ideia algum dia, mas não tinham pressa alguma para isso.
* * *
À frente do Cheyenne Saloon, um bar de aparência retrô situado no centro comercial da cidade de Palatka, na Flórida, Henrietta estava de pé fumando um último cigarro. Vestida socialmente, acompanhava Eric em mais uma de suas viagens a negócios, e ao retornar do banheiro do bar encontrou o marido terminando seu whisky e dialogando com um homem ruivo que parecia conhecer de algum lugar.
Detestava quando os interrompiam para tratar de negócios durante seus momentos de pausa, mas nada podia fazer. Apenas continuou seu caminho até o lado de fora e, passando a aguardar por Eric para irem embora. Enquanto isso, se distraía fumando e rolando o feed do Instagram em seu celular. Detestava mídias sociais, mas eram úteis para o marketing.
De cara, viu fotos recentes de algumas amigas no Underground Cave. Estava, inclusive, presente em algumas delas. As visitas ao lugar estavam entre as vantagens de continuar morando no Colorado, embora há muito tenham deixado para trás a bizarrice e austeridade de South Park.
Depois – e isso trouxe um sorriso ao seu rosto – viu um registro da apresentação de Shelly e Michael no mesmo local. Intitulados como “The Creep Show”, decidiram ingressar juntos na carreira da música, apresentando-se em diferentes casas noturnas. Conseguiam viver bem disso, embora nunca fossem enriquecer ou se tornar populares por razões óbvias: a música gótica não é para todos os ouvidos. Ao menos o público-alvo apreciava bastante, eram um sucesso nesse meio.
Ao olhar mais atentamente a gravação, viu Firkle assumindo a bateria. Até onde sabia, ele não era parte da banda. O rapaz – agora um homem, e definitivamente não mais um “anão” – trabalhava como Bartender, não só no Underground Cave como em qualquer lugar onde seu trabalho fosse requisitado. Seu gosto pelas bebidas e a habilidade para combiná-las começou antes mesmo de alcançar a maioridade.
Por sinal, naquele período, o relacionamento de Firkle e Karen terminou. Foi lamentável à época, mas a essa altura os dois pareciam bem com isso.
Viu uma publicação de Patty Nelson. Na imagem, a apreciadora de música clássica segurava nos braços o seu segundo filho. Ambos tidos com o marido, com quem se casou muito antes de Henrietta e Eric terem a própria cerimônia.
Patty casou-se com Pete, seu antigo melhor amigo. Henrietta não falava com ele há anos. A última vez que o viu foi justamente em seu próprio casamento. Não que tivessem brigado ou escolhido cortarem laços: ainda no ensino médio, embora Pete dissesse que estava feliz por ela e por seu relacionamento, foram se distanciando aos poucos. Cada vez mais.
Ele já não tinha a mesma franja que costumava jogar, nem andava com as mesmas pessoas. Ainda era gótico, porém estar no mesmo grupo parecia irrelevante para ele.
Quando isso começou a acontecer, ninguém o entendeu, e ninguém implorou para que ficasse. Os jovens góticos de South Park julgaram só como o ciclo natural da vida, em que nem todas as amizades permanecem, sem se perguntarem se havia uma razão para tudo isso.
...Ah, sim. As publicações do amigo e sócio de Eric, Kenneth. Henrietta nunca se esqueceria de quando quase quebrou a mão dele – isso ainda a divertia, na verdade. Só que eram águas passadas: ela e Kenny tratavam-se de forma bastante cordial nas poucas vezes que acabavam no mesmo ambiente. Atuando na agência de viagens com o Melhor Amigo Eterno, Kenny estava bem distante da pobreza pela qual era conhecido. Usufruía de sua renda como sempre quis e proporcionava à irmã uma vida de patricinha. Karen não ficou muito tempo como gótica, aliás.
Kenneth, antes um solteirão desejado na área dos negócios, decepcionou muitas mulheres pelo país afora ao assumir publicamente um relacionamento com Tammy Warner. Sua última publicação se tratava de fotos numa viagem tropical com a namorada, com sol, praias de areia branca e água azul. Ninguém (além de Eric) imaginava que foi Tammy Warner quem demorou para assumi-lo.
Kenny a esperou por muito tempo. Esperou inclusive que ela finalizasse uma faculdade comunitária, que por si só durou dois anos, até revê-la. Depois de sua formatura, demorou mais de um ano para conseguir meramente beijá-la. Iniciarem um relacionamento real demorou um período que pareceu incontável. Se Tammy foi o seu karma, podia considerá-lo pago.
E, é claro: Bradley, o bostinha do seu irmão. Henrietta soube que Bradley têm crescido bastante na área de entretenimento infantil. As crianças amavam o Cereal de Frutas, amavam seus vídeos educativos idiotas e seu desenho animado, pediam brinquedos e pelúcias dele aos pais no Natal. A irmã não esperava menos dele, Bradley sempre lhe foi patético. Mas não podia dizer que não ficava orgulhosa por ele, ao menos sabia fazer dinheiro. Também corriam boatos de que começou a namorar alguém, mas não fazia ideia de quem era a “sortuda” – ou sortudo.
Coincidentemente, uma mensagem pipocou em sua tela. Continha duas simples palavras: “Olá, cunhadinha”.
Henrietta ergueu uma sobrancelha. A mensagem tinha sido enviada por uma tal de Jennifer Simons.
“...Nem fodendo.” pensou, fechando os olhos. O sobrenome foi familiar; abrir o perfil e concluir que era exatamente quem tinha pensado foi o fim.
Não se lembrava muito bem de sua breve rival do ensino médio: eram de grupos diferentes e ela se humilhava pelo ex, foi só o que veio à sua mente. Aos poucos, se lembrava das atitudes dela – como tê-la obrigado a se vestir com roupas apertadas e rebolar numa fantasia de vaca. Também se lembrou do que precisou fazer para tirá-la do seu pé.
Honestamente, Jenny Simons não foi tão relevante assim em sua trajetória de vida. Foi alguém que encontrou a pessoa errada para intimidar e acabou se ferrando. Se perguntava se ela inventaria de tentar virar sua amiguinha à essa altura do campeonato.
Distraiu-se do celular em sua mão ao receber um terno sobre seus ombros. A textura e o calor acumulado no tecido eram inconfundíveis, mas o cheiro era muito mais. A sensação nostálgica a fez sorrir. Se voltou para Eric, encontrando nele uma expressão interessante.
— Não vai adivinhar com quem eu estava falando. — ele dizia. — Se lembra do Kahl? Do colégio?
— O judeu moralista? Bem que o achei familiar. — lançou no chão a bituca gasta de cigarro e a pisoteou. — Você também não adivinharia quem me procurou. Bradley está namorando a sanguessuga.
— San...? — pausou para tentar se lembrar de alguém com essa alcunha. Arregalou um pouco os olhos ao compreender. — Puta merda, esse aí vai se foder.
— Acha que devíamos avisar o pobre coitado?
— Nah. Na minha vez, ninguém avisou.
Henrietta fez uma careta raivosa para ele. Poderia ser por ciúmes retroativo ou repulsa, não entendeu ao certo. De qualquer maneira, o divertiu. Ela tentou recuar quando ele a agarrou e beijou no rosto, mas não conseguiu. Independente de quem veio antes, era essa gótica ranzinza que ele amava.
Caminhavam juntos de volta ao escritório em que Eric esteve tratando de negociações e questões legais. Independente dos anos, o visual de Henrietta continuava atraindo olhares.
Assim como Henrietta expandiu seu círculo de amizades no passar do tempo, Eric também o fez. A maioria de seus amigos e colegas da infância e adolescência não se mantiveram, sequer sabia por onde andavam – foi o que houve com Kyle, por exemplo. Era de se esperar: nunca foi muito apreciado entre os antigos colegas, então não se limitou a eles. Tinha sua vida e novos convívios agora, isso não passava de uma parte da ordem natural. Honestamente, não podia se queixar de nada: tornar-se bem-sucedido em tantos sentidos foi a melhor resposta que poderia oferecer.
Foi a melhor resposta que pôde oferecer, inclusive, ao falecido pai que nunca verdadeiramente teve. Uma carreira estabelecida e um relacionamento ao qual era leal o deixavam anos luz à frente de Jack Tenorman.
Distraído com esses pensamentos, percebeu a cabeça de Henrietta tocando seu ombro e o braço dela em torno do seu. Ela também parecia pensar.
Tornar-se bem-sucedido. O significado disso pode variar conforme a perspectiva. Segurança financeira, uma casa, veículos próprios, tinham todas essas coisas. Mas o que exatamente define um relacionamento bem-sucedido?
Estar com alguém não é a definição de felicidade. Não é a única realização a se alcançar. Porém, Henrietta não podia negar que sua parceria romântica se tornou um dos pilares em sua vida. Era um pilar para ambos.
Talvez a preocupação com um possível e catastrófico fim fosse atormentá-la pelo resto dos seus dias. Mas correr esse risco foi a escolha que ela fez.
No fundo... Esse poderia ser um entre tantos fatores de influência para não desejar ter filhos. Se tudo tivesse que terminar, não desejava estar ligada a esse antissemita maldito para sempre.
— Ah, não. — a gótica se queixava por antecipação. As mãos esquerdas de ambos estavam assumindo movimentos involuntários.
Fosse como fosse, sendo um casamento duradouro ou não, o agora valia a pena. Henrietta Biggle e Eric Cartman, tão similares em tantos sentidos apesar das características próprias a cada um, eram a maior aventura um do outro.
* * *
No porão de uma casa decrépita, que antes foi o lar dos West em WaKeeney, no Kansas, um homem esguio com olheiras profundas sorria amargamente ao consultar seus computadores. Depois de tanto tempo, finalmente encontrou o verdadeiro responsável pelo assassinato de seus pais: um homem de negócios do Colorado, que vivia confortavelmente com sua esposa em seu apartamento de luxo enquanto ele sequer teve motivação para concluir o ensino superior.
As motivações de Eric Cartman para ter dizimado sua família não lhe importavam. O agradava que o desgraçado tivesse tudo: Howard desejava ver sua queda quando arrancasse item por item das mãos dele.
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