Malaxophobia

24 Ausência paterna


“Posso ver naquela gótica que é ela quem vai trazer seu ânimo de volta.”

No interior da garagem, Cartman desligava seu carro. Provavelmente, pela quarta vez nas últimas cinco horas.

Depois de tirar a chave da ignição, passou pesadamente a mão oposta pelos cabelos e pelo rosto. Se concentrar naquela frase, dita por Mitch semanas antes, tornava-se fácil no ambiente silencioso. Quem iria imaginar que o Cartman desanimado com relacionamentos de dias atrás se tornaria o Cartman motivado de hoje.

Tão fácil quanto se lembrar daquela frase era se lembrar do contexto. O penúltimo ano escolar se iniciava, South Park High seguia seu ritmo normal, a cidade permanecia numa calmaria que escondia o caos e uma garota que sumiu por vários anos retornava.

Sete anos. Isso era quase uma vida, passada bem longe de South Park. E quando apareceu, aquela tempestade sombria que chamou a atenção de muitos se mostrou um verdadeiro furacão.

“A partir de agora, eu não quero que você fale comigo. Não quero que olhe pra mim e nem que pense em mim. Você vai andar a, pelo menos, cinco metros de distância de mim e se ousar quebrar alguma regra eu juro que não quebro apenas sua mão mas também quebro a sua cara. [...] Espero que não esqueça das minhas condições, seu loirinho medíocre e conformista.”

Foi impossível não sorrir com isso. Kenny tinha se fodido no seu próprio jogo, seria trágico se não fosse cômico (ou deveria ser o contrário?). Agora que Cartman a conhecia bem, Kenny, Clyde e Craig terem entrado numa competição por ela mais parecia uma piada. Henrietta era bem mais do que algumas roupas pretas e um corpo que deixava muito para a imaginação, e para descobrir isso tiveram que testemunhar a sua ira.

E pensar que esse choque de grosseria oferecido ao Kenny, causando receio nos demais, foi justamente a centelha que faltava para despertar completamente a chama do interesse em Cartman.

“— Vai me dizer que não ficou interessado na personalidade forte daquela menina?”, assim disse Mitch.“— Ou naquele “corpinho” de deusa.

— Bem... Fiquei. Fiquei, sim. Mas só um pouquinho.”

“Um pouquinho”. Isso era a porra de um eufemismo, estava claramente fascinado. Já guardava boas memórias sobre ela, se lembrava da Henrietta Biggle de 10 anos de idade. Até de ter gostado dela secretamente por meses e meses antes que sumisse. Mas ele era uma criança. Eles eram crianças. E agora, nenhum dos dois era mais. Eric Cartman nunca tinha visto uma mulher com tanta presença.

Henrietta era... Impetuosa. Rigorosa. Poderia ser tanto uma lady quanto uma destruidora, tudo dependia de com quem ela precisaria lidar. Alguém que não se importa com reputação em pleno ensino médio, que não dá a mínima para ninguém e que pôs um pegador e a líder dos vampiros em seu devido lugar, que tipo de pessoa era aquela? Uma versão feminina e otimizada dele mesmo? Vai saber.

Mas se tivesse que destacar alguma diferença entre suas semelhanças, uma era bem significativa. “Um viado fez mal a ela e ela decidiu se inibir de relacionamentos, já eu namorei todas as vadias que me fizeram mal. Vai entender.”

Ele andou mesmo desinteressado em se relacionar. Desde Jenny Simons, foram duas tentativas de relacionamento frustradas; não existia motivação em continuar tentando relações estáveis tendo um abutre de presas falsas tentando estragá-las, assim como estava farto de tentar fazê-la deixá-lo seguir com sua vida. Não conseguiria dar cabo dela de um jeito mais extremo, e isso não era só por uma questão de respeito com o que já foi seu.

De todas as garotas que o rejeitaram e ele conseguiu se vingar com a conquista, Jenny tinha que ser logo a única que tentou mostrar alguma piedade no passado e que se jogou de um prédio por sua culpa?

Se há algo que Eric adquiriu com o amadurecimento, foi o senso de culpa. Pelo menos, quando lhe convém.

Talvez nada o impedisse caso em vez de namoros fixos ele tivesse dedicado seu tempo a “ficadas” casuais. Uma pena que não eram muito a sua praia. Quando se passa muito tempo sendo rejeitado pelas pessoas, há quem queira aproveitar aquelas que se interessam verdadeiramente por você ao máximo; este foi o seu caso. E, também, enxergava seus interesses românticos como uma boa refeição: por que apenas prová-la se você pode consumi-la por inteiro? Quem sabe, apreciar da mesma iguaria várias vezes, por bastante tempo? Pela vida toda, se tivesse sorte. É como ir a um restaurante e pedir sempre o mesmo prato, porque você sabe que é bom. O seu favorito.

Talvez a busca por um relacionamento estável fosse um ideal arcaico, mas o que ele poderia fazer? Não tinha culpa em ser um “inconformista” até nisso. E ainda que seus interesses românticos anteriores tenham conseguido aceitá-lo como é, nenhum o aceitou tão completamente e em essência como Henrietta aceitava. Definitivamente não.

Recolheu o quepe militar caído no banco ao lado. Riu internamente; talvez o título de “motorista particular” lhe caísse bem. Aquelas foram horas realmente bem gastas, não ligaria se fizesse isso mais vezes ou se tivesse durado um pouco mais.

E se soubesse que ter roubado um beijo depois do Casa Bonita a faria querer beijá-lo mais tarde... Teria ousado mais um pouquinho. Com todo o respeito possível à sua integridade, teria beijado Henrietta um pouco mais – e com um pouco menos de cuidado. O receio em acordá-la tinha se sobreposto às suas vontades, não sentiu ter aproveitado a oportunidade direito. Mas o beijo que tiveram minutos atrás... Francamente, tinha compensado. Na opinião mais direta ao seu alcance, que beijo bom do caralho.

Tinha sido mesmo o primeiro a beijá-la num sentido oficial? Considerava uma honra, para falar a verdade. Mas ainda não era o bastante. Ainda não estava saciado.

Não precisava pensar para saber que a queria. A queria de verdade, com toda a veemência e certeza. Bem quando esteve desmotivado a se envolver com outra pessoa, aquele conselheiro em forma de mão esquerda apareceu para encorajá-lo, por mais que também tivessem motivos pessoais envolvidos. Pesava-lhe assumir isso, mas estava grato ao Mitch por insistir tanto.

Henrietta era oficialmente a garota que mais conseguiu sua atenção. Mitch Conner esteve certo de novo.

— Eu disse que sei o que eu faço.

— Ah, puta que pariu — cobriu o rosto com a mão depois de conter um susto. Mitch estava lá, observando-o com seus olhos mal desenhados. A luva sem dedos que o confinava tinha sumido no tempo e espaço. — Isso lá é hora de decidir aparecer? 

— Te deixei em paz por um bom tempo, achei que estivesse com saudades. — piscou os olhinhos com sarcasmo. Agora a maldita mão mexia os olhos. 

— Na verdade, não. Inclusive já pode sumir por pelo menos mais 7 anos. Quando não está fazendo algo por mim você só atrapalha, já fez o seu papel aqui.

— Puta merda. Kerstin tinha razão, você e a garota gótica são uns mal-agradecidos.

Se empenhando para ignorá-lo, Cartman pôs a mão útil sob o banco, retirando o terno, o casaco vermelho e os tênis abandonados. Todos imundos, cheirando juntos a álcool, chocolate envelhecido e café ruim. Gostar de uma garota vigorosa tinha seu preço.

Saiu do carro carregando suas coisas. Uma brisa gelada entrou pelo portão aberto, assim como entrava a luz da tarde. A garagem não era das maiores, tanto que o carro de sua mãe ficava no quintal para conceder o espaço. Ao redor, ficavam apenas prateleiras com ferramentas, utensílios aleatórios pelo chão e caixas velhas guardando coisas inúteis. Uma pequena zona que ninguém naquela casa pretendia arrumar.

— Até sua mão esquerda tem uma namorada e você não. — Mitch acompanhava Cartman em seu andar. — Como se sente sobre isso?

— Não tenho, mas não por muito tempo. — jogou de qualquer jeito as roupas manchadas numa lavadora front load num canto da garagem, incluindo os tênis. — E vai se foder.

Agora, era esperar que a tecnologia unida a um alvejante decente fizesse algum milagre. Ao fechar a máquina sem muitas esperanças, desviou o foco das roupas no interior e viu seu reflexo no vidro. Toda a sua boca e ao redor, manchados por batom preto.

Teve um meio sorriso. Gostar de uma garota vigorosa, e gótica, também tinha disso. Sequer poderia chamar esse detalhe de “dificuldade”, talvez parte da graça se perdesse caso não existisse. Sua única certeza era que queria, e iria, repetir a dose no momento certo.

Mesmo que não quisesse, esfregou a boca com o pulso. Lamentável ter que se livrar da única evidência física do melhor beijo de sua vida até o momento, mas ainda teria que encarar sua mãe – e não saberia por onde começar a explicar. Somente ao terminar de limpar os vestígios de batom se deu conta de que o tinha feito justamente com o pulso ao qual Mitch estava ligado, porém ele não estava mais lá (além de sua luva de couro estar de volta). Fechou os olhos dois segundos, decidido a não questionar.

Reergueu-se e saiu da garagem preguiçosamente. Deparou-se com o gramado coberto de neve e se certificou de trancar devidamente o portão. Com a mochila agarrada ao ombro e apesar de bem aquecido em sua indumentária, agradeceu pelo conforto caloroso ao entrar na casa. Teve uma sensação de nostalgia conforme dava os primeiros passos pela sala de estar: uma cena que fazia parte de sua rotina desde a infância, tirando o fato de que sua mãe não estava no sofá ocupada com alguma leitura e ele não havia chegado de mau humor, batendo um dos pés para conseguir atenção e se queixar.

Antes que pudesse se perguntar onde sua mãe estava ou temer ter chegado no horário de atendimento a algum... “cliente”... Eric sentiu um cheiro agradável vindo da cozinha. Sem pensar duas vezes, foi até o lugar como se atraído por uma força magnética.

Visualizando o novo cômodo, conseguiu respostas para as duas questões. Liane Cartman estava sentada à mesa, concentrada, provavelmente pagando contas em seu celular; sobre o balcão e próxima à janela, esfriava uma torta de frango recém-saída do forno, com uma aparência e aroma de fazer qualquer americano se orgulhar. Mesmo tendo comido meio balde de KFC, ingerido uma boa porção de cookies e bebido um copo inteiro de café, um brilho passou pelos olhos de Cartman e sua boca salivou tanto que poderia transbordar.

— Olá, querido. Como foi na escola? — sem tirar os olhos do celular, a mulher usou de um tom doce costumeiro para cumprimentá-lo.

— Foi... Legal — deixou de lado o fato de ter matado todas as aulas. E tudo o que aconteceu depois. Foi de encontro à torta, tirando uma fatia ainda quente e a consumindo de forma afobada. Apesar de ter esperado por isso, teve que respirar fundo ao sentir a grandiosidade do sabor e falou com a boca cheia: — Para de fazer comida boa, porra. É por isso que eu continuo gordo.

A mulher apenas riu. Ficou tentada a perguntar se seu filho já tentou comer menos, mas conhecia muito bem o histórico dele e de sua família, além de reconhecer que ela própria o acostumou a comer do bom e do melhor com frequência. Também se acostumou à maneira dele de fazer elogios, eram cômicos de uma maneira bruta.

Escolhendo por deixar seus afazeres para depois, Liane bloqueou o celular e o descansou sobre a mesa. Virou o rosto para Eric apenas parcialmente, mas uma reação de choque a fez olhá-lo por completo.

Só então, Cartman se lembrou das roupas góticas que estava usando. Virou-se para ela ainda com a boca cheia e sujo de farelo, parando instantaneamente de mastigar.

Muito astuto em se livrar das evidências do beijo, mas como explicaria o traje? Sua preocupação se dissipou facilmente, pois sua mãe tinha se levantado e andado até ele com uma expressão radiante.

— Oh meu Deus, você está ótimo! — ajeitava os distintivos de cruz de ferro e a faixa ao redor do braço como se ele fosse uma criança prestes a ir ao colégio; tirando o detalhe de que, notavelmente, Eric estava muito mais alto que sua mãe para ser comparado a uma criança. — Por que as roupas? São parte de alguma fantasia? É pra algum projeto da escola, alguma festa...?

...Henrietta tinha razão. O apreço pelo nazismo estava em seu sangue.

— É um pouco mais complicado que isso. — envergonhado, Cartman teve um leve rubor no rosto.

— Algo que não pode me contar?

— Até posso, mas por enquanto prefiro não. — sorriu, determinado. — Te conto quando eu chegar ao fim disso. 

— É pra uma garota?

— Hã...

— Por favor, me diga que não é a Jenny Simons. Vocês já passaram por poucas e boas. Escute sua mãe: isso não vai dar certo, ela foi um amor no início mas estou cansada, quero que outra pessoa me chame de sogra.

— Mãe — divertindo-se um pouco, segurou o rosto dela entre as mãos para acalmá-la. — Não, não é a Jenny Simons.

— Ah, ok. — respirou, aliviada pelas cores de vampiro serem só coincidência. — Então imagino que seja alguém que saiba afastá-la de você.

— Você. Não faz. Ideia. — falou pausadamente, arregalando um pouco os olhos para passar confiança.

— Ótimo — viu-o afastar as mãos. — Quem aquela menina pensa que é pra tentar atrapalhar o meu bebê de ser feliz? Não gostei daquela sua namorada loira com os peitos enormes, mas gostei daquela ruiva que cozinhava bem, vocês poderiam ter tido futuro.

— Talvez sim, talvez não. — sorriu de canto. — Não importa agora. Estou bem com como as coisas estão.

De olhos iluminados e um semblante calmo, Liane Cartman também sorriu.

— Tem gente que entra na nossa vida e nos faz entender por que nada deu certo com ninguém antes, não é? — ajeitava o cabelo dele com os dedos. — Bom, vou me segurar. Espero que não demore pra me apresentá-la.

— Eu também espero. — riu por dentro. De suas cinco ex-namoradas, apenas com Jenny esteve por tempo o bastante para conseguir apresentar. Sua mãe parecia mesmo empolgada em mudar esse quadro. — Mas no fim das contas, não tô com tanta pressa. Às vezes demora pra se fazer um trabalho bem feito. — ingeriu a última mordida da fatia de torta, lambendo os dedos. Após uma olhada na pia, cheia do que foi usado para prepará-la, parou bem em frente. — Eu cuido disso. Sua cara ta acabada, deve ter passado a manhã inteira fazendo.

Assistindo-o tirar as luvas sem dedos e começar a mexer na pequena pilha de louça suja, Liane não pôde evitar a comoção. Cenas como essa já não eram mais raridade para a mãe solteira, mas ainda assim lhe causavam uma imensa felicidade.

Aceitando a colaboração de bom grado, a Cartman voltou a se sentar à mesa e cuidar das finanças. Ficaram em silêncio, vez ou outra com ela parando para analisar suas roupas e principalmente o longo sobretudo. Quando terminaram os afazeres quase simultaneamente, a mulher voltou a se levantar e ir na direção dele.

— Ainda acho tão estranho te ver me ajudando... — não pôde deixar de comentar. — Mas ainda vejo aquele garotinho que fazia o mundo “respeitar sua autoridade”.

— Ele ainda existe. — mostrou um meio sorriso. — Mas minha autoridade não pode ser maior do que a sua.

— Oh, querido... — pondo a cabeça sobre seu peito, Liane o surpreendeu num abraço. De olhos fechados, Eric não hesitou um segundo sequer para envolvê-la de volta.

Liane não se lembra quando e não sabia como; no rapaz que mimava incansavelmente e costumava considerar incorrigível, conseguiu tanto um filho quanto um amigo. Não era à toa que se sentia bem em presenteá-lo de vez em quando com um novo videogame ou em servir lanches quando seu Eric convidava alguns amigos: seu amadurecimento, sua astúcia para quando necessário, seu aparente sucesso em tê-lo criado sozinha, fazia seu filho enchê-la de orgulho.

Ela podia não saber quando e como isso começou, mas Cartman sabia. E ao olhar para baixo, encontrando entre os cabelos castanhos de sua mãe alguns fios brancos, conseguia se lembrar muito bem.

Alcançar o marco de doze anos de idade também significa os primeiros passos para a transição de uma criança a um adolescente. Um período em que Eric passou a se reconhecer. Onde começou a temer o fracasso social, a desejar melhoras para seu corpo, até incomodar as pessoas começava a perder parte da graça. Mas se há algo que o fez procurar por melhoras para seu temperamento nocivo, dentre outros aspectos menores, foi avistar em sua mãe um único fio de cabelo branco.

Afinal, apesar de ter uma aparência jovem e atraente e parecer tão de bem com a vida que por vezes soa ingênua, Liane Cartman já estava quase em seus 50 anos naquele período. Poderiam julgá-la por ser uma mãe solteira, por ser uma prostituta de luxo e ter um verdadeiro apreço por sua profissão, mas jamais poderiam julgá-la pela idade em que teve seu filho: numa época em que gravidez na adolescência já era um assunto banal, Liane teve seu primeiro e único filho aos 36 anos.

De todas as maldades às quais Eric já foi reconhecido, uma das maiores delas foi ter sido o pior filho possível para sua mãe; não queria se tornar mais um entre aqueles que só aprendem a valorizar a mãe ao presenciar sua morte. É muito fácil ser mimado e malcriado sem nunca ter passado pela dor da perda. Poderia ser um ponto de vista dramático, mas nada poderia negar os fatos: sua mãe estava envelhecendo, e ela só tinha a ele.

Se Liane o mimava e não era dura com ele quando preciso, pois em seu filho via seu único amigo, Eric faria questão de ser os dois. Uma consequência especial foi se tornar mais compreensivo para o lado feminino. Os 14 a 15 anos de idade dele falavam por si: passou por Wendy, por Patty, por Jenny e ainda deixou lembranças agradáveis. Se permitia vangloriar-se como seu ano de ouro.

Depois de uma hora ou mais de conversa agradável acompanhada de pratos limpos e boa comida, Cartman despediu-se dela com um beijo na testa e subiu as escadas até seu quarto. Vigiando-o da sala, Liane se perguntava: que garota em sã consciência faria ele se vestir feito nazista além dela mesma? Não a conhecia, mas já tinha a impressão de que gostava dela.

* * *

Como alguém que já se disfarçou de quase tudo na vida para os tipos mais absurdos de situações, retirar o traje gótico até agora parecia a mais difícil. Vesti-lo já tinha sido um saco, agora desfazer as amarras e fivelas meramente decorativas e desnecessárias estava sendo uma irritação. 

Finalmente liberto, Cartman jogou o sobretudo pesado na cadeira do computador, ficando com a camisa branca social, o colar de dog tag, a calça preta com o cinto de corrente e os coturnos. Olhando para as luvas de couro nas mãos (e pensando no fato de não poder usar seu casaco de sempre no dia de amanhã), esse visual mais despojado o dava algumas ideias.

Sentado à beira da cama e olhando para um ponto aleatório no quarto, teve o silêncio cortado por um som de notificação do seu celular. O tirou do bolso e riu discretamente ao ver uma mensagem que já esperava de Shelly. Em vez das 20 pratas que tinha prometido a ela pela ajuda, havia passado na casa dos Marsh e escondido sob o tapete 25.

“Você pagou o que prometeu e ainda deixou um extra, que porra é essa?”

“É uma recompensa por ter sido uma puta decente.”

“Tá, conta outra. Pra ter bancado o caridoso você está de bom humor, quê que acontecendo?”

Torcendo o lábio pensativamente, Cartman ruminava sobre como relataria o que aconteceu de forma a deixá-la impactada. Iniciou:

“Descobri o que se esconde aos fundos da Luv2Pain.”

“Meu Deus.”

“E digo mais. Beijar uma gótica é muito bom, o problema é o batom preto que fica depois.”

“MEU DEUS”

O rapaz controlava o riso segurando o celular. Dava pra imaginar perfeitamente a cara daquela hippie de cores neon, isso era impagável. Shelly era outra pessoa a qual ele tinha gratidão; não sabia qual tinha sido a reação de Henrietta para quando a cybergoth falou sobre ele, mas sentia que houve algum resultado. E esse resultado que não sabia envolvia o sentimento de ciúmes.

“Meu. Deus.

MEU DEUS.”

“Não banque a surpresa, até parece que você achou que eu não conseguiria.”

“Pior que não é questão disso. Agora há pouco o Michael me disse que ela tem problemas com relacionamentos, você sabia disso?”

“Vamos dizer que eu descobri.”

“Cara, tu é muito cagado.”

A conversa não se estendeu além disso, pois Shelly foi cuidar de seus próprios assuntos. Se ela soubesse o quanto ele já se esforçou e ainda vai se esforçar por Henrietta, estaria engolindo aquela palavra.

Já estava decidido para Cartman que neste dia não iria mais sair de casa. Tinha algumas coisas a planejar. Sabendo que existia alguém em específico carregando a culpa de Henrietta ter insegurança em envolvimentos românticos, seria praticamente como entrar numa caçada. Para os meios que pretendia usar, seria um pouco mais difícil executar seus planos sozinho, e para fazer direito precisava de alguém competente. Por sorte, conhecia alguém que aceita fazer literalmente qualquer coisa pelo valor certo.

“Aí ‘Kinny’, ta a fim de ganhar um dinheiro?” deslizou as palavras por seu smartphone. Enquanto aguardava pela resposta, iniciou uma pesquisa pelo YouTube. Começava a conhecer o vocal agressivo, a batida eletrônica e os brados em alemão de Nachtmahr.

* * *

“Senhoras e senhores, é um triste dia para os Denver Broncos!” sentindo uma incidência de luz solar irritante nos meus olhos, ouvi a narração do locutor de uma rádio esportiva de má qualidade. “Após quase 15 anos de serviço, o atacante da direita Jack Tenorman faleceu na última quinta-feira, dias antes dos jogos finais. Covardemente assassinado por um fazendeiro e com o corpo até então desaparecido, o Right Tackle conhecido como Fúria Vermelha será lembrado para sempre na história do futebol. E agora, os Denver Broncos preparam-se para homenageá-lo com um minuto de silêncio...”

De má vontade, abri os olhos puto da vida. Acordar com barulho no melhor do sono já é uma merda, mas acordar ouvindo isso é demais.

Olhei o pôr do sol através da janela de um muscle car. Os pinheiros cobertos de neve e as casas de South Park passavam. Só então me toquei que estava no banco traseiro de um carro em movimento, no lado direito e com o cinto de segurança apertando meu peito.

Também me senti pequeno demais pra altura que estou acostumado. Olhei pra baixo, vi meu casaco vermelho e minha calça marrom, as luvas amarelas nas minhas mãos e tateei a touca azul e amarela na minha cabeça. Meus pés nem mesmo tocavam o chão.

Então, isso é estar 10 anos de novo. Além de ser o mais gordo, eu também era o mais baixinho da turma. Pelo menos pra isso a genética de um jogador dos Denver Broncos hoje serve de alguma coisa.

“E começa a partida!” o locutor gritou de novo. Sem deixar de assistir a paisagem, senti a raiva subir pelo meu sangue. 

— Dá pra desligar essa porra desse rádio? — falei com minha voz de criança.

Não ouvi nenhuma resposta. Percebi uma mão nos bancos da frente se alongando até o rádio e o desligando. Já tinha percebido que não estava sozinho, só não tinha me dado ao trabalho de verificar quem mais estava aqui. 

Virei o rosto na direção de quem está dirigindo. Camisa social verde azulada com mangas dobradas, gravata preta, calça social e cabelo e bigode vermelhos. Rever essa pessoa não fez apenas minha raiva aumentar, como também fez crescer o meu nojo. Sempre soube que existia um bom motivo pra eu detestar os ruivos.

— E aí, pai. — sorri, ironicamente. — Seu filho da puta.

— E aí, filho — me respondeu com um tom irritante de tão bem-humorado. — Como foi na escola? Têm tirado boas notas?

— Volta pro inferno, seu merda.

Me fazendo desejar vê-lo morto, triturado e num prato de chilly de novo, ouvi a risada dele. Tranquila como se eu tivesse contado uma piada num almoço de família.

— Você me odeia mesmo, hein? — continuava a dirigir calmamente. — Até convenceu seus amigos a trocarem o futebol americano pelo baseball só pra não jogar o mesmo esporte que eu, isso que é dom pra odiar.

— Você cagou pra mim a vida toda e ia morrer de velho sem me deixar saber o que é ter pai. Queria o quê? Uma medalha?

Ficou um silêncio do caralho ali. Engoli uma vontade de chorar. Até estava me acostumando com o silêncio e em ter dado a última palavra, mas o babaca decidiu voltar a falar.

— Acho que você devia me agradecer. Quando crescer, você vai ter a altura e o potencial físico dignos de um Bronco, pense no sucesso que você vai fazer entre as garotas.

— Grande merda. Ainda bem que no resto eu só puxei a minha mãe, preferia me desfigurar do que ter a cara ou o cabelo igual ao seu.

— Mas você nem odeia mais os ruivos. Já pensou que fosse um e comandou uma legião deles, até vai ter uma namoradinha assim.

— Pois é... Acho que o meu problema é com os vampiros diurnos. — me referi exatamente ao que ele era: um ruivo sem sardas, de pele caucasiana livre das agressões do sol, com o cabelo vermelho feito a menstruação de uma puta. O tipo mais repulsivo de ruivo.

— Ter contribuído com a minha morte te faz sentir melhor, filho? — um ar sombrio tomou conta da voz dele. — Preenche o vazio no seu peito? Apaga as vezes em que você duvidou de si mesmo porque não teve ninguém pra te ensinar a ser homem? — senti algo suave se apoiar no meu ombro. — Te faz ser o suficiente pra ajudar aquela garotinha gótica a superar seus problemas?

Olhei para o lado. Henrietta está aqui. Também em seus 10 anos, com as roupas que eu me lembrava. Apoiava a cabeça no meu ombro, deixando o braço encostar no meu. Com um rosto cansado, olhava para a frente, assistindo o caminho. A mão dela estava junto da minha, apenas esperando que eu retribuísse.

— Acha que tratar as mulheres com respeito e ser presente pra elas vai te tornar melhor do que seu pai? — o filho da puta continuou. — Aos 16 você já contará cinco relacionamentos e não será capaz de manter nenhum, o que te leva a crer que isso te torna melhor? O que te leva a crer que com ela vai ser diferente?

— Você não sabe de nada — tremi com a raiva. O ódio era tanto que não conseguia formular outra resposta.

— Você vai ser incapaz de perceber a bagunça que está fazendo na cabeça dessa menina. Você só vai piorar o trauma que ela já tem quando tudo tiver que acabar, isso te deixa orgulhoso?

Nessa idade eu posso não ter sido reconhecido pela minha força, mas estava puto o bastante para mandá-lo pessoalmente de volta pro inferno. Quem esse otário pensava que era? Só esteve presente na minha vida quando fiz chilly dele e da esposa e nem vivo ele estava, agora quer deduzir coisas sobre mim?!

Então, eu entendi. Era a merda do sentimento de culpa tentando brincar com a minha mente. O sentimento da mágoa, da falta de um pai, enquanto todos os meus amigos tinham. De ter atuado na morte do meu próprio pai sem saber, porque o meio-irmão que nunca mais vi era um babaca.

E, na infância, precisei procurar meus próprios meios pra me defender, porque nunca tive pai pra me dizer o que fazer. Desenvolvi uma sensibilidade maior que a maioria dos garotos que tinham pai, brincava sozinho até mesmo com bonecas, às vezes me vestia de mulher. Mas nada disso tem relevância agora.

Apertei a mão da Henrietta na minha. Os dedos pálidos entre os meus. Tirando as garotas que eu quis dar o troco, nunca iniciei um relacionamento esperando que acabasse. Pelo contrário.

Não iria falhar com Henrietta. E isso não tinha nada a ver com Jack Tenorman.

— Sabe, pai — ouvi minha própria voz como a conheço hoje. Eu estava com minha aparência e roupas atuais. E Henrietta, também. — Agradeço por você não ter feito parte da minha vida. Só me mostrou que nunca precisei de você pra ser um homem.

— Ô, filho. Isso já não faz diferença pra mim. — virou o rosto lentamente na minha direção. — Eu já estou morto, mesmo...

No lado que antes eu não conseguia ver, um olho caía como se estivesse solto. Três trilhas de sangue escorriam sem parar pelo seu pescoço. A parte esquerda da face estava em carne viva, com pedaços cúbicos caindo, na textura exata de um chilly.

Ao acordar, a dor no corpo foi imediata. Cartman rangeu os dentes para suportar; o esforço de ter carregado Henrietta finalmente estava refletindo. Foi como ter saído de um treino e depois levado uma surra, mas faria tudo de novo.

Não era a primeira vez que tinha um pesadelo com o pai. Era o tipo de coisa que o acordava na infância e o fazia chorar, mas a parte do choro há muito tempo não acontecia mais. Só estava puto por ter acordado uma vez dentro do sonho e outra vez agora, no mínimo.

Afinal... O que era ser um homem? Se tornar um atleta e ter um filho não assumido de uma relação extraconjugal? Esse tipo de “masculinidade” ele não queria. Também pouco se importava com a ideia de masculinidade que a sociedade exige. Apenas... Lhe causava desconforto se lembrar que ele já se vestiu como garota algumas vezes quando criança, e deu mais suspeitas sobre sua sexualidade que qualquer outro garoto. Colocar o pênis de um colega na boca e ainda tirar uma foto ou enfiar hambúrgueres no reto pra vender não eram lá atitudes muito másculas. O pior é que isso nem era tudo.

Todas essas coisas o faziam se lembrar que nenhum pai imbecil apareceu pra dizer que isso era “errado”. Não foi à toa que recusou quando Henrietta se ofereceu para maquiá-lo como gótico: apenas isso trazia lembranças ruins. O envergonhava.

Bom... Isso não importava. Kenny mesmo, que já se vestiu e agiu como princesa numa brincadeira medieval, hoje é um pegador. Esse tipo de homem também não estava muito a fim de ser.

Pela escuridão no quarto, julgou ainda estar no meio da madrugada. Esfregou o rosto, pensando em olhar as horas no celular. Ao olhar na direção do objeto... Viu que seu celular já estava ocupado.

— Mitch — se esqueceu da lerdeza pós-sono e o chamou, sem paciência.

— Ah! — Mitch pôs-se à frente da tela, quase fazendo o celular cair.

— Que porra cê ta fazendo?

— Nada — soou tenso, ainda escondendo o que quer que fosse.

Agressivamente, Cartman tomou o celular dele com a mão contrária. Encolheu os olhos para suportar a luminosidade. Checando na tela o que tinha ali de tão sigiloso... Desejou desver o que foi visto. No mesmo aplicativo que conversava com Shelly e todos os outros amigos, com um número desconhecido, estavam tanto mensagens trocadas quanto fotos. E nestas fotos, a mão de Henrietta fazia o que deveriam ser poses sensuais.

Eric enviou um olhar reprovativo para Mitch, que permanecia estático. Pelo menos sua mão esquerda não trouxe outro ator milionário para masturbar em sua cama. A fim de escapar da situação, a manifestação na mão esquerda optou por sumir.

Permanecendo deitado, ficou encarando a tela com cara de quem estava pensando em tudo e ao mesmo tempo em nada. Se Mitch esteve se comunicando com Kerstin por esse número, significava que...

“Etta?” tentou uma mensagem para ver se ela estava por lá. As duas mãos terem encerrado a conversa de forma abrupta poderiam tê-la acordado, também.

...“É. Oi.” a resposta o fez questionar se não era a própria Kerstin digitando para enganá-lo, até ver a continuação: “O quê, por todas as camadas infernais, é isso que estou vendo no meu celular?”

É. Isso era bem ela, mesmo.

Uma pessoa normal, interessada por outra pessoa normal, provavelmente citaria o beijo que tiveram. Procuraria entrar numa conversa melosa e lamentaria pela garota ter ido embora sem dar satisfações, desrespeitando totalmente o acordo de amizade que teve com ela e seus traumas. Como não era o caso...

“Pergunta pra sua amiga sueca.

Já pensou em ser modelo de mãos? Belos dedos.”

“Vai se foder.” um sorrisinho brotou no rosto da gótica onde estava. Sabia que poderia contar com ele no sentindo de agir com normalidade. “Aí, lembrei de uma coisa. Estive vasculhando pela minha bolsa e adivinhe o que encontrei: incríveis 130 dólares. Exatamente o valor de todas as roupas Military Goth que te dei. Impressionante, não?”

“Achou mesmo que eu ia te deixar pagar as minhas roupas? Eu ainda sou o homem dessa relação. ;)”

“Enfia no cu os seus emojis.”

Eric sorriu. Como já imaginava, ela fingiu não ter visto o restante da frase, dava para sentir de longe o revirar de olhos e o suspiro de ódio. Enviou uma carinha triste só para irritá-la.

Também sabendo que ela tentaria ignorá-lo depois dessa, retomou a conversa:

“Com que nome devo salvar o seu contato?”

“Que tal ‘Mistress of the Dark’?”

“Não. Muito longo, vai ser Etta mesmo.”

“...

Vou salvar o seu como Nazista Escroto.”

“Era pra me ofender?”

“Supostamente.”

“Na verdade me sinto lisonjeado.”

...“Que tal Porco Nazista?”

“Aí tu me fode.”

Deitada em sua própria cama, foi a vez de Henrietta falhar miseravelmente em segurar o riso. Vamos dizer que ela também foi acordada de um sonho... Mas soube administrá-lo muito bem.

“Vai dormir, cara.”  Eric recebeu dela.

“Vai você.” respondeu.

“Ta.”  de modo seco, Henrietta preparou-se para realmente bloquear a tela e voltar pro sono.

“Não! Peraí, porra”

“Tchau. ^v^”

...“Que isso? Não tinha dito que odeia emoji?”

“Não é um emoji. É um morcego.”

Ao ler isso, Cartman foi obrigado a estapear a própria face. “Um morcego”. Pelo menos, isso era bem a cara dela. Por um minuto tinha pensado ser uma carinha feliz.

Então, Henrietta sumiu. O deixou sozinho de verdade. Etta sendo evasiva, checado. Eric só não spammou pontos até ter a atenção dela de volta (ou até forçá-la a desativar o som do celular) porque procuraria falar com ela pessoalmente mais tarde. No fim das contas, valeu muito à pena ter acordado às plenas 4 da manhã.

* * *

“White on white translucent, black capes

Back on the rack...

Bela Lugosi’s Dead”

Porra... De novo essa música, não...

Nada contra a música gótica em essência. Só gostei muito mais das amostras que tive da música industrial. Se bem que não parecia mais uma merda completa ao ouvir pela segunda vez, talvez só meia merda.

Acordei outra vez e ainda estava escuro. Pelo menos, a dor tinha sumido. Nenhum sinal do Mitch ter continuado a usar meu celular, o que era ótimo. Tirando que provavelmente acordei muito cedo, tudo parecia ir bem... Se não fosse pela música tocando abafada de algum lugar e um cheiro de fumaça de cigarro. Na verdade, não era só o cheiro. Eu tava inalando essa merda mesmo.

Me ergui na cama e tossi algumas vezes pra tentar respirar melhor. Meu cobertor tinha sumido, restando em mim só a camiseta e a bermuda aleatórias que uso pra dormir. Sentada num banco alto ao pé da cama, estava Henrietta, com as pernas cruzadas, olhando pra mim e segurando entre os dedos o suporte que encontrei para ela com um cigarro aceso.

O quarto estava fechado, então a fumaça se espalhou na porra toda. A sensação era quase de sufocamento. Ela deixava as cinzas caírem no chão, pouco se importando se isso é capaz de deixar qualquer um irritado.

Engraçado que nada disso parecia ter importância perto do quão sexy ela parecia me olhando daquele jeito.

— Ta fazendo o que aqui? — perguntei tranquilamente.

— Eu avisei que acenderia duzentos cigarros no seu quarto enquanto dorme. — levantou do chão uma caixa pesada e largou-a em cima da cama. Era uma caixa cheia de outras caixas menores, contendo maços de cigarro para distribuição comercial. — Faltam 199.

— Achei que ia acender, não que ia fumar todos.

— Hm. — tragou o que já estava queimando mais uma vez. — Detalhes.

Observei cada um dos seus movimentos. A forma como os lábios dela envolviam a ponta do suporte; como ela fechava os olhos para tragar o cigarro na extremidade, até soprar toda aquela merda tóxica no ar erguendo a cabeça. Posso não gostar de cigarros pela má experiência que tive com eles e por saber o mal que fazem, mas cenas como essa podiam torná-lo bem suportável. Vou sentir falta quando conseguir convencê-la a parar.

Ainda hipnotizado pela cena à minha frente, a vi tragar o cigarro por um tempo longo demais. Quando terminou, jogou todo aquele vapor demoníaco na minha direção, me atingindo tão rápido que chegou na minha cara feito um tapa.

— Henrietta, porra — virei o rosto pro outro lado, usando a mão pra afastar aquela desgraça da minha cara. — Quem engole fumaça é judeu.

Ouvi a risadinha discreta dela. Essa risada conseguia mesmo me balançar, principalmente quando era eu quem a causava. Se bem que nunca vi ela rindo por outro motivo.

Me deixando confuso, a vi apagar o cigarro (que nem pela metade estava) amassando a extremidade acesa no pé da cama. Etta desperdiçando um cigarro? Era bem estranho. Mais estranho ainda foi vê-la largando o suporte e se levantando.

Senti o peso dela afundar o colchão por onde ela se esgueirava. Vinha na minha direção apoiada nos joelhos e nas mãos. Meu corpo começou a reagir da mesma maneira quando beijei ela naquele carro, só que naquela circunstância a calça felizmente era grossa o suficiente pra disfarçar.

Com ela bem acima de mim, me permiti me deitar. Mantínhamos nossos olhares fixos. Conseguia respirar melhor conforme a fumaça pelo quarto ia se dissipando. Sem forças ou vontade de esperar mais, a agarrei pela nuca e a trouxe pra um beijo mais faminto que o último. Diferente da nossa primeira tentativa, ela retribuiu de imediato, devorando a minha boca na mesma intensidade.

Meu normal seria ficar por cima e dominá-la, mas decidi que dessa vez não. Depois de tudo, achei que eu merecia ser mimado um pouquinho.

Com Henrietta arranhando meu peito sob a camiseta, as passava as mãos por todo o seu corpo. Apertava aquela carne por sobre as roupas sem nenhum pudor. A textura daqueles lábios, aquele gosto, aquele cheiro de café e cigarros, o perfume que eu não conseguia descobrir com o que parecia...

Ela cheirava... Como uma loja esotérica. Daquelas de voodoo bravo, mesmo. Mas nela parecia muito bom. Chegava a parecer um crime.

Comparado ao sonho de antes... Acho que esse estava indo “um pouco” melhor.

* * *