Maktub

8 Mundo de cabeça para baixo


Um véu voava pelo deserto, ao longe uma pira de fogo exalava seu calor glorioso. Não tinha nuvem no céu, a areia não se movimentava, o silêncio era quebrado pelo choro de uma garota. Nunca entendi como funcionam os sentimentos, não chorei quando me levaram de minha mãe, mas no dia que Fadwa morreu, minhas lágrimas pareciam não ter fim.

A morte para aquelas pessoas era apenas uma passagem, algo normal, era o momento da pessoa prestar contas com seu criador.

Por semanas uma tristeza cobriu nossa tenda, não havia palavras para descrever aquela dor. Raafi passava horas pensando em formas de conseguir dinheiro para se casar com a filha de um comerciante. Mesmo assim ele não conseguiu lidar com a morte de Fadwa, decidiu que deveríamos deixar o acampamento. Fomos morar em Ibra “إبراء,”, uma cidade tão seca quanto o deserta.

Mudança não era algo que eu estava acostumada, a nossa nova casa era muito pequena e abafada, suas paredes de areia branca ficavam grudadas em outras casa, isso me trazia uma vaga lembrança do morro, onde casas se amontoavam umas sobre as outras.

Raafi conseguiu um emprego. Eu continuava com minha função de cuidar das cabras e buscar água. Ali não existia união, cada um cuidava de sua vida, e se não fosse pelo leite das cabras eu voltaria a sentir a dor da fome. Começava um tempo muito difícil em minha vida.

Tudo que estávamos passando tinha sido pela teimosia de Raafi de querer viver na cidade. Durante a noite eu escutava os bombardeios, sentia a terra tremer sob meus pés. Todos os dias eu sentia o cheiro da morte mais próximo de nós, a única coisa que me distraía era a companhia de uma menina muito nova.

Talvez ela tivesse dez ou doze anos eu nunca perguntei sua idade. Nos encontrávamos todos os dias para buscar água e ficávamos contando histórias uma para outra, era triste pensar que aquela criança já estava casada, executando funções de esposa.

Não tinha mais tempo para lutas infantis, aquela garota era minha única amiga, às vezes eu a ensinava os golpes que eu sabia. Hessa tinha traços tão gentis que combinavam com seus olhos

castanhos... Me pergunto o que leva as pessoas a roubarem a inocências de muitas crianças apenas para seguir uma tradição, mais ultrapassada que o tempo.

Certa vez quando ela não apareceu para buscar água eu fui vê-la, e conheci o monstro que ela chamava de marido. Ele não deixou que eu a visse, cheguei a pedir que Raafi conversa se com ele, mas ele insistiu que eu ficasse longe de confusão , pois naquela cidade não tínhamos amigos.

Meu espírito selvagem jamais se acostumaria a receber ordens ou muito menos ficar preso em gaiolas de areias. Muitas noites quando o silêncio reinava eu sentava na porta da casa contemplado a noite. Eram nessas horas que eu escutava os choros da pequena Hessa, não conseguia imaginar quais horrores ela poderia estar passando. Sempre amanhecia e eu via marcas roxas sobre sua pele, e quando perguntava ela se calava ou começava a chorar.

Foi em um fim de tarde, quando eu terminava de assar os pães, eu escutei seus gritos e sabia que ninguém ajudaria. As pessoas eram egoístas com suas próprias vidas miseráveis, caminhei pela rua de terra onde o esgoto escorria, então pude ver, ele segurando-a pelo cabelo, arrastando-a como se fosse um animal abatido, enquanto ela lutava e se debatia.

Dizem que a raiva é capaz de nos deixar cegos, e isso é pura verdade. Num instante eu via as pessoas caminhando como se nada estivesse acontecendo e no outro a única coisa que eu conseguia enxergar era minhas mãos se fechando e golpeando aquele homem. Depois de meses me sentindo vazia, uma onda de sentimentos tomou conta de mim, raiva e alegria brincavam pelo meu corpo estimulando cada músculo. Por favor, não fique pensando que eu sou uma super mulher que com sua força sobre- humana conseguiu derrubar um homem e salvou a pobre garotinha. Eu bati nele usando todo o meu conhecimento em luta, claro que isso era muito vago, e ele acertou um soco no meu abdomem, me deixando sem ar.

O sangue tinha aquele gosto de ferrugem com sal, a dor se espelhava por cada parte do meu corpo, ele continuava gritando insultos para mim, e cada vez que eu tentava levantar ele me chutava, não havia mais outro som a não ser daquele homem me batendo. Houve alguém, um homem de bom coração. Ele segurou o homem e o afastou de mim. Com dificuldade eu me levantei, e o vi pela cortina de sangue que cobria meu olho, estava ofegante e suado. Em um canto a pobre Hessa tremia assustada, e à nossa volta olhares acusadores me encaravam.

Enrolada no véu, eu fui levada para casa, todo meu corpo doía, e cada vez que tossia eu cuspia uma gosma vermelha. Ao ver meu reflexo no espelho via a gravidade de meu ato. Meu olho direito estava muito inchado com marcas vermelhas e roxas, meus lábios com um corte na parte inferior, as maçãs do rosto estavam com pequenos cortes.Pouco tempo depois Raafi entrava apavorado pela porta, estava acompanhado de seu sogro. Podia ver em seu rosto a preocupação e raiva se misturando. Devagar ele se aproximou de mim, colou a mão no meu rosto tocando os machucados, então a raiva o possuiu e senti o peso de sua mão. Fraca pela dor, eu caí.

Desde que Raafi tinha voltado da guerra ele tinha evitado me castigar por causa do laço de amizade, aquele tapa foi como levar mil chibatadas, doeu nas profundezas de minha alma. Eu poderia ter ficado no chão chorando, ou me rastejando até os pés de Raafi e implorado perdão e misericórdia, mas estava cansada de ser tratada daquela forma, como se não fosse nada, um ser insignificante. Ignorando as dores e o sangue escorrendo de minha boca eu me levantei, e encarei seus olhos.

—Sua cobra dos infernos, maldita a hora que você cruzou a porta de minha casa.

—Eu nunca pedi que sua mãe me compras-se

—Cale a boca sua imunda... Eu vou te jogar a o vento.

—Faça isso, assim eu poderei me livrar de você.

— Cospe na mão que te alimenta, essa é a recompensa por termos cuidado de você.

—Cuidado? Fui eu que cuidei de sua mãe enquanto você estava sendo mutilado na guerra, sou eu quem conseguiu o dinheiro que você tem hoje, seu turco nojento.

Não ponderar minhas palavras não foi algo muito inteligente, mas o que se pode fazer quando se está com raiva? A gente não pensa e as palavras saem voando de nossa boca como pássaros raivosos. Raafi veio para cima de mim, batendo meu corpo contra a parede, sua mão em meu pescoço, houve gritos e xingamentos e depois disso somente a escuridão.

No começo achei que tinha morrido, fiquei naquela escuridão esperando pelo criador, queria fazer tantas perguntas sobre mim, por que ele tinha me criado para sofrer tanto.

Senti um formigamento na ponta de meus dedos, depois uma pequena dor foi se espalhando pelo meu braço, até dominar o corpo inteiro. Quando abri meus olhos vi alguém próximo a minha cama, tinha uma vela acesa tão próxima de mim que senti o calor da chama.

Luloah noiva de Raafi, não tinha beleza alguma, talvez isso seja o fato de ela ser amarga como *ultruja. Tentei me levantar, cada extensão de meu corpo parecia ter sido mergulhada em cacos de vidro, mesmo eu não querendo gemidos saíam de meus lábios.

—Pare de fazer esse barulho, sua imprestável. – Tive que fazer o dobro de esforço para sentar-me na cama e fingir que não tinha escutado uma só palavra dita por aquela cobra.

Certa ironia chamar uma pessoa desprezível de cobra, pois esses animais não são cruéis como as pessoas pensam. Jamais vi uma cobra se vangloriar sobre alguém caído, ou atacar seus inimigos pelas costas. Nunca nenh uma cobra destilaria seu veneno sem precisar, elas apenas faziam aquilo para sobreviver, já os seres humanos envenenavam às vezes por simples prazer.

Eu não sabia quanto tempo tinha ficado desmaiada, em algumas partes de meu corpo alguém tinha colocado curativos, e também alguma pasta com cheiro forte. No outro cômodo da casa eu escutava Raafi conversando com alguém.

— O que pretende fazer com ela?

—Eu não sei! Vou conversar com ela primeiro, fazer ela mudar!

—Ela não vai mudar Raafi, não quero minha filha perto de uma...

—Senhor Rukan, ela não tem ninguém...

—Raafi entenda, ela não é sua família . Ela é uma *thralla, merece ser castigada, todos já estão falando que é ela quem manda em sua casa.

Naquele instante fiquei me imaginando como um animal prestes a ser abandonado. Mesmo com todos os anos de alegria, bastou apenas um pequeno desagrado para ser enxotada.

Notas finais
Eu sempre escutei os mais sábios dizerem “quem não compreende um olhar tampouco há de compreender uma longa explicação”, naquela noite, mesmo com todas as dores eu tentei faz entender que tratar uma pessoa daquela maneira era errado.