Maktub
3 Entre palavras evasivas a gente não consegue nada
Notas iniciais
Praticamente as aulas se resumiram em: aulas chatas e cochichos sobre a volta da Higurashi. Coisas de fofoqueiros. Gente que não tem o que fazer e que prefere cuidar da vida dos outros, ao invés de olharem para si. Esse era um dos motivos para eu não me aproximar mais do que o suficiente dessa gente.
O tédio era tão grande que divagar mentalmente por aí era muito mais interessante. Talvez eu devesse ir embora e procurasse algo para fazer, mas a preguiça de andar sempre será maior. Então, teria que ficar no tédio infinito e absoluto. Durante alguma aula, peguei uma folha, começando a rabiscar uma história qualquer – algo que eu fazia quando estava entediado. A criatividade costumava vir em um momento nada a ver. Era inacreditável, entretanto a conveniência é aceitável.
A distração fora tão grande que, para meu alívio, o sinal da pausa tocou. Metades dos alunos saíram e a outra formou uma rodinha entre a garota doida. Eles falavam como se não houvesse amanhã, ou simplesmente, como se fossem papagaios. Absurdamente irritante. Como se fosse a primeira vez que ela pisasse na escola para terem que fazer isso. Balancei a cabeça afastando quaisquer pensamentos sobre a roda da algazarra.
— Ei, Higurashi, aposto que você fingiu que estava doente só para não vir à aula. — escutei algum agaroto perguntar para a Bruxa. Sim, Bruxa pela simples fato de aparecer do nada para me assustar.
— Bem que eu queria, mas a pneumonia foi maior.
Franzi o cenho ao escutar a resposta da garota e a fitei; até onde eu sei pneumonia não causava vertigem. Tanto faz. Era hora de sair da sala ou teria que aguentar a perseguição de pessoas indesejáveis. E, definitivamente é algo que não quero aturar. Quando estava prestes a levantar, fui chamado por alguém e automaticamente olhei.
— Ei, Taisho, por que não se junta a nós? — o grupo da roda olhou para mim. Pensei em que tipo de resposta eu daria.
— Não, tenho mais o que fazer. — respondi, virando-me para a porta.
— Para alguém que ia matar aula acho que você não tem muitas coisas para fazer aqui. — para uma garota insolente, ela era bem afiada. Voltei-me para ela, colocando as mãos nos bolsos da calça.
Sorri cinicamente.
— Você pode achar, mas eu tenho certeza. Tanto aqui, quanto fora. — não precisava mais ficar, então sai. Para onde? Nem eu sabia.
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O alívio de sair daquele lugar era melhor do que o alivio de saber que você fugiu da morte. Pelo menos ao meu ver. Menos estresse, menos aborrecimento, menos tudo. Era o que eu pensava até chegar em casa. Por isso eu sustento a ideia de que nada é um mar de flores. E, de fato, não é. Ainda mais quando sua mãe te espera na sala para algo que era esperado; eu acho. Minha mãe estava sentada no sofá.
Era impossível não notar o jeito elegante como se portava. Digno de alguém da realeza. Tudo nela era tão bonito que tentava imaginar como meu pai conseguiu conquista-la pelo seu jeito frio, duro e cínico.
Pela expressão dela, tinha certeza que em alguns minutos estaríamos discutindo. Não que eu tenha uma relação complicada entre ela e eu, mas a insistência em querer que eu assuma os negócios familiares era aborrecedor. Eu não queria fazer. Existiam tantas pessoas para ficarem no meu lugar que nem me importava. Mas era difícil de eles entenderem.
— Inuyasha... — começou minha mãe, mas ela se auto interrompeu. Soltou um longo suspiro e depois continuou: — Teremos um jantar de negócios e você tem que ir junto.
Apenas suspirei, negando com a cabeça.
— Sesshoumaru pode ir em meu lugar. — respondi indo em direção as escadas.
— Ele estará ocupado, então você deve ir. Sem discutir. — retrucou. Podia notar que ela estava se controlando. Virei-me de volta para ela, encarando-a
— Não quero ir. Não vou, já disse isso.
— Você não está em posições de me contrariar, Inuyasha.
— Entenda uma coisa: eu não quero ir e não vou. — impus o mais apaticamente possível. Ela tinha o terrível hábito de querer controlar a vida dos outros. Ainda mais se for a vida dos filhos.
Ela suspirou pesadamente com sua expressão irritadiça.
— Você irá. É uma ordem ou aumentarei o tempo do seu castigo e ficará sem suas coisas.
Minha vontade era de fugir, de novo, mas tinha quase certeza de que não iria dar certo. Depois de alguns segundos em silêncio, dei as costas para ela e fui para o meu quarto. Mas sem deixar escutar um: “Esteja pronto às 7.”
Entrei no quarto, jogando minha mochila no chão. Queria quebrar alguma coisa, porém não havia como. Todos os empregados tiraram praticamente todas as coisas quebráveis do quarto. E isso era frustrante; ainda mais não poder descontar a raiva em alguma coisa. Suspirei, jogando-me sobre a cama e o observando o teto. Odiava quando me forçavam a fazer as coisas. Ainda mais quando envolvia negócios de família. Era completamente degradante.
Pior ainda era ficar sem nada para fazer até a hora de sair. Rolei para o lado e fechei os olhos para dormir.
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— Mestre Inuyasha, você precisa se arrumar direito. — suspirei, ignorando as falas de Totosai enquanto terminava de abotoar a camisa e, assim, dar um jeito de não usar a gravata. — Mestre, não se esqueça da gravata!
Revirei os olhos.
— Não vou usar. Quero um tempo de gravatas. — falei, saindo do quarto enquanto colocava o blazer e era seguindo pelo mordomo.
— Mas mestre Inuyasha...!
— Já disse que não!
Totosai reclamava de que chamariam sua atenção por não fazer o trabalho direito. Não liguei. Estava aborrecido demais para querer todo mundo controlando até as roupas que visto. Aos pés da escada avistei minha mãe. Toda bem vestida, já que a ocasião pedia. Seu cabelo loiro esbranquiçado estava em um meio termo de preso e solto. O vestido rosa escuro contrastava com a pele alva dela e o casaco cor de creme davam destaque ao colar de ouro pendurando várias pedrinhas de diamantes.
— Desculpe, senhor Inuyasha não quis usar a gravata. — disse o velho mordomo, fazendo uma rápida reverência para sua patroa, segurando a tal gravata.
Minha mãe veio em minha direção, ajeitando minha roupa.
— Tudo bem, ele também fica bonito assim. — disse ela, fazendo-me sorrir.
Talvez, só talvez ela tentasse aliviar minha irritação com seus comentários alegres. E, talvez, só talvez funcionasse um pouco.
— Todos bonitos, agora vamos. Ou chegaremos atrasados.Apesar da realeza nunca... — começou minha mãe.
— ... se atrasar, os outros que são apressados. — completei, demonstrando meu puro tédio.
Suspirei, balançando a cabeça.
Após alguns comentários sórdidos, fomos embora, Seguimos em silêncio. Até porque não havia nada para ser falado. Cada um seguia seus pensamentos. E eu bolava algo para quando minha mãe se distraísse e eu pudesse dar uma escapada. Nada fora do normal. Em pouco tempo só tinha que colocar o plano em prática. Era só esperar.
Quando chegamos ao local, o jogo de luzes era notável. Luzes coloridas fazendo um contraste com o ambiente moderno. Um recepcionista nos guiou pelo imenso tapete vermelho o qual nos levaria para o salão. O salão estava cheio; pessoas bem vestidas com seus trajes esporte fino conversavam sobre quase tudo, principalmente assuntos chatos ou fúteis. Isso era a vida da alta sociedade japonesa. Uma grande chatice participar dela. Enfim.
Pessoas que eu não conhecia vieram me cumprimentar e minha vontade era de manda-los para longe, porém fui obrigado a me conter. Às vezes acho que sou um bom ator, pois meu humor fingido era tão bem fingido que ninguém notava minha falta de vontade de ficar ali. Logo após toda aquela ladainha de “oi’s” arranjei um bom copo de álcool e fiquei em um canto, esperando a hora certa. O mais legal de tudo aquilo era imaginar que eu estava em uma missão, onde eu deveria observar certas pessoas e depois sair de fininho.
Ok, minha imaginação sempre foi fértil de mais. Tinha que parar com coisas assim.
Aproveitei que minha mãe estava ocupada demais conversando com suas rodas executivas para prestar atenção em minha pessoa e fui embora. Claro que ela iam ficar brava e tal, mas eu tinha que tirar uma casquinha da situação. Afinal, é sempre bom tirar aproveito da situação, não importa qual. Como não tinha minha moto e não podia pegar o carro, chamei um táxi. Mas logo em seguida parei. Para onde eu iria? Pensei por alguns minutos e lembrei-me de onde sempre vou, então fui para lá.
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Não sabia o quanto mastigar poderia doer tanto. E, a cada mastigada, era uma nova careta de dor. Minha mãe evitava me olhar com sua expressão de frieza, como se estivesse chateada com algo. Se bem que não era apenas uma impressão.
Um suspiro fora ouvido e minha mãe bateu os talheres com força sobre a mesa, fitando-me.
— Sinceramente não sei mais o que fazer com você, Inuyasha. — sua voz estava meio embargada, talvez segurando a irritação. Arina não era de chorar, se é que ela tinha glândulas lagrimais.
— Não precisa fazer nada. Mas aceito ser emancipado. — tentei sorrir, mas o que saiu foi um gemido de dor e outra careta.
— Você acha que apelar para a sobrinha do chefe sempre vai ajuda-lo? — indagou.
Ela riu. Mas foi uma risada debochada. Acho que ela havia entrado na fase de me dar gelo para ver se eu aprendia algo. Nunca funcionava.
— Mas nem sempre a Sango estará perto para salvá-lo quando for para a delegacia.
Revirei os olhos.
— Vou indo, tchau.
Peguei minhas coisas e fui para a escola — deixando-a falar sozinha; dessa vez, escoltado pelo motorista. Ter fugido do jantar e horas depois ter entrado em uma briga e depois ter ido para a delegacia não tinha ajudado nos meus dias de advertência. Muito provavelmente esses dias aumentariam. Não poderia fazer nada.
Quando cheguei à escola, metade dos alunos havia chegado. Ou pelo menos acho que essa quantia havia chegado. O bom foi que não teria uma multidão me olhando por ter chegado de motorista. Sai do carro e fui para minha sala, sentado no meu lugar de sempre. Juntei os braços sobre a mesa, abaixei a cabeça, para que ninguém me importunasse. Falar muito causa dor e essa era uma que eu queria evitar o máximo possível.
Existiam várias coisas boas. E uma delas seria o silêncio do telhado da escola e o suave vento. E também ninguém vinha aqui, exceto eu. Então podia ficar em paz, apenas tomando meu suco sem ninguém para me encher. Era isso que eu pensava antes da porta ser aberta e a garota-bruxa passar reto aos suspiros.
— Ai, pensei que nunca dariam um tempo. — reclamou sem me notar. — Gente insistente. Ainda bem que pude inventar uma desculpa.
Suspirou, escorando-se na barra de proteção.
Além de doida, falava sozinha. Talvez essa fosse minha deixa para ir embora sem que ela percebesse. Pelo menos essa era minha intenção, mas algo não queria que fosse assim. Ao apoiar minhas mãos para levantar, acabei amassando a caixinha de suco, que expirou em meu olho. E, claro, não foi um ato bem aceito por minha parte. Xinguei o quanto podia a caixinha enquanto meu olho ardia.
— Ei, você está bem?
— Por acaso eu pareço bem? — respondi, além dos olhos, senti uma pontada no maxilar e não pude conter um gemido e a outra não no local socado.
— A gente tenta ajudar a pessoa, mas ela prefere ser mal agradecida.
Abri levemente um olho, vendo-a agachada em minha frente como se tentasse entender algo.
— Toma, talvez ajude com seu olho. — disse, puxando um lenço do bolso do blazer e o colocou em minha mão. O coloquei em meu olho, limpando-o. — Agora não tenho nada pro seu roxo aí.
Revirei os olhos.
— Não precisa. Estou bem ass... Ai.
Ela riu da minha dor, sentando-se ao meu lado.
— Estou vendo que não precisa. Mas lembro de você não estar assim ontem. Bateram em você? — ela estava com uma expressão de quem imaginava o que tinha acontecido.
— E você não tem o que fazer, além de me interrogar? — disse rudemente para que ela desistisse e fosse embora, porém ela apenas sorriu.
— Já disse que você é muito evasivo? Se for pra tentar me expulsar, eu só vou quando estiver com vontade, então é melhor ser mais gentil. — ela ficou me fitando, sem tirar o sorriso do rosto.
— Você é extremamente irritante. Faça o que quiser, mas não me perturbe. — entreguei o lenço da garota.
— Isso é relativo. Até porque eu não sei o que seria perturbar para você. Em alguns casos, cada pessoa tem seu próprio conceito de palavra, sabia? Por mais que tenha um significado universal.
Suspirei. Ela havia me cansado pela lábia e, pelo visto, não teria como ganhar uma discussão contra ela. Então era melhor não tentar mais nenhum tipo de ataque verbal. Ou melhor, ficar quieto era a solução. Ela iria desistir e não iria falar mais nada. Uma boa tática.
— Aqui é tão calmo, não sabia que poderia ter um lugar assim por aqui. Aliás, as pessoas daqui são sempre tão grudentas? — a Higurashi olhava para a paisagem à frente e não pude evitar de soltar um sorriso de canto.
— Pode-se dizer que você é carne fresca, logo tem que esperar envelhecer.
Ela soltou um som de entendimento, e pelo que capitei por reflexo, um assentimento. Pelo tempo em que ela ficou em silêncio, parecia que a conversa tinha sido por encerrada. Era um bom sinal, não teria que ficar conversando e eu poderia ficar na minha sem perturbações. Encostei minha cabeça na parede e fechei os olhos, aproveitando a brisa da primavera. Não sei quanto tempo passou, mas não foi muito.
— As pessoas daqui são legais? — perguntou ela do nada.
— Não sei, sou a pior pessoa para responder. Então saia daqui e vá conhecer pessoas e faça amizades. — respondi sem muita vontade.
— E por que você também não faz isso?
— Não é do meu interesse.
Provavelmente ela iria responder, mas o sinal fora mais rápido, indicando o término do almoço. Abri os olhos, fitando o céu.
— Hora de ir ou vai chegar atrasada na sala. — ao olhá-la ela fez uma careta e se levantou e me mostrou a língua.
— Você é chato. Enfim, vou na frente. — ela virou as costas e foi embora, rápido até demais.
Dei de ombros.
— Infantil. — revirei os olhos ao notar que a doença de falar sozinho pegava.
Minutos depois desci do terraço e fui para a sala. Ela estava cheia, mas sem a Higurashi em nenhum canto da sala. Estranhei. Ela tinha descido primeiro, então deveria ter chegado primeiro. Deixei de lado, não precisava me importar. Só levava em consideração que ela voltou depois que aquele horário terminou. Seu rosto estava meio pálido, mas apenas fiquei quieto.
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