Maktub
1 Terças
Notas iniciais
Nós somos jovens demais pra morrer, e jovens demais pra viver. Então a gente fica nesse meio termo achando que já é bom o suficiente.
A gente só esquece que só quem deve ser rotulado é garrafa de cerveja.
- Terças
Amanheceu ás 6:30 da manhã e terça. O sol invadiu meu quarto e me tirou daquele meio termo entre dormir e ficar acordado, minha camisa azul rasgada mudou de cor com a claridade do sol. Me levantei da poltrona, acendi um cigarro e abri as persianas pra receber aquele calor; não gosto muito do sol até porque a lua é mais atraente. Mas eu precisava daquilo, daquele calor, daquela luz.
Ouvi uns latidos e uns passinhos rápidos no corredor.
- Hades! Vem cá garotão! – meu pug preto de olhos esbugalhados pulou em mim, me enchendo de lambidas. Eu o segurei pela “cintura” e levantei no ar – Quem é o garotão do pai? Hein?
Nota: preciso descobrir porque nos portamos como retardados perto de cachorros.
- Vamos Hades, quer tomar café? – levantei, soltei ele no chão e chamando-o fui pra cozinha.
As cortinas da cozinha estavam fechadas. Pensei em abri-las, vacilei, e não abri. As sombras são bem melhores.
Abri a geladeira, meio vazia, coisa de gente solteira e sozinha como eu. Achei a lata de carne enlatada do Hades, peguei e vi que estava vazia.
- Droga Hades! Sua comida acabou, vou ter que comprar mais.. Você não se importa de comer um pedaço do meu café só hoje né? Depois eu saio pra comprar, eu juro... – Hades era um cachorro extremamente inteligente, ele entendia o que eu dizia e ainda fazia chantagens emocionais com seus grandes olhos pra conseguir o que queria. – Ok, eu vou lá agora!
Saí da cozinha batendo os pés em direção ao quarto. Ele ainda estava cheio de luz e eu já não conseguia suportar aquilo. Fechei as persianas, botei uma calça, uma camisa velha com uma estampa dos Insanes, (uma banda meio antiga de rock que já tinha se desfeito há muito tempo, depois do vocalista e o guitarrista se suicidarem pulando de uma ponte em San Francisco, após um de seus melhores shows), peguei a carteira, o celular e meus óculos de sol em cima do criado-mudo. Nessa hora Hades chegou e latiu pra mim, como se satisfeito do trabalho de me convencer. Mostrei a língua pra ele e saí do quarto, peguei a chave dependurada um gancho do lado da porta. Calcei meu tênis branco e gritei da porta:
- Vê se se comporta ok? Eu já volto, ô mimadinho! – Abri a porta e saí.
Peguei o elevador e apertei o botão do térreo. Ele ainda fazia aquele barulho estranho que me lembrava de filmes de terror. Aquilo já tinha me fortalecido muitas vezes, quando eu subia ou descia com alguma garota meio medrosa.
- Oi seu Jaime! – o porteiro estava sentado na sua cadeira de sempre, eu gostava dele.
- Bom dia seu Diego! Vai tomar café fora?
- Comprar a comida do Hades seu Jaime, ele não fica sem. Bom dia!
A rua estava meio vazia, olhei pro relógio do celular, 7:17 da manhã. Coloquei os óculos e saí pela esquina do meu prédio. Minha barriga começou a roncar e ainda faltava um tempo pra chegar ao mercado. Continuei andando mesmo assim, era melhor resolver tudo antes e ir comer em casa, as padarias do bairro não são muito boas.
Vi a placa do mercado, á em cima, colada em um poste e vi que só faltavam duas ruas pra chegar lá. Peguei o celular pra ver a hora e de repente senti um trombada, um monte de papéis e pastas caindo no chão e ao levantar a cabeça, uma linda garota.
Ela tinha os cabelos negros, cacheados e a pele branca como aquelas flores, damas da noite sabe? Os olhos eram castanhos claros na luz do sol e provavelmente escuros na sombra. Uma das mechas do seu cabelo muito escuro era verde e estava trançada e fazendo um arco na sua cabeça.
Ela abaixou pra pegar as folhas e enquanto pegava tudo levantou a cabeça pra mim, que ainda estava de pé.
- Hm... Oi?
- Ah, desculpa – me abaixei e comecei a ajuda-la – Oi – sorri meio sem jeito e ela sorriu, de verdade, se divertindo com minha vergonha.
- Meu nome é Sol, só Sol mesmo, não é abreviação de Solange ok?
- Tá, ok – eu ri – Meu nome é Diego. Desculpa derrubar suas coisas, fui eu né?
- Não, eu tava olhando meu celular e trombei com você, desculpa...
- Eu também tava olhando o celular – Nós dois levantamos cheio de folhas embaralhadas e pastas azuis e pretas nas mãos. – Olha suas coisas – entreguei tudo pra ela.
- Ahn, valeu. – ela sorriu meio atrapalhada com as coisas nas mãos. Quando ela levantou as pastas atrás da bolsa que estava de lado no corpo eu finalmente pude reparar o que ela vestia.
Era uma blusa azul, com a estampa dos Insanes de 1988, e tinha uns óculos quase iguais ao meu dependurado na gola. Ela usava uma daquelas calças coladas, legging eu acho, preta e tinha um casaco de flanela azul quadriculado amarrado na cintura. Usava um tênis preto, igual ao meu branco só que feminino e no pé esquerdo uma tornozeleira, simples, mas bonita demais, com um pequeno crucifixo.
- Você curte os Insanes? – El levantou a cabeça, estava olhando o celular, e olhou pra mim de baixo pra cima, até que viu minha camisa.
- Eu não acredito! Claro que curto, eu sou muito fã! Tu também é né? Essa camisa... 1985 né?
- Aham, e a sua é de 1988 né?
- Aham! – ela sorria muito e os olhos brilhavam – Sabe, eu não conheço ninguém que curta Insanes, é legal ver alguém com bom gosto finalmente!
- Eu também nunca conheci alguém que gostasse. Você é a primeira. Ahn, pra onde tu tá indo?
- Pra minha casa. Eu dormi numa amiga minha, pra fazer uns trabalhos da faculdade. Eu moro ali, naquele prédio azul escuro, cor de mar sacas?
- Qual? Aquele terceiro ali?
- Ele mesmo. E você?
- Ah, eu moro em outra rua e... – ela me interrompeu
- Não! Pra onde você tá indo? – o sorriso dela era lindo, os dentes brancos possuíam um aparelho de borrachinhas verdes escuro.
- No mercado, comprar comida enlatada pro meu cachorro.
- Você tem um? Que raça?
- Pug. Você tem cachorro?
- Não, o prédio que eu moro proíbe qualquer animal.
- Nossa, é uma pena! Então, eu tenho que ir...
- Ah... Ok então. A gente se esbarra por aí – Ela sorriu forçada, como se não quisesse ir e se sentisse triste por isso. Ela me acenou e saiu andando, eu continuei meu caminho até que ouvi passos de alguém correndo e um grito:
- Diego! Espera! – Ela estava vindo na minha direção, correndo e ofegante, ela não era muito magra então isso devia explicar o cansaço. – Me dá seu número, e-mail, sei lá? É meio estranho, mas eu sinto que preciso falar muito com você ainda e esperar o destino colocar a gente frente a frente não vai ajudar muito sabe?
- Ahn, tá então. Anota meu número: 997534174
- Pronto, valeu! Agora é tchau, de verdade! – Ela riu de novo, o sorriso dela me alucinava e me deixava fora do ar.
- Tchau Sol... – Enquanto dizia isso, vi ela virar a esquina.
- Comida enlatada
Entrei no mercado e fui em direção do corredor com todas aquelas coisas pros animais de estimação.
Eu não conseguia esquecer aquela garota. Nunca tinha sentido tanta vontade de ver alguém outra vez, sentir alguém, ouvir alguém. Eu precisava daquela garota comigo, coo se dependesse dela pra respirar.
Continuei andando pelo corredor até chegar ao final, e nada da comida do meu cachorro. Um desses caras que trabalha arrumando as prateleiras dos mercados estava perto de mim e eu decidi perguntar pra ele, minha barriga roncava e eu tinha certeza que o Hades estava raspando a porta da geladeira atrás de comida. Graças á essa mania dele eu já tinha colocado adesivo na porta da geladeira pra disfarçar o arranhado e trocado o adesivo umas três vezes.
- Oi, então, eu procurei por aqui e como não achei. Será que vocês tem comida enlatada Kamen? – Falei pro cara que estava abaixado arrumando uns pacotes de ração pra gato
- Hey! Temos sim cara! Tá vendo aquela pilha de latas, do outro lado do mercado? É que tá em promoção e pras pessoas verem melhor a gente faz uma pilha enorme perto da porta ou de algum outro produto que todo mundo compra.
O cara era ruivo e tinha os olhos verdes escuros, com um brilho diferente. O rosto era cheio de sardas e tinha o corpo magrelo. Vestia o uniforme do mercado, com uma calça jeans e um boné do Bulls na cabeça.
- AH tá, valeu cara! Até mais! – Me despedi dele, ele tinha sido bem simpático comigo, e eu desejei ver ele por ali mais vezes.
Fui até a pilha de latas e como estava na promoção peguei três. Fui até o caixa 3 do mercado e uma moça carrancuda de queixo largo me atendeu:
- Mais alguma coisa senhor? – sua voz era enjoada, como se tivesse nojo de alguma coisa e os dentes amarelos, provavelmente de fumar, estavam sujos com alguma coisa verde.
- Não... valeu. Boa tarde – minha barriga roncou.
Saí do mercado e depois de um tempo cheguei em casa. Passei o caminho todo pensando naquela garota branquela do cabelo preto, Sol. Não combinava muito com ela, apesar de ela carregar um tipo de luz própria.
Notas finais
Beijos! ;)
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