Making Angels
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Wade rabiscou o nome em letras garrafais e disformes em cima do desenho – este, tão bem feito quanto o próprio nome e, colocou na mochilinha vermelha. A única coisa que conseguira trazer de casa depois que o pai ficara doente.
O desenho, contemplou satisfeito, mostrava um mal feito quarto de hospital onde o pai deitava pedindo por comida descente e ele mesmo – um borro vermelho e preto – entrava de fininho no quarto, vestido de ninja, com dúzias de salgadinhos – que se resumiam a borrões amarelos no meio dos riscos azuis do quarto.
E ainda assim, era perfeito.
- TIA ANA! – ele saudou com um berro, puxando a mochila consigo. – Tá na hora de ’vixitar o papai! Pegou o ‘ianche dele? – perguntou apressado, engolindo as letras.
Ana coçou a garganta e encarou o menino, o sorriso imenso onde os dentes levemente separados se destacavam iluminando o rosto bronzeado, o olhos verdes quase duas vezes maiores do que deveriam ser, truque para mimos.
Quando a mãe havia morrido? Não sabia. Os rabiscos sempre ilustravam o garoto e o pai, apenas isso.
O mundo inteiro. Desfeito.
- Nós não vamos visitar o papai hoje, Wade. – informou num tom condescendente.
O menino fechou o sorriso, parou de arregalar os olhos, fez bico. Cruzou os braços. Pedaço de coisa teimosa.
- Por que? – inquiriu.
- Porque nós temos de visitar outra pessoa hoje. – explicou.
- Eu num ‘queio. Vamos ver o papai. – o garoto empinou o nariz e apontou na suposta direção onde devia estar o pai.
Ana suspirou.
- Olha, bebê. Nós temos de ver outra pessoa, porque agora o papai não está mais lá no hospital, tá? – Wade sorriu, animado.
- Papai tá em casa? VAMOS PLA CASA! – se jogou em Ana gargalhando.
- Não bê, papai não mora mais aqui. – Wade a encarou em dúvida. – Ele foi morar longe e, agora você vai morar com uma pessoa nova. Vamos visitar ela, que tal?
O garoto bateu o pé, negou com a cabeça. Ameaçou o inicio de um ataque.
- Não. Eu vou morar com o papai.
A mulher se apoiou na parede e respirou fundo. Por isso odiava aquele emprego.
- Você não pode ir morar com o seu pai. – abaixou o tom como se fosse contar um segredo.- O lugar para onde ele foi, só deixa entrar gente muuuuiiiitooo velhinha. Ou bem dodói.
Wade arqueou as sobrancelhas.
- Liga pro papai e diz pr’ele voltar. – concluiu.
- Não pode. Lá não tem telefone.- o moreninho ameaçou iniciar um ataque novamente, Ana suspirou resignada.- Olha Wade, papai foi morar lá com os anjos e Deus. E um dia, quando você for velho , bem velho, você vai ficar com ele. Mas, agora você tem de ficar com essa pessoa especial que seu pai escolheu pra você.
Wade se calou. E depois acenou, sem entender. Ele ia ficar com o pai quando fosse um menino maior.
- Eu vou ficar com você, tia Ana? Só até crescer , né? – Ana soltou o ar preso e agradeceu aos céus.
- Não bebê, vai ser com essa pessoa que seu pai escolheu. Era alguém muito especial para ele, era sua tia. Irmã do seu pai, não é legal? – perguntou.
- Eu não tenho tia.
- Tem sim. Só não conhece.
- Por que?
- Porque...- Ana tomou fôlego. – Sua titia é uma pessoa SUPEEER especial, e ela ama muito você, mas tem um trabalho importante e nunca pode vir aqui.
Wade esticou os olhos, o rosto iluminou.
- O que ela faz? É que nem o papai? Lá onde a gente dodói fica? – atirou as perguntas.
- Não. O seu papai convencia as pessoas a não irem morar onde ele foi, porque ele curava os dodóis e elas não pensavam mais em ir. – explicou. – A sua titia acha o endereço das pessoas que já foram morar lá e pergunta pra elas o porquê, e aí, ela volta e diz pras famílias tudo o que sabe. Assim eles sabem onde as pessoas estão e porque, e podem continuar vivendo sem preocupações.
Wade sorriu: ia ver a tia e ela sabia onde estava o pai. Ela podia mandar ele voltar.
- ‘Tá certo. Vamos ver a titia.
Ana balançou a cabeça.
- Não agora, a tia mora longe e agente tem de ver os papéis para ir. Então só depois de amanhã, tá?
- Tá. – colocou a mochila de volta no chão e procurou os lápis. – Tia Ana, qual o nome da minha tia?
- Vai fazer um desenho pra ela?
- É... Um grande e bonito.
- O nome dela é Sara, bebê. S-A-R-A.
Wade espalhou as canetas coloridas e os lápis no chão e puxou uma das folhas em branco do centro da sala. S-A-R-A.
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“ A menina balançou os pés e encarou o relógio. Atrasado. Atrasado. Atrasado. O coelho corria com o relógio na mão: atrasado, atrasado, atrasado e mil vezes atrasado. E pulou no buraco. E ela o seguiu, sem tempo, sem hora, sem advento. Era pequena, e depois muito grande, era boa e depois criminosa. Era folha, era hora, era passo sem espaço. E o relógio continuava atrasado.
Bateu os pés com força no chão.
- Cadê o Aiden, tia? – perguntou com a maior seriedade permitida a crianças de seis anos e poucos.
A mulher sentada a sua frente suspirou, uma baixinha atarracada, com óculos fundo de garrafa e os cabelos castanhos presos num firme coque.
- Eu não sei quem é Aiden. – respondeu impaciente.
- Meu irmão. – a menor concluiu num tom óbvio. – Ele vem me buscar no hospital que eu já ‘tou boa. Viu?
A mulher suspirou e revirou as folhas da pasta arquivo nas mãos.
- É, eu já vi. – a menina, morena com os cabelos agora forçadamente lisos, encarou a passa curiosa. – Mas seu irmão não pode vir te buscar.
- Pode sim. – retrucou.
- Não, ele não pode. – a mulher respondeu simplesmente e ajeitou o casaco marrom sobre os ombros.
- E a minha mãe, cadê?- indagou.
- No hospital. – Sara correu a sala de espera com os olhos e quase sorrindo.
- Aqui? Onde?
- Não, no hospital de gente doida. – a mulher mirou Sara com os olhos e se endireitou no banco. – Você lembra do que a sua mãe fez, menina?
- Sara. – a garota respondeu, congelando dentro dos próprios sapatos.
- O que?- a mais velha a encarou confusa.
- Meu nome não é menina. É Sara Jordan. Sara. – tomou fôlego. – S-A-R-A. Sa – ra.
- Ok, eu entendi. – estreitou os olhos. – a SA–RA sabe soletrar. – espreguiçou-se. – Mas nem a mãe , nem o irmão da Sara vem buscar ela.
- Quem disse? – Sara confrontou erguendo as duas sobrancelhas. – Você nem conhece eles mesmo...
A mulher titubeou por alguns segundos e suspirou.
- Olha, Sara. – forçou um tom mais dócil. – A sua mãe fez algo terrível, e quem faz coisas terríveis tem de pagar um preço. Nunca mais te ver é o preço da sua mãe, certo?
Sara fez um bico, cruzou os braços, virou o rosto para a porta e bateu os pés.
- Sara... – a mulher suspirou, as favas com a gentileza. Não era paga para enganar crianças sem rumo. – Olha aqui, garota, não é fácil pra ninguém, certo? Sua mãe matou o seu pai, azar dele, azar dela, azar seu, do seu irmão e, infelizmente do governo. Ninguém vai vir te buscar, porque eles não te querem. Nem o seu irmão, nem os seus avós, tios ou tias. Entendeu? – a menina não se moveu um único centímetro. – Sara, eu estou falando com você. Você...
- Não sou surda e nem lesa, basta falar uma vez. – a garota retrucou.
- Ah... — declarou sem jeito. – Então...entendeu?
Sara a encarou.
- É, é. – e deixou o silêncio perdurar pelas horas que seguiram, até que aquele casal de aparência estranha aparecesse.
Até se sentir postada na praça, a venda como um cavalo, mostrando os dentes e confirmando a saúde e as qualidades idiotas que exigiam.
Até ver a porta de vidro aberta e os adultos ocupados demais.
E correu, o mais longe que pode antes de ouvir os chamados: “volta menina, não faz isso”.
Já havia feito. Corrido tão longe quanto as pernas podiam levar, rua acima, abaixo. Até não saber mais onde estava e, ainda assim continuou andando. Até ver qualquer coisa familiar.
Mas a cidade era grande demais, e ela nem tanto. E eventualmente a menina só sentou, e esperou.
Atrasado. Atrasado.
Viu o rosto nos jornais, a filha da louca assassina. A pobre criança. E dormiu ali mesmo, num mercado qualquer numa rua qualquer.
Acordou em um carro, rumo a um lar adotivo. Com o casal estranho.
Não esperou mais.
O coelho andava sempre atrasado, atrasado e nunca chegava no lugar.
Porque não queria chegar.
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Sara saiu do tribunal aliviada, o julgamento já durava uma semana, se o recesso não fosse pedido ela provavelmente teria explodido ali mesmo: semana difícil, o júri parecia ter sido escolhido a dedo pelo diabo. Talvez tivesse.
E agora, tudo que lhe restava fazer era tirar os sapatos, deitar na cama e dormir por três dias a fio. E então comparecer ao veredicto que com algum bom senso seria culpado.
Não que aquele grupo de jurados tivesse bom senso. Ou qualquer inteligência. Ela se lembrou.
Chegou em casa passando um pouco das três da tarde, jogou os sapatos – um maldito par de saltos fornecido por Catherine para aquele tipo de situação, e escorada na porta massageou os pés, pobres coitados.
Sequer se deu ao trabalho de chegar na cama, caiu de mal jeito no sofá, ligou a televisão e se encolheu. Caindo no sono em seguida.
Que se danassem todos.
Que se danasse tudo.
Que a campainha parasse de tocar porque ela não ia atender.
Notas finais
Tomei uma classe experimental de ballet ontem, coisa besta, assim que eu recuperar minhas pernas eu vou rir disso. Assim que as pernas ficarem em sintonia com o corpo... Eu vou morrer desidratada no sofá certeza...
Doida pra voltar lá na segunda, uma das melhores experiências da minha vida. Entrará no meu livro de memórias um dia.
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