Notas iniciais
Torci o pé na escada... uma beleza, uma beleza.
Lados bons: tempo na frente do pc procrastinando e escrevendo,
Lados ruins: Tem três lances de escada pra subir todo dia, o transporte tá sempre lotado. Aparentemente não posso faltar a universidade. Ah...sim, aquela outra merda de curso também já tá paga, e também precisa de transporte.
Às vezes Deus amanhece e lembra que eu sou um humano hilário. Porra Deus, eu sei que você gosta especialmente de mim, e que na maioria do tempo eu não sou uma cristã exemplar. Mas dá um tempo pai, só porque eu sou uma ótima companhia especialmente quando estou sendo uma Drama Queen, não significa que você tenha de torcer meu pé. Um professor doente já basta pra gente ter mais tempo...fica a dica,Senhor. Fica a dica. Aproveite.

Foi durante a noite que Sara percebeu onde tinha amarrado seu cavalo: debaixo da chuva, em um bote furado em pleno oceano pacifico, exatamente no olho de um ciclone.

Ou talvez ela estivesse apenas sendo um pouco exagerada.

Mas claro, havia também o minúsculo apartamento de um quarto e um banheiro, os restos de pizza em cima do precioso sofá, um pavor absoluto de entrar no próprio banheiro e acima de tudo: tinha aquela criança parada na sala, com o rosto parcialmente coberto de queijo e com uma enorme rodela de tomate grudada na bochecha. Sem roupas para trocar.

Não, não. O cavalo tinha mais chances de sobreviver.

Sara teria reparado em quão ridiculamente parecidos ela e o sobrinho eram, se o menino não estivesse adormecido no precioso sofá, completamente imundo. E ela, claro, pintando mentalmente o pior quadro: se livrar do sofá, ou dos lençóis da cama.

Se aproximou do sofá na ponta dos pés, cutucou o garoto. Nada. O fez de novo, o mesmo nada, sacudiu-o um pouco. Ainda nada.

- Não tem jeito de você ser meu parente...- resmungou. Não se lembrava de um único dia em sua vida que um alfinete caindo não tivesse lhe acordado.

Acabou deixando o menino no sofá mesmo, e, sem ânimo para se arrastar o quarto pegou no sono na poltrona ao lado.

...

De alguma maneira sobrenatural, Sara acordou cerca de trinta minutos depois do que deveria ser o inicio do turno. O que significava, em suma, que havia passado todo o dia e parte da noite dormindo.

Ajeitou os cabelos com a mão e se pôs de pé num pulo, estreitou os olhos para o outro sofá, o menino ainda dormia a sono solto. Metade do corpo jogada para fora do sofá, uma das pernas jogadas para cima e a cabecinha pendendo pelo braço. Se aquilo fosse uma cena de crime, Sara apostaria todo seu dinheiro na possibilidade da criança ter plantado bananeira e adormecido daquela forma.

Pisou forte pelo apartamento em busca do telefone. Este – pensou- era todo o mal de ter um telefone sem fio, conseguia perde-lo mais vezes que o celular.

Não se deu conta do barulho infernal que fez girando os livros e almofadas espalhados pela casa, muito menos do olhar fixo do sobrinho em si.

Achou o telefone e suspirou aliviada, discou o número do laboratório.

- Alô...hã, Judy, é a Sidle.- mordeu o lábio um pouco aflita.- Não,não. Eu...Não. Eu só estou ligando para avisar que não vou hoje...Não, nenhuma doença. É só um...um problema familiar.

Wade continuou encarando a tia, um olhar interrogativo no rosto.

Era o mesmo cabelo, apenas menos rebelde, era o mesmo rosto, a mesma falha entre os dentes. Mas era tudo diferente.

- Por que você paiece comigo?- a questão voou pela sala assim que Sara colocou o telefone no balcão que separava sala e cozinha.

A morena baixou os olhos para o menino, um: “Eu não pareço com você” , preso na garganta. Sim, parecia. Tudo que os diferenciava eram os olhos, os dela castanhos escuros – um poço, os dele olhos verdes azeitonados – raso. Era o mesmo cabelo, apenas mais cacheado que enfeitava o rosto redondo do menino e descia até as bochechas – apertavelmente grandes, ela admitiu – emoldurando o mesmo tipo de face, as mesmas covinhas enfeitavam o sorriso ou a fala. E, Sara se espantou, mesmo a falha entre os dentes estava ali, esta última sem ser realmente uma herança.

Ela deixou a questão no ar e voltou a vagar pelo apartamento, desta vez procurando pela bolsa. Agradecendo mentalmente por ser Vegas, e , mesmo aquela hora, ainda haverem dúzias de lojas abertas.

O menino precisava pelo menos de um par de roupas para trocar. De outra maneira ficaria eternamente sem banho e parcialmente coberto de comida.

E, sim, havia o detalhe da comida. Um Wall-Mart era uma parada igualmente necessária.

- Achei!- fez uma comemoração com os braços e encarou o sobrinho. – Ok, a gente vai arranjar umas roupas para você e comida num mercado. Anda.

Wade se ajeitou no sofá e estendeu a mão para a tia. Foram longos dez minutos de puro silêncio, a morena apenas encarava a mão estendida no ar e a criança sentada.

- Mas que merda você está fazendo?- soltou por fim.- Eu disse vamos, quer dizer que a gente vai.- começou a fazer uma mimica bizarra com as mãos.- Então. Você. E. Eu. Levantamos. E. Andamos. Até. A. Porta. Entendeu?

Wade a encarou, a boca aberta, e levantou acompanhando Sara até a porta.

O caminho até o elevador e o tempo dentro deste pareceu durar o dobro do normal, a curta caminhada até o carro no entanto pareceu melhorar o humor.

- Qual o seu carro? – Wade ficou na ponta dos pés na garagem do prédio.

- O Honda CR-V preto ali na esquerda.- apontou na direção do carro.

Wade colocou as mãos no rosto fingindo ser um binóculo e fez um bico.

- Tem um monte de carro preto. Tá? – Sara encarou o menino com o cenho franzido.

- Não é um carro preto, menino. É o Honda CR-V 2012 que eu praticamente vendi a alma para comprar.- e tornou a apontar.

- A Uonda o quê?- Wade encarou Sara.

A morena retornou o olhar do sobrinho completamente chocada.

- O Honda. A SUV ali no canto esquerdo perto da porta, a preta. – tornou a apontar.

- O que é SUV?

Sara guiou o menino até o carro e abriu a porta, com um olhar perplexo. Wade deu uma gargalhada.

- Ah! Esse carro!- exclamou.

- Este carro. Banco de trás, menino.- empurrou o sobrinho no banco de trás e colocou o cinto, voltando para o banco da frente em seguida.- Agora...sobre o carro. Uma SUV é um utilitário esportivo, este aqui , o Honda CR-V é do tipo compacto e...

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Sara crispou os lábios em repúdio, havia rodado boa parte de Vegas desconsiderando lojas e lojas apenas para acabar na South Boulevard. Sara havia estabelecido como regra jamais comprar nada na South Boulevard, os preços eram mais altos, as vendedoras eram mais irritantes e os olhos eram mais aguçados.

Mas eram 21:00 em Vegas, todo lugar mais acessível e agradável estava lotado. Então era aquilo ou nada, e a morena havia ponderado a respeito do nada por uma boa meia hora enquanto uma vendedora loira e irritante discursava sobre a dificuldade de fazer meninos ficarem ‘fashion’.

- Mas e então, mãe, o que vai ser para o garotão?- a mulher perguntou, forçando um sorriso para o menino.

Sara ergueu as sobrancelhas ofendida.

- Eu não sou mãe dele.- retrucou, Wade a encarou e voltou a ficar quieto.

A vendedora se recompôs.

- Ah, então...

- Sou tia dele. – Sara adiantou e olhou para a mulher, forçando um meio sorriso e tentando sua melhor dose de simpatia. – Nós vamos precisar de tudo.

A loira sorriu, parecendo ter ganho o dia.

- Ah, maravilha! – apertou as bochechas de Wade por uns segundos e sorriu.- Garoto de sorte!...E então vamos começar pelas calças e depois...

Sara revirou os olhos e deixou que a mulher continuasse puxando-a e ao garoto por toda a loja, por um minuto ou coisa do tipo ela ponderou deixar a loira e o menino sozinhos e simplesmente sentar. E então o bendito banco já estava fora de vista e sua penúria continuou.

Mais tarde ela não saberia dizer quando ou como ocorrera mais todas as roupas que a vendedora , em sua visão, jogou aleatoriamente no balcão estavam devidamente dobradas, guardadas e pagas. Sara não fazia a mínima do que tinha acabado de comprar.

E no caminho para o carro, puxando o sobrinho com um quê de pressa, não se deu ao trabalho de descobrir. Não enquanto ainda estivesse sob os olhares ávidos do que pareciam ser todos os comerciantes de Vegas.

Abriu o porta malas do carro, literalmente jogou as sacolas, e, depois de expulsar o sobrinho do banco da frente, entrou e respirou.

- Bem melhor...Bem melhor.

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Um mercado aberto e sem filas havia sido uma coisa fácil.

Comprar todos os mantimentos supostamente necessários, igualmente. E então a morena notou, não havia mais criança. Havia virado as costas por dois segundos, apenas tempo o suficiente para devolver uma mercadoria caída e declarar o passeio ao mercado terminado e não havia mais menino.

Wade que a estivera seguindo fielmente pelo mercado havia simplesmente desaparecido. Evaporado em pleno ar.

Sara arregalou os olhos, examinou o corredor nos mínimos detalhes. Mesmo em cima das prateleiras. Não, nenhuma criança à vista.

“ Mas que porra é esta?” – pensou aturdida.

Deixou o carrinho parado no corredor, segurou a bolsa mais firmemente e se encaminhou ao outro corredor. Nada. E o outro, e outro, outro, outro, outro. E refez o caminho. E o fez mais uma vez.

O menino havia simplesmente sumido.

Ficou na ponta dos pés, como se aquilo fosse ajudar, puxou a bolsa que ameaçava escorregar pelo braço.

- JACK? – “não”, pensou. Talvez não fosse Jack...Como diabos era o nome do moleque? – JAMES? JOHN? JUNIOR? AIDEN? LUCAS? JAY?

“Porra!” – praguejou mentalmente, felizmente não haviam muitas pessoas ali para vê-la atirando nomes aleatórios como uma louca.

- Como era mesmo...- mordeu o lábio inferior. – Jack?...não,não... Jayde?...melhor, mas ainda não... Rayde? Blade? Blade...Deve ser isso. – tomou ar, saiu do corredor, caminhar em frente a eles talvez fosse mais útil. – BLADE! BLADE?! DROGA MENINO! APARECE AQUI AGORA MESMO! BLAAAAAADEEEEE!

Sim, Sara decidiu, aquela era a prova concreta de que tudo aquilo era uma péssima ideia. De que devia simplesmente ir correndo até o juizado mais próximo e dizer que jamais assinara nada. Há quantas horas estava com aquele menino? 20, 24, 32 no máximo! E ainda assim, acabara de perder a criatura em Vegas. LAS VEGAS!

Como alguém poderia perder uma criança...Uma criança daquele tamanho, ainda parcialmente coberta de pizza em uma cidade como Vegas?!

Aquilo era uma catástrofe.

Não bastasse tudo, ainda seria eternamente culpada por seja lá o que acontecesse com uma criança inocente. Ah, sim! A cereja no topo da vida de Sara Sidle, ser responsável por uma criança e seu infeliz destino.

- Oi tia! – E então ele estava ali, apoiado em um carrinho de compras, com as mãos no queixo, sorrindo feito um idiota alegre. – Qui xê tá fazendo? Glitando do mercado assim?

Toda gota de bom humor, auto controle e qualquer instinto de preservação da espécie que Sara Sidle possuía haviam sido usados naquele minuto, impedindo-a de se abaixar lentamente e envolver as mãos no pescoço da criança. E saborear. Apenas saborear.

- Porra Blade! Onde diabos você estava?! – exasperou, encarando o menino. – Que merda você tem na cabeça?! Nunca, NUNCA, mais vá merda de lugar nenhum sem avisar antes! Se não eu te mato! Lenta e dolorosamente. E faço alguma merda de macumba para te trazer de volta, e aí, AÍ, você vai estar de castigo – ou seja lá que merda você não goste! Para o resto da vida! O RESTO DA VIDA! ENTENDEU BLADE?

Wade encarou a tia e balançou a cabeça.

- É Blade, de catigo!- e apontou para o vazio entre ele e a prateleira.

Sara corou um pouco, pura raiva.

- Não finja que eu não estou falando com você, moleque! – rosnou.

Wade a encarou severamente, e então soltou uma exclamação surpresa.

- Oh! É coigo?- pausou e encarou Sara. –Tia, eu sou o Wade. Não o Blade.

Sara respirou fundo e agarrou o braço do menino.

Um belo começo certamente.

Notas finais
...Obrigada as duas fofas que comentaram capítulo passado. Ao resto de vocês que leu - se leu- e não comentou... Neste momento eu gosto mais delas que de vocês. Magoaram minha alma D:
Cortaram minhas asas... Acabaram com as minhas boas palavras... Vão fazer o que agora... Mandar meu primo de dois anos dizer que sou feia?...Tomar o meu Nescau de canudinho ? ! D:...seus...seus...levem a criança, deixem o chocolate de canudinho o0o