Notas iniciais
Passei o fds em casa, felicidade sem tamanho *0*
Aí...veio a Segunda, esta criatura sem moral e limites, jogar na minha cara que eu tenho obrigações... e que acha super legal me prender no ônibus perto da hora do almoço. Sorte que o cobrador e o motorista já são conhecidos e sabem que podem me deixar na cadeira do cobrador sem medo - usar notebook em ônibus só se a mafia do transporte colaborar.
Sacanagem é ficar presa no trânsito dentro de um ônibus com cinco pessoas. Sim, só cinco. Acho que já ouvi a vida toda da senhora sentada lá na frente...Agora ela vai começar a cantar. Véi, na boa, véi. Sério isso, Arnaldo?

– Sara , fico feliz que não mudou o telefone. – a voz do outro lado era estranhamente rouca, abatida. Ela não se importou. Apenas forçou uma risada seca.

– É, sou uma pessoa fácil de achar. Você por outro lado...

Ele tossiu.

– Sar, não vamos começar isso agora, certo? – ela suspirou em resposta.

– O que é agora, Aiden? Algo na sua vida perfeita saiu dos eixos, precisa de dinheiro ? Qualquer coisa que te faça esquecer da minha existência. – ela o ouviu secando a garganta do outro lado da linha.

– Foi você que me procurou primeiro, não esqueça. – veio em resposta.

– Muito tempo atrás. Uma CRIANÇA te procurou, e você falou tudo que tinha entravado na garganta. Se não me engano. – o silêncio perdurou por alguns segundos do outro lado da linha. – Tente ser rápido, ao contrário de certas pessoas eu tenho de trabalhar.

Ele riu.

– Em que? Fazendo strip num bar, roubando de jogadores bêbados? – a pergunta foi lançada em tom ácido.

– E o que você sabe da minha vida Aiden?- ela rebateu com igualdade.

– Nada. – era quase ressentido. Quase. – Olha Sara, eu sei que devia ter feito as coisas de outro jeito, mas eu realmente preciso que você me faça um favor. Um favor imenso.

Ela apenas franziu o cenho, afastando um pouco o telefone do ouvido para encarar Greg, que chegava acompanhado de uma Cath gargalhando. Greg tinha passado do tom azulado para um incrível borrão de verde, e ainda fedia. E seja lá o que houvessem derramado em cima dele, não havia funcionado.

Não que Sara se importasse. Muito.

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“ Amarrou os cabelos em um rabo alto e se livrou do horrível casaco do colégio, aquele marrom lhe dava arrepios. Mesmo agora.

Colocou uma camiseta vermelha surrada e uma calça jeans já quase sem cor, em algum momento a roupa já fora preta. Fora , entretanto, ganha a tantos anos – ou meses, talvez – que a pré-adolescente sequer lembrava o nome do casal que havia lhe dado. Só mais um dos muitos a desistir dela, por um cheque mais alto ou uma criança mais nova. Mais felizes os que conseguissem os dois.

Agarrou o jornal, qualquer coisa referente a Califórnia e o obituário, riscado a marcador vermelho: Louis Sidle, 67 anos, morto em acidente de trânsito.

Abriu a porta do dormitório e rumou corredor a fora, o único lugar que ainda se dava ao luxo de conhecer na palma da mão.

– Doutor Willians. – empurrou a porta sem muito receio, já estivera no psiquiatra daquele lugar vezes o suficiente para considera-lo qualquer coisa como um tutor. Era o único, tirando umas poucas outras crianças, que marcavam presença constante em sua vida.

O homem, de seus quarenta e poucos anos, a encarou por trás dos óculos. Era baixo, branco, os cabelos de um castanho estranho- quando o conhecera ainda menina, costumava ser ruivo. Agora não mais.

– Sara. Aconteceu alguma coisa? – na voz polida apenas a obrigação, nenhum interesse real. Não os tinha desde que parara de estudar.

– Eu preciso de um favor. – ela declarou, tão polida quanto o próprio doutor. – Um favor imenso.

O homem se ajeitou na cadeira, ela lhe atirou o jornal. Ele relanceou as folhas fixando os olhos na notícia marcada e então voltando-os a Sara.

– Louis Sidle?- pigarreou. – Alguma relação com a senhorita, Sara Sidle?

Ela trocou os pés de lugar, fazendo uma passada estranha e o encarou, forçando um olhar de clemência.

– Costumava ser meu avô, muito tempo atrás. – explicou.

– E? – o homem indagou agora aparentando interesse na jovem.

– Eu queria saber se poderia tentar ir ao enterro.

Ele ficou alguns minutos em puro silêncio, Sara o imitou em total desconforto. Nem ao menos sabia porque o pedido era importante. Não havia nada para ela naquela família, nunca houvera.

– Você entende que seus avós, ou qualquer outro familiar que encontre lá, não te quiseram antes e que isso não vai mudar agora. Certo? – ele perguntou, ajeitando os óculos. Ela assentiu. – E, que ir significa viajar metade do país, certo? – de novo ela assentiu. – Você sequer sabe se vão te deixar entrar...

– Sei disso tudo, senhor. – o homem paralisou com a resposta e estudou o rosto determinado.

– Então , por que?- perguntou.

– Eu...não sei.- ela respondeu, abaixando um pouco a cabeça.

O doutor suspirou por fim.

– Vou providenciar as passagens e dispensas das aulas, Sara.- ela quase sorriu diante da inesperada simpatia. Quase. – Mas, lembre de tudo que passamos. Você não precisa de uma família, nenhuma das nossas crianças precisa. – ela assentiu. – Resolva o que tiver de resolver, e volte. Fique fora mais de uma semana e o Instituto terá de tomar suas providências. – o homem levantou os olhos para a jovem. – Sara, você estudou aqui praticamente a vida inteira. Nós lidamos com cada tutor, cada orfanato, cada assistente social. Não estrague isso, eu acredito que você saiba que...

– Este instituto é um colégio modelo e renomado. Foi uma sorte ser aceita aqui, sob qualquer circunstância ou preço. – o olhar da jovem endureceu um pouco, e logo voltou ao normal. – Fique tranquilo, Dr. Willians. Eu não vou estragar nenhum projeto, ou trazer nenhum problema.

O doutor concordou, mais calmo.

– Você conseguiu uma coisa Sara, que a maioria só pode sonhar. É um privilégio mesmo para pessoas normais. Cuide disso.

Ela balançou a cabeça mais uma vez e saiu do escritório, os lábios crispados, pessoas normais. Como se o histórico perturbado lhe fizesse anormal, mais do que aquele lugar em si. Retornou ao dormitório com passadas largas, quase saltos. Não teria de fazer malas, estavam sempre feitas. Entre uma família e outra, um orfanato e o Instituto – internato, alguns chamariam, nunca se sentira bem o suficiente para desfazer as malas. Nem mesmo ali, onde passava boa parte do ano.

Agora considerava-as curtas demais, a meros dois anos de entrar em uma Universidade, e sem tempo ou disposição para saltar de um lado para o outro, os finais de semana mensais longe dali eram terríveis. Antes, quando mais jovem, eram maravilhosos – eram sua chance de socorro. Ou de fuga.

Mas havia poucas coisas que não se pudessem comprar ou largar, crianças, Sara descobrira eram parte da regra, tão maleáveis quanto qualquer outra coisa.

...

Havia partido no mesmo dia, ou noite. Passado dois dias desconfortáveis em um ônibus e então duas horas perdida em uma cidade aos redores de São Francisco, e não pudera deixar de rir da ironia. Anos acima da estrada, era ela a menina franzina que conhecia toda e qualquer rua a se conhecer naquele lugar, e em São Francisco, se atreveria a dizer que conhecia até mesmo Santa Mônica. Agora era um bicho do mato. Nunca havia visto nada, e achar a antiga casa dos parentes fora um tremendo sacrifício.

Entrar, por outro lado uma facilidade, não havia mais corpo ou enterro. Por outro lado ainda haviam pêsames a dar, a família um pouco maior do que ela lembrava. E tudo que ela lembrava era uma multidão de rostos difusos invadindo seu espaço em um velho casarão beira praia.

– Olá.- uma mulher qualquer cumprimentou.- Veio dar os pêsames, era conhecida do velho Louis?

Sara engoliu em seco.

– Ah sim, faz muito tempo eu costumava brincar aqui com os netos dele.- respondeu incerta.

A loira sorriu para ela, focando no rosto. Tentando lembrar, Sara deduziu.

– Ah. Deve ter brincado com um dos meus filhos então, eram os que mais passavam tempo aqui.- ela riu saudosa.- Sabe que o velho Louis só tinha três filhos, mais uma penca de sobrinhos e sobrinhos netos vinham de vez em quando. Mas netos mesmo só tinhas sete. Quatro meus e do meu marido, dois do Bernard , e o filho do Dan , Aiden. Bom garoto, ficou órfão cedo e veio morar aqui.

Sara franziu o cenho.

– Ah sim, Aiden... Conheci ele, franzino, tocava Sax. – fingiu lembrar.

– Ah, este mesmo. Um ótimo rapaz, está fazendo medicina na UCLA. Toca Sax, piano e guitarra.- a mulher sorriu em reconhecimento e acompanhou Sara até a varanda, onde diversas outras pessoas conversavam em tom leve.

Ela assistiu as conversas e mesmo se arriscou a dar uma palavra ou outra, viu as pessoas se despedindo. Outras se oferecendo de companhia por um dia ou dois, mas o olhar se perdeu na figura jovem, Aiden, se ela agora contava catorze anos, ele devia ter seus vinte e um ou vinte e dois. Não era magrelo e fraco como se lembrava, e os cabelos castanhos agora estavam comportados num corte curto. Ele, Sara titubeou, parecia ter tido uma vida que valia a pena. O avô havia morrido, e ainda assim Aiden parecia bem, no meio de pessoas que gostavam dele. Sem medo.

Ela, que em toda a vida só havia se sentido livre de medos e querida perto do irmão ou da mãe, se sentiu subitamente lesada. Era aquele tipo de vida que teria se os avós ou qualquer outro parente a quisessem?

Num lugar onde o luto era repleto de boas memórias, diferente das mortes encaradas durante a curta infância: cheias de terror e coisas a esconder. Do pai, as pobres crianças que hora ou outra caiam desnutridas e doentes, ou derrotadas por pancadas que ela mesma havia vivido.

Sara odiou o modo como via o mundo. Diferente do que aquelas pessoas viam.

– Então, mocinha, calada no seu canto faz tempo. Sem nenhuma história sobre o Louis para contar? – a senhora, mulher do falecido indagou simpática.

Sara tentou ser gentil, entretanto a cabeça martelava aos redores daquilo. Agora, completa estranha era aceita e bem vinda como se sempre estivesse ali, na vizinhança participando da convivência de todos. Antes não.

– Ah, a maioria que tenho para contar é de quando Daniel estava vivo.- aquilo pareceu ter chamado a atenção dos poucos restantes, estes ela reconhecia como o irmão, a avó, e o tio o que sempre sugeria que as crianças fossem para os avós. Bernard, se não estava errada.

– Ah, conheceu o Dan? – o momento, ela admitiu ficou consideravelmente mais tenso. – Era pai do Aiden, Louis o adorava. Teve uma morte horrível...

A senhora comentou, como se aquilo fosse tudo a que se resumira o outro filho.

– Se é da época do meu pai...- Aiden arriscou, tentando iluminar um pouco o ambiente.- Então deve ter me conhecido... Deixa eu ver, um moleque de dez ou onze magricela. Certo?

–Sim...- balançou a cabeça cordialmente, ou ao menos esperou que fosse e estreitou os olhos para o irmão. – Cheio dos livros mas nem aguenta carregar um balde. Vivia com sua irmã de cima abaixo... Sara, o nome dela, certo?

Aiden ficou sério, a boca agora apenas uma linha no rosto.

– Ah. Conheceu a Sara.

– Sim... E então o que aconteceu com ela. Era minha amiga.- o tio e a avó pareceram não se importar com a menção da garota. Aiden no entanto ergueu as sobrancelhas.

– Sara, não tinha muitos amigos. Quase nenhum além de mim, na verdade.- estreitou os olhos para a adolescente. – Era fechada, sempre cismada com tudo.

– Era.- concordou e correu os olhos pelos outros três.- Sempre achei que fosse por causa dos pais, sempre aparecia com um corte...Um olho roxo. Às vezes um osso quebrado ou torcido...

Aiden espreitou a jovem.

– É, a vida em casa não era essas maravilhas. – ele deu um tempo e fincou os olhos no rosto da moça. – Ela lá tinha sua parcela de culpa. Sempre entrou em lugares que não devia, boa parte do aconteceu ‘naquela’ noite foi culpa dela...

Se endireitou na cadeira, deixou passar as palavras do tio e da avó sobre a garota. Era a garota. Apenas registrou o importante: a achavam louca, culpada.

Prendeu os olhos em Aiden. Ela, na época não devia ter mais que seis ou sete anos, e há muito sabia que não era culpada. Era apenas mais uma vitima. E até então, Aiden também.

Ainda era o irmão em um pedestal, separado da família contra a vontade. Vitima do sistema.

Exceto, que ele nunca fora tirado da família. E aparentemente nunca a tinha considerado vitima, ou outra coisa senão culpada.

– EU não vejo como uma CRIANÇA, pode ser culpada de qualquer coisa. – declarou, levantando.- E nunca achei que naquela casa houvessem nada além de vitimas.

– E eu, não vejo como qualquer pessoa, que nunca viveu algo parecido na vida pode determinar culpados ou isentá-los de qualquer coisa. – Aiden rebateu. – A casa já era ruim antes da MINHA irmã, mas quando ela chegou, apenas piorou. A minha mãe não era louca, o meu pai não era bêbado. Se ela fez com intenção ou não, ainda foi quem fez. – ele parou para respirar. – E eu amei a minha irmã, amo até hoje. Mas, a vida é melhor sem ela.

Sara respirou fundo. Fechou os olhos. Ela viera por um fim as coisas, bem, aparentemente ela era a única naquela história que ainda não tinha um fim satisfatório. Até agora.

– E, passando disso. Sara não é um assunto a ser discutido em qualquer ocasião. – Aiden amainou, e sorriu confortante para os outros da sala. – Onde estávamos antes... Ah sim, qualquer história que a você pudesse contar sobre o meu avô, senhorita...?

Ela parou por segundos, contemplando o possibilidade de mentir o nome e ir. Nunca mais voltar e, fingir que nada jamais havia se passado. Eles ficariam satisfeitos, ela igualmente. Se fosse agora, ainda chegaria com antes do prazo de voltar e poderia continuar como se nada jamais tivesse acontecido. Mas não...

Arqueou as sobrancelhas e sorriu para Aiden, raiva.

– Vamos lá, Aiden. Estou assim tão diferente? – perguntou, a voz cheia de sarcasmo. – Ladeira acima , Vapt, ladeira abaixo... Sarinha, Sara, moleca, dentes... E a horda de apelidos ainda vai longe.

Aiden parou, empalideceu, a olhou de cima a baixo.

–...Sara?!

– É... E, até mais.

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Aiden esperou, por mais tempo do que podia contar, qualquer resposta do outro lado. Mas tirando a zoada do lugar, parecia ter emudecido. E então a voz dela voltou.

– Sabe, não me interessa o que você fez ou deixou de fazer. É sua culpa. E eu estou tentando te tirar do meu pé faz muito tempo, mas do que é saudável para qualquer um. Então não Aiden, faça um favor a si mesmo. Esqueça que eu existo, afinal a vida é melhor sem mim.


Notas finais
Reviews não matam... a não ser é claro que você tente comê-la... não sei se é seguro comer palavras virtuais D: