Make it to me
1 O que eu bebi
Notas iniciais
Se a minha vida já havia mudado com a chegada de Jane, ela se transformou quando eu descobrir que ela não era quem eu pensava que ela era. Em um intervalo de meia hora, por conta de uma ligação de Patterson por causa de um arquivo chamado Orion, Jane passou de prisioneira a protegida por mim. E eu, Kurt Weller, passei de exemplar diretor da unidade de NY do FBI para um diretor cheio de segredos criminosos. Por conta das descobertas, a equipe me convenceu de que Jane não poderia ser presa, pois teríamos que trabalhar fora do FBI para desvendar aquilo tudo que Mayfair havia nos deixado. Como ela havia vivido o Orion, ela precisaria nos ajudar para se manter livre. O problema é que trabalhar nisso trazia novos perigos para ela, pois mexia com todos os poderosos do país, então nós tínhamos que protegê-la. A equipe decidiu que esse era meu dever, e eu tinha que cumprir.
Era difícil conviver com ela. Nunca pensei que fosse ser assim, mas eu olhava em seu rosto e não parava de lembrar da mentira. Não parava de pensar se tudo que ela havia me dito era mentira, se o beijo não tinha sido só uma distração como as tatuagens e a falsa memória. Era massante e desgastante, porque a história que ela havia me contado era tão louca que eu não sabia no que acreditar
Por conta da demissão, Jane teve que sair da casa segura do FBI. Para despistarmos alugamos um kitnet para ela com o dinheiro que ela havia ganhado nos meses trabalhados juntos. Porém, em sua maior parte do tempo ela tinha que ficar na minha casa, para manter os segredos dela, os da equipe e os de Mayfair seguros até descobrirmos tudo e decidirmos o que fazer.
Respirar dentro de casa se tornou difícil porque ela sempre estava lá. Ela me pediu desculpas naquela noite em que eu quase a prendi, mas que terminei levando-a para casa já que Sarah já havia se mudado. Posso jurar que a escutei chorar aquela noite inteira, mas eu tinha dores e estava sentindo-as pelas mentiras.
Nossa convivência havia se tornado silenciosa e fria, coisa que eu jamais imaginava algum tempo atrás. Ela dormia no quarto de Sawyer e eu no meu, acordava e ela já havia tomado café e estava sentada na sala me esperando. Íamos pro escritório extra de Patterson e ela ficava lá enquanto íamos pro FBI até que a equipe voltava para Patterson. Ella passava relatórios referente a informações que ela lembrava, analisávamos com os documentos que tínhamos e íamos pra casa num silêncio altamente constrangedor.
O problema é que a noite era longa, e desde que eu nunca mais dirigir uma palavra a Jane, ela tem bebido todas as noites até ficar bêbada e ir dormir. No começo achei que era só as dores pelas mentiras, mas já fazia um mês que isso se repetia quase todo dia. Nos finais de semana ela ia pra sua kitnet e também bebia muito segundo Tasha, e ficava comendo muita besteira. Sei que depois de tudo que ela havia feito comigo eu não devia sentir nada, mas não queria que ela se sentisse mais tão vazia daquele modo. Mesmo que eu não a perdoasse, ela tinha que se perdoar.
Em uma noite fria, ela estava sentada na sala com uma garrafa de whisky na mão quando eu simplesmente decidir colocar um basta naquilo Me sentei no sofá a sua frente, mas ela não esboçou qualquer reação, continuando mordendo aquele copo e olhando pro nada, provavelmente pensando em tudo.
— Jane… — Falei, e percebi que havia sentido falta de falar o seu nome — Você não precisa disso — Eu disse me aproximando e tomando a garrafa de suas mãos.
Ela continuou com seu olhar distante.
— E nem você precisa disso… — Foi a única coisa que ela disse enquanto repousava sua mão no sofá
Eu não sabia o que falar. Eu realmente precisava daquilo? Provavelmente não, eu poderia ignorar aquilo tudo e somente viver como diretor do FBI NYO, mas eu não queria ficar longe.
— Preciso. E você precisa parar de beber toda noite. — Disse enquanto fechava a garrafa.
— Pra aguentar isso tudo, eu preciso. — Ela disse e eu engoli em seco. E ela começou a chorar.
De repente eu tenho lembranças do dia em que ela se lembrou de ser sequestrada. Ela chorava do mesmo modo, suas mãos estavam trêmulas em cima do sofá. Meu primeiro impulso foi me levantar para pegar em suas mãos, mas me levantei e fui para frente da TV, pois sabia que não podia fazer aquilo.
— Eu sei que você nunca vai me perdoar… — ela começou entre soluços — mas todas as noites eu te peço desculpas. Por ter mentido pra você, por ter deixado você ser enganado, por ter tocado em você. Todos os dias isso arde em mim. Você nunca vai acreditar mais em mim, e eu perdi até o direito de falar o seu nome, mas eu só queria que você sentisse o quanto eu estou arrependida de sentir que te enganei, Kurt.
— Você poderia começar sendo mais sincera comigo. — Falei me virando e sentando em sua frente, respirando fundo e tentando ver a verdade nos olhos dela. Seu olhar me ardeu.
— Eu já te contei toda a verdade, Kurt.
— Não, Jane, não me contou. E eu tenho certeza disso. — Eu disse e ela relaxou suas costas no sofá, dobrando suas pernas pra frente. — Você me disse que quase desistiu disso tudo, mas porque não desistiu? Porque continuou? Porque me enganou? — Eu disse um tanto quanto irritado, me lembrando das mentiras. — De tudo que você viveu nas últimas semanas, foi a única coisa que não contou a nós. O que aconteceu?
— Eles iam matar você. — Ela me disse olhando no fundo dos olhos. — Depois que vocês salvaram a Tasha, eu fui até Oscar e disse que não poderia fazer aquilo, não poderia mais colocar vocês em risco, então ele me disse que eles matariam você. E de repente eu percebi que eu não tinha lado, que eu era deles, que eu tinha que ser deles se isso implicasse a sua vida. Então eu fui deles… — E nesse momento ela voltou a chorar — eu fiz de tudo para me reconectar ao passado. Tudo, Kurt. Eu fiz de tudo para tentar não ser vocês, eu tentei ser deles e não ser de vocês, mas.. — e ela deu uma longa pausa e deu um meio sorriso…
— Mas o que, Jane? — Perguntei ainda perplexo
— Mas eu já sabia que lado que eu queria estar. Eu queria estar do seu lado. — Ela disse e eu olhei em seus olhos, e nunca havia visto tanta sinceridade em seu olhar — Eu tentei não querer isso, e até me reconectar ao meu ex, mas não deu.
— Ele não quis você? Não podia? — Perguntei sem a menos vergonha. Jane tinha que se abrir comigo.
— Não foi isso. Eu o matei porque ele me queria demais, você sabe que ele queria me apagar para me levar de volta a ele, mas eu não o queria. Eu tentei me reconectar a ele, o provei de todas as formas, mas não encontrei nele… o sabor que eu encontrei em você. — Ela completou e abaixou a cabeça. — Mas isso não adiantou de muita coisa, né?
— Por que acha isso? — Perguntei sem pensar nas palavras que saiam de dentro de mim. — Você se arrepende de ter matado ele pra ficar? — E então ela me olhou novamente.
— Você quer que eu seja honesta? — E se levou a minha frente, mas ainda permaneceu sentada — Não. Eu não me arrependo de não ter deixado ele me levar ao nosso passado. Seria mais fácil pra você? Com certeza. Não ter que me aguentar nesse clima estranho na sua casa. E talvez até pra mim, mas não era o que eu queria. — E ela esboçou um meio riso irônico. — Eu escolhi ficar, e eu matei minha única fonte do meu passado porque eu havia escolhido o meu futuro com você depois daquele beijo no locker, mas já era tarde demais. — E uma nova lágrima desceu em seus olhos — Eu já havia arruinado tudo e agora eu estou aqui pra pagar por tudo isso.
Seus olhos novamente me encontraram, mas eu não sabia por Deus como reagir a todas aquelas palavras depois de tantas noites de estranho e desconfortável silêncio. Eu sabia que Jane poderia falar demais, pois ela visivelmente tinha bebido um pouco mais além da conta, mas nunca imaginei que ela me falaria sobre aquilo, sobre não arrependimento sobre Oscar e sobre nosso beijo. Eu a observei chorar e toquei levemente em seu joelho, mas sem muita intimidade. Notei o quanto nossa relação tinha mudado, o quanto nós tínhamos nos tornado tão frios um com o outro e ela com ela mesma.
— Você sabe porque você ficou, Jane. Porque você quer corrigir isso tudo. Algumas coisas ainda me corroem, mas eu admiro seu esforço pra consertar tudo. — Foi tudo que eu consegui dizer diante de toda a confusão que suas declarações haviam causado na minha cabeça. — Mas você não pode continuar se martirizando assim, Jane.
Ela me olhou, assustada. Imaginei que depois de tantos afastamentos, ela esperasse uma reação ruim de mim. Isso me desapontou um pouco embora ela tivesse razão, porque embora por alguns segundos eu tenha tentado odiá-la, no fundo eu sempre quis entendê-la, e eu também pedia desculpas silenciosamente a ela algumas noites. Por não ter deixado ela em casa depois do beijo, por não tê-la protegido do melhor modo, pois foi por conta dessas brechas que a antiga Jane havia colocado a nova Jane em toda essa desonesta situação. Nós ficamos nos olhando como não fazíamos a muito tempo, e depois de meses o silêncio não nos incomodou. De algum modo, nós ainda tínhamos uma ligação. Conseguíamos nos entender como ninguém conversando pelo olhar. E se nossos olhos falassem, claramente toda a vizinhança escutaria o mar de desculpas que eles emitiam um para o outro.
— Eu também acreditei de que era ela. — Ela disse rompendo nosso silêncio. — Tudo que eu mais queria era ser ela, Kurt.
— Mas porque você me disse que lembrava da infância?
— Porque o Oscar disse pra eu fazer isso.Ele disse que eu era Taylor, era assim que ele me chamava e ele disse que você se sentiria melhor com essas lembranças — ela disse e deu uma pausa — e eu só queria cuidar de você.
Ela me disse com mais um meio sorriso.
— Lembra do dia em que fomos atrás do gás sarin? Naquele dia eu tive uma lembrança e até hoje não a entendi. — Ela pausou e respirou fundo. — no memorial de Taylor. Emma estava lá falando sobre como ela teria se tornado uma linda mulher, e você estava lá cuidando dela. Eu estava atrás de uma árvore observando tudo. Emma falando, você, seu pai. Qual o sentido de tudo aquilo? Eu lembro de ter me sentido um pouco triste e Oscar estava ao meu lado, mas só lembro disso.
Depois de dizer isso, ela novamente abaixou a cabeça e eu a observei. O que verdadeiramente tinha sido todos esses meses depois que o Oscar apareceu pra ela? E todas as confusões que ela teve com ela mesma? E todas as decisões que ela teve que tomar sozinha? Quantas noites ela não dormiu pensando nisso tudo só pra me proteger?
Por mais que uma parte de mim não quisesse, eu queria entendê-la, e estava cansado de ver ela procurando respostas em uma garrafa transparente de bourbon, ou fugindo das respostas. Eu estava disposto a deixar meu orgulho e minhas feridas cicatrizarem, desde que isso a deixasse bem. Mesmo que depois de tudo ela simplesmente sumisse, ela tinha que colocar um ponto final nisso tudo e achar suas respostas, e eu precisava ajudá-la. Por mim e por ela.
— Eu quero te ajudar, Jane. — Eu disse num grande ato de coragem. Ela me olhou como sempre determinada, mas também com cara de cansada.
Ela se levantou e foi até a cozinha, indo pro quarto dela, mas antes de chegar na porta, ela se virou.
— Kurt… — E eu novamente a olhei. — Por que você faz isso?
— O que? — Perguntei numa presunção dela explicar de quais coisas estava falando
— Por que você ainda se importa comigo? Eu apareci, te enganei, te beijei e menti pra você. Por que você não me jogou em qualquer fundo de cena e me esqueceu por lá? Não é isso que vocês fazem com bandidos que mentem pra vocês?
Eu não sabia se ela queria resposta, mas eu já tinha ela em mente, fazia semanas.
— Porque de algum modo estranho, eu ainda creio e me importo com você. Como Taylor ou não, de algum modo, você faz parte de mim.
Ela me lançou um olhar assustado, e depois riu pelo efeito da bebida que a fez desequilibrar um pouco, colocando o copo que ainda estava em suas mãos em cima do balcão. Ela se dirigiu a porta e colocou a mão na maçaneta, depois novamente me olhou.
— Pena que eu não possa mais fazer parte de você como nós sempre desejamos. — Ela disse e entrou, sem me deixar com tempo para respostas. Na minha cabeça, vieram as imagens que me faziam delirar. Seu sorriso, seu toque, os beijos dados naquela noite na Locker Room. Por que essa mulher fazia isso comigo?
Eu ainda estava com a garrafa de bourbon na mão quando estava indo ao meu quarto. Depois de tudo aquilo, eu quem estava precisando de umas doses. Ao passar perto do quarto de Sawyer, a porta estava entreaberta e sem querer vi Jane tirando sua blusa e ficando de top enquanto se arrumava para tomar banho. Abaixei minha cabeça. Não poderia ficar mais confuso, mas a minha voz interior também falou por mim
— Eu também lamento por você não fazer mais parte da minha vida como queríamos...
Notas finais
Pra quem é fã da série em geral e não só de Jeller, eu e umas amigas temos uma página onde postamos de tudo sobre. A PÁGINA se chama Blindspotters Brasil. Espero que gostem também da página!
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