Make it to me

5 And you dive too deep


Notas iniciais
Um pouco de angústia, mas tudo deverá se resolver. Favor não me matem.

Acordar antes do Kurt já havia se tornado uma rotina para mim, e embora agora eu não estivesse mais no quarto ao lado, eu continuava com essa rotina. Creio que também devia ser um hábito da minha vida antes de tudo isso, mas eu não me incomodava. Eu sempre ficava observando-o dormir ao meu lado, pensando se no passado eu havia desconfiado que eu poderia sentir tudo aquilo por Kurt. Era provável que não, mas esse sentimento havia sido a melhor coisa de todo esse plano doente a qual eu concordei participar.

Tinha dias que eu me preocupava quanto aos perigos que eu o havia colocado, se não era egoísmo ou maldade minha deixá-lo em perigo assim,mas eu sabia que seu coração também se agitava por mim, e que não havia nada que eu pudesse fazer para evitar que Kurt não tivesse a vida em risco. Eu já o havia questionado quando a isso e ele sempre respondia que aquela também era sua escolha, pois ele sabia dos riscos.

Os últimos dias tem sido tranquilos para nós. Seguimos na rotina de ir para o escritório não-oficial da Patterson, Kurt ir pro FBI e nos encontramos em algumas ocasiões no horário do almoço. Eu sempre tinha documentos do Orion a analisar, mas muita coisa ainda estava nebulosa para mim. Haviam registros de centenas de soldados da Marinha, e alguns eu recordava, mas eram sempre lembranças vagas de treinamento e nada tão concreto quanto a finalidade daquele treinamento. Tínhamos lugares a analisar, mas precisávamos de mais estrutura pois não podíamos usar os recursos do FBI sem sermos rastreados. Aquela demora por resposta, junto ao fato de ter que ficar olhando o dia inteiro para papéis ao invés de ir a campo me irritava. Nesse ponto, eu era muito parecida com Kurt, mas ele sabia lidar melhor com isso do que eu. O que me equilibrava na maioria das vezes era sua companhia no horário de almoço. Eu sempre ficava feliz em vê-lo, embora não pudéssemos ficar tão próximos pois alguém da equipe sempre vinha junto a ele. Naquela manhã porém ele veio sozinho.

— Boa tarde, my angry little munchkin — Ele disse antes de selar seus lábios nos meus

— Rich colocou esse apelido em você e não em mim — Eu respondi provocando-o

— Rich é um babaca, e você fica linda com essa cara irritada — Ele disse colocando a mão em meu queixo — Algo novo?

Eu mostrei a pilha de papéis que havia rabiscado naquele dia com informações

— Nada de novo, sempre lembranças parecidas. Parece um disco repetido. — Eu disse rabiscando qualquer coisa com uma caneta em outro papel. — Estou cansada disso. — Concluí colocando a mão na cabeça.

— Hey. — Kurt disse me repreendendo e chegando mais perto, envolvendo suas mãos em minha cintura. — Não fique se cobrando tanto assim. É muita coisa para processar, e sua memória foi apagada. É normal que não lembre de tudo. Nós todos sabemos que ainda precisamos de muito para agir com essas informações, mas a descoberta delas não depende só de você.

Eu o abracei. Ele realmente estava certo, mas eu odiava me sentir pouco produtiva.

— Enquanto não soubermos o que vamos fazer com essas informações, não tem como você ficar se cobrando porque você não pode controlar. — Ele finalizou dando um beijo em minha cabeça. Eu o abracei ainda mais forte.

— Obrigada por tudo. — Eu disse e ele me beijou.

— Vamos comer fora hoje? — Ele perguntou nos dando espaço.

— Adoraria comer comida japonesa hoje! — Disse animada

— Ok. — Ele respondeu pegando em minhas mãos e fomos.

Andamos dois quarteirões até chegar a um calmo restaurante japonês. Ao chegar, sentamos em uma mesa, mas Kurt pediu licença para ir ao banheiro, deixando o celular sob a mesa. Ele logo começou a tocar. Não pude não olhar, era Allie. Revirei os olhos, não a repreendendo, mas pensando na possibilidade deles terem voltado ou de algum modo ficado juntos nesse último mês antes de eu e Kurt nos resolvermos. Ele logo voltou antes que tais pensamentos me tomassem ainda mais.

— Seu telefone tava tocando. — Eu disse com a voz oscilante. — Era Allie.

— Allie? — Kurt me olhou com a testa franzida, antes de apanhar de volta o celular.

— Eu não atendi, você sabe porque. — Respondi rapidamente. — Ela sabe que eu estou com vocês? Você tem falado com ela?

Ele rechaçou com a cabeça.

— Ela sabe que você está conosco, mas não tenho falado com ela desde… você sabe. — Ele respingou e depois continuou. — E foi o Reade que falou sobre você pra ela.

— Reade? — Perguntei com estranheza.

— Por conta do sumiço da Mayfair antes dela ser dada como morta, Patterson, Tasha e Reade tiveram que depor. — Ele concluiu antes de colocar no ouvido o telefone.

Foram segundos de silêncio constrangedor. Não pela ligação a Allie, mas porque o semblante de Kurt parecia preocupado. Será que algo aconteceu ela? Me perguntei mentalmente torcendo para que não.

— Hey, Allie… — Ele disse quando alguém finalmente atendeu do outro lado da linha.

— Desculpa, com quem eu falo? — Ele perguntou dessa vez olhando mais preocupado. — Sim, sou eu. Tenho apenas o contato de uma tia dela, mas ela havia se mudado para o Canadá, hoje não sei. Estarei aí o mais breve possível. — E assim Kurt desligou o telefone com uma cara de aflito.

— O que ta acontecendo? — Perguntei antes que ele falasse qualquer coisa.

— Era do hospital. Allie passou mal a noite inteira e precisam de alguém da família dela, mas como a família dela não está aqui, acabaram de me chamar. Ela está na emergência, mas a enfermeira não quis dar quaisquer detalhes. — Ele finalizou passando a mão no pescoço.

— Você deve ir, ok? — Eu disse enquanto nos levantávamos e eu o abracei. Ele me apertou forte. Parecia realmente preocupado. — Vou pedir algo para você comer enquanto vai.

Ele acenou com a cabeça e me beijou enquanto esperávamos dois Yakisobas. Voltamos rapidamente e ele saiu no carro. Liguei para a Tasha para explicar a ausência de Kurt no escritório.

Passei o resto da tarde toda preocupada com o que estava acontecendo. Por mais que Allie tivesse sentimentos por Kurt, eu queria o bem dela. Eu não a via como uma rival, ou qualquer coisa do tipo. E saber que ela não tinha ninguém para estar com ela além do Kurt nesse momento me apertou o coração, porque várias vezes isso já aconteceu comigo.

Já era noite quando todo o time chegou. Eu expliquei que Kurt tinha passado rápido somente deixando-me algo para comer porque estava indo ver Allie no hospital e todo o team parecia tenso. Minha preocupação aumentou até que Kurt chegou.

— Como ela está? — Tasha logo se aproximou preocupada. Em época do FBI, ela me disse que as duas tinham feito treinamento juntas, então era justificável.

— Bem, na medida do possível. — Ele disse dando uma longa pausa para respirar e colocou seu olhar sob mim. — Mas ela terá que ficar em minha casa. Há um enfermeiro com ela agora. Eu vim apenas para certificar a vocês que ela ficará bem e levar Jane.

— O que ela tem? — Reade perguntou se virando para Kurt.

— Ela… — Ele respondeu um pouco temeroso. — Está grávida. De uns dois meses, mas a gravidez é de risco e ela precisa de cuidados.

Aquilo me atingiu como uma tsunami. A sensação de emoções era inenarrável, mas era semelhante a quando as ondas batem em você e a água te leva bolando até a beira da praia. Ensurdecedor é o som das águas batendo em seu corpo e os movimentos são incontroláveis. O seu corpo se mexe de um lado para o outro sendo levado pela agressividade da água e não há nada que você possa fazer. Não havia nada que eu pudesse fazer.

Todos parabenizaram o Kurt, mas ele agradeceu brevemente e pediu que todos a ajudassem. Ele chegou perto de mim e parecia cabisbaixo. Não pude não abraçá-lo.

— Parabéns pelo filho! — Eu disse sussurrando e ele cavou sua cabeça em meu pescoço. — E ela vai ficar bem.

— Obrigada. — Ele respondeu quase num sussurro. — Precisamos conversar sobre isso. — Ele disse brevemente.

Estávamos saindo do escritório da Patterson em direção ao carro dele e o silêncio tomava nosso ambiente. Era como se do nada um abismo tivesse sido criado entre nós. Entramos dentro do carro e ele parecia muito fora de si. Eu o abracei e ele me beijou. Senti falta dos seus lábios nos meus, mas estava tudo tão confuso para mim.

— É uma boa hora para conversar sobre isso aqui? — Perguntei antes dele ligar o carro. Ele assentiu com a cabeça.

Eu respirei fundo. Não sabia ainda como estava lidando com essa informação. As águas ainda me agrediam.

— Você acha que eu devo ir pra sua casa?— Perguntei relaxando meu corpo no banco do carro e fechando meus olhos. Era difícil até suspirar naquele momento.

Kurt baixou seus olhos em mim.

— Claro que sim, Jane. — Ele respondeu colocando as mãos nas minhas e novamente me beijou, colando depois sua cabeça apoiada em meu pescoço. — Estou precisando de você.

Eu acariciei sua cabeça, e engoli toda minha vontade de chorar. Eu odiava vê-lo assim.

— Tudo vai ficar bem. — Eu respondi depois de um longo tempo. Ele apertou seus braços ainda mais forte sob mim. — Com ela e com o bebê.

Eu continuei a acariciá-lo, até que vi lágrimas nascer em seus olhos. Levantei minha cabeça para que elas não saíssem também em meus olhos.

— Obrigada por estar aqui comigo, Jane. — Ele disse entrelaçando nossos dedos. — Antes do FBI, tudo que eu queria era ter um filho. — Ele continuou engolindo em seco. — Mas tudo parece ser bem mais difícil quando se trata de mim. O bebê e Allie estão em risco.

Eu o beijei e senti o sabor das suas lágrimas em meus lábios. Aquilo me machucava.

— Não pense assim. — Eu disse limpando seu rosto e olhando em seus olhos. — Não é culpa sua. Você será um bom pai. Allie e o bebê vão ficar bem.

Ele deu um meio sorriso para mim.

— Como tem certeza disso? — Ele perguntou me olhando profundamente. — Eu mal sei cuidar de mim mesmo.

— Por que você cuidou de mim, quando eu mais precisei e quando eu menos mereci. — Eu respondi dando meio sorriso para ele.

Nos beijamos mais uma vez e fomos pra casa, e quando as ondas dentro de mim se acalmaram, eu tive a certeza que nada entre mim e o Kurt seria como era antes, mas que eu precisava ser calmaria pra ele enquanto as ondas ainda o engoliam.

Notas finais
O que Jane fará agora que, depois de se resolver com Kurt, Allie apareceu grávida? O que vocês fariam no lugar dela?