Em seu segundo dia no Helene D'Arcy, Anne estava em dúvida entre sair para conhecer seus colegas ou simplesmente ficar trancada em seu quarto.

Era uma bela manhã de domingo. Pela janela de seu quarto, podia-se avistar o jardim que havia no colégio. As vezes, olhando pela janela, parecia estar em um sonho.

Tentava-se decidir se neste colégio seria uma pessoa "do mal" igual no Groupius ou se seria alguém mais sociável. Mas então percebeu que nenhuma das opções funcionaria — no Groupius ela só assustava todos pois eles acreditavam na tal história que eles mesmos inventaram sobre o "pacto com demônios". E a segunda opção também não funcionaria porque ela nem mesmo sabia como lidar como pessoas normalmente. "Acho que tudo será como no Nancy's House, então", pensou.

Após o almoço, o dia pareceu levar séculos para passar. Havia uma biblioteca no colégio, mas ficava fechada aos domingos.

Em seu quarto, tentava imaginar como seriam as aulas esse ano. Também imaginava se, dessa vez, teria uma colega de quarto. Para ser sincera, ela até preferia que não tivesse, pois sempre odiou a ideia de ter que dividir seu quarto.

Sem nada para fazer, só restava ficar olhando pela janela. Viu que havia alguém sozinho no jardim. Um garoto de cabelos pretos. Ele estava encostado em uma árvore, parecendo tão entediado quanto Anne. Não sabe por quantos minutos ficou o observando até que ele olhou diretamente para Anne. Meio constrangida, desviou o olhar. Pegou um livro para tentar se distrair. Um livro didático, mesmo. Alguém já havia lhe dado os livros que precisaria para esse ano.

Leu distraidamente alguns trechos dos livros de história e química. Tudo parecia fácil de mais, então pegou o livro de matemática e começou a resolver algumas contas para passar o tempo.

Segunda-feira de manhã, Anne acordou com muita preguiça de ir à aula. Se já estava assim agora, imagina só no final do ano!

Quando chegou na sala (de óculos escuros), foi logo cumprimentada pela líder da turma, que era a garota que tinha conhecido no sábado. Alguns outros alunos também a cumprimentaram, apesar da maioria achar seu estilo meio sombrio.

Na primeira aula ela ficou fazendo o mesmo de sempre — ou seja, nada. Até que de repente ela ouviu o professor iniciando um tópico: "O que é a felicidade?". Começou a chamar alguns alunos para responder.

– Srta. Nevermore? — ele disse.

– Sim? — Anne respondeu um pouco confusa, pois estava totalmente distraida.

– O que é a felicidade? — respondeu meio aborrecido por Anne não estar prestando atenção.

Ficou em silêncio por uns dois segundos apenas e começou a falar.

– A felicidade é uma lenda criada há muito tempo atrás por um ser humano que procurava algum motivo que desse sentido à vida. Desde então quase todos continuam sobrevivendo para tentar alcançar esse inalcançável objetivo de vida. Apenas algo para evitar que os humanos virem pura insanidade. A felicidade que todos procuram não existe realmente.

– Hm... Não era o que eu esperava, mas foi uma boa resposta, parabéns. E tire seus óculos escuros, por favor.

Tirou os óculos sem problema algum. "Ah, e daí que todos vejam meus olhos agora? Não vou usar esses óculos para o resto da vida, de qualquer jeito." Ela não se importava, certo?

Uma garota ruiva que sentava-se em sua frente olhou para Anne.

– Gostei da sua resposta... — ela disse e sorriu.

– Obrigada — Anne respondeu.

A ruiva encarou-a por alguns instantes.

– Ei, você usa lentes? — por fim, perguntou.

– Não...

– Seus olhos eram vermelhos como sangue... Isso dá até um poema — disse, sorriu novamente e voltou a prestar atenção na aula.

Anne teve a impressão que ouviria essa mesma pergunta mais vezes. E ela estava certa.

No intervalo, Anne estava sentada em um banco no pátio fazendo a mesma coisa que fez na aula: nada. Até que duas garotas apareceram. Ambas usavam tanta maquiagem e roupas tão curtas que seriam facilmente confundidas com prostitutas caso aparecessem fora do colégio.

– Qual é o seu problema para usar essas lentes vermelhas? — uma delas disse, tentando irritá-la.

– Não são lentes — Anne respondeu de modo despreocupado e desinteressado.

– Então você deve ser um demônio, né querida? — a outra falou.

– Com certeza — disse com um sorriso irônico. As garotas foram embora sem dizer nada.

Após poucos minutos, Anne resolveu ir ao jardim. Aquele que ela sempre via através da janela de seu quarto. Não teve problemas para encontrá-lo.

Viu que o mesmo garoto de ontem estava encostado na mesma árvore. Haviam uns caras importunando-o e ele parecia nem se importar.

Anne entrou no jardim despercebida e silenciosamente. Sentou-se na grama. De repente ficou em dúvida se havia trancado a porta de seu quarto, e isso a estava deixando preocupadíssima. Ficou tão perdida em seus pensamentos que até se assustou quando alguém sentou-se ao seu lado e disse:

– Que olhos lindos — alguém disse de modo quase sarcástico.

– Obrigada — respondeu de maneira formal ao mesmo tempo que via quem era pessoa.

Era o garoto de cabelo preto. O mesmo.

– Os seus... também — Anne disse e tentou rir, mas o máximo que conseguiu foi sorrir. Isso era para ter sido quase um tipo de piada, ou não. De qualquer forma, não deu muito certo, pois ela não sabia como reagir. Porque os olhos dele eram como os dela. Vermelho sangue. Exatamente iguais.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.