Mais uma violência

1 Mas uma violência


Notas iniciais
Texto escrito em 2016.

Sempre me disseram que no momento de nossa morte vemos nossa vida passar diante dos olhos como a um filme. Não é assim. Em plena agonia, meu último desejo é que o belo céu estrelado que me conforta, proteja minha família, que permita que aqueles sonhos confidenciados durante o jantar sejam concretizados. Tão rápido quanto ouço os sons das sirenes eu deixo de respirar.

Meus pais sempre foram humildes; quando vivo, meu pai brincava: “Para nós, pobre é elogio”. Todos nós ríamos, afinal, o que faltava de dinheiro sobrava em amor. E amor foi o que nos salvou da insanidade quando as risadas cessaram; um acidente na montadora em que meu pai trabalhava o roubou de nós.

Eu era uma garota de onze anos que, entre o pânico, se tornou o pilar de força da casa. Minha mãe começou a fazer serviços domésticos em diversas casas, muito mais do que alguém conseguiria agüentar, mas era necessário, enquanto isso, eu cuidava dos meus irmãos, um garoto arteiro de cinco anos e uma bonequinha de um ano.

“Amem os livros, nunca o suor” esse é o jeito de mamãe dizer que devemos estudar antes de nos preocuparmos em trabalhar para ajudar na renda da casa.

Uma semana depois do meu aniversário de dezesseis anos, minha mãe passou muito mal. Horas e horas na fila de um hospital público qualquer, litros de lágrimas silenciosas. É assim a vida na periferia.

A vida é uma guerra, cada dia uma batalha, às vezes, abençoada com suspiros de glória, suspiros que não vieram dessa vez, a guerra mais difícil deu-se início: diagnóstico de câncer de mama, estágio avançado, remoção não viável, a quimioterapia através da rede pública de saúde é a mais cruel das piadas.

“Quando crescer vou me tornar médico para cuidar da mamãe. Forte como ela é sei que pode me esperar”, eis o plano de meu irmão; e então percebi que era minha a obrigação de abrir caminho para ele, tornar seus objetivos possíveis, nem mesmo a pior das escolas me impediu de entrar em uma boa universidade como bolsista, além dos estudos eu ainda cuidava de meus irmãos e de minha mãe, que mesmo com dor, lutava para por o pão em nossa mesa.

Ao fim do primeiro semestre consegui estágio na área; o orgulho de toda a família. A primeira a ir para a faculdade, a chegar tão longe; mas minha alegria não era ver o orgulho de minha mãe, mas os radiantes sorrisos que estampavam aquele rosto tão sofrido.

A situação financeira não melhorou o suficiente para o tratamento, mas bastou para que a matriarca pudesse enfim reduzir as faxinas, permitindo mais momentos de descanso com a família, momentos interrompidos apenas às onze horas e quarenta minutos da noite, quando saía em direção ao ponto de ônibus localizado na esquina para me buscar de tal forma que eu não andasse esses poucos metros sozinha.

“Com essa onda de violência é um perigo desnecessário você andar sozinha por aí, posso ir te buscar perfeitamente”, alegava minha mãe no trajeto de volta. A cada dia, minha família se amava ainda mais. Pena que não mais sentirei o calor de nossos abraços na hora de ir dormir, nem a adrenalina dos contos de fadas vividos no castelo de lençol e cadeiras no meio da sala.

Sexta-feira, vinte e três horas e trinta e seis minutos, a matriarca fechava o portão da minúscula casa, eu descia do ônibus na esquina, bastava virar o quarteirão para ver aquele doce sorriso direcionado apenas a mim e meus irmãos. Minha família. Meus amores.

Sons de tiros distantes cuja origem nunca será investigada. Ninguém se importa com a periferia mesmo. Uma bala perdida. Uma. Apenas mais uma entre um mar de tantas outras.

A dor aguda em meu tórax.

Acho que ouvi o grito de minha mãe ou o choro de meu irmão, não faz diferença. As sirenes foram mais altas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!