Notas iniciais
Por favor, entre nessa história com a mente aberta. Boa sorte.

Eu sempre fui um pouco difícil com pessoas. Acredito nisso como uma consequência de trabalhar tanto.

Sabe, um daqueles engenheiros que pula de cidade em cidade, afiliados a uma empresa. Mesmo para alguém com uma completa dependência de trabalhar, a rotina é complicada. Talvez pela inexistência dela. Não é possível fazer planos a curto prazo, sem contar o meu quase completo desprendimento da minha família aqui no Oregon. Um lado para o outro, sem lugar para chamar de meu, sem uma casa para chamar de lar. Bem, eu tinha um apartamento em Nova Iorque, mas não passava tempo o suficiente lá para chamar de casa, nem nenhum ser humano é ousado o suficiente para chamar Nova Iorque de sua.

Bem, era isso. Minha vida podia ser resumida a trabalho. Não tinha tantos amigos próximos, devido a esse complexo quebra cabeça de minha vida. Meu nome é Christine Pierce, uma engenheira vinda do Oregon, com seu cantinho em Nova Iorque e só. Sério, acredito que nada na minha vida fosse o que qualquer um chamaria de emocionante. Na verdade, no meu auge dos 26 anos, uma carreira completa, mas restritiva, eu era o estereótipo que todos os adolescentes temem se tornar. O adulto chato, com trabalho das 8 às 5.

Eu não me incomodava com tudo isso numa base diária, mas era em momentos como aqueles, embarcando num avião para minhas primeiras férias em 2 anos, voltando para Nova Iorque, que era que me perguntava se eu poderia ter feito melhor. Se daqui a três anos, quando eu tiver nos trinta e talvez passe por a tão falada crise, eu não me arrependeria dessa vida restrita.

Eu normalmente simplesmente deixaria esses pensamentos de lado, jogando-os fora para dar prioridade aos meus projetos de trabalho ou as minhas raras e preciosas horas de sono. Mas agora, com 2 meses remunerados completos para mim, sem mais ninguém naquele pássaro metálico para me tirar daquele abismo escuro de pensamentos deprimentes, eles pareciam finalmente estar me alcançando.

Deixei tudo aquilo de lado para pegar logo meu lugar. Ah, ótimo, janela. Bem, pelo menos uma pequena coisa agradável naquela longa viagem de Portland até Nova Iorque. Já havia tido minha costumeira visita aos meus parentes e não fazia ideia quando ia encontra-los de novo. Sentar na confortável cadeira com esse pensamento amargo fez parecer tudo um pouco pior.

Só esperava que nenhum desgraçado com bebês decidisse sentar no meu lado para estragar definitivamente as próximas 5 horas. Ajeito-me na cadeira, pondo o telefone no modo avião e limpando os óculos como costume. Enquanto tiro as manchinhas que insistiam em macular minha visão, ouço uma voz baixa e tímida, com um acento que eu não conseguia identificar de onde:

— Ah, olá. Suponho que passaremos essa viagem juntos.

Levanto o olhar instintivamente para tentar focar naquele novo estímulo. O que, na verdade, foi uma péssima ideia, já que tudo que eu conseguia era um borrão quase indistinguível. Enquanto eu colocava os óculos de volta, pude ver que valeu a pena a visão. Era um rapaz, talvez um pouco mais jovem do que eu e bem bonito também. Céus, ele não vai sobreviver dois segundos em Nova Iorque.

— Sim, claro, boa viagem para nós, eu suponho.

Com isso, ajeito meu próprio cinto. Consegui fitar com o canto do olho ele colocando sua bolsa no compartimento de cima e fazendo o mesmo. Bem, de qualquer forma, essa pequena interação era provavelmente tudo que teríamos durante aquele longo tempo de cinco horas. Enquanto ele se prepara nos últimos detalhes, posso ouvir a voz maçante do piloto nos comandando com suas regras de segurança e cintos.

O meu companheiro de viagem ouvia tudo atentamente. Devia ser um novato ou alguma coisa. Já havia ouvido tantas vezes aquele mesmo discurso. Algumas vezes, com comandantes mais animados, eu me dava ao trabalho de ouvir. No entanto, aquele daquele voo parecia ter saído de um resfriado, a voz enfadonha e entediante.

Naquele momento, decidi logo mirar a janela, mesmo já tendo visto tantos aeroportos, Portland ainda tinha uma certa nostalgia associada para mim. Consigo mais uma vez vislumbrar o rapaz lutando contra o cinto. Ah, ele fez tudo errado.

Fingi não notar os esforços dele. Ele era bonito, mas apenas devo dizer que não estava com humor para ajudar aquele provável turista em sua primeira viagem. Era claro que ele era um desajeitado e meus instintos de engenheira haviam me feito odiar pessoas incompetentes. É quase impossível entender a falta de bom senso humano até que você mande um monte deles fazer coisas e tudo caia a seus pés.

Aquele jovem já estava me parecendo bem menos interessante do que era no começo, enquanto eu lembrava com amargura os pensamentos de momentos antes. Trinquei os dentes enquanto observei do canto do olho a aeromoça ajeitando-lhe o cinto, enquanto ele sorria bobamente, claramente envergonhado de sua clara falta de destreza. Consegui sentir a irritação me subindo a cabeça.

Ao perceber aquilo, respirei fundo. Não havia motivo para descontar naquele estranho minhas frustações. Enquanto eu via o avião decolar, aquele pássaro de metal levantando como uma pena nos céus. O arvoredo que se formava Portland e todo o Oregon se distanciava, iluminado pela luz alaranjada do pôr do sol. Deveria chegar lá por volta de meia noite, pensei, como se já não bastasse o cansaço do dia inteiro.

Nessa subida, se formou um silêncio desconfortável entre eu e meu companheiro de viagem. Bem, eu mesma já havia passado por aquilo várias vezes, mas claramente o outro não, o que me trouxe uma certa pena dele. Contudo, minhas capacidades sociais estavam tão enferrujadas ao ponto de eu nem mesmo saber sobre o que conversar.

Mais um amargor me assaltou como um peso em minhas costas. Eu não conseguia nem mesmo ter uma conversa humana direito. É possível entender algo assim? Enquanto tudo se distanciava e o avião se estabilizava nos ares, senti meus ombros murcharem na minha própria fraqueza.

Quando foi mostrado pelas pequenas telinhas do avião que já podia se tirar os cintos, meu estranho parceiro foi rápido em retirá-los e estender seus braços para o compartimento das bolsas. Tirei minha visão do céu que já se tornava púrpura para mirá-lo. Oh, a blusa levantou um pouco, visão legal. Ah, já voltou, pena. De qualquer forma, ele pegou a bolsa dele, procurando algo, até que eu, com alguma dificuldade, o ouvi murmurar entre os dentes:

— Ah, droga, eu esqueci de um livro... Isso vai demorar.

Uma onda de pena me veio. Talvez tenha sido a onda de tristeza que tinha me vindo, talvez a minha falsa, arrogante ignorância que me levou para aquela próxima ação.

— Eu tenho um livro na minha bolsa, se gostar de mistérios.

Ele levantou os olhos da bolsa, olhos castanhos, brilhando com a força da vida. Tão cheios de vida. Céus, Nova Iorque ia destruir aquele rapaz. Me dei permissão para encará-lo um pouco mais. Olhinhos marrons, tons diferentes, pontinhos cor-de-mel dentro daqueles pequenos orbes que refletiam a luz púrpura daquela janela aberta e a energia que corria em suas veias.

No momento em que comecei a desatar o cinto para pegar a bolsa, me questionei sobre quando havia perdido aquele brilho.

Me levantei, vi o rapaz pôr a bolsa de volta no canto, peguei minha própria. No canto da bolsa, tinha dois livros. Dois de Sherlock Holmes. Poser? Gosto de chamar de clássicos. Um deles já havia sido lido durante a infindável espera para entrar no avião, O Cão dos Baskervilles. O outro, Um estudo em vermelho, ainda me esperava, cheirando a novo.

Passei para ele o livro já lido e me voltei para meu próprio assento, enquanto minha mente gritava em nervosismo. Aquela era a oportunidade, não era? Eu já tinha feito tantas coisas maiores do que aquilo tão mais relaxada. Então porque eu não conseguia iniciar aquela droga de conversa simples? Uma parte mais profunda e obscura de mim dizia que era porque eu era uma viciada em trabalho desgraçada que não sabia fazer nada além daquilo.

Enquanto esse pensamento sombrio me vinha como uma sombra, pude olhar para o lado e ver que ele ainda estava lutando contra o cinto. Os dedos desajeitados não sabiam o que fazer com aquela pequena coisinha complicada. Suspirei, deixando meus demônios de lado para ajudá-lo.

— Assim.

Naquela palavra mais cheia de açúcar que eu falei em muito tempo, eu coloquei o cinto na posição correta. Ele me olhou, genuinamente agradecido, ainda que eu pudesse ver uma pitada de vergonha diante da segunda vez que ele não sabia mexer naquilo.

— Obrigado. E você seria?

O sentimento de franqueza que vinha dele me assaltou. E porque eu nem mesmo hesitei em dizer as próximas palavras é um mistério que ainda me assombra. Naquele segundo, pareceu ser uma boa ideia aquela teatro.

— Sheryl Crow, prazer. O que faz em Nova Iorque, meu caro parceiro de mistérios?

Porque diabos eu menti? Meu nome não era esse, nunca foi. Mas ainda assim, naqueles potinhos cor de mel, ele genuinamente acreditou.

— Eu acabei de me formar em medicina. Vou trabalhar por lá.

Porque diabos eu menti para essa criatura tão ingênua e que estava salvando vidas? Um nó na minha garganta se formou mais rápido do que eu imaginei. Botei minha imaginação para trabalhar, e as palavras ser formaram como um murmúrio baixo, tímido.

— Eu vou para lá para me tornar uma atriz.

Eu, quando criança, tinha sonhado com aquela vida de glamour de teatros e filmes. Lembro-me de insistir para minha mãe sobre esse pequeno sonho, para ela me deixar ir para a peça da escola. Também me lembro de ter ficado paralisada no palco, incapaz de dizer uma palavra. Talvez fosse uma reminiscência dessa minha péssima atuação que me fizesse estar mentindo tão mal. Naquela época, os números e a ciência me acolheram e foram eles que me fizeram escolher essa profissão.

— Nossa, bem isso é muito mais incrível do que passar meus dias trancado num consultório.

Céus, agora ele estava sendo genuinamente gentil comigo. O amargo da minha boca parecia me invadir por inteiro agora.

— É, é meu sonho desde criança.

Se o fato de que não era uma inteira mentira deveria me confortar, falhou miseravelmente. Ele sorriu para mim, as mãos segurando o livro que lhe dei com uma força vinda da animação instantânea.

— Bem, você ao menos está seguindo seu sonho. E então, tem alguém que vá lhe ver quando chegar lá?

E tudo só caia naquela espiral de mentiras, enquanto eu agarrava nervosamente meu próprio livro não lido.

— Claro, meu marido. Ele veio para Nova Iorque algumas semanas atrás, já que faltava o dinheiro para irmos nós dois juntos.

A imagem de meu ex me pairou pela cabeça. Alec. Eu jurei ver o olhar do meu companheiro de viagem se surpreender por um breve momento. Porque tudo aquilo estava acontecendo? Por sua causa, idiota, dizia uma voz na minha cabeça. Engoli em seco, o nó na minha garganta dificultando a ação enquanto me determinava a terminar logo aquela conversa.

— Ah, sim, entendo. Bem, de qualquer forma, suponho que eu tenho que terminar esse livro antes da viagem acabar.

Ele se voltou para o livro, meio envergonhado, meio desanimado, ao mesmo tempo em que eu me voltava para o meu, desmoralizada de minha própria maneira e mais uma vez derrotada pela minha própria mente. Tentava ler as primeiras palavras, mas tudo que me vinha a mente era sobre o quão idiota eu era. Eu menti para aquele jovem, que tão gentilmente me contara sobre a própria vida. Engolindo em seco, eu percebia que Sheryl Crow, a aspirante a atriz casada era uma boa parte do que eu queria ser.

Meu pequeno sonho, meu castelo de memórias construídas me afastou daquele doce médico. Ele era legal, eu queria ter falado mais. Mas não podia, não depois daquela mentira infundada. Olhei para a janela ainda aberta, as estrelas brilhando em meio à lua em forma de sorriso, me ironizando naquela situação deprimente, o céu violeta sendo iluminado pelas luzes das asas do avião.

Liguei a luzinha do meu assento, aproveitando minha leitura o quanto era possível. Perto de nada, devo ressaltar.

Naquele momento, percebi o quão tarde era pela falta de outras luzes acesas, apensa uma ou outra em meio àquela imensidão. Uma criança assistia um filme sangrento fora da visão de seus pais adormecidos. Um homem de meia-idade explodia seus tímpanos com heavy metal, ao ponto de que dava para ouvir uma parte dos zumbidos. Além deles, apenas eu e o meu parceiro de voo.

Levantei meu olhar do livro para tentar roubar uma curta visão dele. Ele estava compenetrado no livro, cabelos caindo no rosto enquanto ele falhava em coloca-los para trás. A única coisa a nos separar era o apoio de braço que eu havia monopolizado. Ainda assim, havia um abismo entre eu e ele após o turbilhão de mentiras. Ele sentia isso também? Ou ele apenas achava-me uma pessoa excêntrica. No final, aquela mentira não era apenas por ela mesma, era por muitas coisas.

E assim passou-se horas, nenhuma mais interação. Até o momento de pousar.

Pouco antes de terminarmos nossa decida, ele se virou para mim, me parecendo um pouco mais cansado, mais tristonho do que quando começamos.

— Obrigada pela leitura, foi realmente ótimo de ler.

Peguei-lhe o livro das mãos, aceitando-o com um aceno de cabeça. Eu o encarava nos olhos, aqueles pontinhos cor de mel me acusando. Mas apenas eles, apenas minha imaginação, pois ele parecia confiar tanto em mim.

O avião finalmente desceu dos céus, terminando seu voo com toda a graça. Finalmente nos foi permitido tirar os cintos. Dessa vez, toda a inabilidade que ele tinha antes parecia ter desaparecido, enquanto ele tirava o cinto com uma graça quase orgulhosa. Ele aprendera. Me sentia até um pouco envergonhada de tê-lo comparado a trabalhadores incompetentes no início desta mesma viagem.

Como uma tonelada de tijolos, me veio o pensamento de que havia muitas outras palavras e pensamentos que me eram bem mais vergonhosos, naquela mesma viagem.

Ele se levantou e o vi, paralisada e temerosa, seguir a fila, dizendo um adeus, um foi bom te conhecer.

As seguintes palavras escaparam de minha boca:

— Ei, você não me disse seu nome.

Mas elas não o mais alcançavam, em meio àquela confusão que eu havia tanto me habituado com tanto tempo de voo em minha mente. Lanço um olhar meio desesperado para o lado de fora. Uma visão por trás daquela janela de avião que eu havia tanto me habituado, mas que hoje parecia tão mais triste, mais solitária.

Por um tempo, tentei procurar por aquele mesmo rapaz. Nas malas, nas lojas. Apenas pelo andar naqueles corredores cheios de novas pessoas, procurando as suas bagagens ou apenas um brinde de última hora para um familiar.

Já sem mais esperança, vou para o portão principal. Deverá ter algum taxi por lá, não?

E, ah, acho que nada nesse mundo me prepararia o que eu veria a seguir.

O mesmo rapaz, abraçado com o que me parecia ser seus pais. Feliz.

Aquela mentira nada fora para ele. Ele nem ao menos notara. O nó na garganta voltara. Minhas pernas amoleceram, aquela mentira me envolvendo. Do que importara?

Nada, aquela pessoa era apenas um companheiro de viagem que aconteceu de sentar ao meu lado.

Eu queria ter falado com ele. Naquele momento, dizer como eu não era casada, dizer que eu tinha me separado de meu namorado, que eu não ia ser atriz e apenas uma engenheira.

Céus, a frustação que eu achava que só ia chegar nos trinta estava vindo agora. Solitária, naquela cidade imensa. Ri para mim mesma, uma risada seca. Droga, parecia que eu tinha me engasgado. As lágrimas começavam a se formam nos cantos de meus olhos e tive que tirar meus óculos para limpá-las.

Não falei com ele, meus demônios me devorando de dentro.

O que importava, todo aquele trabalho, se eu tinha que mentir para alguém sobre uma fantasia?

Sheryl Crow, quem eu queria ser e Christine Pierce, quem eu era já não significavam nada.

Era toda essa onda desgraçada de energia negativa apenas o despencar de anos de estresse sem tratamento?

Talvez, mas fale isso para meu eu que já estava desabando no chão daquele táxi, indo para aquele meu próprio apartamento, que eu mal chamava de meu, naquela imensa cidade que eu definitivamente não tinha, quebrada pelas minhas próprias mentiras. Sozinha, de novo.

Notas finais
Se você se pergunta o porquê de tudo isso, devo pôr a culpa no prompt que escolhi. Aqui está o link, para referências: http://www.writersdigest.com/prompts/telling-your-life-story
Se você acabou por gostar dessa história, deixe sua opinião nos comentários. Não leva tanto tempo e pode vir a alegrar meu dia. Se achou um erro, me avise, gentilmente e eu ouvirei. Obrigada por ler até o final, de qualquer forma.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!